Um jovem casal de namorados na faixa dos 30-35 anos está se preparando para o casamento desde meados do ano passado. A meta é realizar a cerimônia religiosa, a festa e a viagem de núpcias na primeira semana da primavera de 2017. Para isso fizeram um detalhado plano de ação, que está sendo implementado com muita disciplina e realismo financeiro. Eles também são sabedores de que o melhor da festa é espera por ela e que aos poucos o dia vai chegando.

Nesse momento específico um item passou a preocupar e a incomodar o casal. Trata-se do apartamento de 80 m², sendo dois por andar num edifício de 10 andares de um bairro de Belo Horizonte. Adquirido na planta logo no início do ano passado em condições compatíveis com o poder aquisitivo dos dois, eles assinaram com a construtora um contrato do tipo promessa de compra e venda. Basicamente as condições foram o pagamento de uma entrada de 10% do valor de avaliação do imóvel, outros 10% pagos em parcelas trimestrais ao longo da construção e os 80% restantes financiados por um banco estatal durante 30 anos a partir da conclusão do imóvel.

No início de julho havia algo muito estranho no ar em função de um “empurra – empurra” entre a construtora que vendeu o apartamento e intermediou o contrato de financiamento com o banco oficial, pois havia chegado a hora da assinatura do contrato. O fato é que esses recursos para financiamento habitacional ficaram bem mais escassos com a crise econômica e existem linhas de crédito suspensas até o final do ano. Diante das pressões para liberar rapidamente o financiamento e sem condições de continuar adiando indefinidamente a liberação do contrato, o banco abriu o jogo e disse que os recursos não sairão por agora.

Apesar da frustração o jovem casal fez uma correção de rota no plano de ação e procuraram, com a ajuda da construtora vendedora, um banco privado para tentar um novo financiamento. Todos os documentos necessários foram apresentados mas, enquanto eram analisados pelo banco privado, houve uma mudança no limite do financiamento concedido em função do aumento da inadimplência. O até então limite de 80% passou para no máximo 70% e ainda variando em função da renda apresentada, taxa de juros, financiamento em 30 anos e possibilidades de uso do FGTS. O resultado de tudo isso é que o banco privado não se dispõe a correr riscos e emitiu um parecer afirmando que pode financiar no máximo 65% do previsto. Enquanto a construtora vendedora pula igual pipoca e tenta se justificar, o banco privado lava as mãos e o jovem casal está vivendo um impasse, pois as mudanças atrapalharam todo o planejamento financeiro. Mais uma vez caberá ao consumidor pagar o pato, realizar o prejuízo ou até mesmo desfazer o negócio. Na atual conjuntura será preciso muita resiliência para continuar sonhando com a casa própria.

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Pontualidade até que ponto?

por Luis Borges 27 de julho de 2017   Pensata

A cerimônia religiosa de um casamento católico foi marcada para as 20h de um sábado na Igreja Matriz de um município do oeste mineiro. O noivo chegou ao local 15 minutos antes da hora marcada. Pontualmente às 20h o sacerdote especialmente convidado para fazer a celebração chegou ao altar, enquanto os cerca de 250 convidados para tempos de crise continuavam se acomodando nos bancos do templo. À medida em que o tempo passava e crescia a expectativa pelo inicio da cerimônia também aumentava o alarido causado pela quantidade de pessoas conversando com quem estava ao lado. Eram muitos os que olhavam para o relógio conferindo o tempo, sendo que esses e muitos outros utilizavam freneticamente os seus telefones celulares de vários modos.

Lá pelas 20h25 o sacerdote retirou-se do altar e voltou para a sacristia enquanto o interior da igreja se assemelhava a uma feira livre.  Nessa altura dos acontecimentos a pergunta que mais se fazia e que não queria se calar era curta e já cheia de ansiedade: cadê a noiva? Houve quem levantasse a hipótese de desistência da noiva. Outros reclamavam que a demora estava “colocando o pé no seu vale empada”, cognome do convitinho garantidor do acesso à festa comemorativa das núpcias.

E assim se passaram mais longos 42 minutos até que às 21h07, portanto 67 minutos após a hora previamente marcada, foi aberta a porta onde se inicia o caminho que leva ao altar. Logo a seguir teve inicio o cortejo que durou 8 minutos. Enquanto a mãe levava o noivo ao altar em passos mais rápidos, quase logo a seguir entraram os 14 casais padrinhos dos noivos e o sacerdote retomou seu lugar no altar. Em seguida o pai conduziu a noiva que caminhou triunfal rumo ao altar antecedida pela dama de honra e seu pajem, ao som retumbante da marcha nupcial. Parecia também o triunfo do atraso e da paciência de todos que aguentaram esperar até aquele momento.

