Depois que aconteceu o acontecido e a resultante da briga pelo poder levou ao afastamento da Presidente da República – após julgamento político – do cargo para o qual foi eleita, fiquei pensando e me perguntando sobre a paralisia em que o país mergulhou.

A obsessão pela polarização entre o “sim” e o “não” ao impedimento só acentuou muitos momentos de intolerância e ódio, com baixos índices de convivência civilizada. O acirramento do maniqueísmo tentou insistir em mostrar que só havia dois lados, o que mascara e nega uma sociedade plural e multidimensional em sua forma de ver as coisas. Tamanho reducionismo, negando a segmentação presente na diversidade, só reforça a minha sensação de que muitos são os tiranos existentes dentro de pessoas que discursam em nome da democracia e das instituições, tendo como verdades definitivas para todos as suas próprias certezas individuais.

Minha sensação é de que o ano de 2016 ainda não começou, embora já estejamos no dia 16 de maio. Se os conflitos e os impasses ainda não foram resolvidos pelos profissionais da política, alojados nos partidos políticos de baixa coalisão e muita colisão de interesses, o que almejar e esperar daqui para a frente? Será que tudo vai mudar como num passe de mágica e a credibilidade ressurgirá para ajudar a resolver todos os problemas crônicos? Será que ter um Ministro da Fazenda que goze da confiança do mercado, principalmente financeiro e industrial, reverterá todas as expectativas em 30 dias? É sempre bom lembrar a gritante desigualdade produzida pela concentração de renda e os privilégios mantidos de maneira imoral para alguns segmentos das classes dominantes, com bons exemplos presentes notadamente nos poderes Legislativo e Judiciário.

As ruas gritarão outra vez? A partir de quando? E independentemente dos partidos políticos, que já não as representam há muito tempo?

O fato é que o ano precisa começar a acontecer e não dá mais para ficar no muro das lamentações, chorando as oportunidades perdidas também por causa de erros tão grosseiros e primários na política, na economia e na gestão. É o que temos para hoje.

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O bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, se destaca e é reconhecido pela música, pelo ambiente cultural, pelo patrimônio histórico, pela gastronomia e pelo modo de vida de seus moradores. Apesar de tudo isso, não dá para esconder os problemas enfrentados pelo bairro, principalmente relacionados à segurança de bens e pessoas, ao trânsito e a barulhos de naturezas diversas. Aqui focaremos nos problemas ligados ao barulho e seus níveis de tolerância ao longo das 24 horas do dia. Atualmente tramita na Câmara Municipal de BH o Projeto de Lei nº 751/2013, que tenta flexibilizar os limites superiores de ruídos em certas atividades locais.

Quero destacar uma reunião feita por alguns moradores, habitantes de diferentes pontos do bairro, realizada na última quarta feira de abril, Dia Internacional da Conscientização Sobre o Ruído. A pauta era fazer um levantamento inicial dos barulhos que mais incomodam o grupo, numa espécie de mapeamento sonoro que tanta falta faz no combate aos ruídos de uma cidade.

O primeiro a falar foi um morador da Rua Conselheiro Rocha, que reside num trecho que beira a linha do trem de ferro e faz divisa com a Avenida dos Andradas. Segundo ele, diariamente entre dez da noite e seis da manhã mais de dez composições ferroviárias, algumas com até com 80 vagões e 5 locomotivas, passam pelo bairro fazendo um barulho ensurdecedor. Quem está dormindo geralmente acorda, já que a passagem do trem dura quase dez minutos e deixa a sensação de que não vai acabar mais. O horário mais difícil de retomar o sono é entre as 3h00 e 04h30 da madrugada, quando passam 3 das mais barulhentas composições, e rasgam o silêncio da madrugada.

Um segundo morador, que reside próximo ao “Alto dos Piolhos”, mencionou a altura do som em alguns bares e restaurantes, além da falação das pessoas quando deixam esses locais.

Um terceiro participante, morador da Rua Eurita há mais de vinte anos, disse, que com a coleta do lixo feita à noite, o caminhão para em frente à sua casa para fazer a compactação do material. O problema é que isso acontece três vezes por semana, sempre após as 23h.

