Depois de tudo o que aconteceu nesses poucos mais de dois anos, temos evidências objetivas de que, no momento, o pior passou. Todavia, ainda está na parede da memória a insegurança, a ansiedade e o medo diante das incertezas no auge da pandemia da Covid-19 e suas mutações, sem vacina, e alguns dizendo que “nada será como antes” – aliás, nome de uma música de Milton Nascimento e Beto Guedes feita em 1972.
Isso foi muito propalado para embalar o “novo normal” decorrente das necessárias condições de segurança sanitária. Ou seja, “quando a história muda, tudo volta à zero” com a mudança dos paradigmas.
Meu ponto aqui é observar e analisar como algumas pessoas estão se comportando no local de trabalho após o uso de máscaras deixar de ser obrigatório em ambientes fechados, conforme a autonomia de cada munícipio. Medida que, entretanto, não se aplica a transportes coletivos, escolas, hospitais e clínicas.
Porém, como encarar as pessoas que usam máscaras no ambiente fechado em que elas já não são mais obrigatórias? Acredito que todos devem ser aceitos com o maior respeito previsto, com muita naturalidade perante a lei de Murici, ao dizer que “cada um cuida de si” dentro do ecossistema.
Observemos, com atenção, o que aconteceu no escritório de uma prestadora de serviços de segurança eletrônica de Belo Horizonte em que as pessoas, todas devidamente vacinadas, trabalham presencialmente numa sala de 50 m².
No primeiro dia após o fim da obrigatoriedade, 3 dos 9 colegas de sala continuaram usando o dispositivo protetor no rosto. À medida em que foram chegando ao local, por volta das 8 horas da segunda-feira, o alarido só crescia. Os sem máscaras começaram a patrulhar os que continuaram a usá-las.
Todos perguntavam “na lata” aos colegas porque continuar usando. Após o constrangimento inicial causado pela pergunta, um dos patrulhados resolveu justificar sua decisão. Disse aos colegas que usará a máscara até se sentir plenamente seguro de estar correndo um risco mínimo de contaminação. Lembrou também que a não obrigatoriedade não revogou a opção pelo seu uso para quem quiser.
Outro patrulhado respondeu que estará de férias na próxima semana e não quer correr o risco de ter de desmarcar sua viagem por causa de alguma contaminação advinda de um descuido. Após a turbulência, o dia seguiu seu curso enquanto alguns sem máscaras olhavam de modo meio atravessado para os que optaram por continuar a usá-las.
Fico pensando como as pessoas vão se comportar diante de um surto de gripe, que não é tão inesperado assim nessa época do ano. Será que usarão mascaras para a proteção de todos que trabalham na sala?
É quase incrível como certas pessoas passam dos limites estabelecidos nas regras do jogo e tentam impor as suas próprias regras como se fossem o único e limitado caminho possível e de maneira desrespeitosa.
Como fica o clima organizacional numa situação como essa? Como se vê, a gestão pela liderança faz falta em muitas organizações humanas e as deixa distantes da excelência, mesmo sabendo que “nada será como antes”. Mas como será?
Nada Será Como Antes – Milton Nascimento e Beto Guedes

Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Alvoroço em meu coração
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

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Período sabático

por Convidado 6 de maio de 2022   Convidado

Neste abril, me reservei o direito de tirar férias e ir para o campo. Muita gente pode pensar que depois da reclusão imposta pela pandemia, o que precisamos é de trabalho e não de folga. Mas como estão as cabeças? Estão aptas às exigências do trabalho? O que tenho ouvido de depoimentos é que as pessoas estão cabisbaixas, desanimadas e depressivas.

Por isso, meus bucólicos leitores, após concluir um trabalho, decidi fazer uma quinzena sabática. Fugi do roncos dos motores, das buzinas de pessoas impacientes (nem por isso justifica-se a falta de educação), dos garis que acordam os moradores, sem cerimônia, perto da zero hora. Mas o maior ganho foi dispensar a internet e a televisão por todos os dias. Somente lá, percebi que estava sendo intoxicado e, pior, tendo meu cérebro massificado para que não conseguisse pensar por mim. Não assisti aos jogos de futebol, nem vi meu galo ganhar outra vez. Será que ganhou? Também não vi nada sobre o covarde massacre à Ucrânia. Tampouco ouvi notícias sobre a política, felizmente. Vocês estão se perguntando, meus tecnológicos leitores, se fiquei sem internet por tantos dias e sobrevivi?

