Sou um realista esperançoso e é por isso mesmo que esta pensata tem como título “Só falta um ano para 2019 começar”. Essa esperança me ajuda a não cair na apatia, no descrédito e no pessimismo, todos altamente contagiosos. Continuo pensando e difundindo nos espaços e meios onde atuo que as coisas fáceis já foram feitas e que para nós só ficaram as difíceis e desafiantes.

Atravessaremos o ano de 2018 enfrentando o aguçamento da luta de classes e todos os efeitos dela decorrentes em função da enorme concentração de renda, desemprego, subemprego e precarização das condições de trabalho bem como 25% da população se situando abaixo da linha da pobreza segundo o IBGE. De cara, o Governo Federal voltará com as catilinárias da Reforma da Previdência Social, sem detalhar de forma transparente os dados sobre o déficit do Regime Próprio da União, estados e municípios e jogando todas as mazelas em cima do INSS. Continuarão os acenos para o mercado, mas o ajuste das contas públicas ainda está longe de alcançar os supersalários dos três poderes com todos os penduricalhos que ultrapassam o teto constitucional.

Será necessária uma altíssima dose de resiliência e inteligência estratégica para enfrentar o período eleitoral, em que vários matizes ideológicos se enfrentarão e posteriormente se aglutinarão em dois pólos no segundo turno das eleições para Presidente da República e governadores de estados. Se o feio é perder a eleição todos farão de tudo para se manter no poder, para a ele retornar ou chegar lá pela primeira vez.

Mas fico também pensando em que nível de civilização, ética e transparência tudo acontecerá diante de uma disputa final entre dois pólos com fortes tendências à prevalência de muitos confrontos, inclusive físicos, impulsionados pela intolerância, raiva e ódio. Pelo poder e pela crença que cada lado tem, que sua ideologia é que deve hegemonizar a sociedade, dá para se imaginar como será a “guerra civil” na internet e nas suas redes sociais bem como no contato e confronto direto entre as pessoas físicas e jurídicas.

Diante de tudo que será difundido acredito que o cidadão que preza a verdade e trabalha com fatos e dados reais deve sempre questionar, primeiramente, se o que está chegando até ele não é uma notícia falsa e também a credibilidade da fonte emissora, se houver. Obviamente que muito se falará sobre uma retomada da economia brasileira mostrada através de números em situação de despioria, mas sem explicitar que esse alento se deve à comparação com os dados de uma base mais fraca resultante da recessão econômica de 2015 e 2016. A política partidária continuará contaminando o desempenho da economia e o aspecto social prosseguirá pagando o pato conforme mostram os orçamentos públicos aprovados para 2018. Mas também pudera, queda de arrecadação de tributos, aumento cada vez maior dos gastos e baixos níveis de investimentos públicos me levam a dizer que tomara que o ano passe logo com todos os enfrentamentos que virão pelo caminho na expectativa de que surjam das urnas soluções com popularidade acima de 6%.

E já que o voto é obrigatório, ou seja, um dever e não um direito, também poderemos esperar muitas abstenções, votos nulos e brancos. Na verdade é preciso levar em conta um terceiro pólo, o da anomia, o daqueles que não se sentem representados por nada que está aí.

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Ir ou não à festa da empresa?

por Luis Borges 23 de dezembro de 2017   Pensata

O final do ano é sempre marcado por uma correria louca nas organizações humanas – empresas, órgãos públicos, entidades do terceiro setor – porque é preciso fazer a confraternização anual que o Natal estimula, seja no âmbito da diretoria, gerências ou setores em função do porte da estrutura organizacional. Ao mesmo tempo continua sendo necessário produzir, faturar, receber verbas governamentais, obter doações para filantropia, fazer o planejamento estratégico para o próximo ano alinhado com o orçamento, fechar o balanço contábil… Simultaneamente ganha espaço o planejamento da festa com a definição da data, a estimativa do número de participantes, o que será servido em termos de alimentação e bebidas, se haverá troca de presentes, sorteio de brindes e, é claro, o levantamento do custo e a definição das fontes de recursos financeiros para bancar o evento.

