Vale a leitura

por Luis Borges 13 de dezembro de 2015   Vale a leitura

Viver sem carro

O desenvolvimento econômico brasileiro se deu fortemente focado na indústria automobilística e no rodoviarismo. O impacto em nossa cultura nos últimos 60 anos foi inevitável e é inegável. Quem não tem um carro sonha em ter um e quem já tem o cultiva como parte da família. As condições de crédito e o aumento do poder aquisitivo em períodos recentes só fizeram aumentar a frota de novos veículos a circular pelas nossas vias públicas. Ainda que o mercado tenha decaído do ano passado para cá e os combustíveis tenham aumentado de preço, o carro está sempre em evidência.

No artigo “Por que escolhi viver sem carro (e só ganhei com isso)” o jornalista e blogueiro Rafael Sette Câmara conta sua experiência de abandonar o veículo e privilegiar o transporte público. Como você se sentiria ficando um dia, uma semana, um mês ou um ano sem carro? Ou você nem chega a cogitar essa hipótese?

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Transporte público por ônibus em Belo Horizonte. / Foto: Sérgio Verteiro

Poupança x inflação

Poupar sempre um pouco do que se ganha é um dos fundamentos da educação financeira. O meio escolhido para guardar esse dinheiro ainda é, para muitos, a caderneta de poupança. As razões são culturais e conhecidas: liquidez, facilidade, modalidade garantida pelo governo. Neste texto o economista Samy Dana relembra que a poupança nem sempre é o melhor investimento, principalmente em épocas de inflação muito alta.

Escolher um novo destino para suas economias pode não ser tão prático como transferir dinheiro para uma conta poupança mensalmente. É algo que requer pesquisa e empenho para conhecer um novo instrumento financeiro. O resultado deste esforço, se reflete no seu bolso. Para buscarmos caminhos mais assertivos na vida, é preciso determinação e disposição para a mudança. No futuro, sua rentabilidade agradecerá.

1992 / 2015

O que aproxima e o que diferencia os processos de impeachment de Fernando Collor e de Dilma Rousseff? O jornalista Clóvis Rossi, que cobriu o assunto em 1992, apresenta suas recordações e suas análises neste depoimento publicado na Folha. 

 

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Problemas crônicos de Santa Tereza

por Luis Borges 9 de dezembro de 2015   Pensata

Um dos mais antigos e tradicionais bairros de Belo Horizonte, Santa Tereza tem cerca de 16 mil habitantes, segundo o IBGE.

Feira na Praça Duque de Caxias em dezembro de 2014. / Foto: Marina Borges

Feira na Praça Duque de Caxias em dezembro de 2014. / Foto: Marina Borges

Como todo bairro da cidade, também enfrenta problemas. Alguns se tornaram problemas crônicos, já que não foram combatidos assim que surgiram.

Acredito que identificar um problema é metade da sua solução. Por isso, sistematicamente mostramos situações vividas no bairro e na cidade aqui no Observação e Análise. Chegado dezembro, mês de balanços, temos uma boa oportunidade para relembrar situações existentes no bairro. Os problemas elencados aqui não têm ordem de prioridade para ser resolvidos, e foram levantados por mim e também por diversos moradores com quem convivo.

Trânsito

Rua Mármore, via de entrada no bairro. Logo no início, no cruzamento com a Rua Gabro, já temos um gargalo, principalmente nos horários de pico – são muitos veículos querendo entrar no bairro, sair do bairro, pegar outras ruas. Em dia de jogo no Estádio Independência fica quase impossível passar ali, à pé ou de carro. O pedestre que quiser atravessar com segurança, independente da idade, vai precisar de muita paciência. Falta ali uma solução que priorize a segurança de todos, pedestres, ciclistas, motoristas. Seria o caso de usar o padrão que a BHTrans vem aplicando no Centro da cidade?

O tráfego no bairro parece cada vez mais intenso do ponto de vista de quem mora nele. A falta de educação no trânsito, aliada à ausência de fiscalização, contribui para complicar ainda mais as coisas. Um caso foi mostrado neste post, quando uma pessoa desrespeitou as regras de estacionamento perto de esquinas e atrapalhou a vida de todos que circulavam no local. Vale dizer que esse comportamento, infelizmente, não é um caso isolado.