Mas as aparências enganam. O sacerdote amigo das famílias dos noivos iniciou rapidamente a parte que lhe cabia no ritual e fez tudo em 15 minutos. Exatamente às 21h30min o sacerdote falou que devido ao adiantado da hora, os noivos receberiam os cumprimentos no local da festa. Assim que a última pessoa do cortejo chegou ao adro da igreja as luzes começaram a ser apagadas e as portas laterais e principal foram fechadas.

Esse evento me faz lembrar diversos outros em que perdemos muito tempo entre a hora marcada e o seu efetivo início. Ser pontual deveria ser uma obrigação e não uma virtude. Aliás, os virtuosos e disciplinados acabam sendo punidos e desrespeitados pelos outros que sempre chegam atrasados. Você consegue se lembrar rapidamente de eventos aos quais você compareceu e que se iniciaram com atraso de 30 minutos ou mais? A causa estava também em você? Além da consulta médica e da decolagem do avião, que outros você citaria? Se pontualidade é obrigação que exemplos você citaria de eventos que começam na hora marcada além de missas, reuniões espíritas e cultos evangélicos?

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Polindo as amizades

por Luis Borges 23 de julho de 2017   Pensata

O mundo girou rapidamente e já nos trouxe de volta o 20 de julho, Dia do Amigo e da Amizade no Brasil e na Argentina. Se “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração” como dizem Milton Nascimento e Fernando Brant na música Canção da América, quando nada o dia traz a reflexão sobre como estamos cuidando de nossos amigos e amizades.

Constato que às vezes os amigos estão tão guardados que ficam até distantes. Justificativas para isso não faltam devido à correria louca, ao cansaço constante e à falta de tempo. Tudo bem, mas falta gestão. A perda de tempo só cresce para quem não sabe priorizar, não sabe fazer escolhas, tomar decisões. Vale lembrar que onde tudo é prioritário, nada é prioritário e que não existe vento favorável para quem não sabe aonde ir.

O que significa para nós polir as amizades para mantê-las azeitadas, alinhadas e necessariamente presentes em nossas vidas? Alguns dias atrás ouvi uma pessoa dizendo que era dia do aniversário de nascimento de um grande amigo e que havia passado uma mensagem de WhatsApp para cumprimentá-lo. Diante da declaração tomei a liberdade de perguntar a pessoa se a mensagem foi de texto ou áudio. “É claro que foi de texto”, respondeu imediatamente a pessoa. Em seguida saí de cena e fiquei pensando na probabilidade de ouvir a qualquer momento um argumento falando da falta que se sente de um amigo e de uma amizade sincera e cuidadosa. Até entendo que nem sempre é possível estar fisicamente presente numa data importante para o amigo, mas até se chegar ao confortável envio de uma mensagem de WhatsApp como mero sinal de cumprimento de uma obrigação existem várias outras formas de demonstrar apreço.

Ainda que tudo comece com a gente é bom lembrar que as relações de amizade possuem mão dupla e que, para serem polidas com uma frequência saudável, dependem da iniciativa e da reciprocidade entre as partes envolvidas. Como esse processo de manutenção é difícil e exige muita constância de propósitos de ambas as partes! E você, tem conseguido polir as suas amizades ou apenas chora pelo afastamento da maioria delas sem analisar as causas que geraram esse desfecho?

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Está fazendo um ano que postei aqui neste blog uma pensata com o título de Saúde: tecnologia x qualidade no atendimento. Como de vez em quando é bom dar uma olhada para trás visando verificar a melhoria ou a piora de um determinado aspecto ou indicador de desempenho, tomei a iniciativa de conversar com algumas pessoas que foram ouvidas naquela ocasião. Felizmente elas continuam bem vivas e gerenciando a própria saúde apesar dos preços cobrados pelos planos em suas diversas modalidades. Chamou muito a minha atenção o fato delas terem repetido recentemente os exames do ano passado no mesmo laboratório de serviços de apoio ao diagnóstico cujo atendimento deixou péssima impressão naquela ocasião. Aliás, juntaram-se a eles alguns exames que foram solicitados pela primeira vez agora. Tentei entender a razão para se manterem fiéis ao antigo fornecedor, sendo que existem outros laboratórios no mercado prestando o mesmo serviço. As pessoas me disseram que seguiram a orientação de seus médicos, que alegaram ser os profissionais daquele laboratório de sua plena confiança para realizar os exames solicitados.