O fato é que entra ano e sai ano e muitos são os questionamentos sobre a vontade ou a conveniência das pessoas participarem de uma festa dessa natureza. A razão para as dúvidas pode ser até bem simples. Uma pergunta bastante difundida no ambiente do trabalho de qualquer natureza questiona qual é o sentido da confraternização para um grupo, não uma equipe, de pessoas que trabalham juntas num clima bastante pesado e em que as coisas pegam a todo momento. Predominam aqueles que fazem minimamente o que pensam ser a sua parte gastando o maior tempo possível da jornada, sem se preocupar com a integração dos processos de trabalho de outros colegas e nem com a qualidade do resultado a ser alcançado. Também pudera, o chefe não é líder, sabe ter sua panelinha de favoritos, adora xingar algumas pessoas de fora da panela diante do menor deslize segundo sua ótica e fica possesso ao repassar ao grupo uma cobrança feita pelo seu superior hierárquico.

Como ainda estamos muito longe da excelência da gestão no Brasil, e aí se inclui a gestão de pessoas, não é difícil encontrar um ambiente de trabalho com as características citadas anteriormente. Muitas pessoas que estão ali até gostam do que fazem mas só permanecem lá porque a estratégia é de sobrevivência nesse momento dificílimo do mercado de trabalho.

Na prática um pequeno percentual de pessoas realmente não comparece à festa, um outro bem mais expressivo dá uma passada rápida por conveniência política visando não piorar  mais ainda o clima organizacional e até se lembrando do fundamento segundo o qual “um pouco de hipocrisia não faz mal a ninguém”. Já a turma que gravita em torno do poderoso chefinho se esmera para aparecer bem na fita cumprimentando a todos efusivamente e até fotografando, filmando ou narrando em conversas posteriores os momentos mais contundentes. Imaginemos o que pode ser dito por um colega insatisfeito com certos fatos ocorridos durante o ano e que começa a falar tudo o que estava entalado após tomar algumas doses a mais de determinadas bebidas alcoólicas que tem o poder de virar o soro da verdade.

Este tipo de questionamento passa pela sua cabeça? Ou você pensa que, após um ano de convivência, é melhor deixar essas coisas pra lá e conviver com os colegas durante algum tempo que passará rapidinho, mesmo sabendo que nada vai mudar até o dia em que você ou eles, os colegas, deixarão o trabalho para buscar outras oportunidades de sobrevivência e realização no mercado?

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Quanta chuva em tão pouco tempo!

por Luis Borges 6 de dezembro de 2017   Pensata

Tenho a sensação de que as chuvas que caíram no final de novembro e prosseguiram firmes, quase contínuas, sem muita trégua nesse início de dezembro em Belo Horizonte e região metropolitana são a repetição de um fenômeno que parecia já ser de outrora.

Domingo chuvoso em Belo Horizonte. | Foto: Marina Borges

Parece que faz tempo que não chovia como antigamente, por vários dias seguidos, pois nos últimos anos a prevalência foi das secas e dos efeitos dela decorrentes. Essa chuva mais intensa, que é bem-vinda e necessária apesar dos transtornos, das perdas humanas e materiais, me trouxe algumas reminiscências do convívio mais direto que tive com as chuvas na minha cidade natal de Araxá, onde morei até completar 16 anos de idade em 1970.

Lá eu caminhava e brincava nas águas da enxurrada que descia rente ao meio-fio das vias públicas junto com os irmãos, primos e colegas, sempre na clandestinidade perante os olhos de pais, mães e tios. Só mesmo um pé cortado num caco de vidro para revelar, em casa, que algo estava sendo feito. Como Araxá possuía – e ainda possui – um dos maiores índices pluviométricos por municípios em Minas Gerais, todo aquele aguaceiro caminhava para o córrego que passa pelo vale que liga o oeste ao leste da cidade. Naquele tempo ele saía de seu leito algumas vezes durante a estação chuvosa e basicamente passava no fundo das hortas das casas daquela região de onde víamos a enchente passar. Hoje ele está canalizado debaixo da pista de uma longa avenida asfaltada, mas nem sempre o canal aguenta o volume das águas que são obrigadas a alagar as pistas.

