Restrições crescentes

por Luis Borges 3 de agosto de 2016   Pensata

Fiz um balanço com as pessoas que fazem parte de minha rede, em diferentes níveis de relacionamento, e que cumprimentei pelo aniversário do início do inverno (em 22 de junho) para cá. Para esse levantamento, usei como critério a necessidade de se ter a idade cronológica igual ou superior a 60 anos e, portanto cumprindo a condição de idoso segundo a lei em vigor no país.

Nesses 45 dias, foram 12 as pessoas cumprimentadas, das quais 9 por telefone e 3 presencialmente. O calor do afeto inicial logo foi se irradiando a partir de minha fala enunciando o motivo de meu contato. Em seguida, invariavelmente, fui perguntado sobre como está minha vida. É bom lembrar que também me enquadro na referida faixa etária. Também invariavelmente, respondi a todos com a tranquilidade de um jogador de futebol batendo um pênalti que prossigo no curso da vida encarando com altivez os desafios trazidos pelo ciclo idoso rumo à trajetória final.

Complementei a resposta afirmando que não considero esta a melhor idade e que, como em ciclos anteriores, essa etapa também tem suas alegrias e dores inerentes. Terminei esse início de conversa lembrando da importância de se ter independência e autonomia, ainda que o tempo nos imponha restrições crescentes que podem limitá-las ou reduzi-las.

As conversas prosseguiram em função do tempo disponível, mas dois tópicos fizeram parte das falas de todos os aniversariantes. Grupo que, é bom lembrar, em sua maioria está na faixa de 60 a 65 anos, mas que tem gente acabando de completar 80 anos.

O primeiro tópico foi a manifestação de um agradecimento e satisfação pelo conjunto da obra que está em permanente construção, agora mais cadenciada, em função de tudo que vem sendo aprendido.

O segundo tópico está ligado à gestão da saúde para se buscar uma continuidade da vida com níveis adequados de qualidade. Todos citaram algumas restrições que já enfrentam e o grau de medicalização para enfrentar certas doenças.

Ainda que cada caso seja um caso, em suas especificidades, o medicamento mais usado e citado por 75% dos aniversariantes é aquele para manter níveis adequados de pressão arterial. Já 50% queixaram-se da necessidade de usar medicamentos para reduzir os níveis do colesterol e 25% estão com problemas ligados à coluna vertebral, ao sistema respiratório e à glicose. Com apenas uma citação apareceram os casos de cirurgias para a colocação de pontes de safena no coração, ácido úrico elevado, dificuldade para locomoção devido a fratura de uma perna, implante dentário e pólipos intestinais.

Ainda bem que esses assuntos logo foram substituídos por outros. E, no caso das conversas presenciais, um gostoso lanche também se fez presente.

Mas nada me tira a certeza e a sensação de que esta não é a melhor idade, e que devemos ter uma grande capacidade para gerenciar as restrições crescentes.

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O primeiro ano na aposentadoria

por Luis Borges 27 de julho de 2016   Pensata

A aposentadoria é um sonho cercado de expectativas, ainda mais na atual conjuntura brasileira em que o assunto “reforma da previdência” para os trabalhadores do setor privado aparece dia sim, dia não nos jornais. De alguma maneira pode até sobrar para os trabalhadores do serviço público…

Mas qual é a percepção que as pessoas têm após se concretizar a tão sonhada aposentadoria, seja ela no mundo público ou privado? Vou contar aqui o caso de um amigo com o qual conversei no último fim de semana. Ele completava exatamente um ano na condição de trabalhador aposentado. Engenheiro metalurgista, hoje com 61 anos de idade, ele deu o seu melhor para a indústria desde a tenra idade de recém-formado.