A prova viva de que não morri é que estou, agora, escrevendo a minha experiência. A sensação é de “estou limpo”, como dizem os viciados em drogas quando conseguem ficar um tempo sem elas. O que impera aqui é o silêncio, apenas quebrado pelo canto dos pássaros. Nada substitui o cheiro do orvalho sobre a relva. Os morros, tão verdes quanto a esperança de um menino, me cercam por todos os lados, e um céu de um azul estonteante completa o quadro de paz que me serve como palco neste teatro da vida.  Sentado num banco de madeira e usufruindo de toda essa benção que Deus me proporciona, aproveito alguns instantes para reler o livro de Charles C. Mans, Felicidade: a escolha é sua. Título apropriado para a ocasião.

Os benefícios desta imersão começam pela saúde que, como todos sabem, depende da mente:  – mente sã, corpo são. E o mais surpreendente é que descobrimos o quanto nossas lentes estavam embaçadas, a ponto de vermos coisas de maneira invertida, como escreveu Machado de Assis, quando se referiu à imagem do espelho. Nos vemos invertidos.

Parece utopia, mas não é. Creiam em mim. Precisamos sair do quadrado para enxergá-lo nitidamente. Quando estamos envolvidos não conseguimos agir com precisão, porque a emoção ilude a razão. Salta-me ao pensamento uma memória de um tal “Efeito Halo”. Aprendi sobre ele quando realizava o primeiro trabalho de Avaliação de Desempenho Organizacional. Faz tempo…  mas o fundamento era que dificilmente avaliamos algo ou alguém somente com a razão. Sem precisar dizer que os agentes da comunicação profissional, quando lhes convêm, produzem notícias e têm recursos que nos levam a ver o demônio com a imagem do Salvador. O pior disso tudo é que nos convencem.

Por essa razão, já que estou no campo, é que temos que deixar de sermos rãs e nos transformar em pintassilgos, para sair do buraco, voar e descobrir que há vida fora da caverna, e com liberdade. Assim escreveu Rubem Alves (O pintassilgo e as rãs) e, muito antes dele, Platão também nos fala lindamente sobre o mesmo tema, em  O mito da caverna.

Apesar de tudo isso, ainda não aprendi a voar, apenas meus pensamentos voam “parecem uma coisa à toa…” mas estou apreciando o voo dos pássaros e “A insustentável leveza do ser”.

Sinto-me mais leve de espírito, mais sóbrio, e creio, me recarreguei de energia sem poluentes.

Olho para os morros e, são tantos, uns após os outros, que os vejo de mãos dadas para que a ganância dos homens jamais os consiga separar.

 

*Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Uma zeladoria para a cidade

por Luis Borges 3 de maio de 2022   Pensata

O novo prefeito de Belo Horizonte, Fuad Noman (PSD), foi entrevistado pelo jornalista Eduardo Costa no programa Rádio Vivo, da rádio Itatiaia, no dia 12 de Abril. Ele falou que, entre as prioridades de seu mandato, estão as ações para resolver problemas nos transportes coletivos urbano por ônibus e pelo metrô. Também pretende aproveitar o período seco para acelerar os empreendimentos que visam combater alagamentos e enchentes do tempo das chuvas, encarar de frente os desafios ligados à população em situação de rua, fazer o recapeamento de vias públicas com início nos bairros e partindo rumo ao centro da cidade, fortalecer as administrações regionais centralizadas na secretaria de governo e colocar em movimento a zeladoria criada com a reestruturação feita na prefeitura, cujo gestor já foi indicado, com foco na solução de muitos problemas pequenos que vão surgindo no dia-a-dia .