Outro problema comum é a circulação de veículos em velocidade superior à permitida nas ruas do bairro. Também estamos vendo cones reservando vagas para lavação de carro e para estacionamento em frente a estabelecimentos comerciais, o que não é permitido.

Por fim, é preciso lembrar os grandes eventos culturais, como Carnaval de Rua e shows na Praça Duque de Caxias. Os moradores sofrem com veículos parados em portas de garagens e também com os mal-educados que ignoram os banheiros químicos.

Sujeira e abandono

Há pontos no bairro que são conhecidos como locais de sujeira e abandono. É o caso do “cemitério” de veículos nas ruas Tenente Durval e Tenente Vitorino, que já foi mostrado aqui no início deste ano. Como se vê na foto abaixo, da Rua Tenente Durval, há veículos que continuam por lá. Segundo moradores, alguns há mais de 3 anos.

Foto: Sérgio Verteiro

Foto: Sérgio Verteiro

Na Rua Nefelina há um lixão, sempre recebendo todo tipo de contribuição e gerando insegurança para moradores e visitantes.

Foto: Sérgio Verteiro

Foto: Sérgio Verteiro

Barulho excessivo

Também é preciso lembrar de algumas composições ferroviárias, mais longas e barulhentas, rasgam a madrugada dos moradores que estão mais próximos da linha do trem. Vale mencionar também que algumas caixas de som, em volume muito alto, ficam ligadas até altas horas, com som que se propaga ao longe, principalmente de quinta a sábado.

O que fazer?

Se identificar o problema é metade da solução, a segunda metade depende de ação. Resolver estes e outros problemas crônicos do bairro depende da ação e cooperação de todos os envolvidos, para que os problemas possam desaparecer em um determinado horizonte de tempo.

Sabedor de que essas situações não são exclusivas de Santa Tereza – pelo contrário, estão presentes em muitos outros bairros da cidade – reafirmo a minha certeza de que só nos resta encarar e lutar pela sua solução. Mesmo sabendo que os esforços serão desiguais, mas que poderão ser combinados conforme o pique e a vontade de cada um. O que não dá é para negar, ignorar ou dar desculpas diante da realidade em que estamos inseridos e vivemos.

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E agora, José?

por Convidado 7 de dezembro de 2015   Convidado

por Sérgio Marchetti*

Caríssimos leitores,

Venho por estas mal traçadas linhas contar a minha história. Não vou tomar o tempo de vocês, pois não tenho muito para falar. Meu nome é José, mas sou conhecido como Zé do Bento. Isso mesmo, Zé do Bento Rodrigues. Nascido e criado num distrito de Mariana. Ninguém me conhecia. Eu não tinha fama e nunca havia aparecido na televisão. Hoje sou famoso. Vejam a ironia do destino. Por causa da lama, criei fama e já estou até fazendo rima. Digo a vocês que “Eu já fui muito feliz, vivendo no meu lugar. Eu tinha um cavalo bom e gostava de campear… Morreu minha Vaca Estrela, se acabou meu Boi Fubá. Perdi tudo quanto eu tinha, nunca mais pude aboiar”... (P.A.)

Minha casa era humilde. Uma casinha branca com varanda e vista para a serra, um quintal e uma janela para ver o sol nascer. Eu queria ter na vida, simplesmente, um lugar de mato verde pra plantar e pra colher (P.). E tive. Mas um dia, como num filme de terror, parecendo o vulcão de Pompeia, um rio, com a força do mar bravio, invadiu o nosso mundinho e cobriu de lama a nossa história. Nós não temos mais memória. Não perdemos “apenas” o gado, nossas casas, familiares e amigos. Perdemos nossa referência, nos perdemos de nós mesmos e, literalmente, tiraram nosso chão. Agora, caminhamos “contra o vento, sem lenço e sem documento”. (C.V.) Éramos religiosos, festeiros e muito alegres. Recebíamos os visitantes que queriam encontrar a paz, a simplicidade e o silêncio. Jipeiros, ciclistas, motociclistas e caminhantes preenchiam nossa rotina com uma prosa agradável.

