Vivemos na era da incerteza, que se caracteriza pelas mudanças permanentes, como que a nos dizer que um pouco de tudo ou de nada pode acontecer a qualquer momento. Nenhuma certeza é definitiva e tudo é relativo em função dos referenciais que temos. Um grande suporte para ajudar no nosso posicionamento perante tantos desafios está no conhecimento, que aparece para nós por diversos meios e formas. Numa sequência bem lógica podemos dizer que a partir de fatos e dados obtemos informações, que, se bem tratadas, virarão conhecimento. É com ele que tomaremos decisões que nortearão nossos posicionamentos e reposicionamentos em função das necessidades e expectativas que nos desafiam.

Aqui surge um divisor mostrando que uma coisa é o que depende só de nós e cujo processo dominamos e sobre ele temos autoridade. Outra coisa, e isso é o mais difícil, está naquilo que não controlamos e que dependemos de outros. Nesse caso, nos resta acompanhar o que está acontecendo mas nos impacta em diferentes intensidades.

No Brasil que se diz republicano e plural  existe um discurso em nome da transparência nas relações da sociedade, mas a prática ainda mostra distância entre a intenção e o gesto. A Lei de Acesso à Informação veio em boa hora, mas ainda não é respeitada plenamente e às vezes é driblada pela pouca facilidade existente para se encontrar o que está sendo procurado.  Isso nos dá a sensação de algo que está escondidinho e reduz a confiabilidade da fonte consultada.

Imaginemos como muitos de nós estamos desnorteados nesse longo período de seca e escassez de água. Qual seria  a real situação da água disponível para o abastecimento público em Belo Horizonte e região metropolitana? E nos demais municípios do estado? Somente na quinta 22/01, a Copasa começou a abrir a lata e a mostrar efetivamente os indicadores da real situação do momento. Espero que isso passe a ser uma prática permanente e respeitosa aos direitos de cidadania da população. Isso vale também para os Sistemas Autônomos de Água e Esgotos dos demais municípios.

O benefício da dúvida nos permite perguntar: será que a situação de Belo Horizonte já apresenta alguma semelhança com a de São Paulo?  A expressão, “usar o volume morto da água de um sistema” já está ganhando destaque, mas é preciso dar um norte para todos, inclusive para quem já começou estocar água mineral em casa.

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Toda chuva, hoje, está sendo comemorada. / Foto: Marina Borges

No caso da energia elétrica, como não acreditar em novos apagões diante dos níveis baixíssimos da maior parte dos reservatórios e dos picos de consumo ao longo das tardes no Sudeste? São confiáveis as informações passadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico?

Como se posicionar em função das projeções dos Institutos de Meteorologia?

O instante exige transparência, clareza e confiabilidade das informações que devem ser disponibilizadas na sua plenitude e comunicadas de maneira simples e compreensível para todos os envolvidos e interessados. Atender às necessidades e expectativas das pessoas significa ter e praticar a qualidade na gestão da informação. E isso não dá para terceirizar ou simplesmente fugir da responsabilidade. Problema é para ser resolvido e os programas apresentados nas recentes eleições devem ser cobrados o tempo todo. Afinal de contas quem herda o cargo, herda também os encargos.

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O social no velório

por Luis Borges 16 de janeiro de 2015   Pensata

Segundo a definição do Dicionário Informalsocial é:

aquilo que pressupõe relações, sociabilidade, abarcando relacionamentos, sentimentos, modos de ser, de estar, de agir e de se manifestar. Aplica-se mais às interações humanas significativas para os sujeitos.

Ainda segundo a mesma fonte, velório é:

uma cerimônia fúnebre em que o caixão do falecido é posto em exposição pública para permitir que parentes, amigos e outros interessados possam honrar a memória do defunto antes do sepultamento.

Busquei essas definições após ouvir o depoimento de um amigo, que ficou estarrecido com as cenas que presenciou na última hora de um velório. Ele chegou ao Cemitério Parque por volta das 16h da última terça-feira, acompanhando uma amiga que foi ao local se despedir de um colega de trabalho de 58 anos de idade cuja morte foi causada por infarto agudo do miocárdio. Naquele momento estavam no local aproximadamente 60 pessoas, entre elas a ex-esposa, engenheira civil, e os dois filhos do casal de outrora. A urna estava lacrada atendendo a um desejo do morto, que não queria que seu corpo inerte fosse visto nessa ocasião.

