Festa no retorno das férias

por Luis Borges 19 de novembro de 2014   Pensata

Na semana passada, depois de muito tempo adormecida na casa, a regulamentação da PEC das Domésticas voltou a ser discutida no Senado da República. No último dia 11, a comissão do Senado rejeitou diversas emendas. O texto, agora, volta para apreciação na Câmara dos Deputados. Enquanto isso, 7,2 milhões de empregados domésticos continuam aguardando as regras para a operacionalização de vários direitos, entre os quais o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Pelo visto dificilmente essa matéria ficará resolvida ainda nesse ano. No entanto, o Brasil continuará sendo o maior mercado mundial na contratação desse tipo de trabalho, com ou sem carteira profissional assinada, mesmo já sendo uma exigência legal.

Diante desse quadro, passam pela minha cabeça narrativas das mais diversas situações envolvendo as relações de trabalho entre contratantes e contratadas. Nas últimas 4 décadas ouvi muitas reclamações e poucos elogios, principalmente da parte contratante. Já pelo lado das  contratadas é claro que vi também muitas pessoas profissionais e comprometidas, convivendo com outras cheias de soluções “criativas” e muito descompromisso com o que foi combinado.

No início dessa semana, fiquei sabendo de um caso muito interessante, para não dizer inusitado, envolvendo o trabalho doméstico. Na segunda feira por volta de 10:00 horas, fiz uma visita telefônica a um casal de amigos. Ambos já são aposentados pelo INSS, possuem previdência complementar, têm os filhos criados, convivem com idosos na família  e estão na faixa de 60 a 65 anos de idade. Quando o amigo atendeu à chamada, ouvi um alarido com sintomas de felicidade plenamente audível em sua residência. Ele me disse que estavam fazendo uma festa singela pelo retorno da empregada doméstica, após 30 dias de férias. Eu não quis atrapalhar a festa e educadamente me despedi do amigo propondo concluir a visita numa outra ocasião mais oportuna. Mas minha amiga retornou minha ligação ainda antes do almoço e me fez um depoimento explicando o contexto da festa. Ela foi clara e falou na lata.

“Não vou mais reclamar de minha empregada doméstica que trabalha comigo há 5 anos, mesmo que ela chegue tarde e saia cedo. Nesse período de suas férias não dei conta de fazer todo o serviço necessário e só consegui contratar uma diarista uma vez. Além disso, minha residência é grande, cuido de minha mãe e tenho outros diversos afazeres familiares, que exigem muito de mim. Ficou claro que estou gerando trabalho conforme a lei  e que preciso de alguém que atua nesse segmento em que a confiança é um requisito essencial”.

Diante disso reafirmei a minha crença de que “ruim com ela, pior sem ela”. E você, caro leitor como tem sido as suas experiências e conclusões nas relações de trabalho doméstico? Será que esse mercado tende a se estreitar?

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Renovar as alianças é preciso

por Luis Borges 14 de novembro de 2014   Pensata

Na semana passada me encontrei com Azarias Pedro, um antigo colega do início da minha carreira, que eu não via há muito tempo. Fizemos o clássico cumprimento, carregado de satisfação pelo reencontro. Depois dele, Azarias disparou a falar. Em resumo, seu casamento de 30 anos com Ana Telma acabou. Foi ela quem pediu a separação, irrevogável, alegando que não aguentaria mais esperar pelo dia em que a morte os separaria. Meu colega estava queixoso. Contou que hoje mora num pequeno barracão, nos fundos da casa do filho mais velho, vive do salário de professor aposentado pelo INSS.

Foram muitas informações em poucos minutos. Tentei respirar, perguntei pelas causas. Ele disse que era complicado, que fora engolido pela mesmice, pela escassez de diálogo, acentuada com a passagem do tempo. Tentei continuar a conversa, compartilhar algo sobre a minha trajetória, mas meu colega estava sem tempo e partiu.

Azarias me deixou pensando na história dele, no conjunto de causas que fizeram parte do processo que levou o casal àquele resultado. Me indagava quais poderiam ser as causas fundamentais, mesmo não tendo fatos e dados para alimentar minhas ilações.