Em nossa inocência, por estarmos longe das grandes cidades, pensávamos que éramos imunes à lama de desonestidade que cobre o Brasil. Porém, havia outra lama, que não continha metáforas nem escondia a sujeira de um Brasil em decomposição. Mas, em vez disso, uma enchente que viria carregada de rejeitos de minério para soterrar a nossa história.

Imagem de satélite mostrando a área atingida pela lama em Mariana. / Foto:  Globalgeo Geotecnologias, retirada do portal G1

Imagem de satélite mostrando a área atingida pela lama em Mariana. / Foto: Globalgeo Geotecnologias, retirada do portal G1

Mesmo ferido de morte pelas perdas, mesmo com a alma em frangalhos e o coração estraçalhado penso que nossa única opção é a de refazer alguma parte de nossas vidas, já que outras estão definitivamente sepultadas. Não gosto de falar de culpados. Encontrá-los é uma forma de distrair a atenção de quem está emocionalmente revoltado e aspirando por justiça. Mas não resolve o problema. As autoridades devem procurar as causas – por trás delas, fatalmente, se houver, estarão os verdadeiros culpados.

Sei que aos olhos da ganância nós não possuíamos nada. Mas quando o nada é tudo que temos, aprendemos a amar e preservar o pouco que a vida nos permitiu conquistar. Perdemos tudo sim  – não caçoem nem nos impeçam de dizer esta frase – porque está doendo em nós.

Saibam, leitores que tiveram a paciência de ler meu relato, que acredito que o ambiente molde as pessoas e que, de tanto lidarem com o minério, algumas delas ficaram duras, frias e com alma de ferro. Há mais de quarenta anos muitos brasileiros vêm lutando para que preservemos as montanhas e deixemos nossas serras e sertões existirem. Mas a ganância cega é maior do que a preservação da própria vida. E o sertão virou mar… de lama.

Vocês, leitores, me perguntam: e agora, José? “Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?” (C.D.A.)

Que as perdas imputadas aos moradores e ao meio ambiente de todos os municípios atingidos possam ser reparadas no menor espaço de tempo possível.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Sempre alerta

por Luis Borges 3 de dezembro de 2015   Pensata

São demais os perigos dessa vida. Muitas vezes eles se tornam invisíveis, mesmo estando muito próximos de nós. É preciso estar sempre alerta. O risco é permanente e deveria ser atenuado pela sua gestão. No entanto, muitas das ações que deveriam ser feitas são deixadas de lado, tanto por nós quanto pelos outros, que deveriam agir no processo de fazer as coisas acontecerem.

Se nem a sorte nem o “quase” ajudarem, o resultado da omissão e da negligência pode resultar em tragédias. Cito três casos para ilustrar.

1) O incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (Rio Grande do Sul), deixou 242 mortos e 680 feridos em 27 de janeiro de 2013.

Faltou, por exemplo, um sistema de segurança consistente e efetivo. Além disso, muitas das partes envolvidas – entidades públicas e privadas – não cumpriram suas atribuições legais e obrigatórias.

2) O desabamento do viaduto Batalha dos Guararapes, na região de Venda Nova (Belo Horizonte), em plena Copa do Mundo de Futebol, no dia 3 de julho de 2014.

Foram duas pessoas mortas, 23 feridas, moradores retirados de suas residências em 2 conjuntos habitacionais bem próximos. Houve também diversos culpados tentando “tirar o corpo fora” diante dos erros e nada de ressarcimento dos prejuízos, inclusive financeiros.

Quase um ano e meio depois a movimentação de veículos e pessoas no local tendem a demonstrar que o viaduto nem era necessário. O caso continua tramitando nas esferas administrativas e judiciais, a atribuição de culpa e o pagamento pelos danos ainda engatinham.

Viaduto Batalha dos Guararapes. / Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia/Arquivo

Viaduto Batalha dos Guararapes. / Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia/Arquivo

3) A ruptura de barragem de rejeitos da Samarco Mineração em Mariana (MG) em 5 de novembro último, que deixou 13 pessoas mortas e 8 desaparecidas.