Ao longo do salão e no hall de entrada parentes e amigos conversavam animadamente, dando a sensação de que o morto foi apenas o pretexto para aquele encontro e não para a dolorida homenagem póstuma. Muitos recebiam e outros enviavam mensagens pelo celular e, assim, todos os grupos se mantinham atualizados pelas redes também sociais.

Próximo à porta de entrada, um senhor que dizia ser um dos 14 irmãos do morto, já que seu pai se casara três vezes, falava animadamente de sua fazenda em Lagoa Dourada e enaltecia a falta de chuvas que está facilitando o acesso ao local. Do lado oposto, um pequeno grupo falava do preenchimento de cargos no segundo escalão do Governo de Minas Gerais enquanto, logo depois da entrada, três pessoas discutiam animadamente questões de início de temporada ligadas aos times de futebol de Cruzeiro, Atlético e América.

É claro que enquanto o tempo passava ainda chegavam alguns retardatários e lá fora a turma do tabaco industrializado cuidava do oficio enquanto outros davam um pulo até a lanchonete.

Enquanto a sensação térmica realçava o intenso calor desse início de ano e as animadas conversas prosseguiam, muitos sequer perceberam que a hora final chegou. Alguns se justificariam depois alegando que não houve nenhuma cerimônia religiosa. Explica, mas não justifica, pois os operários do cemitério fizeram boa movimentação ao colocar a urna e as coroas de flores no carrinho fúnebre, que partiu pontualmente na hora marcada rumo ao jazigo.

Quando nada, segundo meu amigo, foi engraçado ver a reação das pessoas ao perceber, com a redução do alarido, que o cortejo já havia partido. Os últimos retardatários deixaram o local no momento em que o grupo da limpeza já começava a trabalhar no local. Um deles disse que o próximo “cliente” chegaria às 18h.

Meu amigo, estarrecido, não acompanhou o cortejo devido a um desconforto nos joelhos e aguardou sua amiga no hall de entrada. Após o seu relato fiquei imaginando como será o ambiente do meu velório e se haverá muita água no rio São Francisco para receber as minhas cinzas na região de Bom Despacho, onde ele cruza a BR-262.

E você já parou para pensar no seu caso? Em função do que você já semeou, será que é possível estimar quantas pessoas comparecerão à sua cerimônia de despedida?

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Calor e contas

por Luis Borges 6 de janeiro de 2015   Pensata

Janeiro chegou com temperaturas acima da média de anos anteriores e chuvas bem aquém da série histórica. É praticamente um prolongamento de dezembro, marcado por um grande desconforto térmico, que inclusive atrapalha o sono e faz com que a gente se sinta um mulambo no início da manhã.

Desconforto também veio da situação econômica. Passamos por diversos graus de gastança no fim do ano e as contas do verão já estão anunciadas. Nosso “Feliz Ano Novo” novo foi embalado pela perda de poder aquisitivo diante da inflação bem acima da meta, pelo crescimento do PIB ligeiramente acima de zero e pela certeza de quais ombros vão suportar o ajuste fiscal das contas públicas – os nossos.

Fui tentar fazer uma abstração em relação a essas coisas que ficam buzinando na cabeça da gente me deparei com outras bombas de calor, irradiando gastos e gastos. Com o início do ano veio o reajuste do salário mínimo, que indexa alguns pagamentos e serve de justificativa pra outros aumentos. A tarifa de ônibus foi prontamente reajustada, levando em conta a inflação e outras coisinhas mais.