Interior da Catedral da Boa Viagem, em Belo Horizonte / Foto: Marina Borges

Interior da Catedral da Boa Viagem, em Belo Horizonte / Foto: Marina Borges

Foi aí que me lembrei do sermão feito pelo padre durante a cerimônia religiosa do casamento de Thais e Thiago, em setembro, na Catedral da Boa Viagem, em Belo Horizonte. Essencialmente, o padre se referiu ao tema do Evangelho, que tratava da transformação da água em vinho nas Bodas de Caná. O padre aproveitou para reiterar que, atualmente, vivemos numa sociedade epidérmica onde a profundidade está fora de moda. Arrematou lembrando a importância das alianças entre as pessoas e a essencialidade da sua permanente renovação.

Se é bom aprendermos com os erros e acertos, de preferência dos outros, me pergunto e te pergunto, caro leitor: como estão as nossas alianças? Será que estamos praticando verdadeiramente o que significa uma aliança para fazer a união harmoniosa de seres e coisas diferentes entre si e que são muito valiosas para todos os envolvidos no processo?

Surge aqui uma oportunidade para a reflexão, que deve ser seguida pela ação, tendo como foco as alianças no amor, na família, nos negócios, no associativismo… sempre lembrando que não existe processo sem cooperação e sem participação.

Infelizmente, se as nossas conclusões nos informarem que estamos omissos e que nossas alianças estão perdendo o sabor, fica o desafio da mudança de atitude enquanto há tempo. Espero que, doravante, os gestos sejam maiores que as intenções, pois o isolamento é tão triste no palacete quanto no barracão.

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O feijão e o sonho

por Convidado 10 de novembro de 2014   Pensata

Por Sérgio Marchetti

Quando era criança li um livro chamado “O feijão e o sonho”, de Orígenes Lessa. Eu já possuía uma queda para a poesia e também para a licenciatura. Mas confesso que aquele romance mexeu comigo profundamente, balançou minhas convicções e me entristeceu. Eu não queria aceitar, porém sabia que havia razão na personagem da esposa do professor. Maria Rosa era racional, prática e com os pés no chão. Já o professor Campos Lara, o marido, amava a literatura, vibrava com suas aulas e vivia mais perto das nuvens.

Havia naquela personagem uma pureza e uma obstinada busca por fazer o melhor por seus alunos. Faria, se pudesse aquele professor, um implante de uma parte de sua memória na cabeça de cada aluno. Com sua conduta irreprovável representava o profissional dedicado, que vestia a camisa e defendia os interesses da organização a que servia. Naquele momento, eu torci para que o sonhador realizasse seus objetivos e que pudesse vencer na vida acreditando em seu sonho. Não aconteceu e me frustrei. Faltou o feijão e o casamento passou a ter problemas. Ainda assim, Campos Lara continuou acreditando que a felicidade estava na realização do sonho, e no amor pelo trabalho que fazia.

Naquele tempo, os valores eram completamente diferentes de hoje. E muita gente era feliz, mesmo que não houvesse muito “feijão”. O sonho valia muito, pois as pessoas eram respeitadas pela honestidade, dignidade e capacidade. E a figura do professor daquela época? Era muito diferente dos dias atuais. Os alunos respeitavam sua autoridade. Hoje, tudo mudou, e não há como viver no presente com os mapas do passado. Contudo, isso não significa que todos os mapas atuais estejam corretos. Um país que não se preocupa com a educação, entre tantas outras coisas básicas, não terá cidadania jamais.

Bem, de lá até os dias de hoje, o tempo passou e o mundo ficou ainda mais prático. Mas não é só o “feijão” que as pessoas desejam. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Assim cantaram os Titãs, e sua música retratou uma necessidade de todos. Do passado, vêm experiências, fatos que nos servem como marco, parâmetros e exemplos do que deu certo e também do que não deu. Sem passado não há como saber se evoluímos, pois ele nos fornece dados e parâmetros. O presente vem recheado de transformações e novidades. Somos passageiros de um mundo em movimento frenético de mudanças. “Para o mundo que eu quero descer”, gritaria o maluco beleza, grande Raul Seixas. Mas não há como parar a roda viva e, infelizmente, estamos sem condições de diminuir a velocidade do seu giro.