Então perguntei se eles perceberam alguma melhora no atendimento ao comparar com os serviços prestados no ano passado. Foi praticamente consenso que o mau atendimento continua o mesmo e que até aumentou o tempo de espera, apesar da alta tecnologia utilizada na realização de tantos e variados exames, notadamente os de imagens. Houve um caso específico em que a pessoa tinha um exame agendado para as 9h40 que só se iniciou ao meio-dia de uma terça-feira. Após muitos questionamentos sobre as causas da demora uma atendente balbuciou que algumas pessoas do grupo faltaram ao trabalho e outras chegaram atrasadas.

Agora após passar novamente pelos mesmos e cada vez mais demorados tipos de transtornos, finalmente algumas dessas pessoas não pretendem mais voltar ao laboratório indicado pelo médico e estão dispostas a encarar o profissional para lhe dizer que não voltarão mais àquela empresa de grande porte. Sugeri a elas que lembrem a seus médicos que todo cliente espera que seu fornecedor tenha alto nível de qualidade, preço justo e excelência no atendimento e que notadamente essa última dimensão está longe de acontecer. Vale lembrar, também, que não dá para o consumidor  abrir mão de seus direitos nas relações de consumo em pleno regime capitalista que se diz pautado pela competitividade entre os concorrentes na prestação de serviços a que se propõem no mercado que tem seu risco.

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O que é seu está guardado

por Luis Borges 7 de julho de 2017   Pensata

As coisas estão acontecendo com muita rapidez no cotidiano da crise vivida pelo país. Cada vez mais surpreendendo pela ousadia, apropriação indébita de recursos e pelo descompromisso com a maioria da população denotado pelos agentes do Estado que o dominam. Nada de ética, de atitudes republicanas; é muito discurso enquanto o foco é só se manter no poder, custe o que custar. A obsessão é tanta para manter tudo do jeito que está, sem mexer no que realmente precisa ser mexido, que o autismo faz com que os sinais de descontentamento não sejam efetivamente percebidos e muito menos analisados. Como está crescendo o número de pessoas que acompanham os acontecimentos no país e sofrem na pele os impactos deles, como a corrupção, desemprego aberto, Reforma da Previdência… o pote de mágoa está só aumentando.

O povo ainda não voltou às ruas enquanto o impopular Presidente da República segue sangrando e comprando apoios partidários para se manter no desejado cargo. Imagino que muita gente deve estar se lembrando de um famoso dito popular que diz “o que é seu está guardado”, ou seja, vai ter troco para você e os seus.

Enquanto as ruas não gritam para valer e os políticos partidários não percebem que precisam encontrar soluções para a crise política que eles mesmos criaram, o tempo vai passando e o sofrimento só aumentando. Agora faltam 15 meses para as eleições gerais de 2018, cujas regras precisam ser definidas nos próximos 3 meses. Espero que os 35 partidos políticos e seus partidários, notadamente os que se aliaram em seus projetos de poder nos últimos 30 anos, recebam um duro recado de rejeição vindo das urnas. Aliás, pode ser tanto pelos que comparecerem às urnas buscando varrer do mapa a maior parte dos que exercem mandatos atualmente, quanto pela abstenção nesse modelo em que o voto é obrigatório.

Quem der uma olhada para outros países poderá perceber, por exemplo, o que aconteceu nas recentes eleições francesas que elegeram o Presidente da República e os 577 parlamentares da Assembleia Nacional. Os tradicionais partidos que ocuparam o poder e tiveram maioria parlamentar nos últimos 30 anos foram amplamente derrotados. A vitória coube ao partido centrista República em Marcha criado há apenas um ano. Quem quiser que aprenda com os sinais que vem de outros países, ainda que as realidades políticas, econômicas, sociais e culturais tenham as suas especificidades. Não dá para enganar a todo mundo indefinidamente pelo tempo todo.