É início de ano e o orçamento doméstico está em confecção. Me propus um exercício: partindo da premissa de que a renda do trabalho será presente ao longo do ano, quais contas também serão obrigatórias? Há uma pequena lista. Em janeiro temos o IPTU, o IPVA, a taxa de lixo, uma parcela da escola, o material escolar. Algumas dessas podem ser parceladas. O IPTU em 11 vezes, o IPVA em três, a escola aparece regularmente em doze meses. As contas básicas estão ali – água, energia elétrica, gás, telefonia, internet, plano de saúde, TV a cabo, seguros, condomínio, auxiliar doméstico. Outras variam de acordo com o dono do orçamento – segurança eletrônica, lavador e guardador de carro, faixa azul, tarifas bancárias, juros do crédito rotativo, dízimo, contribuições para entidades assistenciais, anuidades de associações, mensalidades de clubes… a lista é quase interminável.

Ainda que um ou outro desses itens não entre no seu orçamento, imagine as contas decorrentes de outros gastos que são variáveis, indo da alimentação ao medicamento, do combustível à diversão.

Será que estou sendo muito preciosista e detalhista? Ou essa conta não deve ser fechada, mas apenas gerenciada? O cansaço já foi gerado e, quando nada, ele é preocupante. O que fazer?  Como fazer? Ou, simplesmente, deixar a vida passar? Esse pequeno exercício tem o mérito de ajudar a mostrar onde estamos colocando o nosso salário. Que não é renda, mas paga imposto também.

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O que não fazer em 2015

por Luis Borges 4 de janeiro de 2015   Pensata

Quarto dia do ano, 361 para a próxima virada. Você definiu metas para este ano? Conheço pessoas que planejam tudo tim-tim por tim-tim. E também quem não planeja nada, fica no “deixa a vida me levar”.

Acredito que gestão é o que todos precisam, mas nem todos sabem que precisam. Por isso, minha sugestão é começar o ano com um mínimo de planejamento. Começar pequeno, pensando grande e ganhando velocidade com aceleração controlada. Algumas dessas palavras, inclusive, fazem parte de um mantra indiano que tenta dar força às pessoas, sem assustá-las com a dosagem.

Sugiro que você comece pensando em apenas uma política, ou seja, uma orientação geral, para balizar seu posicionamento. Uma das premissas para essa proposição é a de que conhecer o problema a partir de sua observação e análise pode ser metade de sua solução.

Uma segunda sugestão é que você pense no que não fazer, principalmente se você tiver dificuldades de definir pelo outro lado, o que fazer. Decidindo o que não fazer você já traça um excelente início de caminhada.

No fim de 2014 ouvi várias pessoas, de diversas idades e profissões. Perguntei “na lata” – que atitudes e posicionamentos você não se dispõe a repetir em 2015? Insisti para que citassem apenas uma. A seguir, uma pequena amostra do universo abordado.

 

Valorizar os patrulheiros ideológicos ou os proprietários da verdade ancorados no politicamente correto. Cientista Político, 61 anos

Rolar dívida no cartão de crédito rotativo pagando juros de 15% ao mês. Técnico de Enfermagem, 40 anos

Acreditar que o governo de qualquer partido ou coalizão política vai mudar a nossa realidade. Consultor em Gestão de negócios, 52 anos

Protelar decisões sobre minhas questões pessoais. Professora do Ensino Médio, 55 anos

Continuar trabalhando na minha atual profissão. Contadora, 51 anos

Negar a mão a quem me pedir ajuda. Engenheiro e empresário, 70 anos

Engolir sapo nas relações familiares para evitar trombadas. Taxista, 50 anos

Deixar de cuidar da saúde. Engenheiro Mecânico, 30 anos

Casar novamente após 5 tentativas e igual número de demissões. Taxista, 55 anos

Fazer tempestade em copo d’água, sofrer com coisa pouca. Cuidador de Idosos, 33 anos

Ouvir silenciosamente sentenças médicas sem questioná-las. Paisagista, 42 anos

Pensar que meus problemas começarão a ser solucionados a partir das pessoas da família que me rodeiam. Professora de Geografia, 58 anos

Ter mais de 30 pares de sapato ao longo do ano. Relações Públicas, 31 anos

Deixar que o favoritismo que o chefe tem por um colega de trabalho invada minha alma e me empurre para um medicamento tarja preta. Nutricionista, 26 anos

Me embriagar na festa corporativa, para evitar o vexame que protagonizei ao colocar as mágoas para fora. Analista de TI, 39 anos

Viver na ansiedade para encontrar um trabalho ideal. Assistente Social, 36 anos

Ter medo de meta e de avaliação de desempenho. Advogado, 55 anos

Quero saber: o que você pretende não fazer neste 2015? Compartilhe nos comentários.

