Quanta chuva em tão pouco tempo!

por Luis Borges 6 de dezembro de 2017   Pensata

Tenho a sensação de que as chuvas que caíram no final de novembro e prosseguiram firmes, quase contínuas, sem muita trégua nesse início de dezembro em Belo Horizonte e região metropolitana são a repetição de um fenômeno que parecia já ser de outrora.

Domingo chuvoso em Belo Horizonte. | Foto: Marina Borges

Parece que faz tempo que não chovia como antigamente, por vários dias seguidos, pois nos últimos anos a prevalência foi das secas e dos efeitos dela decorrentes. Essa chuva mais intensa, que é bem-vinda e necessária apesar dos transtornos, das perdas humanas e materiais, me trouxe algumas reminiscências do convívio mais direto que tive com as chuvas na minha cidade natal de Araxá, onde morei até completar 16 anos de idade em 1970.

Lá eu caminhava e brincava nas águas da enxurrada que descia rente ao meio-fio das vias públicas junto com os irmãos, primos e colegas, sempre na clandestinidade perante os olhos de pais, mães e tios. Só mesmo um pé cortado num caco de vidro para revelar, em casa, que algo estava sendo feito. Como Araxá possuía – e ainda possui – um dos maiores índices pluviométricos por municípios em Minas Gerais, todo aquele aguaceiro caminhava para o córrego que passa pelo vale que liga o oeste ao leste da cidade. Naquele tempo ele saía de seu leito algumas vezes durante a estação chuvosa e basicamente passava no fundo das hortas das casas daquela região de onde víamos a enchente passar. Hoje ele está canalizado debaixo da pista de uma longa avenida asfaltada, mas nem sempre o canal aguenta o volume das águas que são obrigadas a alagar as pistas.

Lembro-me também que as ruas da cidade eram calçadas com pedras do tipo pé-de-moleque ou simplesmente feitas de terra batida, mas o asfaltamento começou a ser incrementado a partir de 1971.

Quando a chuva estiava um pouco era possível fazer pequenos represamentos das águas da enxurrada e até colocar barquinhos de papel desfilando no pequeno e pouco duradouro remanso, pois uma nova pancada de chuva poderia chegar a qualquer momento e levar tudo embora.

Finalizando as reminiscências não dá para esquecer das partidas de futebol de salão jogadas debaixo de chuva na quadra do colégio Dom Bosco.

Mas o que dizer de Belo Horizonte, com os seus 80 pontos de alagamentos identificados, das placas sinalizando as rotas de fugas desses locais, dos ribeirões e córregos que não cabem em seus leitos canalizados e muitos cheios de lixos e entulhos que a população mesmo joga por ali? De repente aparecem nos jornais e nas emissoras de rádio e TV o governador do estado e ministros do Governo Federal fazendo o clássico sobrevoo nas regiões mais atingidas da região metropolitana de Belo Horizonte. Enquanto o governador falava em solidariedade e apoio operacional da Defesa Civil, afirmava também que as verbas para remediar os transtornos causados viriam do Governo Federal, que é quem tem o dinheiro, cujos ministros atônitos eram fotografados tentando mostrar que estavam fazendo alguma coisa pelo povo e que tão logo seja reconhecido o estado de calamidade começará chegar algum dinheiro.

Se ainda estamos caminhando para o fim da primavera chuvosa, nos resta imaginar o quanto de chuva está por vir até que cheguem as águas de março para fechar o verão.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 4 de dezembro de 2017   Curtas e curtinhas

A queda dos cheques

Em março de 2005 a centralizadora da compensação de cheques processava 170 milhões desses documentos por mês. Em outubro de 2017 eram apenas 42 milhões. Foi o bastante para o Banco Central determinar que todos os cheques, independente do valor, devem ser compensados em um dia útil. Há um prazo para os bancos se adaptarem. Atualmente os cheques com valor abaixo de R$300,00 são compensados em dois dias úteis.