O atual cenário é marcado pela inversão, destruição e criação de valores num mundo que se tornou um só, graças à evolução da tecnologia. O planeta é único. Povos e culturas, ainda que distintos, se aproximaram. Palavras novas, expressões diferentes, atitudes insólitas surgem e se propagam como a luz pelo mundo afora e, em alguns casos, não temos como identificar de onde surgiram. Termos atuais como TOC, síndromes, aplicativos, combos, confirmam as constantes mudanças de hábitos, de linguagem e descrevem doenças, códigos e estratégias que formam uma nova maneira de viver.

Goleman, um dos psicólogos mais respeitados do mundo, em contrapartida, enfatizou que temos uma geração sem foco, com muitos déficits para tratar. A nomofobia faz parte do pacote, compõe o kit do desenvolvimento. Talvez seja um combo. Mas falando sério, trata-se de desconforto causado pela falta de acesso a aparelhos celulares e outros equipamentos tecnológicos, e surgiu como consequência de um mundo virtual em que pessoas não conseguem ficar desconectadas de seus aparelhos eletrônicos. Muitos não acreditam que estão se alienando, mas a doença tem sintomas como tremor, suor excessivo, falta de ar, vertigem, náuseas, taquicardia, dor de cabeça e, em casos mais extremos, depressão e síndrome do pânico.

Essa é a proposta de vida para um novo tempo, mas, convenhamos, haja “feijão” para surfar nas novas ondas. A vida ficou mais cara, com mais recursos, mais conforto, mais grifes, porém mais vazia e mais cansativa. Possivelmente a expressão “vazia” não seja a mais acertada, já que alguns vão discordar. Talvez pudesse dizer que vivemos no piloto automático e que o tempo ficou escasso para todos, devido justamente ao enorme número de opções que temos. É bem provável que o vazio possa vir da incerteza que o provisório nos trouxe. Os empregos, antes carreiras de trinta anos, hoje duram em torno de três anos ou menos, conforme algumas pesquisas nos informam. O ser humano se tornou imediatista e a impaciência é uma característica do novo cidadão. Quando alguém deixa a bateria do telefone acabar, ouve broncas, reclamações, como se tivesse cometido algum crime. A escravidão em tempos de amor virtual também não é visível, mas aprisiona a humanidade. Hoje, temos muitos feitores artificiais nos controlando durante vinte quatro horas. Basta olhar no saguão de espera dos aeroportos. Pior, quando a comissária, em pleno voo, anuncia que podem ser ligados os aparelhos eletrônicos, mesmo numa viagem de trinta minutos, todos os dependentes virtuais, parecendo ter longo período de abstinência, imediatamente ligam seus aparelhos.

Mas eu falava sobre “O Feijão e o Sonho”? Será que me distrai e perdi o foco? Falava da ideologia do professor e da praticidade de sua esposa. Mas isso já faz tanto tempo. As novas gerações não entenderiam o que se passava na cabeça de Campos Lara. Pensando melhor, creio que entenderiam sim, contudo o veriam como um tolo. Perdão, tolo é palavra do passado, agora o certo é “mané”.

Como vimos, o mundo não mudou – o mundo se transformou. Mas para não perder o foco, quero lembrar que as mulheres, representadas pela Maria Rosa (a personagem de “O Feijão e o Sonho”), já sabiam da importância do “feijão” e já demonstravam uma predileção especial por aquela hortaliça. Prova de que são bem práticas e proativas e, não por acaso, se adaptaram melhor do que os homens ao mundo contemporâneo.

Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui Licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br 

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Os primeiros enfeites de Natal

por Luis Borges 7 de novembro de 2014   Pensata

Chegaram às casas comerciais os primeiros enfeites para o Natal deste ano, quando faltam menos de 50 dias para a data magna do cristianismo. A primeira sensação que tenho é de que o ano praticamente acabou. Ainda assim, fico me indagando sobre o que ainda é possível fazer diante do clima de festas que só crescerá a cada dia. Penso também naquilo que poderia ter sido feito mas não o foi. Aí a sensação é de perda, mesmo sabendo que algumas metas eram extremamente desafiadoras num ano de Copa, eleições presidenciais, baixo crescimento econômico e inflação dando sinais de vitalidade.