Ao relembrar seu processo, o amigo enfatizou que tudo foi planejado, inclusive a previdência complementar. O desejo era iniciar o ciclo idoso da vida na condição de aposentado, cumprindo a idade mínima prevista em lei para alguém ser considerado idoso. Segundo ele os 3 primeiros meses se passaram como se fosse um período de férias, algo como “férias prêmio”.

aposentadoria cadeiras pessoas lendo jardim

A aposentadoria pode ser o momento de fazer aquela viagem tão sonhada, aproveitando o tempo livre para simplesmente não fazer nada. Foto: Jardin des Tuileries, Paris. / Marina Borges

Foi grande o sentimento de liberdade. Nada dos horários rígidos da indústria. Adeus à logística desgastante de deslocamentos entre os extremos da cidade. Logo ele percebeu que os outros membros da família – sua esposa, professora municipal aposentada, um filho canguru (não quer sair de casa) e uma filha descasada que voltou para casa lhe trazendo um neto – também tinham suas agendas específicas. A partir dessa percepção, meu amigo começou a planejar minimamente os dias úteis, tendo como referência os horários de café da manhã, almoço e jantar.

E assim os nove meses seguintes se passaram, embalados pela vontade férrea de não fazer nenhum trabalho profissionalmente e com muita flexibilidade para definir o que fazer relaxadamente. O nível de leitura aumentou, bem como o tempo dedicado à música e à soneca após o almoço. Não foi muito difícil ficar um pouco gordinho, o que acabou reforçando a necessidade de reservar uma hora pela manhã para fazer caminhadas. Mais recentemente surgiu espaço para duas sessões de pilates por semana, no final da tarde. Sobrou também mais tempo para algumas idas a médicos especialistas, ao dentista e até ao salão do barbeiro.

No plano familiar aumentou bastante o convívio com os entes queridos, em função do maior tempo de permanência em casa. Isso gerou também um índice maior de conflitos devido à sua eterna desorganização e a alguns hábitos arraigados como os de acompanhar tudo sobre futebol masculino, Fórmula 1 e política partidária.

O amigo encerrou a breve conversa falando de suas preocupações com a perda do poder aquisitivo em função da inflação, inclusive a específica que atinge os idosos, e a não correção plena do valor da aposentadoria. Ele ficou de contar numa próxima conversa algumas de suas percepções sobre o lado oculto da aposentadoria, que envolve perda de sono no meio da madrugada, preocupações com o futuro do neto, o uso de alguns medicamentos e o temor de um dia ter de morar numa instituição de longa permanência para idosos.

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A saúde é um dos itens que sempre aparece na pauta de preocupações e prioridades das pessoas. Quero chamar a atenção para o grande avanço do conhecimento técnico na área da saúde, que nem sempre está associado a avanços nas outras áreas. O ponto é simples: quando fazemos uma consulta médica é comum que sejam solicitados alguns serviços de apoio ao diagnóstico. Eles podem variar de exames laboratoriais a ressonância nuclear magnética e geram uma base de informações que ajudarão na conclusão do médico, que poderá ser até mesmo inconclusiva.

A reflexão que faço é sobre a qualidade do atendimento aos pacientes. Se adotarmos o ponto de vista das empresas de apoio ao diagnóstico médico, cada paciente que vai fazer um exame é um cliente. Sendo assim, deveria ser bem tratado, para ser fidelizado e, eventualmente, voltar. Continuando nessa linha, a empresa, conhecedora do seu cliente, entende que nem todos se sentem tranquilos ao fazer exames. E, com isso, se preocuparia em prestar um atendimento exemplar.

tecnologia no atendimento na saúde

Mas não são todas as empresas que enxergam os pacientes como clientes. Por experiência própria e de pessoas com quem conversei, em alguns casos o atendimento deixa a desejar já na porta da empresa, em função da desinformação. Falta, por exemplo, orientação sobre qual guichê procurar ou sobre onde fica a sala de realização dos exames.

Outro caso problemático é o do atendimento no horário de almoço, o clássico “12h às 14h”. Sobram clientes/pacientes esperando e faltam funcionários para fazer os serviços, pois eles se revezam para almoçar. A empresa responsável, no entanto, vende esse horário de atendimento como um diferencial.