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O Natal e os gafanhotos

por Luis Borges 25 de dezembro de 2014   Pensata

O dia de Natal está terminando. Celebrei a data confraternizando com família e amigos na capital secreta do mundo, Araxá. Se o pré-Natal já foi muito bom, fui presenteado com um dia melhor ainda na amplitude das fraternas relações. E é bom que seja assim, pois precisamos renovar e acumular muitas energias para superar as dificuldades sistêmicas que atingem a nação nesses tempos.

Minha alegria e satisfação inerentes ao micro-mundo familiar não me deixam esconder a tristeza, que não me desmotiva, ao verificar a nuvem de gafanhotos vivendo da corrupção alastrada e impregnada por todo o país. Me lembro de Chico Buarque, em sua música “Vai passar”

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.

Qualquer semelhança não é mera coincidência, simplesmente está na nossa cultura.

Até quando aguentaremos conviver com tamanha indecência, justificada e ancorada em nome de uma democracia representativa na qual os representados não são ouvidos de maneira participativa pelos seus representantes? Para saber falar é preciso saber ouvir e a transparência tem que ir além do discurso.

Ainda que de maneira difusa, como ocorreu em junho de 2013, é evidente que o pote de mágoa prossegue aumentando e que nada está maravilhoso como é insistentemente apregoado. Imagine o dia em que lideranças dos movimentos sociais conseguirem focalizar e unificar tantas insatisfações. Como será que a nuvem de gafanhotos reagirá na tentativa de ceder os anéis para não perder os dedos, se é que isso bastará?

O Natal está chegando ao fim. Vou em frente vivendo e louvando o que merece ser louvado, mas sem me esquecer da tortura que a nuvem de gafanhotos nos traz e com a certeza de que ela vai passar, ainda que o tempo da história seja maior que o nosso. Mas quem sabe esse tempo nos surpreende e se antecipa. Também depende de nós.

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Tia Terezinha foi encontrar Marialva

por Luis Borges 17 de dezembro de 2014   Pensata

Não viemos por teu pranto
Nem viemos pra chorar
Viemos ao teu encontro
E estamos no teu altar
Por seguir nosso caminho
Que é também teu caminhar

Trecho de “Na terra como no céu”, de Geraldo Vandré

Comecei a saber sobre tia Terezinha a partir de conversas com o seu sobrinho. Aquele que andava de patins e passava direto pelos quebra-molas das alamedas do bairro São Luiz, na região da Pampulha, em Belo Horizonte. Ele falava também de sua prima Ana Paula, única filha de sua tia, que era irmã e amiga de sua mãe Marialva, que já estava em outro plano naquele momento. Algum tempo depois, foi tia Terezinha que o conduziu ao altar na cerimônia religiosa de seu casamento.

Há menos de três meses tive uma feliz oportunidade de conversar com ela durante as comemorações do aniversário de nascimento de seu neto Dedé. Entre uma conversa e outra, ela também brincava com o aniversariante e com seu irmão Vini, enquanto seu genro Marcos liderava a churrasqueira. Percebi e confirmei naquele domingo muito do que eu já ficara sabendo.

Tia Terezinha demonstrava ser uma mulher de muita vitalidade, parecendo um foguete em ação, preocupada com a família e com muita disponibilidade para colaborar no que fosse necessário. Ela também mostrou o quanto estava bem informada sobre o que acontecia no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo em que deixava clara a certeza de que seu time seria o campeão brasileiro de futebol. A tarde foi muito agradável e, ao nos despedirmos, ficou a combinação de um novo encontro antes do Natal.