Tenho também a sensação que em breve surgirão os enfeites que embelezarão ambientes públicos das cidades, ainda que as prefeituras estejam chorando a falta de recursos do orçamento para tal fim. Sei também que árvores de natal cheias de bolinhas coloridas, guirlandas, Papai Noel e até presépios chegarão às nossas residências, principalmente no inicio de dezembro. É claro que em muitos lugares tudo chegará na última hora junto com as mensagens impressas ou pelas redes sociais, muitas delas cheias de si mesmas.

árvore de natal pendurada na cúpula das Galeries Lafayette em Paris

Um dos primeiros sinais do Natal, fotografado nas Galeries Lafayette, no fim de outubro deste ano. /Foto: Marina Borges

Mas qual será o significado que o Natal terá para nós neste ano de 2014, após os resultados das urnas no segundo turno das eleições presidenciais? Se tudo começa com a gente, o que efetivamente significará nascer, renascer ou se reinventar com sabedoria numa sociedade que se diz plural e republicana? Outra sensação forte que tenho é de que mais uma vez se travará um embate entre a educação financeira das pessoas e o “consumo, logo existo”. Crédito de todas as modalidades é o que não faltará, inclusive para quem limpou o nome na praça. E não é demais lembrar que o 13º salário injetará R$ 158 bilhões no mercado. Como já é de nossa cultura, presentes serão trocados, inclusive nas modalidades de amigo secreto ou de inimigos ocultos com valores mínimos ou não, previamente estabelecidos.

Muitas pessoas também estarão com a sensação de que não escaparão da confraternização corporativa, mesmo nos ambientes em que não existe clima organizacional para tantos abraços e beijinhos. Mas como são muitas as cobranças para que todos compareçam, talvez seja necessário uma “dublagem” amparada pela frase da sobrevivência a nos dizer que “um pouco de hipocrisia não faz mal a ninguém”.

É, realmente parece que o ano já acabou. Mas ainda dá tempo de se preparar para um Natal que tenha mais significados e consequências para homens e mulheres de boa vontade e de livre arbítrio.

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O desnecessário horário de verão

por Luis Borges 21 de outubro de 2014   Pensata

Já estamos em pleno horário de verão, que nessa edição terá 126 dias de duração e só acabará em 21 de fevereiro do ano que vem, por causa do Carnaval. Tudo isso na forma da lei, por meio de decreto de 1931 que impunha o horário em todo o território nacional. Após idas o horário de verão segue ininterrupto desde 1985, para aplicação nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste.

Conheço pouca gente que gosta dele. Mas independente de se gostar ou não, eu não vejo argumentos lastreados em fatos, dados e conhecimentos técnicos específicos que justifiquem a sua adoção. O argumento mais difundido e repetido exaustivamente pela mídia é que se evitaria um apagão no horário de pico da demanda no início da noite e que nesse horário se reduziria a demanda por energia elétrica em 4,5%. Além disso, repete-se também que a economia de energia global no período varia de 0,4% a 0,5%, que é ínfima diante de tantas variáveis envolvidas nesse cálculo e que são pouco explicitadas. Entretanto não existe transparência sobre o método usado para se chegar a esses números que, aliás, contrastam com outras informações do site do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Lá está dito que o período de pico por demanda de energia se dá no início da primavera.

Por outro lado, é importante lembrar que, no verão, os dias têm um período maior de insolação e que muitas vezes o uso de refrigeradores no período da tarde aumenta a demanda por energia. Quem quiser verificar os horários dos apagões durante os últimos 5 anos, verá que eles não escolhem necessariamente uma hora para acontecer, inclusive no verão. E é claro que as causas também são várias e vão muito além de um prosaico aumento momentâneo de demanda. Se no período atual estamos enfrentando uma longa estiagem e o ONS informa que os reservatórios estão nos mais baixos níveis históricos, por que não rever de maneira efetiva a matriz energética brasileira e estudar melhor a eficiência energética? Você já imaginou a energia solar sendo usada em larga escala para aquecer a água, se houver, dos chuveiros de nossas residências? Isso também ajudaria a derrubar ainda mais o argumento do ONS sobre a probabilidade de apagão elétrico no início da noite por excesso de demanda.