Outra situação acontece em exames de diagnóstico por imagem, quando é necessário trocar de roupa ou usar um gel específico para o procedimento. Nesses casos, pertences do paciente devem ser deixados em uma salinha ao lado. Se algo desaparecer no meio tempo, dificilmente alguém assumirá a responsabilidade. Também chama atenção a falta de cordialidade dos funcionários. Em alguns casos o profissional que realiza o exame mal balbucia um cumprimento e já parte para a execução dos procedimentos. Não que o atendimento melhore na saída. Sei de casos em que o paciente é informado secamente no fim do exame que deve se dirigir à sala ao lado e limpar o gel do próprio corpo rapidamente para que outro paciente entre, no melhor estilo “papa fila”.

A sensação que fica nesses casos é a de muito autoritarismo presente – que às vezes beira a falta de educação – e de que os funcionários do atendimento ao público não se consideram prestadores de serviço, mas sim prestadores de favores. Por isso, talvez, não se preocupem com as longas filas de espera, que consideram que todos têm máxima disponibilidade de tempo. Perguntar alguma coisa até ofende.

Mas a tecnologia… ah, a tecnologia brilha.

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Se o melhor da festa é esperar por ela, também faz bem participar do processo que a antecede. As maneiras podem ser diversas, mas sempre buscando mais informações sobre o que provavelmente poderá rolar no dia marcado. E assim sendo, hoje faltam 79 dias para as eleições municipais de 02 de outubro, quando serão eleitos os próximos prefeitos, seus vices e os vereadores das Câmaras Municipais.

Eleições 2016 (1)

Um fato novo e relevante é a proibição do financiamento privado das campanhas eleitorais e a definição de limites espartanos de gastos com as candidaturas. Como isso será fiscalizado e como serão tratados os casos de sinais exteriores de riqueza na campanha eleitoral são perguntas que estão no ar.

As redes sociais devem aumentar bastante a sua relevância no processo. Mas, por mais digital que seja o mundo, continuará havendo espaço para o corpo a corpo com o eleitor, principalmente diante da escassez de recursos financeiros nessas eleições municipais.

A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV também será diferente, pois somente os candidatos a prefeito aparecerão nos programas de 10 minutos. Para os candidatos a vereador só haverá espaço para pequenos comerciais durante a programação. A criatividade e a inovação terão uma ótima oportunidade de fazer a diferença positiva e, tomara, de muito conteúdo, embora não estejamos isentos de atitudes pouco civilizadas, muito polarizadas ou intolerantes, ainda que prevaleçam temas locais.

Enquanto a campanha curta começa a se aquecer, é bom lembrar que teremos também as Olimpíadas, a votação do impedimento da Presidente pelo Senado e as revelações das operações da Polícia Federal, como Lava Jato, Acrônimo, Custo Brasil e tantas outras.

O que esperar dos partidos políticos e seus candidatos?

Talvez mais do mesmo. Apesar de muita descrença das pessoas com a política partidária, pode até haver uma boa renovação de nomes mas com pouca mudança de conteúdo. Provavelmente continuarão a insistir com a Democracia Representativa quando o mínimo que se espera hoje é a Democracia Participativa. Também assusta a existência de 35 partidos políticos, a maioria pequenos, com pouca definição ideológica e muita vontade de fazer composições políticas para auferir luz e ganhos em seus negócios.

Também não devemos nos assustar se a abstenção, os votos nulos e brancos chegarem a 30% dos eleitores inscritos no cartório eleitoral.

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O que é um mentor?

por Luis Borges 6 de julho de 2016   Pensata

Existem momentos e situações em que nos sentimos parados, sem ação, praticamente perdidos e sem saber para onde ir. Isso incomoda, angustia e ainda se soma a uma sensação de improdutividade, de tempo perdido durante uma determinada jornada.

Existem ainda outros momentos em que nos sentimos “fustigados” por uma série de ideias que nos turbinam para a solução de um problema ou para a criação de algo aparentemente bastante inovador. Mas os raciocínios não se ligam, as ideias não viram realidade e passam a girar como um elétron ou um míssil desorientado.