Tia Terezinha / Foto: Thiago Costoli

Foto: Thiago Costoli

O encontro será no próximo domingo, 21/12, mas uma dor abdominal que já se manifestava da outra vez acabou apressando a partida de Tia Terezinha para o outro plano. No dia 04 de dezembro seu espírito deixou o corpo e com certeza foi encontrar Marialva. A dor de sua partida com apenas 69 anos de idade nos deixa de luto, tristes, mas motivados para que tudo vá se transformando em saudades enquanto caminhamos para o dia em que também faremos a travessia para o outro plano.

Sei que tia Terezinha nunca estará só, como sinalizou ao entrar para a UTI do hospital, e que continuaremos cultivando a roseira e as rosas de sua obra, cujo símbolo maior é a sua querida Ana Paula.

Tia Terezinha, se nosso convívio foi pequeno mas de qualidade, a admiração pelo seu modo de ser é maior que o mundo. Prosseguiremos e caminharemos com a sua família, “que é também teu caminhar”.

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Como vai seu pré-Natal?

por Luis Borges 12 de dezembro de 2014   Pensata

Advento é o nome do período que antecede o Natal na liturgia da igreja Católica Apostólica Romana. Nesse período, os fiéis se preparam para o nascimento do filho de Deus. Ainda que tenha significados e motivações diferentes para quem tem outras crenças religiosas, o fato é que esse período mexe muito com as pessoas, de diversas maneiras.

Na semana que passou, aproveitei minhas conversas costumeiras com todo tipo de gente pra perguntar sobre isso. Falei com taxista, secretárias, médicos, consultores, engenheiros. Perguntei como estavam as atividades deles nessas semanas que precedem o Natal. As respostas foram variadas. Encontrei pessoas efusivas, fazendo compras por causa das crianças. E também encontrei quem passará a noite de Natal meditando e contemplando o que merece ser contemplado.

Na minha amostra, quase metade das pessoas já instalou um ou mais enfeites característicos da época em suas residências ou locais de trabalho, inclusive embalados pelas decorações das vias públicas das cidades e dos ambientes comerciais.

Realço também que algo em torno de 30% das pessoas disse que se sente tocado pelo momento, mas que devido ao aumento das pressões por resultados para esse ano e planos para o próximo em seu local de trabalho, ainda não foi possível entrar no pique e na correria típicos da época. Nesse caso, até a confraternização corporativa esta sendo vista como mais uma demanda para estorvar a agenda. Para esses, o que vai ser feito em família e com amigos será definido em cima da hora.

Um grupo pequeno, de menos de 10%, está balançando a roseira para avaliar o que foi solução e o que esta sobrando como problema diante de tudo que foi sonhado ou planejado para acontecer ao longo do ano. Alguns desses até já concluíram nesse pré-Natal que aproveitarão a ocasião para renascer e se reinventar para melhor prosseguir no tempo que não vai parar.

Outro pequeno grupo está focado em novenas preparatórias e em orações para que o país e o mundo consigam dosar o equilíbrio necessário para a sustentabilidade da vida em todas as suas dimensões.

Para alguns, o 13º salário seria o alívio para as dívidas, inclusive do cartão de crédito rotativo que cobra 15% de juros ao mês. Outros, mais planejados, o usariam como reserva para pagar à vista, em janeiro do ano que está chegando, o IPTU, o IPVA, o material escolar e, se sobrar, uma pequena viagem no Carnaval.

Enfim, fiquei a pensar e a desejar que a tônica seja o querer, para acalantar o renascimento e a reinvenção tão citadas por muitos. Que a felicidade seja compatível com as expectativas geradas perante a realidade que estamos vivendo e que exige mudanças consistentes e verdadeiras. O instante existe e pode ser bastante instigante, mas tudo começa com a gente, para prosseguir na família e na sociedade organizada numa democracia participativa.

E você, como vai o seu pré-Natal?

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Surpresa agradável no consultório

por Luis Borges 3 de dezembro de 2014   Pensata

Uma brasileira viajou pela Europa durante suas férias, em novembro. Cumpriu todas as exigências de praxe contidas nos regulamentos que tratam das viagens internacionais, entre elas o clássico seguro de saúde. Quase na metade da viagem, que durou exatos 30 dias, ela chegou ao sul da França e começou a ter momentos de mal estar, desconforto estomacal, desânimo e passou a imaginar que poderia estar com uma virose. Achou prudente buscar a orientação de um médico e verificar os procedimentos para usar seu seguro saúde. Diante de tantos entraves colocados pela seguradora, que, é claro, já tinha recebido pelo seu risco ainda no Brasil, a brasileira resolveu procurar um médico particular ainda no final do mesmo dia.