Também pudera. Andar com um talão de cheques com até 20 unidades é sempre inseguro e, em muitos tipos de negócios, não se aceita cheques por medo de calotes. Enquanto isso floresce o uso do cartão para debito ou crédito e, conforme o montante, da TED. Vamos aguardar para verificar quando os cheques deixarão de existir.

R$1,2 milhão por hora em 2018

É o que custará o Congresso Nacional de acordo com um levantamento feito pela ONG Contas Abertas em cima do Orçamento da União Federal para 2018. Serão R$10,5 bilhões para serem gastos pelo Congresso Nacional, o que significará gastar R$1,2 milhão por hora. A Câmara dos Deputados, com 513 parlamentares, receberá R$6,1 bilhões e o Senado Federal, com 81 Senadores, terá direito a R$4,4 bilhões. Vale lembrar que na Câmara 80,4% do orçamento se destinará ao pagamento dos salários e encargos sociais dos servidores e no Senado ficará em 84%. Outro número interessante é o de servidores da Câmara dos Deputados. Atualmente são 15.800, dos quais 3.344 (21,16%) são concursados e 12.456 (78,84%) são contratados por recrutamento amplo, sendo 10.883 do secretariado parlamentar e 1.573 ocupantes de cargos de natureza especial. Nessa toada quando será que o Congresso Nacional contribuirá para o ajuste das contas públicas?

Será uma nova ponte?

Em novembro de 2015 o PMDB lançou seu programa “Uma ponte para o futuro”. Agora, dois anos depois, o PSDB está lançando o documento “Gente em primeiro lugar: o Brasil que queremos”, contendo o programa que orientará o partido rumo às eleições presidenciais de 2018. Segundo o texto a primeira prioridade estratégica é a retomada do crescimento, seguida pelo combate à pobreza e a desigualdade. Na economia é proposto um choque de capitalismo, dobrar a renda per capita em 20 anos, enxugar a maquina estatal e reduzir burocracia. No aspecto social estão os clássicos educação e saúde universais, segurança como prioridades e a reavaliação do acesso de ricos aos serviços públicos gratuitos.  O último aspecto abordado é o político, onde se destacam a defesa do parlamentarismo, do voto distrital misto, a reforma das estruturas políticas e o voto facultativo.

Agora é fazer com que as intenções se transforme em gesto. Será?

Minha casa, minha vida

“Cadeia de Valor e Importância Socioeconômica da Incorporação Imobiliária no Brasil” é o título do estudo feito pela Fipe em parceria com a Associação Brasileira das incorporadoras Imobiliárias. Ele mostra que, de 2008 a agosto de 2017, quase 10 anos, o programa “Minha Casa, Minha Vida” foi responsável por 77,8% dos lançamentos imobiliários, enquanto o segmento residencial de médio e alto padrão ficou com 20,7% e o comercial com 1,6%. O estudo mostra também que em 2017 foram lançados 307 mil unidades de janeiro a agosto e que no pico do setor, em 2013, o número de lançamentos chegou a 1 milhão de unidades. Já o auge das vagas de trabalho se deu em 2014, com 2,5 milhão de pessoas ocupadas, enquanto de 2010 a 2017 a média anual de empregados foi de 1,9 milhão. Nesse mesmo período chegou a R$19,7 bilhões a média anual de tributos pagos pelo segmento de incorporações aos cofres públicos. Como serão os números do setor nos últimos 4 meses deste ano e o que está sendo projetado para o ano de 2018?

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O Natal e a persistente intolerância

por Luis Borges 29 de novembro de 2017   Pensata

Tudo o que conseguimos fazer em nossa estratégia de sobrevivência neste ano tão difícil nos trouxe até o Natal. Pode até parecer utopia, mas de novo estamos diante de uma oportunidade para refletir e agir movidos pela esperança de algo que parece ainda estar tão longe. Mas desanimar jamais e desesperar muito menos.