Lembro-me também que as ruas da cidade eram calçadas com pedras do tipo pé-de-moleque ou simplesmente feitas de terra batida, mas o asfaltamento começou a ser incrementado a partir de 1971.

Quando a chuva estiava um pouco era possível fazer pequenos represamentos das águas da enxurrada e até colocar barquinhos de papel desfilando no pequeno e pouco duradouro remanso, pois uma nova pancada de chuva poderia chegar a qualquer momento e levar tudo embora.

Finalizando as reminiscências não dá para esquecer das partidas de futebol de salão jogadas debaixo de chuva na quadra do colégio Dom Bosco.

Mas o que dizer de Belo Horizonte, com os seus 80 pontos de alagamentos identificados, das placas sinalizando as rotas de fugas desses locais, dos ribeirões e córregos que não cabem em seus leitos canalizados e muitos cheios de lixos e entulhos que a população mesmo joga por ali? De repente aparecem nos jornais e nas emissoras de rádio e TV o governador do estado e ministros do Governo Federal fazendo o clássico sobrevoo nas regiões mais atingidas da região metropolitana de Belo Horizonte. Enquanto o governador falava em solidariedade e apoio operacional da Defesa Civil, afirmava também que as verbas para remediar os transtornos causados viriam do Governo Federal, que é quem tem o dinheiro, cujos ministros atônitos eram fotografados tentando mostrar que estavam fazendo alguma coisa pelo povo e que tão logo seja reconhecido o estado de calamidade começará chegar algum dinheiro.

Se ainda estamos caminhando para o fim da primavera chuvosa, nos resta imaginar o quanto de chuva está por vir até que cheguem as águas de março para fechar o verão.

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O Natal e a persistente intolerância

por Luis Borges 29 de novembro de 2017   Pensata

Tudo o que conseguimos fazer em nossa estratégia de sobrevivência neste ano tão difícil nos trouxe até o Natal. Pode até parecer utopia, mas de novo estamos diante de uma oportunidade para refletir e agir movidos pela esperança de algo que parece ainda estar tão longe. Mas desanimar jamais e desesperar muito menos.

Já dá para perceber que alguma coisa acontece, ainda que numa velocidade menor que a desejada. Percebe-se que o Natal pode trazer mais forças para nos ajudar a combater a indiferença, a apatia e também a intolerância que nos afasta uns dos outros. O clamor é pelo diálogo, pela possibilidade de um convívio civilizado entre ideias diferentes. Aliás, vale lembrar que elas convivem nas estantes de uma livraria ou de uma biblioteca.

Não vou negar que o regime capitalista em que vivemos traz em sua essência a busca pelo lucro e pela acumulação quase primitiva do capital nas mãos de pouquíssimos, a começar pelo capital financeiro que vai lambendo tudo.

A luta de classes está mais viva do que nunca e é pautada pela necessidade da sobrevivência em detrimento da imperiosa necessidade do crescimento e desenvolvimento rumo a um estado de bem estar social, ainda que no regime capitalista com todos os seus embates.

Espero que neste Natal fiquemos mais conscientes de que temos dois ouvidos e uma boca para nos ajudar a ouvir mais e a falar o essencial na construção do bem comum. São muitas as coisas que não queremos mais, mas com certeza uma delas a intolerância, hoje um atalho para a raiva e o ódio, precisa ser repensada.

O Natal pode ser mais que uma simples festa, ele pode também nos renovar rumo a uma vida mais interessante e com muita razão para ser vivida com dignidade para todos.

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Faz tempo que estamos falando sobre a Reforma da Previdência Social. É que o Governo Federal enviou sua primeira proposta à Câmara dos Deputados já faz um ano! Mas se reformar algo significa lhe dar uma nova forma é preciso também estar atento ao conteúdo a ser implementado e de maneira sustentável. Em 12 de fevereiro deste ano, postei neste blog a pensata “Omissão de dados na Reforma da Previdência“. Lá mostrei claramente a falta de transparência em relação a fatos e dados importantes para a observação, análise e compreensão da real situação do regime geral da previdência social que atende ao setor privado.