Para encerrar esse introito vou lembrar o caso de alguém que ocupa um determinado cargo na estrutura de uma organização humana, por exemplo, a presidência, uma diretoria ou uma superintendência. É muito comum que ocupantes desses cargos sintam, em determinados momentos, uma enorme solidão no poder e tenham a necessidade de conversar ou trocar ideias, mas sem ter confiança para abordar determinadas percepções ou sentimentos com as pessoas mais próximas.

Todas as situações abordadas anteriormente, e não só elas, nos remetem à necessidade de conhecer e entender o que é um Mentor, o que ele faz e como faz. Essencialmente, o mentor é alguém que possui conhecimentos, experiências, vivências e habilidades para contribuir com as pessoas que estão procurando soluções para os problemas que as angustiam e desafiam.

O mentor não substitui as pessoas e não decide por elas, mas interage, instiga, questiona, ouve, associa ideias, enfim é alguém que traz oxigênio puro para contribuir com as formulações que seu mentorado está buscando.

O mentor tem sua importância cada vez mais reconhecida nesses tempos de grandes incertezas e turbulências nos países e continentes da Terra, cujos reflexos impactam diretamente a vida pessoal e profissional das pessoas, das famílias e das comunidades.

O processo de mentoria não tem uma duração fixa no tempo, podendo suas sessões – em geral de de 60 a 90 minutos – acontecer apenas uma vez (casos muito raros e específicos), por algumas semanas, meses ou até anos. Cada caso é um caso. É importante lembrar também que as sessões informais são mais adequadas ao desenvolvimento do trabalho e que a empatia entre mentor e mentorado, em conversas francas, abertas e sinceras, pode ajudar a formar um ambiente mais favorável e a favor dos resultados esperados.

Você sente ou já sentiu a necessidade dos serviços prestados por um mentor? 

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A tornozeleira de “gominha”

por Luis Borges 22 de junho de 2016   Pensata

A tornozeleira é uma peça feita de malha para proteger o tornozelo, que é uma saliência óssea na articulação do pé com a perna. Pode ser feita também usando-se outros materiais como couro, prata, ouro e pérolas conforme o país e sua cultura. De uns tempos para cá, ela ganhou destaque no sistema prisional brasileiro ao ser usada para controlar pessoas cumprindo alguns tipos de sentenças fora das penitenciárias. A Operação Lava Jato da Polícia Federal ampliou bastante a visibilidade das tornozeleiras em função dos tornozelos famosos em que passaram a ser usadas e do potencial que tem para uso em tantos outros igualmente famosos. Do ponto de vista jurídico, segundo o Dicionário Informal tornozeleira é um “objeto com a função de ser fixado a uma parte do corpo humano a fim de que haja o monitoramento eletrônico do indivíduo que cumpre medida cautelar, determinada pela autoridade judicial, não prisional, tais como: proibição de frequentar determinados lugares, recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga, monitoração eletrônica, dentre outros”.

Agora surgiu uma nova e criativa modalidade de tornozeleira, feita com gominha de borracha, que é usada por diversos frequentadores de um bar que funciona há 20 anos no bairro Sagrada Família, em Belo Horizonte. A função básica do dispositivo é monitorar o inchaço do tornozelo dos frequentadores mais assíduos, notadamente os que aparecem uma vez por dia e os diaristas de dois turnos (manhã e noite). É claro que existem também os frequentadores do meio da semana e outros que emendam de sexta a domingo. O fato é que, enquanto o tempo passa joga-se muita conversa fora, um pouco de sinuca e  ótimas doses de cachaça que ocupam a metade de um copo de vidro do tipo “Lagoinha” ao preço de R$2 cada uma. Também não faltam a cerveja geladinha e alguns tira-gostos que facilitam no aumento do colesterol. Os fiéis frequentadores podem fazer o acerto de suas contas mensalmente e pagar com cartão de crédito ou débito, o que também não impede que, de vez em quando, alguém mais apertado dependure a conta.

