Vale a leitura

por Luis Borges 27 de agosto de 2017   Vale a leitura

Os custos de uma herança

São muitas as pessoas que sonham em receber uma herança diretamente dos pais ou mesmo de avós, tios e padrinhos. Quem também ficará de olho no seu possível ganho será o estado da Federação em que ocorrer o inventário, pois o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens ou Direitos – ITCD pode chegar a até 8% do valor dos bens envolvidos. Também existem os custos dos honorários dos advogados que trabalham no inventário, que necessitam ser muito bem negociados. Como as pessoas não gostam de conversar muito sobre a morte, muitas delas acabam sendo surpreendidas pela falta de conhecimento sobre a legislação que envolve a destinação dos bens de quem parte desta vida. Muitas são as possibilidades e decisões que podem ser tomadas ainda em vida e com lucidez, inclusive para reduzir custos nos momentos futuros. É esclarecedora a abordagem de vários aspectos sobre o tema feita por Marcia Dessen em seu artigo Doação pode reduzir custo de inventário publicado pela Folha de S. Paulo.

“A doação em vida pode reduzir os custos do inventário. Quem tem herdeiros necessários precisa deixar claro que a doação feita a eles não é adiantamento da herança e, portanto, não deve ser incluída no inventário. Essa medida reduz as custas do inventário e honorários advocatícios”.

Pragmatismo no trabalho

Em tempos tão difíceis para quem vende ao mercado a sua capacidade de trabalho continua em pauta a permanente discussão sobre fazer o que se ama ou amar o que se faz. Sobreviver, viver e crescer competindo num jogo que às vezes vai muito além das regras estabelecidas acaba sendo um desafio permanente que exige altas doses de resiliência. Gabriela Guimarães e Veridiana Mercatelli apresentam suas percepções sobre o amor ao trabalho no artigo Sabe aquela história de que é preciso amar seu trabalho? É mentira, publicado pelo UOL Comportamento.

“Diversão eu tenho com meus amigos, minha namorada, minha família. Trabalho, para mim, é só uma maneira de pagar minhas contas e bancar meus momentos de lazer. Quando comecei a pensar assim, parei de sofrer tanto por trabalhar com algo de que não gostava.”

Incentivos para os devedores de tributos

Os altos índices de pessoas físicas e jurídicas inadimplentes com os seus tributos tem contribuído para a queda da arrecadação da União, estados e municípios. Como suas despesas continuam crescentes e eles não conseguem reduzir seus custos nem pelo combate ao desperdício, o jeito é lançar promoções com ótimos descontos e longos prazos de pagamentos para os devedores. Isso acaba também estimulando atrasos por parte de quem passa a contar com uma futura condição melhor e pode desestimular quem paga seus tributos rigorosamente em dia. É o que aborda Gesner Oliveira em seu artigo Ser bonzinho demais hoje com quem deve impostos é garantia de calote futuro.

“Se as empresas e pessoas físicas sabem que haverá oportunidade de refinanciamento do pagamento de impostos em termos comerciais de pai para filho, ninguém vai querer pagar. Ser bonzinho demais com quem deve impostos não só significa calotes no futuro como vai acabar com a galinha de ouro e irá ampliar o drama fiscal do país”.

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Desde 2014 que o Brasil está trabalhando com déficits crescentes nas contas públicas sendo que em 2017 a diferença entre o orçado e o realizado chegará a 159 bilhões de reais, valor que também está garantido para 2018. A estimativa mais próxima para uma volta ao superávit primário é o ano de 2021, com singelos 10 bilhões de reais. E por que singelos? Simplesmente porque quando é para gastar todo mundo enche a boca para defender o seus direitos adquiridos, sem se preocupar com a sua sustentabilidade e até mesmo com a sua moralidade.

Isso equivale a se ter apenas a preocupação em gastar, sempre contando também com ovos que as galinhas ainda não botaram. Os órgãos públicos da União, estados e municípios tentam tapar o sol com a peneira, negando em seus atos que a arrecadação pública caiu apesar da exorbitante carga tributária, enquanto deixam imexíveis os grandes e crescentes gastos. Se numa família, empresa e outros tipos de organizações humanas que estejam em crise causada pela perda do trabalho, renda ou encolhimento da economia torna-se obrigatório agir para reequilibrar as contas segundo a nova realidade porque tanta dificuldade do poder público para agir racionalmente? Não dá para prolongar indefinidamente essa busca, apenas esperando que nos próximos meses as coisas se resolvam naturalmente.