Já dá para perceber que alguma coisa acontece, ainda que numa velocidade menor que a desejada. Percebe-se que o Natal pode trazer mais forças para nos ajudar a combater a indiferença, a apatia e também a intolerância que nos afasta uns dos outros. O clamor é pelo diálogo, pela possibilidade de um convívio civilizado entre ideias diferentes. Aliás, vale lembrar que elas convivem nas estantes de uma livraria ou de uma biblioteca.

Não vou negar que o regime capitalista em que vivemos traz em sua essência a busca pelo lucro e pela acumulação quase primitiva do capital nas mãos de pouquíssimos, a começar pelo capital financeiro que vai lambendo tudo.

A luta de classes está mais viva do que nunca e é pautada pela necessidade da sobrevivência em detrimento da imperiosa necessidade do crescimento e desenvolvimento rumo a um estado de bem estar social, ainda que no regime capitalista com todos os seus embates.

Espero que neste Natal fiquemos mais conscientes de que temos dois ouvidos e uma boca para nos ajudar a ouvir mais e a falar o essencial na construção do bem comum. São muitas as coisas que não queremos mais, mas com certeza uma delas a intolerância, hoje um atalho para a raiva e o ódio, precisa ser repensada.

O Natal pode ser mais que uma simples festa, ele pode também nos renovar rumo a uma vida mais interessante e com muita razão para ser vivida com dignidade para todos.

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Faz tempo que estamos falando sobre a Reforma da Previdência Social. É que o Governo Federal enviou sua primeira proposta à Câmara dos Deputados já faz um ano! Mas se reformar algo significa lhe dar uma nova forma é preciso também estar atento ao conteúdo a ser implementado e de maneira sustentável. Em 12 de fevereiro deste ano, postei neste blog a pensata “Omissão de dados na Reforma da Previdência“. Lá mostrei claramente a falta de transparência em relação a fatos e dados importantes para a observação, análise e compreensão da real situação do regime geral da previdência social que atende ao setor privado.

Apesar de ser considerada a tábua de salvação para o ajuste das contas públicas e um grande aceno para satisfazer os desejos do mercado ávido por melhores condições para seus negócios, o fato é que o Governo Federal não conseguiu vender a sua proposta de reforma e nem se preocupou com outras causas estruturais de seu déficit nas contas. Falar em déficit da previdência sem desdobrá-lo, dizer que a população está envelhecendo aceleradamente, acenar com a iminente incapacidade de pagar os proventos em dia e alegar combater privilégios propondo o mesmo teto para as futuras aposentadorias dos trabalhadores dos setores públicos e privados não foram argumentos suficientes para arrumar muitos adeptos. Enquanto a comissão especial da Câmara dos Deputados conseguia aprovar uma nova proposta com diversas concessões em relação à original – começando por deixar fora da reforma os militares, por exemplo – vieram à tona as delações dos empresários da JBS envolvendo o impopular Presidente da República em atos de corrupção.

Salvar o mandato passou a ser o foco do chefe do executivo e, para isso, foi necessário escancarar o orçamento da União para as emendas parlamentares da base aliada, nomear seus afilhados para cargos de recrutamento amplo em órgãos governamentais e até fazer reforma ministerial. Que oportunidade de negócios!

O fato é que o tempo passou na janela da crise política, a Reforma Trabalhista entrou em vigor emendada por uma medida provisória e o Presidente da República jogou a toalha em relação à urgente reforma da Previdência. Mas o mercado esperneou, como que a perguntar “como assim”? A pergunta foi suficiente para que o Governo Federal voltasse a sonhar, por necessidade, com a aprovação de alguns poucos itens só para dizer ao mercado que fez alguma Reforma Previdenciária neste ano.