Momentos de surpresa, aumento da falação e muita preocupação acontecem quando a tornozeleira de gominha de algum frequentador se arrebenta. É o sinal de que algo não vai bem e logo vem alguém lembrando que o colega abusou da quantidade de cachaça ou que vinha bebendo sem se preocupar com os efeitos colaterais. Outros até enaltecem a gominha alegando que, se não fosse ela, talvez o colega nem percebesse a silenciosa piora em seu quadro clínico sinalizada pelo inchaço do tornozelo. Alguns ainda brincam dizendo que o colega pode tentar recuperar a forma física frequentando o bar, mas tomando apenas uma cerveja sem álcool caso o seu médico autorize. A vida no bar não é fácil e o seu proprietário morre de medo de perder sua clientela, principalmente sabendo que é mais fácil manter um cliente do que arrumar um cliente novo ou recuperar um cliente perdido. Pior do que isso, só a morte, que de vez em quando tem chegado para alguns frequentadores do referido bar.

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O Galo e os livros

por Convidado 13 de junho de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Estou escrevendo algumas bobagens que pretendo transformar em um novo livro e, para não me tirar a inspiração, hoje não quero falar de problemas de governo, propinas e desonestidade. Falarei sobre algo mais ameno: futebol. Eu quero fazer indagações, mas com foco num time da capital. Antes, porém, caro leitor, permítame  hablar sólo un poquito com usted.  Você ou vocês, melhor dizendo, já observaram que nas entrevistas de jogadores de Atlético e Cruzeiro só ouvimos os craques hablando la lengua española? Digo, castelhano e portunhol? Quanto estrangeiro! Será que foi por isso que melhoramos tanto nosso futebol? Brincadeira, gente.

Não por acaso, vou falar do Galo. São observações e análises. Eu estou impressionado com o mau rendimento da equipe. Sei das ausências, porém ainda acho que no futebol há uma condescendência muito grande para com os seus profissionais. Vou fazer um pequeno histórico.

O Atlético demitiu o Levir Culpi – que se intitulou de “burro com sorte”. São palavras dele, não fui eu quem disse tamanha ofensa. Eu apenas concordo. E é esse o título de seu livro: Burro com sorte. A diretoria não satisfeita e, ainda tomada pela emoção, contratou Diego Aguirre, desta vez sem livro mas, se escrevesse, provavelmente trocaria o “com sorte” por “sem sorte”. Não deu certo. Creio, deve ter ido para Barbacena para tentar a cura. Veio o Marcelo. Bem, ele chegou agora e estou torcendo para que dê um jeito naquele grupo de jogadores, que mais parecem soldados feridos em combate. Por enquanto, só diria que o Marcelo não está com sorte. O outro atributo – aquele ponto comum entre os dois técnicos anteriores – quero crer que ele não terá. Mas tomara que não escreva livros. Os livros não estão fazendo bem para o Galo.

Torcida do Atlético no Independência em fevereiro/2016 | Foto: Igor Costoli

Torcida do Atlético no Independência em fevereiro/2016 | Foto: Igor Costoli

Mas vamos aos jogadores. Eu aconselharia um treino de olhos vendados. Assim, quando descobrissem seus olhos, talvez acertassem mais passes. Os cegos desenvolvem outras habilidades. Pode ser uma ideia para o novo técnico. Já o nosso goleiro – sou admirador dele – mas depois que virou santo e escritor (olha o livro aí) parece que um espírito baixou nele. Anda numa preguiça de sair do gol que nem oração forte está resolvendo. E os lançamentos… o goleiro não consegue chutar a bola dentro das linhas do campo. Ele chuta para as laterais. O índice de erro é elevadíssimo. E nas bolas atrasadas ele tem se enrolado todo.  Eu sei que o rapaz tem crédito, mas está com baixa rotação faz tempo. Mas nem me falem em substitui-lo pelo Uilson.  Agora, convenhamos, a zaga também não ajuda. Quando o adversário ataca é aquele “Deus nos acuda”. E na lateral esquerda… O Lucas Cândido parece aprendiz de patinação. Já notaram? É todo desengonçado e não marca ninguém. Mas não para por aí. Tem uma turminha que joga lá na frente que não assusta nem a bebê de colo. São tão bonzinhos que reabilitaram o Dênis, goleiro do São Paulo. Deve ser o próximo a ser beatificado.