É interessante notar que a imagem de zeladoria nos municípios, que em primeira instância é onde as pessoas moram, geralmente está ligada à capina de logradouros públicos, varrição, limpeza, jardinagem. Espero que a zeladoria criada em BH vá muito além disso, com uma atuação e interação abrangendo todo o sistema que constitui a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Nesse sentido, a zeladoria deve estimular, incentivar a participação efetiva dos cidadãos para apresentar reclamações sobre os processos de trabalho que estejam com resultados insatisfatórios segundo o seu ponto de vista.

Acredito que a zeladoria deve estar focada e com muita disposição para agir em função das reclamações dos cidadãos sobre as não-conformidades na implementação dos padrões municipais existentes de qualquer natureza. Elas podem chegar por diferentes meios, como o telefone, aplicativo, ouvidoria, imprensa ou até presencialmente. O mais importante é saber receber a reclamação, analisar se ela é procedente a partir dos fatos e dados informados, e que tudo seja gerenciado com qualidade para atender as necessidades e expectativas dos cidadãos. É claro que o cidadão deve ser informado sobre o meio para acompanhar o andamento do processo até o prazo estabelecido para a entrega do resultado final.

É importante realçar que a grande premissa para a existência de uma zeladoria é zelar para que os processos de prestação dos serviços municipais aconteçam conforme o que está especificado e que assim que os desvios forem percebidos e relatados as ações gerenciais corretivas devem ser feitas para que tudo volte à normalidade.

Geralmente um pequeno problema ignorado ou não corrigido inicialmente poderá se tornar crônico com o passar do tempo, o que só encarece e dificulta a sua solução. Imagine um pequeno buraco em sua rua que não foi tampado quando começou a surgir e, tempos depois, virou uma cratera trazendo riscos para todos os usuários da via pública.

Por outro lado, e partindo da premissa de que “nada é tão bom que não possa ser melhorado”, a zeladoria e outros canais de acesso à prefeitura, inclusive as administrações regionais, poderiam também estar acessíveis para o recebimento de sugestões para a melhoria contínua, e até inovações, em seus processos de trabalho. É óbvio que tudo deve ser avaliado para verificar se procede ou não, inclusive em caso positivo, se existe viabilidade financeira no orçamento.

Vamos participar e acompanhar os passos e a avaliação do desempenho da zeladoria em função dos resultados (entregas) alcançados e para combater a nossa própria indiferença quanto aos problemas da cidade.

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Conversar sobre o cotidiano geralmente faz parte da pauta de muita gente diante de uma oportunidade que surge espontaneamente ou induzida por alguém que precisa falar por não aguentar guardar só para si o que aconteceu.

É interessante refletir e saber se posicionar diante de acontecimentos que surgem do nada e nos surpreende ao nos colocar, no mínimo, como figurantes numa determinada cena. Conforme as consequências e desdobramentos, dá até para ser classificado como testemunha integral ou parcial do ocorrido.

Nesse sentido, vale a pena relembrar o que aconteceu no domingo de Páscoa, dia 17 de Abril, num supermercado da zona norte de Belo Horizonte mais especificamente na região da Pampulha.

Um rapaz aparentando idade em torno dos 30 anos entrou no supermercado por volta do meio-dia. Seu foco era na compra de um frango assado para o almoço com a família em função da passagem da Páscoa, com sonhos e propósitos de mudanças para melhor, tanto em casa quanto na sociedade.

Ele foi rapidamente para o local de venda e lá foi surpreendido por uma cena inimaginável em andamento. Um senhor e uma senhora, ambos na faixa dos 65 anos, batiam boca numa disputa para definir qual dos dois consumidores teria o direito de comprar o último frango assado do supermercado disponível naquela hora do dia.

O senhor dizia que chegou primeiro e, na réplica, a senhora falou que viu o frango primeiro e que não admitia sair de lá sem ele. Diante da radicalização entre as partes em conflito, o rapaz acionou rapidamente o gerente, que imediatamente chegou ao setor.

Ele iniciou a tentativa de mediação entre os dois clientes explicando que o supermercado foi surpreendido por uma procura muito além da meta de vendas para aquele domingo. A senhora retrucou dizendo que não tinha nada a ver com o erro no estabelecimento da meta e que não abria mão do seu direito de comprar e levar o frango assado para casa, ainda mais que era o domingo de Páscoa. O gerente olhou para o senhor como que a dizer “me ajuda aí “. Enquanto isso alguns clientes iam chegando ao local e se posicionavam para aguardar a solução do problema.