Apesar de ser considerada a tábua de salvação para o ajuste das contas públicas e um grande aceno para satisfazer os desejos do mercado ávido por melhores condições para seus negócios, o fato é que o Governo Federal não conseguiu vender a sua proposta de reforma e nem se preocupou com outras causas estruturais de seu déficit nas contas. Falar em déficit da previdência sem desdobrá-lo, dizer que a população está envelhecendo aceleradamente, acenar com a iminente incapacidade de pagar os proventos em dia e alegar combater privilégios propondo o mesmo teto para as futuras aposentadorias dos trabalhadores dos setores públicos e privados não foram argumentos suficientes para arrumar muitos adeptos. Enquanto a comissão especial da Câmara dos Deputados conseguia aprovar uma nova proposta com diversas concessões em relação à original – começando por deixar fora da reforma os militares, por exemplo – vieram à tona as delações dos empresários da JBS envolvendo o impopular Presidente da República em atos de corrupção.

Salvar o mandato passou a ser o foco do chefe do executivo e, para isso, foi necessário escancarar o orçamento da União para as emendas parlamentares da base aliada, nomear seus afilhados para cargos de recrutamento amplo em órgãos governamentais e até fazer reforma ministerial. Que oportunidade de negócios!

O fato é que o tempo passou na janela da crise política, a Reforma Trabalhista entrou em vigor emendada por uma medida provisória e o Presidente da República jogou a toalha em relação à urgente reforma da Previdência. Mas o mercado esperneou, como que a perguntar “como assim”? A pergunta foi suficiente para que o Governo Federal voltasse a sonhar, por necessidade, com a aprovação de alguns poucos itens só para dizer ao mercado que fez alguma Reforma Previdenciária neste ano.

Só que no meio do caminho para conseguir 308 votos dos deputados federais ainda neste ano e outros 49 do Senado no ano que vem estão as eleições do próximo outubro. Comprar apoio parlamentar vai ficando mais difícil e também mais caro à medida em que o tempo passa enquanto as contas públicas continuam “desnegoçadas”.

Como a ocasião faz o ladrão, o que fica claro é que urgência deixou de ter o significado que está no dicionário da língua portuguesa e o que importa é manter o poder apesar dos outros 99% da população.

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A tarde começava a cair na terça-feira 31 de outubro quando Roberto Márcio, amigo de quase quatro décadas, me informou pelo telefone que sua esposa Lídia Batista acabara de falecer. Do início do namoro até aquele momento passaram-se 45 anos de uma permanente construção a dois que nos legou, por exemplo, os filhos Rafael e Fernanda. Fiquei surpreso e perplexo, enquanto lágrimas caíam diante de tamanha perda, por se tratar de uma amiga com quem eu e Cristina sempre cultivamos uma amizade marcada pela presença efetiva. Não se tratava de uma amizade meramente registrada em cartório, a fazer parte de um rol de amigos que nunca acham tempo para se encontrar ou polir as amizades.

Uma característica marcante do jeito Lídia de ser era a firmeza na defesa de seus pontos de vista, mas sem necessariamente querer fazê-los prevalecer de qualquer maneira. Ela sabia deixar a cena para aguardar um outro momento mais oportuno para continuar tentando construir a hegemonia daquilo em que acreditava.

Quero destacar aqui três aspectos que a passagem da amiga trouxe para a minha reflexão e imagino que para algumas outras pessoas também.

O primeiro aspecto é relativo à surpresa que o comunicado do falecimento causou às pessoas do seu convívio pessoal e profissional em diferentes épocas. Ouvi gente perguntando por que ninguém, exceto sua família, soube o que estava acontecendo nos últimos meses em relação à sua saúde. Entendi perfeitamente a diretriz dada pela amiga e que foi plenamente cumprida pela família. Dá para imaginar a energia que foi poupada por não ter sido necessário ficar divulgando boletins médicos ou respondendo às mensagens de WhatsApp, tanto das pessoas solidárias quanto daquelas que só querem saber da novidade do último minuto. Realmente tudo é muito cansativo, principalmente num momento que exige muita temperança e conservação de energia para o enfrentamento da adversidade.