Diria que no Galo, o que tem para hoje é saudade, principalmente do Luan. O Menino Maluquinho passava garra aos colegas e alegria ao torcedor. Sem ele o futebol ficou mais pobre. Coincidência ou não, foi depois do livro.

Eu já ia voltar ao meu livro e continuar escrevendo, mas me assalta uma dúvida: será que devo? Estou me lembrando que o Muricy Ramalho, aposentado por arritmia cardíaca, também lançou um livro recentemente. Sei não…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Mau atendimento como sempre

por Luis Borges 8 de junho de 2016   Pensata

Na rua mais movimentada de um bairro crescem os sinais de recessão econômica, da perda do poder aquisitivo e do desemprego galopante. Os ambulantes proliferam vendendo de água a agulha, uma diversidade digna de um grande mercado persa. Os comerciantes formalmente instados à condição de pagadores de impostos reclamam da grande queda das vendas, da postura mais arisca dos clientes, da insegurança crescente enquanto os profissionais da política partidária prosseguem na feroz disputa pelo poder.

Além de reclamarem da queda dos lucros, o que os donos desses negócios estão fazendo para manter e fidelizar os seus clientes? Nada, respondem duas amigas, uma de 56 e outra de 59 anos, que fazem compras nessa rua há quase 10 anos. Elas frequentam a padaria diariamente e pelo menos uma vez na semana comparecem ao sacolão de hortifrutigranjeiros e ao supermercado. Como toda e qualquer cliente que se preze elas também têm a expectativa de encontrar bens e serviços de qualidade a um preço justo e com um excelente atendimento.

Foto: Marina Borges

Foto: Marina Borges

A percepção delas mostra que ainda existe muito o que ser melhorado por parte de seus três fornecedores. A necessidade mais gritante está no serviço dos atendentes, inclusive dos caixas, que não se comprometem com o processo de atendimento, fazem “cara de paisagem” como se nada fosse com eles, sempre se dispersam conversando com os colegas e evitam falar com cliente que estão atendendo. Eles passam a sensação de que o cliente incomoda, que é quase um favor atendê-lo e que, quanto mais rápido ele for embora, maior será o tempo livre sem fazer nada.

As duas amigas também nãos estão satisfeitas com os preços cobrados e consideram que eles poderiam estar bem mais em conta, inclusive com mais promoções. Além disso, dizem não perceber a presença de um gerente ou chefe liderando os trabalhadores, que muitas vezes se assemelham a um bando perdido ou no máximo a um grupo. Uma das amigas diz que os chefes só ficam mexendo com planilhas e falando ao telefone e se esquecem – ou não tem tempo – para verificar o que as pessoas estão fazendo e menos ainda para treiná-las nos padrões dos diversos processos. Fica fácil de entender a causa da grande rotatividade de empregados. Toda semana tem gente nova no pedaço.

Por último as duas amigas falam que ainda continuam fiéis a esses fornecedores por causa da logística, pois eles estão distantes a no máximo cinco quarteirões de suas residências e nem automóvel elas precisam tirar da garagem.

Como se vê a crise exige e torna o momento obrigatório para que todos possam rever os seus processos de trabalho e continuar competindo mesmo no aparentemente acomodado mercado de um bairro.