Vista lateral da Igreja de Santa Tereza e Santa Terezinha. | Foto: Marina Borges

Vista lateral da Igreja de Santa Teresa e Santa Teresinha. | Foto: Marina Borges

A reunião prosseguia animada. Um morador provocou risadas ao contar o caso dos 3 cachorros de um vizinho que começam a latir no alpendre da casa logo no início da noite, quando ele sai para dar um passeio pela cidade. Os três só param de latir quando ele volta pra casa, o que é mais complicado nos finais de semana, quando ele volta só lá pelas 3 da madrugada. Haja política de boa vizinhança!

Uma quinta situação foi abordada quase que simultaneamente por quatro dos participantes. Eles sofrem muito com o barulho das motocicletas que são aceleradas com o escapamento aberto. Segundo eles, isso acontece principalmente nos dois sentidos da Avenida dos Andradas, entre as estações do metrô de Santa Efigênia e Santa Tereza.

A pauta foi encerrada com um relato sobre os cachorros que estão abandonados nas ruas Ângelo Rabelo, Capitão Procópio e Gabro. Eles latem a qualquer hora para pessoas, para outros animais, para motociclistas e condutores de veículos. O caos reina absoluto durante o dia e a noite.

O que fazer diante dos casos descritos? A reunião terminou sem que os participantes conseguissem dar um encaminhamento mais concreto e consequente às causas do barulho. Ficou a sensação de que os relatos dos casos de barulho tornaram-se uma terapia de grupo e nada mais. De qualquer maneira, ficou decidido que um novo encontro será marcado em data a ser definida e para a qual se tentará aumentar a quantidade de participantes para engrossar a luta. E foi cada um para o seu lado enquanto o alarme de um automóvel soava estridentemente nos ouvidos de todos.

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A expressão “pedalada fiscal” continua em grande evidência no embate que se trava pelo poder político no Brasil. Segundo a Wikipédia, “pedalada fiscal”:

é um termo que se refere a operações orçamentárias realizadas pelo Tesouro Nacional não previstas na legislação, que consistem em atrasar o repasse de verba a bancos públicos e privados com a intenção de aliviar a situação fiscal do governo em um determinado mês ou ano, apresentando melhores indicadores econômicos ao mercado financeiro e aos especialistas em contas públicas.

Isto ocorre porque, apesar de o gasto social ter efetivamente ocorrido, ele ainda não saiu das contas do Governo Federal, quando o mesmo divulga seu balanço anual. Assim, este artifício pode ser usado para aumentar o superávit primário (economia feita para pagar os juros da divida pública) ou impedir um déficit primário maior (quando as despesas são maiores que as receitas).

Ainda segundo a mesma fonte:

Orçamento é a parte de um plano financeiro estratégico que compreende a previsão de receitas e despesas futuras para a administração de determinado exercício (período de tempo). Aplica-se tanto ao setor governamental quanto ao privado, pessoa jurídica ou física.

Para quem trabalha com a gestão estruturada dos negócios de um governo, uma empresa, uma família ou um indivíduo, por exemplo, o planejamento orçamentário deve ser feito a partir de algumas premissas que estarão presentes no período em que ele ocorrerá. Entre elas podemos citar, a título de exemplo, o crescimento da economia, o nível de emprego, o índice de inflação, as variações do câmbio, o aumento da carga tributária, as prioridades para os investimentos públicos ou potenciais reformas que surgirão na política, na Previdência Social, nas leis trabalhistas ou na representação sindical. Quanto mais informações e conhecimento mais chances se terá de surgir algo mais realista e factível num horizonte de curto prazo (um ano). É claro que o orçamento não pode ser uma mera peça de ficção e deve ser gerenciado com disciplina, foco e responsabilidade. Ele é algo para valer e não pode ser modificado sem justificativas muito relevantes.

Diante de tudo o que estamos passando nesse momento fico imaginando especificamente como anda o orçamento das famílias e dos indivíduos em função dos fatos e dados que vão sendo divulgados cotidianamente. Será que a prática das pedaladas já se incorporou à cultura das pessoas, principalmente diante da necessidade da sobrevivência e gastos acima do que se ganha?