A lama que desceu da barragem de terra varreu a vida ao longo da calha do Rio Doce até o Oceano Atlântico. Como já se sabe até o plano de contingenciamento para enfrentar situações desse tipo existia apenas no papel e não pôde ser aplicado, porque ninguém o conhecia. Quem deveria fiscalizar todo o sistema minerário local também não o fez.

Prevenir é melhor que remediar

Estou citando tudo isso para convidá-lo a pensar sobre outros casos de perigo, alguns com mais chances de se tornar reais do que outros, que nos rondam apenas em Belo Horizonte e região metropolitana. Prevenir sempre será melhor que remediar. Mas esse ato exige ação e combate à omissão e ao descaso.

Pensei rapidamente sobre o assunto e me lembrei de alguns casos:

Adutora – Imaginemos uma adutora de ferro fundido, com diâmetro de 500mm, transportando água em alta pressão. Essa água é buscada cada vez mais longe. A adutora percorre longos caminhos e, por onde ela passa, nenhuma outra atividade pode acontecer. Não se pode, por exemplo, construir um condomínio habitacional sobre essa adutora. Os tubos, no entanto, nem sempre estão aparentes, podem ser subterrâneos.

Havendo uma ocupação indevida de trechos ao longo do caminho da adutora, se pessoas circulam pelas proximidades, o que pode acontecer se a adutora se romper? Nem sei se haverá tempo para correr ou para ser levado pela água…

Gasoduto – Existe um gasoduto subterrâneo no Anel Rodoviário de Belo Horizonte, passa bem na região do viaduto São Francisco, por exemplo. Mas quem se lembra dele? E se houver um descuido qualquer e, em decorrência dele, um grande vazamento?

Outros riscos – O que pensar da ruptura de uma linha de transmissão de energia elétrica em alta tensão, da queda de um elevador de um edifício ou obra, de uma enchente com alagamento em conhecidas vias da cidade cortadas por córregos canalizados? Riscos existem, devem ser avaliados e, quando for possível, controlados. Se não der pra prevenir, devemos ter planos que orientem a ação para o caso de o pior acontecerIsso vale para os casos citados nesse texto, em grande parte de responsabilidade do poder público e de entidades privadas. Mas também vale para os riscos presentes em nossas casas.

A memória é curta e tudo cai rapidamente no esquecimento. Por isso, é importante nos lembrarmos dos versos de Geraldo Vandré.

Quem sabe faz a hora não espera acontecer.

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A falação quase que permanente em torno da crise política, econômica, social e ética às vezes nos leva à exaustão. O “trem” está feio. A falta de líderes com a capacidade e a vontade de construir uma saída honrosa para este momento da nação faz com que a gente se sinta sem representação. E nos perguntamos – até onde vai isso tudo? O poder a qualquer custo é o que parece mais interessar a quem o disputa.

Ainda assim, precisamos espairecer. Buscar um pouco de oxigênio e juntar forças para prosseguir lutando, na esperança de que, de alguma forma, dias melhores virão num determinado horizonte de tempo.

Flamboyant na Rua Aquiles Lobo, bairro Floresta (BH) / Foto: Sérgio Verteiro

Flamboyant na Rua Aquiles Lobo, bairro Floresta (BH) / Foto: Sérgio Verteiro

Xô crise! Xô pessimismo! Xô depressão! Precisamos olhar, descobrir e perceber que ainda existem, sim, muitas coisas belas ao nosso redor.

Flamboyant na Av. Raja Gabaglia, BH. / Foto: Gisele Magela

Flamboyant na Av. Raja Gabaglia, BH. / Foto: Gisele Magela

Um bom exemplo está nas flores dos flamboyants, surgidas nesta primavera, que já caminha para o fim. Nas fotos deste post é possível ver árvores que vivem em diversos pontos da cidade.

Dentro do Cemitério da Paz na Av. Carlos Luz, em BH. / Foto: Sérgio Verteiro

Dentro do Cemitério da Paz na Av. Carlos Luz, em BH. / Foto: Sérgio Verteiro

Ainda dá tempo de descobrir algo semelhante bem próximo de você. Basta procurar e querer enxergar.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 29 de novembro de 2015   Curtas e curtinhas

Antidepressivos

A venda de medicamentos antidepressivos e estabilizadores de humor no Brasil cresceu 11,2% no período de novembro de 2014 a outubro de 2015 na comparação com igual período anterior. O dado é da IMS Health, consultoria internacional de marketing farmacêutico. Foram 53,3 milhões de caixas de medicamentos vendidas. Se considerarmos que cada caixa contém 30 comprimidos, chegaremos a um total de 1,599 bilhão de unidades. É mais um item que passa do bilhão, num momento em que rombos nos gastos públicos e déficits orçamentários também superam os bilhões.