Só que no meio do caminho para conseguir 308 votos dos deputados federais ainda neste ano e outros 49 do Senado no ano que vem estão as eleições do próximo outubro. Comprar apoio parlamentar vai ficando mais difícil e também mais caro à medida em que o tempo passa enquanto as contas públicas continuam “desnegoçadas”.

Como a ocasião faz o ladrão, o que fica claro é que urgência deixou de ter o significado que está no dicionário da língua portuguesa e o que importa é manter o poder apesar dos outros 99% da população.

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Uma constatação muito comum para diversas pessoas ao longo de um certo período de tempo, um mês por exemplo, é que o dinheiro no caixa pessoal ou familiar não foi suficiente para bancar todos os gastos e investimentos. Quem consegue observar e analisar as causas desse fenômeno bem como o processo que o gera pode ter boas surpresas. Entre elas podem estar causas como a falta de planejamento, o consumo impulsivo (ou quase doentio), o passo maior que a perna, a manutenção de uma aparência enganosa, um gasto inesperado com a saúde ou com a manutenção da moradia, o desemprego e assim por diante.

O que nem todos conseguem observar e perceber é o quanto se perde e se joga fora pelo ralo em desperdício explícito. Segundo um dos fundamentos da gestão, “quem não mede não gerencia e quem não controla também não gerencia” embora gerenciar não seja apenas controlar.  Será que os gastos de uma família de 2, 3 ou 4 pessoas com alimentação, higiene, limpeza medicamentos e lazer são medidos? No mínimo isso vai ajudar a verificar se o que foi gasto ficou nos limites do orçamento ou acabou indo muito além do previsto. Nesse caso é preciso encontrar as causas da diferença. Será que cotidianamente sobra comida no jantar, frutas se perdem ou o pão amanhecido não vira torrada e vão todos para o lixo? E o que dizer da não percepção de uma torneira pingando uma gota d’água durante dias, do excesso de lâmpadas acesas como se a residência fosse um palácio encantado?

Outro ponto que frequentemente fica negligenciado é o de contratos de telefone fixo, celular, internet e tv a cabo. O que foi assinado 5 anos atrás e nunca mais foi renegociado pode esconder uma perda desnecessária de dinheiro. Vale perder alguns minutos – ou horas – na conversa com o operador de telemarketing para renegociar as condições e valores e economizar.

Se os detalhes é que decidem, como enxergar as perdas advindas de um singelo e fraterno encontro com um grupo de amigos ou de familiares também amigos nas mesas de um bar ou restaurante? Na hora de se fazer os pedidos de bebidas e alimentos cada um pede o que quer, independente do preço. Só não se conversa como será dividida a conta. A prática mais comum nessas ocasiões é simplesmente se fazer a divisão da conta pelo número de participantes do encontro, independente da quantidade consumida individualmente. Assim, os que consomem menos pagam pelos que consomem mais, o que pode até causar um rombo no orçamento individual ou familiar em função da magnitude da conta.

Diversos outros exemplos de desperdícios que podem gerar perdas e comprometer os orçamentos de gastos devem ser lembrados aqui. Basta um pouco de esforço para tentar verificar como e em que foi gasto o dinheiro do orçamento. Infelizmente ainda faltam muita disciplina, método, foco e priorização para aquelas pessoas que não conseguem entender ou explicar o que está acontecendo com elas no plano financeiro.

Será que o que foi narrado aqui só se aplica aos outros ou, de repente, alguns dos aspectos mostrados podem até te ajudar a melhorar?

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No meu país

por Luis Borges 20 de novembro de 2017   Música na conjuntura

Faltam 34 dias para o Natal mas sua chegada já tem muitos sinais visíveis nos centros comerciais e na propaganda intensiva em diversas mídias. Celebrar um nascimento especial mobiliza os cristãos, o que acaba trazendo em sua movimentação também muitos não cristãos.