O segundo aspecto a destacar é sobre o posicionamento que as pessoas têm hoje em relação à destinação de seus corpos após o óbito. No caso de Lídia Batista a opção foi pela cremação e colocação das cinzas no jazigo da família. Essa decisão acaba suscitando uma pergunta que vai se tornando cada vez mais frequente com o passar do tempo: quando for a sua hora você vai querer o “forno” ou as bactérias para fazer a decomposição de seu corpo? Pelo que percebo a via bacteriana é a que mais prevalece, inclusive sob o argumento de ser um caminho natural. Eu continuo optando pela cremação com as cinzas sendo lançadas no Rio São Francisco.

O último aspecto é a constatação de que é cada vez maior o número de pessoas afirmando que só estão encontrando os amigos em velórios e com frequência cada vez maior, pois o seu universo de amizades tem muita gente na faixa dos 60 anos ou mais. Vale realçar o discurso de muitos dizendo que “é preciso fazer um encontro da turma enquanto há tempo”. Aliás, ouço muito isso também em festas de aniversário de nascimento de alguns dessa mesma turma. Tanto num quanto no outro ambiente não há boas condições para se conversar mais detidamente. Acredito que o maior desafio é encontrar quem tenha a iniciativa de propor e de fazer acontecer esses encontros. A continuar só no discurso sobrará apenas o encontro no velório enquanto houver vida.

E você, o que pensa de tudo isso?

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Se pensata é um pensamento que se registra numa espécie de ata, faz-se necessário registrar neste momento alguns sonhos e propósitos relativos aos temas que surgem em minha mente sempre aguçada.

Pela lei brasileira estou passando pelos primeiros dias do 4º ano de minha fase idosa da vida, pois completei 63 anos de idade no último dia 24 de outubro. Não fico matutando sobre quantos anos se passarão para que meu curso da vida chegue ao fim, mas tenho conhecimento de que a atual expectativa média de vida dos brasileiros está em torno de 77 anos segundo o IBGE.

Entre os muitos cumprimentos que recebi pelo aniversário, num deles chamou minha atenção a pergunta direta, sem rodeios, feita por um amigo. Ele me perguntou como eu imaginava – ou gostaria que fosse – o final de minha passagem pela Terra nessa encarnação. Respondi sem pestanejar que espero ter o merecimento de ser desligado deste plano de maneira repentina e na plenitude de minha autonomia, mesmo que a independência esteja limitada por alguma restrição nas condições funcionais. Seria como um passarinho que estivesse cantando e, de repente, parasse de cantar para sempre.

Se não for o caso desse tipo de merecimento, e se eu pudesse fazer uma segunda opção, seria recebendo apenas cuidados paliativos em todas as suas dimensões, ainda que numa clínica especializada, poupando ao máximo os queridos familiares e amigos, mas sem nenhuma obsessão terapêutica em prol de uma cura que se assemelha a um ponto extremamente fora de qualquer curva.

O amigo ficou um pouco assustado com a clareza e a instantaneidade das minhas respostas, dizendo que também sonhava em ter o merecimento de partir de repente para não sofrer muito e também para não dar muito trabalho às pessoas que o cercam. Acabamos nos despedindo concordando que precisamos conversar mais sobre a finitude da vida e como poderemos melhor elaborar nossos posicionamentos diante de um fato inexorável e do qual não teremos como desviar, talvez só gerenciar para adiar.

E você, já gastou algum tempo para pensar na finitude da sua vida?

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Uma cena de desrespeito no trânsito

por Luis Borges 1 de novembro de 2017   Pensata

Passava das 22h de um sábado de outubro. Chovia bastante. Uma jovem senhora dirigia seu automóvel de pequeno porte, subindo uma rua de bairro. Ao seu lado estava o seu marido, também jovem. Era uma rua de mão dupla e naquele momento havia carros estacionados dos dois lados, mal respeitando os acessos às casas e edifícios. Ou seja, só havia passagem para um veículo, no centro da via.