Ouvindo a voz do cliente

Praça Tiradentes Ouro Preto

Praça Tiradentes, em Ouro Preto. / Foto: Marina Borges

O Ministério do Turismo fez uma pesquisa sobre a satisfação de 44 mil turistas que visitaram o Brasil em 2014. Eles foram ouvidos em aeroportos e fronteiras terrestres. A hospitalidade do brasileiro foi o item mais bem avaliado pelos entrevistados, citada por 97,2% deles. Em segundo lugar ficou a gastronomia (94,4%), em terceiro ficou o alojamento (92,4%). Os preços tiveram a pior avaliação e foram citados por apenas 56,4% dos entrevistados. Telefonia e internet também foram mal avaliados.

Os turistas mais presentes foram os argentinos (27,1% do total), seguidos por americanos (10,2%), chilenos (5,2%), paraguaios (4,6%), franceses (4,4%) e alemães (4,1%).

Os americanos foram os que permaneceram pelo tempo mais longo, em média 20 dias, e também os que mais gastaram – R$85,07 por pessoa, por dia.

Os dados da pesquisa trazem bons subsídios para que o Ministério do Turismo melhore continuamente as suas políticas e diretrizes para estimular a vinda dos turistas estrangeiros ao país.

Cenários que ninguém acerta

No dia 05 de janeiro de 2015 o Boletim Focus do Banco Central projetava que, no final deste ano, a inflação medida pelo IPCA seria de 6,56%, o PIB cresceria 0,5%, a taxa básica de juros (Selic) seria 12,5% e o dólar estaria cotado a R$2,80.

No último 23 de novembro, muitos meses de crises econômica, política e de credibilidade depois, o mesmo Boletim Focus está projetando para o mesmo final deste ano uma inflação pelo IPCA de 10,33%, um PIB negativo em 3,15%, uma Selic de 14,25% e dólar cotado a R$3,95.

Sabemos que é muito difícil acertar com exatidão os indicadores projetados para um cenário num determinado período de tempo, mas também não deve ser muito grande a distância entre o projetado e o acontecido. Haja reposicionamento estratégico diante de tantas variações e em tão pouco tempo. É muita incerteza a nos desafiar!

Tragédia também no orçamento

Está em discussão na Comissão Mista do Orçamento no Congresso Nacional a proposta da peça orçamentária da União para 2016, enviada pelo Poder Executivo. Ela propõe que, no próximo ano, sejam gastos R$4,8 milhões na fiscalização das atividades de mineração existentes no país.

No dia 5 de novembro rompeu a barragem de rejeitos da Samarco Mineração em Mariana (MG), que veio confirmar que a fiscalização não era o foco de quem deveria cumprir tal função. Agora todos os implicados estão correndo atrás do resultado da omissão, mas o rabo continua balançando o cachorro num outro processo minerário que está expondo os resultados de tantas mazelas e conveniências.

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Já são passados 20 dias da ruptura de uma barragem de rejeitos da Samarco Mineração, empresa controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, em Mariana (MG). As tragédias social, ambiental, tecnológica e econômica, dentre outras dimensões, prosseguem estampadas em diversas mídias.

Se considerarmos um conceito bem simples sobre o que é um sistema, podemos defini-lo como um conjunto de partes interligadas. Mais uma vez, ainda poderemos aprender com as lições trazidas pela tragédia apesar do alto custo desse aprendizado.

Em função das informações já disponíveis, que observações podemos fazer em relação ao sistema de gestão do negócio usado por todas as partes envolvidas e interessadas em seu resultado? Fazendo uma análise crítica fica visível que muitos fundamentos da gestão estão presentes apenas na intenção, mas não são acompanhados da necessária intensidade dos gestos. Neste texto, a proposta é tirar lições desse caso para as demais organizações.