A primeira surpresa agradável foi conseguir um horário para ser atendida às 10h da manhã do dia seguinte. Também foi informada, noutra grata surpresa, que o preço da consulta seria de 22€, algo equivalente a 72 reais no câmbio daquele dia.

O comparativo com o Brasil foi inevitável. Uma consulta particular com um especialista em clínica médica custaria, no mínimo, R$ 350,00 . O atendimento provavelmente seria encaixado entre uma consulta e outra da agenda prévia do médico.

No dia seguinte a brasileira chegou ao consultório 10 minutos antes da hora marcada, na expectativa do tradicional “exercício de paciência” até chegar o seu momento de ser atendida. Ela está acostumada a ser tratada como paciente, e não como cliente, em boa parte dos locais que procura no Brasil para atendimento em serviços da saúde.

De novo, novas surpresas. A consulta iniciou-se apenas 10 minutos após a hora marcada. O próprio médico foi buscá-la na sala de espera e levou-a ao consultório. Após os cumprimentos iniciais, o médico fez uma anamnese bem objetiva e direta. Ele diagnosticou uma virose, como já imaginado, prescreveu alguns medicamentos e fez as orientações finais, se colocando à disposição para quaisquer outras necessidades nos dias subsequentes. Após 25 minutos, a consulta foi encerrada com o próprio médico recebendo os seus honorários, dando o troco, assinando recibos e preenchendo documentos para um possível reembolso do valor na chegada ao Brasil. Novamente, ele acompanhou a paciente até a porta de saída da clínica.

Mais uma vez, a comparação foi inevitável. Pela primeira vez, sentiu-se tratada como cliente e não simplesmente como uma paciente, que deve esperar até a hora que for a sua, como se o atendimento médico fosse quase que um favor. Lembrou-se também de profissionais da saúde que às vezes perguntam muito, falam pouco e sequer informam qual é o valor da pressão arterial do paciente. Isso para não falar daqueles que se sentem muito especialistas, mas não trabalham com a visão sistêmica e, portanto, não atentam para efeitos colaterais e impactos em outras funções orgânicas. Assim seguiu em frente pensando em limites técnicos de planos de saúde, exames laboratoriais para apoio ao diagnóstico, consultas que duram menos de 15 minutos e na postura de alguns profissionais que se pensam proprietários da verdade. Enfim, pensou que gostaria mesmo é de ser tratada como cliente em todos os lugares, sempre com qualidade, preço justo e atendimento digno e respeitoso à condição humana. Ela já esta de volta ao Brasil e prosseguirá buscando seu intento com sua alta resiliência.

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Demissão da pior forma

por Luis Borges 26 de novembro de 2014   Pensata

O ano caminha para o fim enquanto o Natal se aproxima e a economia brasileira ainda não dá sinais de melhoria. É interessante notar como se manifestam no dia-a-dia da vida os reflexos da perda de poder aquisitivo decorrente do galope inflacionário. Também dá para perceber uma maior lentidão nos negócios em função do pessimismo dos empresários e a população em geral mais preocupada com o desemprego, o que deixa muitas pessoas mais cautelosas na hora de fazer dívidas de um modo geral. Nesse cenário, começam a surgir mais notícias de empresas demitindo funcionários, por razões diversas.

Enquanto pensava no estado emocional das pessoas que estão sendo demitidas e nas dificuldades para se recolocar rapidamente no mercado de trabalho nesse difícil momento da economia, fiquei sabendo de um caso desrespeitoso com a pessoa e indigno de seres humanos. Aconteceu com uma funcionária que trabalhava há 22 anos numa agência de um grande banco privado em Belo Horizonte. Logo nesse segmento, que acumula lucros de bilhões de reais a cada trimestre e que não aceita resultados com nenhum centavo abaixo da meta estipulada.