Inesperadamente, o senhor disse que abriria mão do frango para que o impasse fosse resolvido e terminasse o constrangimento gerado pela situação, apesar do seu direito por ter chegado primeiro ao local.

Então, cada participante tomou seu rumo dentro do supermercado com a pequena plateia se desfazendo e a senhora com o seu precioso frango assado, mas mantendo um discreto ar de triunfo pelo resultado alcançado.

Por outro lado, o rapaz que chamou o gerente deixou o local e foi fazer a sua compra numa pequena mercearia a seis quarteirões dali e que tinha disponibilidade para entrega imediata. Ao chegar em casa, começou a contar para todos o que havia acontecido.

Você já presenciou ou foi parte de acontecimentos desse tipo, na Páscoa ou fora dela?

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Uma passadinha na festa

por Luis Borges 18 de abril de 2022   Pensata

Sabe daquelas ocasiões em que alguém te convida para um encontro num barzinho, boteco ou restaurante para comemorar o aniversário de alguém que faz parte de um determinado grupo?

O caso que vou contar aqui ocorreu em Belo Horizonte e o ápice do evento foi na noite da sexta-feira, 8 de abril, num barzinho da zona leste da cidade. Diz-se popularmente que “o melhor da festa é esperar por ela”, então só por aí dá pra imaginar como foi a mobilização e a preparação para esse evento. No dia, o objetivo era comemorar o aniversário de nascimento de uma das participantes de um grupo composto por 9 amigas de longa data.

As duas participantes do grupo que tiveram a iniciativa de propor o encontro assumiram a produção do evento e logo definiram o local da festa, com antecedência de 15 dias.  Ficou decidido que a aniversariante teria como presente a não participação no rateio das despesas e que a duração da festa seria de 3 horas – das 19h às 22h. Foi criado um grupo no WhatsApp para centralizar todas as comunicações relativas ao evento e manter mobilizadas as participantes. Pelo menos duas vezes por dia uma das administradoras do grupo reforçava no WhatsApp a contagem regressiva para o dia marcado e fazia alusão sobre as roupas que cada uma usaria bem como as comidas e bebidas que estariam disponíveis.

A quarta-feira que antecedia o evento era a data limite para que todas confirmassem a presença, até mesmo a aniversariante, a grande homenageada.

Foi aí que surgiu a dificuldade de uma das convidadas para chegar ao local na hora combinada. Uma das coordenadoras insistiu para que ela se esforçasse para dar uma passadinha lá assim que seu compromisso profissional terminasse.

E assim chegou o dia da querida festa. Pontualmente às 19 horas teve início a comemoração. Tudo começou com a fala de uma das coordenadoras do evento, enaltecendo a aniversariante que, em seguida, balbuciou algumas palavras de agradecimento pelo momento. Em seguida começaram a ser feitos os pedidos de bebidas destiladas, fermentadas e até sucos, bem como os tira-gostos como salgadinhos e porções de carne, batatinha e mandioca frita, por exemplo.

Após duas horas de muita conversa, bebida, comida e olhos na tela do celular alguém propôs que se cantasse os parabéns para a aniversariante. Alguém tentou sugerir que se esperasse um pouco mais pela chegada da amiga que estava no trabalho. A proposta foi atropelada pelo canto entoado pelo grupo, que acabou contagiando outras mesas do barzinho. Era visível o “grau” mais elevado de algumas das participantes.

Quando faltavam 15 minutos para o fim do evento a amiga que faltava chegou ao local, cumprimentou a aniversariante e as demais presentes. Naquela altura o clima já era de final de festa. Disse também que estava muito cansada e com fome. Pediu ao garçom uma porção de pastéis pequenos, com quatro unidades, e um refrigerante em lata.

Quando acabou de ser atendida uma das colaboradoras do evento falou – bem mais alto para superar o alarido – que a conta tinha sido fechada com a inclusão do pedido feito pela última participante a chegar. Disse, também, que tudo ficou em R$960 com a gorjeta do garçom incluída e que cada participante, menos a aniversariante, pagaria R$120 em dinheiro ou em cartão de crédito/débito.