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A Constituição diz que somos todos iguais perante a lei, devendo respeitas direitos e deveres na forma da legislação vigente. É claro que, em princípio, todo mundo quer o maior bem estar possível e gastar o menor esforço para alcançá-lo, ainda mais no capitalismo brasileiro onde prevalece uma péssima distribuição de renda. Assim, todo tipo de auxílio acaba sendo um jeito de melhorar os rendimentos. Pode-se questionar a legalidade e a moralidade de muitos auxílios que vigoram hoje no país, seu caráter social na redistribuição da renda e também a sua utilização para contornar o teto da remuneração dos servidores públicos. Só para exercitar a memória podemos lembrar de cara do auxílio doença, auxílio reclusão, auxílio funerário, auxílio creche, auxílio livro, auxílio paletó e do auxilio moradia. O último é o mais questionado e midiático deles, beneficia uma pequena casta dos poderes legislativo e judiciário com um valor mensal de R$4.300 mil que é isento de comprovação do gasto e de recolhimento de imposto de renda.

Segundo um levantamento da ONG Contas Abertas esse “penduricalho” é pago desde setembro de 2014 a pouco mais de 17 mil magistrados e quase 13 mil procuradores do Ministério Público Federal. A benesse chega a juízes, desembargadores, promotores, procuradores, conselheiros e procuradores de contas e aos próprios Ministros do Supremo. Até maio de 2017, só para esse grupo de beneficiários foram gastos pelos cofres públicos algo em torno de R$4,5 bilhões. Também incomoda saber e lembrar que o auxílio moradia está em vigor amparado por uma decisão liminar do Ministro Luiz Fux, do STF,  e que até hoje o plenário da lenta Suprema Corte ainda não analisou o mérito da constitucionalidade desse auxílio.

Neste artigo publicado no portal Contas Abertas, o economista Gil Castello Branco diz:

“na situação em que o país se encontra, todos os gastos têm que passar por um pente-fino. O auxílio-moradia é um aumento de salário disfarçado.

Esse tipo de benefício distorce a estrutura de cargos e salários nos Três Poderes, o que, por si só, já é um problema. E é inconcebível que o auxílio seja pago por meio de uma decisão provisória. Decisões de um só ministro deveriam ser apenas emergenciais ou circunstanciais. Isso gera quase um folclore. Cria-se uma situação quase irreversível. E se o Supremo não confirmar a liminar? Quem recebeu vai ter que devolver os valores?”

Enquanto isso a arrecadação de tributos federais continua caindo, o déficit público aumentando junto com os gastos, a Reforma Trabalhista pena para ser aprovada no Senado, a Reforma da Previdência perdeu o horizonte e está sendo gestada uma mini Reforma Eleitoral – em regime de urgência – para criar um fundo de R$3,5 bilhões para financiar as campanhas eleitorais em 2018. Haja gestos de grandeza dos pagadores de tributos para sustentar tanta gastança!

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Inflando o faturamento

por Luis Borges 23 de junho de 2017   Pensata

Como você continuará andando após perder seu automóvel? Ele pode ser considerado como se fosse a sua terceira perna, em função da mobilidade que te traz, mas também tem o custo de manutenção semelhante ao de um membro adulto da sua família. Ao longo de um ano é preciso pagar o IPVA, o seguro obrigatório, a taxa de licenciamento estadual, as prováveis multas oriundas de causas diversas, o permanente consumo de combustível, o seguro do veículo para se prevenir contra terceiros e também para os ocupantes do veículo, bem como fazer as revisões programadas e as manutenções corretivas não cobertas pela franquia do seguro. Tudo isso mexe e sacode o bolso dos felizes proprietários, principalmente numa conjuntura em que a economia tenta sair da recessão econômica, o desemprego está altíssimo – sem dar sinais de queda – e o poder aquisitivo em baixa diante de condições bem desfavoráveis para os trabalhadores assalariados.

Aqui sugiro que a atenção deve ser redobrada, pois muitas concessionárias de veículos fazem de tudo para maximizar os seus ganhos tentando empurrar serviços que não foram previstos na revisão programada. Na semana passada fiquei sabendo de um caso desse tipo em que o orçamento inicial do que era necessário ser feito ficou em R$1.500,00 e o veículo sendo devolvido ao proprietário com os serviços efetuados dois dias após a autorização. No entanto, no dia seguinte a concessionária telefonou ao proprietário do veículo insistindo na necessidade de novos serviços percebidos após o início dos trabalhos. A fala da atendente foi rápida, com poucas informações – todas muito técnicas – e enfatizando que o preço passaria para R$4.000,00. Diante da veemente discordância do proprietário do veículo, a ligação foi passada ao gerente da loja, que tentou justificar os novos serviços argumentando que os componentes atuais não aguentariam o rojão até a futura revisão daqui a um ano. O jeito foi exigir que o gerente respeitasse o seu direito de consumidor, cumprindo estritamente o que foi estabelecido na negociação e contratação dos serviços. Concluiu perguntando por que estavam adiantando tanto o tempo da revisão do meio do próximo ano e por que não recebeu nenhuma contrapartida caso aceitasse antecipar os serviços propostos, ainda mais que é cliente da concessionária há 6 anos. Muito sem graça do outro lado da linha, o gerente balbuciou que sua intenção seria dar um desconto de 15% nas peças componentes e outros 15% na mão de obra ficando tudo em R$2.800,00 que poderiam ser pagos em cinco parcelas pelo cartão de crédito.