Fico pensando como será para os brasileiros a preparação da árvore de Natal e que expectativas nela serão colocadas. Afinal de contas as percepções que temos encontrado nesses últimos tempos quase nos obrigam a sonhar com dias muito melhores. Sei que as condições continuam bastante adversas, que vale tudo pelo poder – inclusive comprar a permanência nele, que reina muita apatia e muita vontade de deixar tudo pra lá em nome da sobrevivência.  Também acaba sendo obrigatório o convívio com as redes sociais, num ambiente de vigilância, pancadaria e sem que a verdade seja necessariamente um requisito fundamental.

Será que teremos um Advento a nos preparar para 2018, com eleições gerais, ou ficaremos desunidos e polarizados em nome das nossas verdades, enquanto o poder continuará nas mãos de sempre, mas apenas dividido entre poderosos antigos e poderosos novos.

O fato é que minha árvore de Natal balança, mas não sei se terá força suficiente para se somar a outras forças e ajudar a derrubar os problemas. Querer é a primeira condição, mas é preciso organizar o querer de cada um em busca de um grande bem querer. Um acalanto para nos ajudar a ter forças para prosseguir em nossos intentos pode vir da música No meu país, cantada por Zélia Duncan e Xande de Pilares, que também são os autores da letra.

No meu país
Fonte: Letras.mus.br 

No meu país um dia desses tem que chover
Chuva de paz e amor, um dia eu vou ver
O meu país tá precisando se resolver
Se vai olhar pro futuro ou envelhecer

No meu país um dia desses tem que chover
Chuva de paz e amor, tudo pra valer
O meu país tá precisando se resolver
Se vai olhar pro futuro ou envelhecer

Se vai cuidar da criançada ou vai mandar prender
Se vai ser bruto ou mandar flores pra surpreender
Se vai olhar naquele espelho e se reconhecer
Ladeira acima sem ter medo, lindo de morrer

Indo à luta pra vencer
Rindo, lindo de morrer
Hora de querer, hora de acertar
Hora de ser forte pra sobreviver

Igualdade pra sonhar
Quem não quer melhor viver
Hora de querer, hora de acertar
Hora de ser forte pra sobreviver

Quem não quer melhor viver
O povo tá querendo ver
Hora de querer, hora de acertar
Hora de ser forte pra sobreviver

Hora de querer, hora de acertar
Hora de ser forte pra sobreviver
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A tarde começava a cair na terça-feira 31 de outubro quando Roberto Márcio, amigo de quase quatro décadas, me informou pelo telefone que sua esposa Lídia Batista acabara de falecer. Do início do namoro até aquele momento passaram-se 45 anos de uma permanente construção a dois que nos legou, por exemplo, os filhos Rafael e Fernanda. Fiquei surpreso e perplexo, enquanto lágrimas caíam diante de tamanha perda, por se tratar de uma amiga com quem eu e Cristina sempre cultivamos uma amizade marcada pela presença efetiva. Não se tratava de uma amizade meramente registrada em cartório, a fazer parte de um rol de amigos que nunca acham tempo para se encontrar ou polir as amizades.

Uma característica marcante do jeito Lídia de ser era a firmeza na defesa de seus pontos de vista, mas sem necessariamente querer fazê-los prevalecer de qualquer maneira. Ela sabia deixar a cena para aguardar um outro momento mais oportuno para continuar tentando construir a hegemonia daquilo em que acreditava.

Quero destacar aqui três aspectos que a passagem da amiga trouxe para a minha reflexão e imagino que para algumas outras pessoas também.

O primeiro aspecto é relativo à surpresa que o comunicado do falecimento causou às pessoas do seu convívio pessoal e profissional em diferentes épocas. Ouvi gente perguntando por que ninguém, exceto sua família, soube o que estava acontecendo nos últimos meses em relação à sua saúde. Entendi perfeitamente a diretriz dada pela amiga e que foi plenamente cumprida pela família. Dá para imaginar a energia que foi poupada por não ter sido necessário ficar divulgando boletins médicos ou respondendo às mensagens de WhatsApp, tanto das pessoas solidárias quanto daquelas que só querem saber da novidade do último minuto. Realmente tudo é muito cansativo, principalmente num momento que exige muita temperança e conservação de energia para o enfrentamento da adversidade.

