O ônibus da minha infância

por Convidado 8 de Janeiro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Este Brasil é lindo e grande demais. Nestes últimos dias, tive a oportunidade de viajar a trabalho de norte a sul, de Porto de Trombetas a Porto Alegre, além de outras cidades.

Saí de Belo Horizonte para Brasília, depois Belém. De Belém para Porto de Trombetas, passando por Altamira e Santarém, chegando ao seio da floresta amazônica.

A viagem me causou nostalgia e despertou lembranças de minha infância. Em minhas férias de criança, o ônibus que me levava à fazenda de meu avô, além dos defeitos que dava, ia parando em lugarejos e, em cada um deles, desciam pessoas para as quais era o fim de uma viagem, mas também o começo de outras, que faziam a cavalo ou a pé, até suas casas, lá num rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo…

Pode parecer que minha infância não tenha nada em comum com minhas últimas viagens, mas tem. Embora estivesse a bordo de um avião, a viagem foi bem parecida. Antes mesmo de entrar na última aeronave, ainda em Belém, enquanto esperava ser chamado para o embarque, acompanhei a história de uma família que foi à capital para tratar da saúde de uma menina. Ao descerem em Santarém, se despediram das várias pessoas a bordo e disseram que ainda teriam mais nove horas de barco. Novamente recordei minha infância.

Que toquem as trombetas! Que rufem os tambores! Enfim, cheguei a Porto de Trombetas. Eu estava na maior floresta do mundo e cercado de rios enormes. Muito longe de casa, mas num lugar tranquilo. Cotia, sapos, pássaros de toda espécie. Casa de hóspedes, comida simples, mas saborosa. Sucos e vitaminas de frutas que não conhecia, mas que adorei. Noite calma, sem ruídos, local onde o silêncio persevera e nos permite um sono reparador. Na outra manhã, uma turma de profissionais, no papel de alunos, me aguardaria para concluirmos um curso de pós-graduação. Fim de ano, última disciplina do curso. Lá estavam eles de frente para mim. Será que teriam interesse? – pensei comigo. Mas a maioria teve sim. Foram participativos e, conforme diria a Santa Tereza de Calcutá, “me fizeram sair de lá melhor do que quando cheguei”. Foram gentis. Dois dos alunos me mostraram toda a vila. Simpatizei-me com o lugar e com as pessoas.

Passei quatro noites na floresta. Experimentei silêncio e paz. No retorno, o avião teve um problema em Santarém e tivemos que descer à sala de embarque. Não consegui evitar. Outra vez me assaltaram as lembranças do ônibus da minha infância no caminho da fazenda de meu avô.

Todos à espera de uma providência e apresentando os roteiros que ainda teriam pela frente. O meu era Santarém-Altamira-Belém; Belém-Brasilia; Brasilia-Belo Horizonte. O representante da companhia aérea ficou apavorado quando verificou todos aqueles roteiros. Prometeu encontrar uma solução e saiu em direção à aeronave. Trinta minutos depois estava de volta e anunciou que iríamos partir. Ouviu-se a pergunta entre os viajantes: isso é bom ou é ruim?

Todos acomodados e alguns incomodados em seus lugares. O ATR-42 ronca os motores e dá partida… Momento de emoção. O avião acelerou ao máximo, levantou voo e, para o alívio dos passageiros, se firmou no ar. Havia pessoas rezando, outros trincando os dentes, apertando os lábios e sabe-se mais o quê. Mas, após cinco pousos, eu estava de volta a Belo Horizonte.

Ao chegar, o cansaço era forte, teria pouco tempo para o descanso. Depois, haveria Porto Alegre, mas aprendi que devemos pensar em uma coisa de cada vez. Ainda pude trocar algumas palavras em família, antes de encontrar com a melhor amiga do homem: a cama, e sonhar que estava voando.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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