A funcionária, que exercia a função de assistente administrativa, chegou ao seu setor de trabalho às 8 horas da sexta-feira passada, como de costume. Antecipando-se aos seus colegas de trabalho, ela colocou a vasilha de água para ferver, na expectativa de que alguns minutos depois um gostoso café estaria à disposição de todos. Entretanto, a gerente de recursos humanos chegou ao local inesperadamente e a convocou para uma reunião na sala ao lado. A funcionária argumentou que a água logo estaria fervendo, mas recebeu a determinação de que deveria deixar isso pra lá.

Iniciada a conversa e diante dos rodeios e “me-me-més” da gerente, a funcionária perguntou a ela se tudo aquilo era para demiti-la e também o que tinha feito para merecer tal situação. Aliviada e sem graça diante das perguntas que atalharam seu caminho, a explicação da gerante foi seca e direta. Disse que a funcionária estava no banco há muito tempo e tornou-se cara para a instituição. A política da instituição, segundo explicou a gerente de RH, é evitar ao máximo que pessoas permaneçam trabalhando na empresa por mais de duas décadas. Para que isso aconteça, a tecnologia da informação será cada vez mais incrementada para aumentar a competitividade.

A funcionária, ainda se refazendo do susto, perguntou sobre o cumprimento de aviso prévio e sobre seus direitos trabalhistas, mas foi logo interrompida pela gerente. Não seria necessário cumprir aviso, todos os direitos já estavam calculados e bastava apenas homologar a demissão no Sindicato dos Bancários. A gerente arrematou a conversa informando à funcionária que, saindo da sala, ela já deveria voltar para casa. Não permitiu o cafezinho do juízo final junto aos colegas do setor.

Forma e conteúdo caminham lado a lado, e o ser humano merece mais respeito. É lamentável que ainda aconteçam fatos como esse em pleno ano de 2014 na República Federativa do Brasil.

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Autêntica Minas

por Convidado 24 de novembro de 2014   Pensata

por Benício Rocha

A minha cidade, autêntica Minas, de ruas amorosas aos pés de seus montes eternos, cuja eternidade só finda com a extração de minérios, primeiros mineiros, vive na paz e aconchego do clima de montanhas.

Pastos verdes, cachoeiras, ilhas de Mata Atlântica, gado, cafezais e nós, um aqui, outro ali, o Sol, um cachorro a latir amigavelmente, na estrada um carro apressado passa. Saudades da terra, poeira, charretes, carros de bois, tropas e tropeiros, paisagem mineira abraçando minha terrinha, mais que povoado, menos que cidade grande. Cidadão ali vive muito bem.

Igual a quase mil cidades, conjunto de poesias, com rimas perfeitas, e junto às mais lindas pessoas do mundo, Caratinga faz-se diferente somente porque os olhos que a vêem são os do meu coração, amante amolecido, saciado, que conhece de memória de menino cada centímetro daquele rincão, e sente seus cheiros pelo mundo afora.

Na cidade grande eu moro, mas naquele cantinho vivo, lembrando daquele menino que engenhava formas de tirar os morros que dividem a cidade em três para, na planura surgida, ver a cidade crescer, progredir…

Ainda bem que o empreendimento não aconteceu, o pouco progresso e o ainda menos ar de ontem me fazem lembrar de onde sou, como fui formado e como se desenvolveu em mim essa capacidade de, nem sempre, romper mas, contornar os obstáculos e, às vezes dividido, compreender, aceitar e ser feliz.

Nas lembranças me encontro quando me perco, e recomeço minha marcha caminhando para suas entranhas um dia.

Minha cidade e meu coração ainda pulsam… lentos, comedidos. E minha felicidade, eterna saudade, sem pressa os acompanha.

Catedral de São João Batista, em Caratinga. / Fonte: Site da Prefeitura Municipal

Catedral de São João Batista, em Caratinga. / Fonte: Site da Prefeitura Municipal

Benício Rocha é caratinguense ausente e saudoso, mineiro da gema, amante da boa prosa, sócio da MGerais Seguros, aprendiz de servo do Senhor.

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