Também os impactos no organismo humano devido à mudança no fuso horário deveriam ser melhor estudados e mais difundidos entre as pessoas. Dormir mais tarde, ter insônia, acordar mais cedo e ter sonolência ao longo do dia são alguns dos fatos mais citados e reclamados e que devem trazer impactos no bem estar e na produtividade das pessoas. Mas, como é cada vez mais típico da cultura brasileira, as coisas são impostas na arrogância e na superficialidade. O horário de verão continua sendo desnecessário e fico na esperança de que os três projetos que tramitam na Câmara dos Deputados propondo o seu fim consigam quórum para aprovação, um dia. Antes tarde que muito tarde.

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Outra vez, é dia do professor

por Luis Borges 15 de outubro de 2014   Pensata

Considero este 15 de outubro, Dia do Professor, como dia do ano em que devemos aproveitar a oportunidade de homenagear e reconhecer os mestres que cumprem a missão de educar, ensinar e aprender em nosso país sempre necessitado de contínuas transformações. Podemos nos lembrar de quem nos ensinou as primeiras letras e os primeiros algarismos, daqueles que nos orientaram, influenciando nossos rumos, ou dos que foram homenageados em nossas formaturas, inclusive como paraninfos ou patronos. Aqui também é permitida a lembrança daqueles que só cumpriram “a tabela do campeonato” ou mesmo aqueles poucos que nos marcaram indelevelmente por suas posturas equivocadas.

Por ter feito desta função uma opção profissional em minha vida, inclusive acompanhada da devida vocação, sei qual é o tamanho da dor e da delícia de trabalhar nesse segmento. Entendo perfeitamente que o desafio é muito grande, e que ainda não estão disponíveis todas as condições para vencê-lo plenamente em todos os níveis, exigências e necessidades. Mas tenho a crença de que a educação é a base de tudo e de que não existe substituto para o conhecimento na solução dos problemas, bons ou ruins, que a era da incerteza nos traz cotidianamente. Por isso será sempre essencial se trabalhar com os fundamentos, demonstrar sua aplicação e mostrar a efetividade dos resultados, de preferência sem dogmatismos e instigando a curiosidade, a observação e a criatividade. É muito pouco ser uma mera estação repetidora.

Minha reflexão deste ano diz respeito ao clamor nacional por mais recursos para a educação, que deverão se refletir em melhores condições de ensino, profissionalização da carreira docente e valorização profissional com a devida atualização permanente do conhecimento do professor. Nesse caminhar muitas lutas, embates, medição de forças – inclusive com greves – acontecerão. Mas nada justificará o descompromisso, o fazer de qualquer jeito, o simplesmente cumprir burocraticamente os dias letivos previstos ou o não, principalmente para quem defende e almeja o profissionalismo do professor. Entre o pessimismo chato de quem só quer lamentar, chorar e reclamar ou o otimismo irreal de quem pensa que um dia tudo vai melhorar mesmo na inércia, reitero meu reconhecimento por aqueles que constroem, melhoram e inovam nos processos de trabalho, guiados pela esperança realista e pragmática.

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Nos últimos três anos acompanhei de longe uma “mocica” que sonhou quase que diariamente com o dia em que completaria 18 anos de idade e passaria a ter diversos direitos previstos em lei. Sua mãe sempre ouviu suas palavras, sem se esquecer de lhe dizer que, a partir daí, os anos de vida passariam muito mais rapidamente e que dias viriam em que ela diria sentir saudades desses tempos em que sonhou tanto.

Contrastando com esse fato, passei a refletir sobre as pessoas que, como eu, estão chegando aos 60 anos de idade ou já passaram desse número limite. Isso reverberou mais em minha cabeça e em diversas mídias em primeiro de outubro, Dia Internacional do Idoso, data que tenta chamar a atenção para esse ciclo da vida.

Aqui é bom lembrar que a legislação brasileira estabelece, no Estatuto do Idoso, uma série de conceitos, definições e direitos que deveriam existir plenamente a partir do 60º aniversário de nascimento das pessoas. Nesse aspecto, relembro que um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada propõe que a idade limite para início da vida idosa passe a ser 65 anos. Em sentido semelhante, tramita há alguns anos no Congresso Nacional um Projeto de Emenda à Constituição que propõe passar de 70 para 75 anos a idade limite para a aposentadoria compulsória no serviço público. A razão mais segura para tudo isso é o expressivo aumento da expectativa de vida dos brasileiros, que já chega à média dos 75 anos, sendo que para as mulheres já passa de 78. Nesse sentido, vale lembrar também que 10,4 milhões de eleitores têm idade superior a 70 anos e que, para eles, o voto é um direito e não uma obrigação.