O segundo aspecto a destacar é sobre o posicionamento que as pessoas têm hoje em relação à destinação de seus corpos após o óbito. No caso de Lídia Batista a opção foi pela cremação e colocação das cinzas no jazigo da família. Essa decisão acaba suscitando uma pergunta que vai se tornando cada vez mais frequente com o passar do tempo: quando for a sua hora você vai querer o “forno” ou as bactérias para fazer a decomposição de seu corpo? Pelo que percebo a via bacteriana é a que mais prevalece, inclusive sob o argumento de ser um caminho natural. Eu continuo optando pela cremação com as cinzas sendo lançadas no Rio São Francisco.

O último aspecto é a constatação de que é cada vez maior o número de pessoas afirmando que só estão encontrando os amigos em velórios e com frequência cada vez maior, pois o seu universo de amizades tem muita gente na faixa dos 60 anos ou mais. Vale realçar o discurso de muitos dizendo que “é preciso fazer um encontro da turma enquanto há tempo”. Aliás, ouço muito isso também em festas de aniversário de nascimento de alguns dessa mesma turma. Tanto num quanto no outro ambiente não há boas condições para se conversar mais detidamente. Acredito que o maior desafio é encontrar quem tenha a iniciativa de propor e de fazer acontecer esses encontros. A continuar só no discurso sobrará apenas o encontro no velório enquanto houver vida.

E você, o que pensa de tudo isso?

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Espero que os observadores mais atentos das hortas e pomares de Minas Gerais já tenham percebido a presença marcante das jabuticabas nesta primavera. Esses frutos decorrem da floração ocorrida nos meses de julho e agosto. Após essa primeira safra teremos novas florações nos meses de novembro e dezembro, que formarão uma segunda safra a ser colhida em janeiro e fevereiro, na plenitude do verão.

Foto: Marina Borges

A jabuticaba é considerada uma fruta típica do Brasil e está presente em grande parte de seu território. Em Minas Gerais são bastante lembradas as jabuticabeiras da cidade histórica de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, que tem um festival anual da fruta, neste ano marcado para os dias 17 a 19 de novembro. Os apaixonados pela frutinha podem alugar um pé de jabuticaba durante o festival e degustar jabuticabas direto da fonte.

Foto: Sofia Magela

Quem passa pelas rodovias também encontra jabuticabas sendo vendidas às suas margens como, por exemplo, na BR-356 que liga Belo Horizonte a Ouro Preto. Bom seria também ser convidado por uma pessoa amiga para chupar jabuticabas direto no pé existente em seu quintal ou seu pomar. Ou também receber diretamente em casa uma certa quantidade trazida pelo amigo numa cordial visita.

As fotografias deste post mostram jabuticabeiras que encantam os quintais de duas residências neste mês de novembro. E como estão saborosas!

Foto: Marina Borges

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Se pensata é um pensamento que se registra numa espécie de ata, faz-se necessário registrar neste momento alguns sonhos e propósitos relativos aos temas que surgem em minha mente sempre aguçada.

Pela lei brasileira estou passando pelos primeiros dias do 4º ano de minha fase idosa da vida, pois completei 63 anos de idade no último dia 24 de outubro. Não fico matutando sobre quantos anos se passarão para que meu curso da vida chegue ao fim, mas tenho conhecimento de que a atual expectativa média de vida dos brasileiros está em torno de 77 anos segundo o IBGE.