Quando a jovem estava quase no meio do quarteirão veio uma caminhonete de grande porte em sentido contrário. O motorista da caminhonete viu que a rua só permitia a passagem de um veículo e que não havia nenhuma porta de garagem onde encostar. Mesmo assim, prosseguiu até se encontrar com o carro pequeno no meio do quarteirão. E cruzou os braços, como que dizendo “saia você”.

Apesar do aborrecimento mas sem querer brigar, a jovem senhora começou a andar em marcha a ré. A cada centímetro recuado, o motorista da caminhonete prontamente avançava o mesmo tanto, bufando e esbravejando. Chegou outro motorista pela rua estreita, se posicionando atrás do carro que tentava dar ré. Em seguida tentou ultrapassar pela direita. E a chuva continuava.

Com esforço, a jovem finalmente chegou ao fim da fila de carros. Agora havia algum espaço pela direita e pela esquerda. Imediatamente o motorista da caminhonete e o outro apressadinho tentaram ultrapassar o carro da motorista ao mesmo tempo, quase causando colisões laterais. O “bacana” da caminhonete foi embora, não sem antes gritar “aprende a dirigir”.

A motorista deixou os dois apressados passarem e depois seguiu seu caminho pela rua estreita. Mas ficou a constatação amarga e realista de que bom senso está em falta e de que uma parte pouco civilizada da sociedade quer impor aos outros, na marra e no grito, seu jeito de ser.

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Acabaram de passar o dia e a semana das crianças. O 12 de outubro foi o epicentro da comemoração e da comercialização que a data enseja em função do sentido e do valor que a fase de criança tem para a vida de todos. Nesse sentido é importante realçar que a indústria e o comércio contavam com o momento para ajudar a despiorar seus negócios, já que ainda é muito tímida e incipiente a recuperação da economia brasileira.

Vale também lembrar que na mesma data ocorreu a celebração dos 300 anos da data em que a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, foi encontrada por três pescadores nas águas do rio Paraíba do sul.

Também é importante ter em mente que o dia da criança foi definido por lei de 1925, quando Arthur Bernardes era Presidente da República, e que o Estatuto da Criança e do Adolescente considera criança quem tem até 12 anos de idade.

Meu ponto aqui, porém, é simplesmente lembrar, sem saudosismo mas com alegria, os brinquedos e as brincadeiras da minha infância. Quem fizer as contas perceberá que ela já é cinquentenária, pois completei 12 anos de idade em outubro de 1966, e todo esse período foi vivido na minha querida e eterna cidade de Araxá, que considero ser a capital secreta do mundo. Minhas primeiras lembranças são do ano de 1960, quando eu tinha 5 anos e em Araxá moravam 28.626 pessoas segundo o UniAraxá.

Eu me lembro bem que não ganhava presentes pelo dia das crianças e que as comemorações do dia aconteciam no Grupo Escolar Pio XII, onde fiz o curso primário. Aconteciam diversas brincadeiras, como as corridas em que os participantes entravam dentro de um saco de linho e, quando era dada a largada, os competidores saíam pulando de forma semelhante a um sapo para percorrer um espaço de 25 metros no pátio da escola. Também brincávamos de corrida, carregando em uma das mãos um ovo de galinha cozido colocado numa colher. Outra lembrança é do desafio de comer um biscoito de polvilho suspenso num cordão, em altura desafiadora, e sem usar as mãos. Tudo terminava com um lanche especial, a grande atração que encerrava a festa de cada turno escolar.

Os brinquedos eram ganhados por ocasião do Natal, sempre comprados por meu pai na Casa Mineira de Dona Carlota na noite do dia 24. Era um a cada ano e a quantidade só aumentava se algum padrinho ou madrinha resolvessem fazer uma surpresa.

Fazendo uma lista rápida dos presentes – que deveriam ser bem cuidados para durar o maior tempo possível – me lembro de um caminhão de madeira de médio porte, de um jogo de varetas coloridas, da piorra, de um revólver sem espoleta, de um jogo de cartas contendo casais de animais para formar pares e um mico preto para sobrar na mão do perdedor, de uma gaita e de uma bola de futebol. Entre os brinquedos feitos em casa posso destacar os papagaios com rabo de argola, as pipas, os currais de uma fazenda contendo bois e vacas feitos com chuchu ou manga e a bola de meia. Já entre os que eram comprados com uma pequeníssima quantidade de Cruzeiros, a moeda da época, destaco as bolinhas de vidro ou de gude, de menor diâmetro tanto as de cor única quanto as multicoloridas e as “bilocas”, de diâmetro maior e cor única.