Por se tratar de pessoa atenta e planejadora, a recusa dos serviços não solicitados foi reforçada. Aí veio um novo transtorno, pois o serviço inicialmente solicitado ficou parado até ser dado um “não” à parte que tentaram empurrar. Foi por isso mesmo que foram gastos mais dois dias para a efetiva realização dos trabalhos, ou seja, mais dois dias de veículo indisponível, gastando a mais com táxi e ônibus no transporte.

Um fato relevante é que no dia da devolução do veículo o gerente estava muito sem graça e a atendente disse que quando for tomada a decisão de fazer o serviço adicional é só procurá-la.  Simples assim!

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Sempre gostei e continuo gostando de conversar com pessoas de todas as faixas etárias, tomando alguns cuidados para não gastar energia desnecessária nos embates políticos e ideológicos pouco civilizados. Entre tantos temas que entram e às vezes até saem da pauta das conversas, tenho notado que a partir da Proposta de Emenda Constitucional tentando fazer a Reforma da Previdência Social o assunto tornou-se bem mais frequente, demorado e com alguns até se sentindo vítimas dos sistemas.

De uma maneira geral, tenho observado casos de pessoas com idade a partir de 55 anos que trabalham em diversos tipos de organizações – servidores públicos, empregados da iniciativa privada ou de estatais, donos dos próprios negócios ou já aposentados. Dessas conversas, desenhei quatro grandes grupos.

O primeiro é das pessoas que estão prestes a se aposentar mas aguardam a incorporação de algum tipo de benefício ao salário e estão preocupadas com as regras de transição, que poderão aumentar o período de contribuição. Tem gente de todas as idades, inclusive acima de 60 anos e, é claro, sabendo-se que cada caso é um caso em função das escolhas feitas ao longo da vida profissional.

Um segundo grupo engloba pessoas que já se aposentaram, principalmente pelo INSS e certas categorias do Poder Executivo, mas que precisam continuar trabalhando para complementar a renda mensal. Muitos deles não possuem previdência privada complementar e também tem encontrado dificuldades para conseguir trabalhos formais ou informais. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do primeiro trimestre de 2017 as pessoas de 59 anos em diante que estavam desocupadas no período chegaram a 5,2% da população economicamente ativa.

Um terceiro grupo se mostra aparentemente tranquilo e dizendo claramente que seu negócio é usufruir da aposentadoria que conseguiu, da poupança que fez e é com elas que vai viver até fechar os olhos. O objetivo é viver no ócio com dignidade, sem muita obsessão por horários, curtindo a vida, a família, os amigos – inclusive nas redes sociais – e podendo até ajudar um pouco aos filhos e netos.

Na quarta e última situação entre as que mais observei estão pessoas que não aguentam ficar apenas dentro de casa. Elas nem almejam conseguir algum trabalho remunerado, mas querem sair de casa para prestar um serviço voluntário à comunidade, desenvolver-se pessoalmente no mundo das artes ou cuidar um pouco da própria espiritualidade.

Não sei se as condições de contorno descritas se aplicam a você, mas elas podem contribuir para quem quer aprender com os erros e acertos dos outros.

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As delações premiadas dos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo empresarial JBS, feitas à Procuradoria Geral da República vieram a público na noite da quarta, 17/05. Causaram um enorme rombo político aos denunciados e geraram as mais diversas reações nos segmentos da sociedade brasileira. O estrago é maior devido ao nível documental das evidências objetivas apresentadas, que envolvem diretamente o impopular Presidente da República pós-impeachment da Presidente eleita em 2014 e o inconformado Senador que perdeu a disputa daquele ano.

O ponto que quero ressaltar é a grande ousadia dos políticos partidários em prosseguir com as mesmas piores práticas políticas que vem sendo questionadas com muito ímpeto desde as manifestações populares de 2013. Naquela ocasião, as reivindicações deixaram muito claro o que não se aceitava mais e como eram altas as expectativas por mudanças mais profundas no convívio social. O sistema político partidário em vigor para representar o povo em nome da democracia representativa dava sinais claros de seu esgotamento.