Até quando os poderes públicos vão continuar ignorando, negando ou dando desculpas enquanto acumulam déficits e aumentam as dívidas sem se preocupar com suas consequências imediatas e futuras? A dívida publica já passa de 3,357 trilhões de reais e o déficit de 2016 a 2018 já se aproxima de meio trilhão. Reconhecer as causas desse calamitoso desequilíbrio pelo qual passam as contas públicas é tarefa urgente, pois só aumentar tributos não há mais quem aguente. Continua fazendo muita falta a utilização de um sistema de gestão estruturado, com verificação da conformidade do que for especificado pela definição de prioridades para a aplicação dos recursos públicos. Falta foco nas necessidades da população e também combate permanente aos desperdícios de recursos humanos, materiais e financeiros dentre outros. É preciso liderança, transparência, comprometimento, confiança. E também a população constantemente nas ruas colocando em prática, em marcha, o que se cobra em silêncio unitário pelas redes sociais. Se o olho é maior que a boca e não há capacidade de processo para botar tantos ovos, está passando da hora de se cortar mordomias, privilégios, super classes de funcionários públicos, aposentadorias também privilegiadas para muitos de seus agentes, corrupção.

Só para exemplificar eu poderia perguntar quem sentiria falta do auxílio moradia de R$4.377,00 mensais isentos de impostos e comprovação do gasto, da aposentadoria média de 26 mil reais mensais no poder legislativo federal, dos jatinhos da FAB transportando autoridades em carreira solo, da troca de apoio político por emendas parlamentares, do financiamento público para os partidos políticos, do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV pago pelo Tesouro Nacional, do fundo público para financiamento das eleições, dos juros subsidiados a longo prazo pelo BNDES…

Como se vê não dá mais para segurar o modelo que vem sendo praticado. A solução passa pela formulação de novas estratégias para uma sociedade cujos limites de paciência não são plenamente conhecidos.

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Se forma e conteúdo caminham lado a lado naquilo que fazemos, é preciso redobrar as atenções para que não haja muito desequilíbrio no ato de operar um processo que levará a um resultado. Nessa era em que convivemos com tanta inovação e muitas incertezas é preciso estar atento para não cair na ostentação e no uso indiscriminado de tantos dispositivos tecnológicos. É muito fácil perder o foco, desviar-se da essência simples do conteúdo da mensagem e se perder no excesso de imagens, na conexão instantânea com a extensa rede sem nenhuma priorização.

Estou dizendo isso para narrar um fato que ocorreu no início de agosto em Belo Horizonte. Uma agência de publicidade foi chamada pelo presidente de uma empresa do setor de transporte de cargas para conversar sobre uma prestação de serviços ligados à marca e à imagem do seu negócio. A reunião foi agendada com a expectativa de que teria uma hora de duração. A agência de publicidade foi representada pelo diretor executivo e por um gerente de projetos, que tinham a missão de ouvir a necessidade do possível cliente para elaborar uma proposta.

A reunião teve início com a fala do presidente da transportadora, apresentando uma breve história do seu negócio. Logo em seguida, passou a expor as suas necessidades e expectativas. Enquanto o diretor executivo da agência ouvia atentamente o que estava sendo falado, seu gerente de projetos conferia as mensagens que chegavam pelo celular e também digitava imediatamente as respostas num dinamismo incrível.

Quando a reunião estava chegando aos 20 minutos de duração, o presidente começou a falar sobre como gostaria de receber a proposta e perguntou em quanto tempo o serviço seria feito caso fechassem o negócio. Nesse instante o gerente perdeu o foco no celular e pediu ao possível cliente que repetisse a última parte de sua fala. O presidente disse que não repetiria nada do que havia falado e que sua postura desatenciosa havia “talhado o seu sangue”. Em seguida solicitou o fim da reunião e das conversações, pois perdera o interesse pelo negócio diante do desinteresse demonstrado pelo gerente de projetos durante aqueles 20 minutos. Arrematou dizendo que, se houvesse algo muito urgente pra ser resolvido pelo celular, era só combinar uma ligeira licença mas nunca ficar de corpo presente porém desligado da reunião.