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De vez em quando tenho a honra de ser convidado para participar de alguma festa alusiva aos 15 anos de uma “mocica”, ao casamento de alguém ou para os 60 anos de gente da minha geração – da família, da escola e do trabalho. Um fenômeno interessante, e que tem chamado minha atenção, é o que está ocorrendo em eventos com a presença de colegas de aula da Universidade na segunda metade dos anos 70 do século passado. Boa parte deles militava no movimento estudantil, uma força auxiliar do movimento operário de então. O foco era a derrubada da Ditadura Militar, com variadas nuances entre os opositores ao regime político.

Existe uma colega que sempre chega às festas bastante apressada e bem depois da hora marcada para o início. Até aí tudo bem, pois ela nunca foi de cumprir horário mesmo. Após os eufóricos cumprimentos ensejados pelo encontro, a colega já aproveita para dizer que não poderá permanecer por ali durante muito tempo pois ainda irá a outra festa onde já está sendo aguardada. Como o tempo passa rapidamente, inquieta e ansiosa a colega logo começa a se despedir de todos com beijos de um lado e do outro da face e falando que é preciso fazer um encontro de toda a turma. A proposta ecoa como uma palavra de ordem sem efeito. A sensação é que ela pensa que seu papel é o de fazer uma proposta para que os outros a coloquem em prática. Percebo que a colega não mudou o seu jeito de ser até hoje, é sinal de que já não haverá tempo para mudar mais. Não existe autocrítica capaz de alavancar tamanha mudança em postura tão cristalizada. Após a saída da propositiva colega, os remanescentes prosseguem na festa imaginando quando haverá um novo encontro para que a proposta seja repetida mais uma vez.

Terminei minha reflexiva constatação pensando que se colegas estão assim, que avaliação podemos fazer das nossas amizades com os amigos e amigas cuja quantidade cabe nos dedos de uma ou no máximo duas mãos? Será que elas estão sendo cultivadas como merecem e precisam ser? Afinal de contas, as amizades para a turma dos que já estão passando dos 60 são uma parte importante no balanceamento do curso da vida, que deve ser ativo e em busca de muitos momentos felizes com a prevalência do lado idoso.

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Informação demais ou de menos

por Luis Borges 20 de maio de 2016   Pensata

O metrô, ou trem de superfície, que liga as cidades de Belo Horizonte e Contagem, em Minas Gerais, amanheceu fechado na segunda-feira 16 de maio devido à greve dos metroviários, em campanha salarial. A possibilidade de se concretizar essa forma de luta dos trabalhadores começou a ser veiculada por alguns órgãos de imprensa em meados da semana anterior. No vaivém das negociações, a empresa que gerencia o metrô propôs um índice de reajuste salarial que repunha apenas metade da inflação do período em questão. Diante do impasse, já no sábado os metroviários deixaram claro que não trabalhariam na segunda-feira, o que foi divulgado pela imprensa durante todo o fim de semana.

No entanto, muitos usuários do metrô só ficaram sabendo da greve na própria segunda-feira, ao chegar às estações de embarque. Fiquei sabendo do caso de um assistente administrativo que, entrando na estação por volta das 8h40, exclamou surpreso diante do cenário que ninguém de sua rede havia comentado nada sobre o evento. E ainda arrematou dizendo que participa de 20 grupos de WhatsApp e que ninguém foi capaz de postar nada para alertar sobre a greve. Concluiu dizendo que todos os grupos estavam bem movimentados com outros temas de naturezas diversas.

Fiquei pensando sobre a era em que vivemos, na qual muito se fala sobre a importância da informação. Mas qual informação, em que quantidade e com qual nível de qualidade? Como também já se fala nessa mesma era, que informação demais é contraproducente, o que pensar da informação de menos? O caso narrado me traz o beneficio da dúvida e um questionamento sobre o foco das comunicações entre as pessoas, notadamente as conversas digitais. A sensação é de que pode estar havendo muita conversa inútil, muitas informações triviais e, de repente, informações vitais vão ficando à margem. É uma questão de dosagem, como no caso de um medicamento em que o excesso pode virar um veneno. Será que isso está acontecendo só com os outros ou também se aplica a nós, que estamos sem tempo nessa correria doida de cada dia?

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