Apesar do susto trazido pelas manifestações de rua, quase nada de mais concreto foi feito em direção às mudanças reivindicadas. Em março de 2014 surgiu a operação Lava Jato, feita pela força tarefa do Ministério Público e da Polícia Federal, para investigar as tenebrosas transações da corrupção na Petrobras. Ficou claro que era apenas a ponta de um iceberg e que a relação entre corruptos e corruptores do setor público e privado tem padrões semelhantes muito bem difundidos. O que varia é só a intensidade e o volume de ganhos envolvendo os independentes e harmoniosos três poderes em todos os âmbitos.

Nunca faltam discursos enaltecendo a democracia representativa e o funcionamento pleno das instituições no estado democrático de direito. Mas a lenta justiça, que sabe muito bem como e para quem se manifestar, é apenas mais uma causa a incentivar a ousadia para se praticar atos com enorme probabilidade de ficarem impunes e serem garantidores do poder e da acumulação de riquezas a partir da privatização do Estado.

Portanto, as práticas corruptas contidas nas gravações feitas nos dias 7, 13 e 24 de março deste ano apenas demonstram o desprezo que seus protagonistas têm pela ética nas relações da sociedade e pela moral dos indivíduos. O que vale mesmo, diante da certeza da impunidade, é surfar no capitalismo sem riscos e deixar como sub-produtos da corrupção o desemprego, a recessão econômica, o estado de mal estar social, a crise política…

Enquanto os atos não tiverem consequências continuaremos a ter que conviver com a arrogância dos que têm duas caras, inclusive quando abusam de nossa inteligência ao justificar um ato corrupto como sendo algo de caráter pessoal e não inerente às duas caras do mesmo indivíduo.

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Tenho reiterado que gestão é o que todos precisam, mas que nem todos sabem que precisam. Alguns sequer admitem ter tal necessidade. Existem também aqueles que até conhecem alguns fundamentos da gestão, algumas de suas principais ferramentas e fazem pouco uso desse conhecimento. Trabalhar com um método de gestão exige também paciência, persistência, fatos, dados, foco, transpiração e muita disciplina das pessoas para fazer com que um processo alcance resultados positivos para todos os interessados.

No entanto, como a educação e o treinamento não têm a continuidade e a aplicação necessárias para realimentar a melhoria contínua dos processos, acaba sendo mais fácil deixar de lado o uso de fundamentos e a plenitude da aplicação do passo a passo de uma sequencia lógica.

Um bom exemplo disso está sendo dado nesse momento por muitos prefeitos municipais que, no quinto mês de seus mandatos, ainda não conseguiram definir com clareza quais são as prioridades de seus governos. Todos sabem dizer que a arrecadação do município está em queda, que as despesas são muito altas e que problemas não faltam. É nessa hora que continua fazendo falta o uso de um método para a solução de problemas e critérios para se definir prioridades em função da gravidade, da urgência e da tendência em função dos recursos humanos, materiais e financeiros existentes.

Um caso que pode ser usado como ilustração é o da Prefeitura de Belo Horizonte, com seu orçamento que conta com a arrecadação de R$10 bilhões em 2017. Desse valor aproximadamente R$5 bilhões estão reservados para o pagamento de quase 50 mil servidores ativos e 20 mil inativos e pensionistas. Isso sem falar nos terceirizados, que aparecem como despesas de custeio. Por outro lado a população reclama e exige soluções rápidas e permanentes para muitos problemas que tendem a se tornar crônicos. Sem muito esforço posso citar aqui a deficiência da iluminação pública, a quantidade de buracos nas vias públicas, os recursos insuficientes para as unidades da área da saúde, a baixa capacidade gerencial das unidades da prefeitura municipal, os parques municipais fechados durante a semana, a mobilidade urbana gritando por melhorias – principalmente nos horários de pico, os moradores de rua, os camelôs buscando espaço, os desempregados querendo emprego, a insegurança, a violência, as ocupações urbanas pró-moradia…

Diante de tantos problemas – e de tanta urgência – quando serão definidas de maneira metódica e criteriosa as prioridades para o gasto dos R$5 bilhões restantes do orçamento anual? Continua valendo, e não pode ser esquecido, o fundamento da gestão que nos ensina que onde tudo é prioritário, nada é prioritário, inclusive para a nossa vida pessoal e familiar.

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