Após o pequeno caos instalado e a firmeza do presidente só restou aos profissionais da agência deixar o local com a imagem arranhada, sem olhar para trás. Logo eles, que foram à empresa para negociar serviços ligados à marca e à imagem num mercado tão difícil nesses tempos de crise prolongada.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 21 de agosto de 2017   Curtas e curtinhas

Hidrelétricas

A Cemig entregou ao Ministério do Planejamento uma proposta para continuar com a propriedade de três das quatro usinas hidrelétricas que a União quer leiloar por 11 bilhões de reais, com os quais o Governo Federal conta para combater o rombo nas contas públicas. A Cemig propõe devolver a usina de Volta Grande, avaliada em R$1,3 bilhão, e quer ficar com as de Jaguara, Miranda e São Simão, avaliadas em R$9,7 bilhões. Mas a empresa dispõe de apenas 3,5 bilhões de reais e precisará conseguir os outros 6,2 bi restantes através de empréstimos junto a uma rede de bancos liderados pelo BNDES. Como sempre, surge a necessidade do estatal BNDES entrar na jogada para viabilizar os negócios do capitalismo sem riscos. Ainda falta o julgamento do Supremo Tribunal Federal para definir se a Cemig tem o direito de manter as concessões por mais 20 anos ou se a União terá o direito de fazer o leilão, conforme estabeleceu em 2012. Enquanto isso prossegue as mobilizações em defesa da estatal.

Rescisão

A legislação resultante da Reforma Trabalhista entrará em vigor a partir de 13 de novembro de 2017. Algumas mudanças foram muito contestadas, como a prevalência do negociado sobre o legislado e o fim da contribuição sindical obrigatória, por exemplo. Entre as que repercutiram menos estão o fim da homologação da rescisão do contrato de trabalho para quem trabalhou mais de um ano feita no sindicato dos empregados, que passará a ocorrer na empresa contratante, e o fim da obrigatoriedade do registro do plano de cargos e salários no Ministério do Trabalho e do próprio contrato social. Ou seja, tudo será acertado diretamente entre patrões empregados.

Será que o Governo Federal ainda vai encontrar uma fórmula para recriar a contribuição sindical com outra embalagem?

R$10,00 a menos

O Ministério do Planejamento projetava na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2018 o valor de R$979,00 para o salário mínimo. Agora em função da queda da inflação revisou sua projeção para 969 reais e, com isso, passou a sonhar com a possibilidade de contar com mais 3 bilhões de reais advindos dessa diferença de R$10,00. Vale lembrar que 22 milhões de aposentados e pensionistas do INSS recebem um salário mínimo mensal.

O que poderá ser feito com esse dinheiro é pergunta que nem deveria ser feita, pois só a proposta de fundo para financiar as eleições de 2018 já teria a prioridade zero e o auxílio moradia de 4.377 reais para o Poder Judiciário e Ministério Público viria logo a seguir. Gastar é bem mais fácil e no máximo é ter um pouco de paciência para aprovar no Congresso Nacional o aumento da meta do déficit das contas públicas.

Seguros de automóveis

A Superintendência de Seguros Privados, autarquia da Administração Pública Indireta Federal brasileira, informou que o mercado de seguros para automóveis cresceu 5,8% no primeiro semestre deste ano quando comparado ao igual período de 2016. Esse crescimento se deve muito mais ao aumento dos valores cobrados pelas seguradoras, devido ao crescimento do roubo de veículos, do que uma maior recuperação do setor automotivo.

Já a Federação Nacional de Seguros Gerais estima que de 65% a 70% das pessoas físicas proprietárias de veículos não possuem seguros desses bens, o que demonstra a existência de uma boa fatia de mercado que ainda pode ser melhor explorado.

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Basta morrer para virar santo

por Luis Borges 19 de agosto de 2017   Pensata

Quase ninguém se assusta mais ao ouvir alguma afirmação alusiva aos tempos difíceis e desafiantes que estamos vivendo. A estratégia é de sobrevivência e de muita vigilância em relação a finanças, segurança, saúde, relações sociais e pessoais. Especificamente nesse aspecto – e principalmente para quem está atravessando os 50 anos em diante – muitas tem sido as oportunidades para refletir sobre a finitude da vida.

A cada dia e à medida que o tempo escoa em regime permanente continuamos a ser surpreendidos e a nos assustarmos com algumas frases simples e diretas. “Você já ficou sabendo o que aconteceu?” “Sabe quem morreu?” Entre a reação de surpresa ou a confirmação de que já sabia, rola um pouco de tudo ou até mesmo de nada. Famosos ou anônimos, o fato é que cada acontecimento tem a repercussão com a intensidade de tamanho proporcional à mídia. Todas as variáveis que envolvem o acontecimento podem ajudar muito a formar pautas para conversas que envolvem dor, lamento e enaltecimento em torno de quem partiu.