Se planejar é pensar antes, alguns aspectos quase que formam uma pauta a nos cobrar um posicionamento para esses tempos, que a cada dia se tornam mais próximos. É claro que os cenários que se desenham são projeções difíceis de se acertar, mas devemos tentar pelo menos nos aproximar ou errar menos. É por isso que podemos pensar em cenários otimistas, pessimistas ou mais prováveis, mesmo sabendo que tudo depende de muitas variáveis. Algumas delas só dependem de nós, e outras, uma grande parte, nós não controlamos. Essas ficam nas mãos dos governos, dos mercados e até da inércia dos políticos que emanam da democracia representativa.

Na minha pauta, veio a preocupação com a queda do poder aquisitivo do aposentado, principalmente com inflação cada vez mais longe da meta de 4,5% ao ano e sabedor de que o custo de vida do idoso é muito impactado pelo preço de planos de saúde, medicamentos e consultas particulares. Pautei também o desejo de ter uma boa qualidade de vida nesses tempos de ócio criativo, com dignidade, mesmo consciente dos limites físicos que vão surgindo para o corpo humano. Aqui registro a preocupação com a mobilidade de pernas e braços, o metabolismo, a pressão arterial, os órgãos do sentido e os estragos causados por uma bala, perdida ou não.

Avançando na pauta pensei no convívio familiar – esposa, filhos, parentes, amigos, enfim, pessoas que, em diferentes graus, fazem parte do cotidiano. Com quantos e com quais prosseguiremos, por exemplo, nos próximos 15 anos? Aí o tempo fechou e minha pauta foi interrompida, na certeza de que ela é muito longa mas terá de ser enfrentada com sabedoria, conservação de energia e gestão da ansiedade no exercício da paciência e da persistência.

E você, caro leitor, tem pensado também nesses temas e em outros conexos? Aguardo suas reflexões nos comentários.

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Após as eleições que definiram os 513 deputados federais que comporão a Câmara dos Deputados a partir de janeiro de 2015, fica a expectativa de que se produza alguma coisa até o final desse ano.

Também não é para menos. Em nome da campanha eleitoral só houve dois dias de votação em plenário na primeira semana dos meses de agosto e setembro, no sugestivo “esforço concentrado”.

Se medirmos a produtividade dos deputados na legislatura 2011-2014, veremos que apenas 30 projetos de autoria dos próprios deputados viraram leis. Esses projetos foram apresentados por apenas 26 parlamentares, ou seja, 5% do total de membros do plenário.

Se a comparação de produtividade for feita com a legislatura anterior, 2007-2010, verifica-se quase uma “queda livre” na produção. No período anterior, 70 deputados tiveram projetos próprios aprovados. Na legislatura que finda em 2014, foi mais fácil e cômodo emendar os 146 projetos do Executivo, que se tornaram leis.

Como não existe uma cobrança mais acentuada pela produtividade, o que nos passa a sensação de descompromisso, e os benefícios decorrentes do poder são muitos, fica fácil entender porque 6100 pessoas se candidataram a uma das 513 vagas, das quais 53 são para a bancada de Minas Gerais.

Quem tiver curiosidade de verificar o planejamento dos trabalhos das comissões e sessões plenárias desta semana pós eleições encontrará o mesmo do mesmo. A pauta do plenário, trancada pela Medida Provisória que reestrutura as carreiras da Policia Federal, aguarda quórum para prosseguir. Talvez, por não exigir quórum, será mais fácil inaugurar as rampas de acesso ao plenário Ulysses Guimarães cujas obras foram concluídas e visam melhorar a acessibilidade.

Quem sabe também a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que apura as denúncias de corrupção na Petrobrás conseguirá quórum para ouvir a contadora do doleiro que também negociou delação premiada. Também a Comissão do Orçamento tentará aprovar emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2015, enquanto a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar tentará analisar os casos de dois deputados acusados de infringir regras da casa. Mas tudo isso, sempre se houver quórum, na certeza de que a semana termina no mais tardar na quinta-feira e de que muitos projetos, relevantes ou não, continuarão parados aguardando as negociações do Colégio de Líderes.