A última participante a chegar ficou surpreendida com a forma usada para dividir a conta, mas não teve coragem de fazer objeção nenhuma. Enquanto comia o último dos quatro pasteizinhos entregou à coordenadora os R$120 da parte que lhe coube.

Porém ficou pensando que tudo ficou muito caro para ela. Ao dar uma “passadinha” na festa em função da duradoura amizade desembolsou mais dinheiro do que gostaria ou mesmo do que seria justo. Decidiu que lutará para não cair outra vez numa situação deste tipo. Será?

Você já viveu uma situação como esta? Qual foi a sua reação?

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O governo federal anunciou que a tarifa de escassez hídrica, criada em agosto do ano passado, deixará de ser cobrada nas contas de energia elétrica a partir do dia 16 de abril. O acréscimo de R$14,20 a cada 100 kWh consumidos deveria vigorar durante 8 meses, de 1º de setembro de 2021 a 30 de abril de 2022, e seu fim acabou sendo antecipado em 15 dias. Seria isso uma pequena bondade dentre as muitas que acontecem num ano eleitoral ou os altos índices pluviométricos desse período chuvoso mostram claramente que os reservatórios se recuperaram há pelo menos 1 mês?

Não dava mais para manter a cobrança diante de tantas evidências objetivas, por mais que a cara e poluente energia das termelétricas seja tão bem defendida pelos tecnocratas de plantão na Agência Nacional de Energia Elétrica. Buscar fontes alternativas para a geração de energia elétrica e implementá-las ainda é um desafio na matriz energética brasileira.

É interessante observar e analisar como é bom um negócio em que o risco deixa de existir diante da menor dificuldade e num serviço público concedido. Basta uma canetada governamental para que o prejuízo iminente seja repassado ao consumidor, que deveria ser tratado com o respeito que o cliente-cidadão merece e deve exigir.

Só repassar a ruindade advinda das falhas do planejamento e gestão para os usuários – que não tem outra opção de fornecedor – é muito simples e isenta o dono do negócio de enfrentar os desafios e riscos inerentes. Quem olhar para os detalhes da composição da tarifa de energia elétrica, se houver um mínimo de transparência, verá a quantidade de penduricalhos que fazem parte da precificação. Um bom exemplo, além das bandeiras tarifárias, está ligado aos “gatos” de energia elétrica feitos por pessoas físicas e jurídicas, independente da discussão sobre honestidade e necessidade. É preciso lembrar que cabe à distribuidora de energia elétrica auditar e descobrir os “gatos” existentes. É claro que é mais fácil ficar inerte, pois essa perda está sendo paga na tarifa mediante rateio entre os consumidores.

Enquanto isso, a mídia divulgou que o lucro líquido da Cemig em 2021 cresceu 31% e chegou a R$3,7 bilhões. Quais causas levaram a esse resultado que dará bons dividendos aos acionistas, a começar pelo estado de Minas Gerais ?

É só lembrar dos transformadores estourando ao longo das redes de distribuição de energia, como que clamando por manutenção preventiva e mesmo preditiva. Mas, pelo visto, pode ser interessante postergar a realização de serviços essenciais ao sistema para chegar ao resultado anual.

Uma das consequências é a falta de energia elétrica, que traz prejuízo para os consumidores, inclusive com a perda de alimentos na geladeira e estragos em aparelhos eletroeletrônicos, por exemplo. Ficar mais de 24 horas sem energia elétrica é cada vez mais frequente, principalmente diante de qualquer intensa e rápida chuva. E a empresa concessionária dos serviços tem dificuldade para resolver rapidamente os problemas gerados.

Também é importante lembrar, dentro do capitalismo sem riscos, o empréstimo bancário de R$10,5 bilhões autorizados pela ANEEL para socorrer as distribuidoras de energia visando cobrir mais prejuízos delas no ano passado em função da crise hídrica. Acontece que esses valores serão pagos pelos consumidores em suas contas mensais a partir de 2023.