Na semana passada acabei sendo envolvido numa típica situação como essa. Um colega de trabalho do final da década de 80 me fez uma visita pelo telefone. Assim que eu o atendi, ele me cumprimentou rapidamente e foi ansiosamente perguntando se eu tinha ficado sabendo da morte do nosso chefe de outrora. Enquanto eu dizia que já sabia, o colega disparou a manifestar seus mais profundos sentimentos pela perda do chefe ainda tão jovem, com apenas 82 anos de idade. Prosseguiu na falação dizendo que o ex-chefe era como um pai para ele e demais chefiados, mesmo nos momentos mais difíceis que enfrentamos juntos durante aqueles 5 anos. Quando o colega começou a enaltecer uma série de virtudes que eu nunca vi serem reconhecidas em vida, pedi para que ele desse uma pausa em sua fala e me ouvisse. Assustado e surpreso, ele parou de falar. Então aproveitei a oportunidade e fui direto ao ponto dizendo que lamentava a perda da vida de um ser humano, mas que a morte era parte do processo da vida e até mesmo do renascer para quem acredita. Disse também que mantinha todas as observações, percepções e análises que tinha do chefe e que trabalhamos profissionalmente cumprindo papeis previamente estabelecidos, ele como chefe e eu como especialista no negócio de atuação. Encerrei dizendo que nosso ex-chefe tinha o ego autocrata e que a sua morte não mudaria em nada a minha percepção sobre ele e nem ajudaria a transformá-lo num santo post mortem.

Em seguida o colega ainda surpreso com o teor da minha fala perguntou se eu iria ao velório do corpo. Eu disse que não, pois meu contato com ele era meramente profissional o que me levou a nunca ter tido contato com seus familiares. Concluí dizendo que, dentro dessa mesma diretriz, eu também não compareceria a nenhuma cerimônia religiosa do tipo missa de 7º dia ou culto.

E assim nos despedimos, com o colega dizendo que logo em seguida seguiria para o velório no cemitério com a expectativa de lá encontrar alguns outros colegas de trabalho da época. Assim ainda fiquei imaginando por alguns segundos se lá chegando o colega ainda continuaria insistindo em santificar o morto.

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Cheguei a Belo Horizonte em 6 de agosto de 1973 como já contei aqui no blog. Alguns dias depois, num feriado de 15 de agosto como hoje, fui visitar e conhecer pela primeira vez a Praça da Liberdade, um dos grandes símbolos da cidade de Belo Horizonte.

Agora já se passaram 44 anos e a praça prossegue sempre marcante por tudo o que nos pode proporcionar. Aliás, naquele dia eu nem imaginava que uma década depois eu estaria trabalhando na Praça, na esquina com a Rua Gonçalves Dias, onde funcionava a sede da Copasa, no prédio da Secretaria Estadual de Obras.

A preservação e manutenção da Praça e seu entorno deveriam ser parte fundamental do compromisso e da ação de todos em prol da sustentabilidade desse patrimônio da cidade que a todos beneficia de uma maneira ou de outra. Se em 1991 foi um grande alívio a mudança da Feira de Artesanato da Praça da Liberdade para a Avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte, sempre é preciso lembrar que a vigilância deve ser permanente e em todos os sentidos. Não podemos descuidar em meio a tantos contrastes que podem passar despercebidos em alguns momentos de pouca atenção aos detalhes.

Um bom exemplo pode ser visto nas fotografias deste post, que foram feitas dias atrás na plenitude do nosso inverno. A beleza dos ipês roxos é um convite à nossa contemplação e admiração, mas não podemos deixar de registrar o lixo que se acumula entre as hortênsias, que estão bastante maltratadas, ou a falta de grama nos canteiros neste tempo seco. Se a Praça da Liberdade já tem 120 anos é preciso sempre lembrar que nós e ela podemos muito mais. O que depende só de nós.