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Dona Lelê partiu e ficou

por Luis Borges 24 de setembro de 2014   Pensata

A senhora Maria Teresina Canuto Calais, 84 anos, mãe do amigo João Bosco Calais Filho, partiu para um outro plano no dia 09 de setembro. Partiu em Jequeri-MG, cidade da Zona da Mata, a 220 km de Belo Horizonte, terra das deliciosas broas e broinhas de milho. A dor de sua perda e as lembranças já saudosas do seu marcante e edificante modo de ser foram registradas pelas palavras de uma de suas filhas e por duas de suas netas, em homenagens que podem ser lidas a seguir.

Não quero falar de dor. Esta, só o tempo para acalmar. Quero falar de saudade! Do amor que ficou e ficará para sempre! Partiu na manhã de terça feira, dia 09/09, uma mãe, avó, amiga… Dona Lelê!!!

Ela não tinha medo de morrer, mas sim de não viver.

Uma mulher forte, determinada, batalhadora, alegre. Um exemplo a ser seguido.

Seu jeito tão ímpar de viver, suas risadas, ecoam em minha mente e vão ecoar em todos os momentos da minha vida.

Alguém escreveu que “as pessoas que amamos não morrem jamais, apenas partem antes de nós”. E é isso. Ela partiu, foi dar risada em outro plano, mas tenho certeza que vamos nos reencontrar um dia.

Vá com Deus, Mamãe, e continue colhendo todos os frutos do amor que semeou aqui conosco. A todas as pessoas que de alguma maneira estiveram conosco neste momento, o nosso obrigado!

Por Maria Emília Calais, filha.

D. Lelê na juventude

D. Lelê na juventude

Ela foi metade da minha infância. Limpava nossas roupas sujas de barro, tinha as melhores mangas no quintal e o cheirinho gostoso do café com queijo pela manhã. Pra entrar na briga pelos seus netos, não bastava motivo, estávamos sempre certos. Afinal, na casa da vovó podia tudo. E usávamos essa expressão ao pé da letra. Era chegar o primeiro dia de férias que esperneávamos para viajar, nadar no rio, subir no areal, andar de bicicleta e depois chegar a tempo para o almoço caprichado, que só ela sabia fazer. A gente dava trabalho, viu? E quando íamos embora, ela ficava na varanda, fingia que estava chorando na hora da despedida e abanava as mãozinhas quando o carro passava. É… você vai fazer falta, vó. E quando a dor passar, vai ficar a saudade… a saudade que jamais vai embora. E a certeza de que minha infância foi a melhor do mundo, porque te tive como vó, porque te tive como exemplo.

Por Débora Calais, neta

D. Teresinha e o cachorro Hulk

Com o cachorro Hulk

Levou consigo a bagagem, cheia daquilo que por tempos sustentou toda uma família. Fico imaginando que, feito aquela época da roça, em que chegava na cidade grande com uma mala repleta de um pouco de tudo que havia plantado (legumes, verduras e frutas de todas as qualidades; sustento dos filhos, e deleite dos amigos) e a carregava sozinha da rodoviária até a Tamoios, aí em cima, quando chegou, deve ter recusado o socorro de algum anjo encarregado. Talvez não, talvez o tenham avisado que a Senhora era dessas que largou Banco por roça, criou oito e mais um bocado, enterrou dois, buscou marido em boteco com espingarda na mão, cultivou lavoura debaixo de sol e não baixou cabeça pra ninguém. Era o elo que sustentava muita gente, e tinha o respeito de um montão. Muitos médicos eram seus melhores amigos, e vários caminhoneiros da coca-cola, seus maiores inimigos. Dos seus “meninos”, só o melhor (e pode botá aí: filhos, netos, bisnetos, de consideração, ou não). Todos tão diferentes, mas carregando consigo a raça e garra que você teve ao criá-los. Feito você, vão conseguir seguir em frente, vão sentir dor, vão encher os olhinhos d’água sempre que de você falarem, mas vão seguir, assim como a viram fazer por três vezes.