O que acontece com uma pessoa física ou jurídica que não consegue pagar a conta de energia elétrica? Não se fala em criar uma bandeira de escassez de renda causada pelo desemprego ou pela enorme perda de poder aquisitivo nesse já longo tempo de inflação tão alta – 11,3% só nos últimos 12 meses. Ao consumidor resta apenas pagar a conta para não ser cortado.

Quando pior, pior mesmo e correndo todo o risco.

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“Ele é assim mesmo”

por Luis Borges 5 de abril de 2022   Pensata

O professor universitário Naldo Teles aposentou-se em 2016 e colocou em prática um propósito há muito acalentado. Mudou-se com a esposa para uma pequena propriedade, em um distrito de um município a cerca de 100km de Belo Horizonte. Para trás ficou o tempo em que morou em apartamentos de cinco diferentes bairros da capital. Rapidamente ocorreu um bom entrosamento com boa parte dos moradores do local, que lutam permanentemente pela preservação da cultura e da arte características da região. E nesse conhece um daqui, aproxima-se mais de outro ali, Naldo, sempre comunicativo foi se mostrando solícito e disponível para atos solidários com os seus novos vizinhos. Logo ele, que sempre foi e é um construtivista no campo social.

Como ele possui uma caminhonete com a qual se desloca até Belo Horizonte para levar ou trazer de lá algum bem, quando necessário, acaba também ajudando algum vizinho com necessidades semelhantes.
Mas como as pessoas possuem diferente níveis de compreensão quanto ao que é combinado em relação a eventos de qualquer natureza, de vez em quando acontecem coisas que deixam visíveis o desconforto e o constrangimento entre as partes envolvidas nessa espécie de camaradagem.

Aconteceu recentemente o atendimento de um pedido feito por Dona Brígida, uma das primeiras pessoas a se aproximar do professor e sua família quando se mudaram para a propriedade. Tratava-se do transporte de um móvel de madeira, do tipo cômoda, contendo 4 gavetas e vidro grosso na superfície, para ser entregue em Belo Horizonte na residência de Valquíria, uma ex-companheira de seu filho Amílcar. Ele tem 41 anos, é servidor público municipal, tem dois cachorros, dois gatos e mora num pequeno barracão no lote em que está construída a casa da mãe.

Quando surgiu a oportunidade para atender a solicitação feita pela vizinha, o professor Naldo disse a ela numa segunda-feira que partiria para Belo Horizonte às 9 horas do próximo sábado. Disse também que aguardaria seu filho para pegar a caminhonete e nela colocar o móvel na carroceria até, no máximo, a hora do almoço da sexta-feira.

Como nada aconteceu dentro do prazo acertado e, segundo o professor “o que é combinado não é caro”, ele procurou Dona Brígida no início da noite e cobrou dela a falta de iniciativa de seu filho para cumprir o que foi planejado. Diante da firmeza do professor dizendo que a falta de atitude do filho dela estava causando transtornos para a execução do plano de ação, ela justificou dizendo que “ele é assim mesmo” e que tinha ido namorar naquela noite. Disse também que cuida até dos gatos e cachorros dele e pediu uma tolerância até o início da manhã seguinte para o filho resolver o problema.

Faltando meia hora para o início da viagem, Amílcar pegou a caminhonete com o professor e foi em casa colocar o móvel em sua carroceria. Assim, a viagem começou com apenas 20 minutos de atraso. O professor entregou a encomenda no endereço combinado e, no final da tarde retornou para a propriedade. Só ao chegar em casa que percebeu que a tampa de vidro do móvel, embalada num tecido, não tinha sido retirada da caminhonete e acabou se quebrando no caminho de volta. Aí ele solicitou ao filho da vizinha que retirasse os pedaços do vidro quebrado de sua carroceria.

Sabedor de que “ele é assim mesmo” o professor esperou pacientemente até a quarta-feira seguinte, quando Amílcar finalmente retirou os resíduos da caminhonete e pediu para o professor não ficar de mal dele pelo que aconteceu.

Agora o professor Naldo está pensando em como proceder quando algum outro vizinho solicitar algo semelhante, pois não quer ser punido por acreditar nas pessoas e sempre cumprir o que é combinado. Porém ele tem afirmado que “se as pessoas não mudam, mudo eu”. Será fácil?

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