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*por Sérgio Marchetti

Caro leitor. Ninguém melhor do que os grandes compositores para falarem por nós sobre aqueles dias em que o mundo parece estar desabando sobre nossas cabeças.  Porém, aqueles compositores também estão acabando.  Sinto falta de ouvir poesia cantada. Mas os poetas e… “(…)Românticos são poucos/Românticos são loucos desvairados/Que querem ser o outro/Que pensam que o outro é o paraíso/ Românticos são lindos /(…)” “(…) /Romântico/ É uma espécie em extinção(…)”

Sabem o que queria agora? Assistir a um show do Vander Lee. Queria ouvir seu canto, cuja essência nascia da profundidade da alma. Queria compartilhar de sua sensibilidade para ver que os rios cantam para as nuvens e que, aquelas, estando emocionadas, derramam lágrimas sobre seus leitos, os abastecem e lhes dão vida.

 “(…) Sabe o que eu queria agora, meu bem?/Sair, chegar lá fora e encontrar alguém/ Que não me dissesse nada/ Não me perguntasse nada também/ Que me oferecesse um colo ou um ombro/ Onde eu desaguasse todo desengano/ Mas a vida anda louca/As pessoas andam tristes/ Meus amigos são amigos de ninguém/Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?/ Morar no interior do meu interior/Pra entender porque se agridem/ Se empurram pro abismo/ Se debatem, se combatem sem saber/ Meu amor/ Deixa eu chorar até cansar/ Me leve pra qualquer lugar/Aonde Deus possa me ouvir(…)”

Romântico é assim: chorão, idealista, justiceiro, bucólico, ufanista incorrigível que deseja mudar o país e o mundo.

“(…)Falar do Brasil sem ouvir o sertão/ É como estar cego em pleno clarão/ Olhar o Brasil e não ver o sertão/ É como negar o queijo com a faca na mão/ Esse gigante em movimento/ Movido a tijolo e cimento/ Precisa de arroz com feijão/ Que tenha comida na mesa/ Que agradeça sempre a grandeza/ De cada pedaço de pão/ Agradeça a Clemente/ Que leva a semente/ Em seu embornal/ Zezé e o penoso balé/ De pisar no cacau/ Maria que amanhece o dia/ Lá no milharal/ Joana que ama na cama do canavial/ João que carrega/ A esperança em seu caminhão/ Pra capital(…)”

Permitam-me caros leitores tomar um pouco mais de seu tempo para poder dizer que aquele poeta pede ao Pai que a fria luz da razão não lhe cale a poesia, em sua metáfora, ele é um domador que laça acordes e versos que vagam no ar, dispersos no tempo. Ele vê um trabalhador que dança balé enquanto pisa no cacau. E, estando nu, se veste da poesia para poder perceber que quando a noite chega, o sapo namora a lua. Ele quer ter o direito à vadiagem; pede para perder a hora, só para ter tempo de encontrar a rima e ver o mundo de dentro para fora. Pede ao Pai (como se soubesse que o Pai lhe preparava outro caminho) o direito de dizer coisas sem sentido e, quanto mais dizia, mais sentido colocava nas coisas – tamanha a profundidade de seus versos.

 “(…)Ó, Pai/ Não deixes que façam de mim/ O que da pedra Tu fizestes/ E que a fria luz da razão/ Não cale o azul da aura que me vestes / Dá-me leveza nas mãos/ Faze de mim um nobre domador/ Laçando acordes e versos/ Dispersos no tempo/ Pro templo do amor/ Que se eu tiver que ficar nu/ Hei de envolver-me em pura poesia/ E dela farei minha casa, minha asa/ Loucura de cada dia/ Dá-me o silêncio da noite/ Pra ouvir o sapo namorar a lua/ Dá-me direito ao açoite/ Ao ócio, ao cio/ À vadiagem pela rua/ Deixa-me perder a hora/ Pra ter tempo de encontrar a rima/ Ver o mundo de dentro pra fora/ E a beleza que aflora de baixo pra cima/ Ó meu Pai, dá-me o direito/ De dizer coisas sem sentido/ De não ter que ser perfeito/ Pretérito, sujeito, artigo definido/ De me apaixonar todo dia/ E ser mais jovem que meu filho/ De ir aprendendo com ele/ A magia de nunca perder o brilho/ Virar os dados do destino/ De me contradizer, de não ter meta/ Me reinventar, ser meu próprio deus/ Viver menino, morrer poeta.”

Mas o poeta, que pedia tempo para encontrar a rima, não teve tempo. Foi brilhar no céu.

“(…)Veio a manhã e eu parti/ Os astros podem contar/No dia em que me perdi/Foi que aprendi a brilhar/ Eu vi/ Virei estrela (…)”

A benção, poeta Vander Lee.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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