Foi festa aí no céu, meu receio é que alguém tenha botado um trio elétrico em sua porta, que vô tenha lhe cobrado que a Senhora sempre dissera que iria antes dele, que Maria Elisa tenha te segurado e não soltado mais, que “vó” Auta já tenha se fartado de toda sua rebeldia, “Tereza”. De resto, só consigo imaginá-la a almoçar doces de todas as variedades e sobremesear algum almoço. Saborear empadas e escutar Roberto Carlos. Com uma varanda pra avistar e algumas pessoas de quem comentar. Com um sorriso largo no rosto, um batom bonito na boca, um relógio chique no pulso e um cabelo bem arrumado. Guarda consigo o que levou daqui, continuaremos a carregar a bagagem do que plantou, não em terra, mas em nós.

Lamento sua morte… lamento por todos que não a conheceram e que só souberam de ti por nós.

A bença vó!

Por Karina Calais, neta

Dona Lelê 2

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Procura-se gente que quer trabalhar

por Luis Borges 20 de setembro de 2014   Pensata

Tenho ouvido constantes reclamações de pessoas que não conseguem encontrar prestadores de serviços. A situação atinge prestadores residenciais, como bombeiros, eletricistas, jardineiros, arrumadeiras e também candidatos a funcionários de micro, pequenas e médias empresas, de diferentes segmentos de negócios. Às vezes tenho a sensação de que muita gente quer o maior bem-estar possível dispendendo o menor esforço. Muitos estão sempre atentos aos seus direitos, mas esquecem-se dos deveres e focam-se no “consumo, logo existo”.

Na semana passada conversei com um empresário de Araxá, lugar alto de onde primeiro se avista o Sol, conforme a língua indígena. O empresário é do setor de alimentos, no qual atua há 40 anos. Hoje seu negócio gera trabalho para 17 pessoas, com as respectivas carteiras de trabalho assinadas, e tem faturamento anual próximo de 2 milhões de reais. Apresento a seguir a reclamação dele, em tom de desabafo mas profundamente realista, apesar de muitas autoridades nos darem a sensação de que tudo vai bem e de que Alice está no país das maravilhas.

Não tenho visto nenhuma entidade como FIEMG, FIESP, Federações do Comércio, CDLs e outras discutirem as dificuldades das pequenas e médias empresas para conseguirem contratar empregados por esse Brasil afora. Políticos, nem pensar, ainda mais nesse período eleitoral!

No meu caso específico, que deveria ser menos difícil por não exigir experiência anterior nem especialização, enfrento um grande drama. E olha que aqui as pessoas recebem um treinamento no trabalho, bem básico, como um “arroz com feijão”, tanto na produção como na comercialização.

Poucos querem trabalhar, assumir compromissos, cumprir escalas de horário em sábados, domingos e feriados, sempre dentro da lei.  Esta geração “nem nem”, nem trabalha e nem estuda, na minha modesta opinião, tem sido a grande dificuldade das nossas pequenas e médias empresas quando começam a pensar em investir para crescer. Isso porque o que temos já está muito difícil de gerenciar e levar à frente, e ainda corremos o risco de ficar sozinhos, sem gente.

Quando se consegue contratar alguém, são poucas as pessoas que permanecem por mais de uma semana ou um mês. Existem algumas outras que, quando se passam os benditos seis meses de permanência, que já garantem o direito ao seguro desemprego, resolvem “catimbar”. Elas já sabem de antemão que uma demissão sem justa causa lhes dará o direito de receber aviso prévio indenizado, férias proporcionais, décimo terceiro salário proporcional e que ainda poderão retirar o fundo de garantia por tempo de serviço acrescido da multa. Na prática, trabalha-se durante sete meses para se receber o equivalente a doze.

Está tudo muito ao contrário, principalmente quando vejo alguns de nossos  representantes no Congresso Nacional falarem na redução da jornada de trabalho. Haja coração!

Em síntese, são poucos os que conhecem esse grande problema na economia do país, a não ser nós mesmos, que o sofremos na pele. Às vezes dá vontade de jogar a toalha, mas ainda sou otimista e espero que uma hora as coisas ainda virarão para melhor, com as reformas política, tributária, penal, sindical e outras.

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