Nessa época eram bem definidos o que eram os brinquedos para meninos e os que eram para as meninas.

E você? Conseguiu se lembrar dos brinquedos e brincadeiras do seu tempo de criança?

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Quem diria, era bicho-de-pé!

por Luis Borges 4 de outubro de 2017   Pensata

Um servidor público mineiro aproveitou o feriado de 7 de setembro, emendando a sexta-feira, para visitar seus parentes que residem numa fazenda no interior de Minas Gerais, pessoas que há muito tempo não via. O reencontro foi só alegria e todos os parentes ficaram muito felizes com a chegada do primo, que estava em companhia da esposa.

A estadia na fazenda possibilitou que se usufruísse um pouco de quase tudo, num convívio bastante agradável e com muita prosa naqueles quatro dias de tempo seco. Foi possível tomar um café da roça acompanhado de biscoito de polvilho, pão de queijo, broa de milho e bolo de fubá, bem como degustar a cachaça feita em casa antes de almoços em que foram servidos – em diferentes dias – frango caipira ao molho, costelinha de porco com mandioca, carne de boi na panela, paçoca de carne de boi…

À noite também foi possível cantar e dançar ao som de viola, sanfona e até mesmo jogar buraco, ofício em que o primo visitante é quase imbatível. Um dos grandes momentos do passeio aconteceu já no sábado pela manhã, quando o servidor foi até o curral para tomar um leite quentinho no melhor estilo ao pé da vaca. Obviamente que isso acabou rendendo uma fotografia, logo postada no grupo do WhatsApp da sua família e para mais um milhão de amigos de outros grupos de sua rede. Afinal de contas nem todo mundo sabe o que é ou já vivenciou uma situação como essa.

E assim o fim de semana prosseguiu maravilhosamente até a hora de se despedir dos queridos parentes já com saudades, no domingo à tarde para retornar a Belo Horizonte.

No segundo domingo após o retorno o servidor começou a sentir um grande incômodo nos pés e a principal característica do sintoma era uma coceira quase contínua em cada dedão. Ele foi ficando cada vez mais inquieto enquanto tentava decifrar o que poderia estar acontecendo. Chegou a imaginar terríveis situações futuras devido ao acompanhamento que faz do seu processo de metabolismo. Ainda assim, ele compareceu ao trabalho na segunda-feira mas, ao fim da tarde, não mais resistindo ao tamanho desconforto, resolveu procurar sua podóloga em busca de uma ajuda para solucionar o problema.

Acompanhado de sua esposa, ele chegou gemendo à sala de atendimento e foi imediatamente atendido. Assim que a podóloga olhou para os seus pés ela deu o diagnóstico rápido e certeiro: a causa de todo o seu mal estar era a presença de dois robustos bichos-de-pé, residindo cada um no dedão de um pé. Enquanto eram feitos os procedimentos para a retirada dos bichos-de-pé o servidor público lembrou-se que quando foi ao curral da fazenda tomar um leite quentinho ao pé da vaca estava calçando chinelos e passou ao lado do chiqueiro onde são criados os porcos.

Passado o desconforto e resolvido o problema ele foi buscar mais informações sobre o tal bichinho e descobriu que ele é bastante presente em áreas rurais e penetra facilmente na pele de diversos animais, notadamente na dos porcos e também na dos seres humanos. O período para a evolução do bicho de pé em seu hospedeiro é de duas a três semanas. Se você quiser conhecer mais sobre o assunto, clique aqui.

O servidor ficou tão feliz com a solução final para o seu problema que nem precisou se afastar do seu trabalho, apenas deixou de ir à academia durante a semana. Será que na próxima visita à fazenda ele vai proteger melhor seus pés?

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