Entre os muitos cumprimentos que recebi pelo aniversário, num deles chamou minha atenção a pergunta direta, sem rodeios, feita por um amigo. Ele me perguntou como eu imaginava – ou gostaria que fosse – o final de minha passagem pela Terra nessa encarnação. Respondi sem pestanejar que espero ter o merecimento de ser desligado deste plano de maneira repentina e na plenitude de minha autonomia, mesmo que a independência esteja limitada por alguma restrição nas condições funcionais. Seria como um passarinho que estivesse cantando e, de repente, parasse de cantar para sempre.

Se não for o caso desse tipo de merecimento, e se eu pudesse fazer uma segunda opção, seria recebendo apenas cuidados paliativos em todas as suas dimensões, ainda que numa clínica especializada, poupando ao máximo os queridos familiares e amigos, mas sem nenhuma obsessão terapêutica em prol de uma cura que se assemelha a um ponto extremamente fora de qualquer curva.

O amigo ficou um pouco assustado com a clareza e a instantaneidade das minhas respostas, dizendo que também sonhava em ter o merecimento de partir de repente para não sofrer muito e também para não dar muito trabalho às pessoas que o cercam. Acabamos nos despedindo concordando que precisamos conversar mais sobre a finitude da vida e como poderemos melhor elaborar nossos posicionamentos diante de um fato inexorável e do qual não teremos como desviar, talvez só gerenciar para adiar.

E você, já gastou algum tempo para pensar na finitude da sua vida?

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Vale a leitura

por Luis Borges 6 de novembro de 2017   Vale a leitura

Vida de desempregado

O cantor e compositor Chico Buarque diz, em sua música “Roda Viva”, que “a gente vai contra a corrente até não poder resistir, na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir”. Quem não acredita ou não consegue se planejar e agir para viver de maneira sustentável na fase idosa da vida pode ter surpresas que nem sempre imaginamos.

Um caso bem ilustrativo dessa situação é contado pelo jornalista Ricardo Kotscho em seu artigo Vida de desempregado, publicado no Blog do Gérson.

Sempre fui empregado, nunca tive negócios ou outras rendas fora do salário.
O que ganho de aposentadoria do INSS mal dá para pagar o plano de saúde.
Então, não tem outro jeito: depois de uma breve folga na Semana da Criança para curtir os netos na praia, comunico à praça que estou de volta ao mercado, como se diz.
Qualquer trabalho honesto na minha área me interessa.

Explicitando uma ideologia

O que está explícito ou escondido num conjunto de ideias que dão suporte à ideologia, a um indivíduo ou a um grupo social? Que formas de atuação podem ser usadas para construir a hegemonia de uma ideologia? Leonardo Boff mostra a sua visão no artigo A ideologia é como a sombra: sempre nos acompanha.

Cada grupo social ou classe projeta uma ideologia, uma visão geral das coisas. A razão é que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Se alguém tens os pés na favela, tem uma certa ideia de mundo e de sociedade. Se alguém tem os pés num apartamento de luxo junto à praia, tem outra ideia do mundo e da sociedade. Conclusão: não só o indivíduo, mas também cada grupo social ou classe, inevitavelmente elaboram sua visão da vida e do mundo a partir de seu lugar social.

Nem todas as amizades serão duradouras

Qual é o tempo de duração de uma amizade entre duas pessoas? Qual é a dosagem de presença necessária de cada uma das partes para gerenciar e oxigenar os sentimentos que se tem? Sempre será possível manter uma amizade mais antiga, desfazer-se de outras e encontrar novas possibilidades, mas essencialmente tudo depende de nós e de nossas percepções sobre o valor que a amizade tem para nós, inclusive em função das circunstâncias em que surgiu ou em que perderam o sentido. Eugênio Mussak aborda a amizade em seu artigo As rolinhas, publicado pela revista Vida Simples.

Minha crença é de que não devemos perder nenhuma oportunidade de fazer mais um amigo. É claro que serão muito variadas as intensidades entre as amizades que fazemos ao longo da vida, mas isso não importa. É muito gostosa a sensação de saber que existe alguém que lembra de você com um sentimento bom, ainda que fugaz.

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