Imagem de satélite mostrando a área atingida pela lama em Mariana. / Foto:  Globalgeo Geotecnologias, retirada do portal G1

Imagem de satélite mostrando a área atingida pela lama em Mariana. / Foto: Globalgeo Geotecnologias, retirada do portal G1

Plano de ação

O caso de Mariana evidencia desleixo na preparação e na execução do plano de ação para desastres. Nesta matéria da Folha, por exemplo, mostra-se o “jogo de empurra” entre governo federal e estadual. Afinal, quem aprovou o documento, que não previa uma estratégia para avisar os moradores da região em caso de rompimento da barragem? Na terça, o jornal Estado de Minas afirmou que um plano de ação contratado pela Samarco há anos nunca foi posto em prática, por razões econômicas. A empresa contratada à época diz ter feito um planejamento extenso, prevendo proteção à comunidade e aos funcionários, mas disse que ele não saiu do papel.

Um plano de ação é o caminho usado para se atingir uma meta. Ele mostra o que vai ser feito, como vai ser feito, a qual custo, quem será o responsável pela ação e em que prazo tudo deverá ser feito. Portanto, se não houver esforço e transpiração, o plano será estéril, não permitirá que se chegue ao resultado esperado.

Responsabilidades

A Organização das Nações Unidas (ONU) cobrou publicamente governo e empresa pelas falhas na condução do caso. Criticou as medidas insuficientes e a demora na ação, evidenciando a inaptidão das partes para tomarem para si as responsabilidades.

Por que as pessoas que possuem atribuições em função das partes que representam, tais como poder público, investidores, clientes, fornecedores… não cumprem na íntegra os seus papéis? Por que faltam o querer, a vontade de fazer acontecer, a cooperação nos processos de trabalho e o assumir explícito da responsabilidade de cada pessoa e sua respectiva organização?

Creio que falta a presença firme dos líderes e também a cobrança dos resultados das ações ao longo da hierarquia presente na estrutura organizacional. Cada instância deve cumprir de maneira integrada o seu papel e, para isso, é preciso querer, ter vontade política e encarar todos os riscos decorrentes do seu exercício. Os atos e as omissões têm que ter consequências mas, se isso não acontece e predomina a complacência entre as partes, fica claro que ainda estamos longe da excelência que um sistema de gestão integrado pode ajudar a alcançar.

Dilma Rousseff e Fernando Pimentel durante sobrevoo das áreas atingidas pelo rompimento da barragem em Mariana. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Dilma Rousseff e Fernando Pimentel durante sobrevoo das áreas atingidas pelo rompimento da barragem em Mariana. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Cumprimento da legislação

Nesse caso específico, fica evidente que a lei que trata da segurança de barragens não foi cumprida em sua plenitude. Também é visível que quem tem a missão de verificar seu cumprimento também teve seus momentos de inércia e negligência. Basta verificar o que fizeram – ou deixaram de fazer – antes da tragédia a própria empresa, os órgãos fiscalizadores de município, estado e União, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o Ministério Público entre outros.

As normas e leis fazem parte do ambiente de negócios e devem ser levadas em conta. Ninguém está isento de suas responsabilidades ou das consequências em caso de descumprimento das regras. Todo empreendimento tem uma responsabilidade social e não cabe omissão.  

Como prosseguir?

A lição que fica é que ainda faltam disciplina, constância de propósitos e  líderes para praticar efetivamente o que sistemas, métodos, normas e leis determinam, apesar dos inúmeros interesses das partes envolvidas que sempre estão em jogo. Os fatos e os dados estão aí sendo escancarados e a nos mostrar que o escondidinho, a omissão e a resistência à transparência vão ficando cada vez mais insustentáveis.

Querer trabalhar com método e saber que as organizações são feitas por pessoas que cumprem papéis ligados aos diversos interessados são necessidades que jamais poderiam ou podem ser ignoradas. Estamos na era do conhecimento e, se o plano proposto para uma ação orientada não for colocado em prática, com certeza ele será estéril, não dará resultados e deixará evidente que foi apenas uma carta de intenções. A prática é um dos critérios da verdade.

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