A julgar pelos dados divulgados pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas a situação que já não era boa só tem piorado. Segundo esses órgãos, no mês de março de 2016 a quantidade de brasileiros com dívidas em atraso chegou a 58,7 milhões de pessoas. Estima-se que 4,2 milhões dos novos devedores passaram a fazer parte da lista de janeiro de 2015 até março de 2016.

Verifica-se que é grande o desafio para que também as famílias e indivíduos alcancem um maior equilíbrio entre o que se ganha, o que se gasta ou até mesmo o que se poupa diante da pouca educação financeira, do consumo compulsivo, da perda do poder aquisitivo em função da inflação, juros altos e da recessão econômica. Aliás, ela já fez 10,4 milhões de desempregados conforme a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE relativa ao trimestre dezembro/15, janeiro e fevereiro/16.

Como se vê a reinvenção dos modos de vida torna-se cada vez mais uma necessidade. Um bom começo poderia ser pelo conhecimento efetivo e detalhado de todas as receitas e despesas mensais devidamente registradas numa simples planilha em meio físico ou eletrônico se este for o seu caso. Mas de repente isso se aplica apenas aos outros e não a você.

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Aluga-se este imóvel

por Luis Borges 20 de abril de 2016   Pensata

A quantidade de placas informando que “aluga-se este imóvel” ou simplesmente “aluga-se” está aumentando cada vez mais perante os olhos das pessoas mais observadoras e atentas à cena urbana. Os fatos e dados oriundos do mercado de locação de imóveis residenciais e comerciais mostram com clareza como as condições do jogo mudaram para os inquilinos/clientes e proprietários/fornecedores. A recessão econômica, o desemprego aberto e a enorme perda do poder aquisitivo em função do aumento da inflação são algumas das causas que tornaram a conjuntura bastante favorável aos clientes. Agora eles estão em posição de vantagem nas negociações para renovar um contrato de aluguel ou para celebrar um primeiro contrato.

O maior temor para um proprietário de imóvel é vê-lo desocupado. Com isso vem uma queda ou frustração de receita, acompanhada do pagamento de despesas com IPTU, seguro, taxa de condomínio e até mesmo de água/coleta de esgotos e energia elétrica nos casos em que não são desligadas. Dá para imaginar o drama que uma família que conta com o dinheiro vindo do aluguel de um ou mais imóveis para se somar ao salário do trabalho ou aos proventos de uma aposentadoria.

Encontrar quem queira pagar para pegar as chaves não está fácil... | Foto: Marina Borges

Encontrar quem queira pagar para pegar as chaves não está fácil… | Foto: Marina Borges

A não correção do valor do aluguel pelo IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado, medido pela Fundação Getúlio Vargas) é uma prática que está se generalizando e, em muitos casos, tem sido acompanhada por reduções do valor nominal de 5% a 10%. No caso específico do aluguel de salas desocupadas no Centro de Belo Horizonte existem ofertas em que, nos 3 primeiros meses, o locador paga apenas as taxas de IPTU e condomínio. Nesse tipo de imóvel a demora para encontrar um novo inquilino pode chegar facilmente até 1 ano.

O fato relevante é que a maioria dos proprietários de imóveis tem agido com sabedoria para se reposicionar perante as novas condições do mercado e demonstra seguir o dito popular segundo o qual “é melhor ter um pássaro na mão do que dois voando”.

É claro que, de vez em quando, se ouve relatos de casos em que a ausência de inteligência estratégica prevaleceu e o resultado inevitável foi imóvel vazio e perda de renda. Se “a cada qual com o seu qual”,  a cada um também cabe responder pela suas escolhas.

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Todo cuidado é pouco

por Luis Borges 13 de abril de 2016   Pensata

A segurança de pessoas e bens em imóveis, vias públicas e parques, por exemplo, é uma preocupação constante para todo cidadão. Para muitos, basta a sensação de insegurança para aguçar a paranóia ou até mesmo o pânico. Apenas reclamar dos governantes e das forças policiais, reivindicar agilidade do Poder Judiciário e Ministério Público ou ficar na expectativa de que mais presídios serão construídos para encarcerar os que não cumprem as leis não tem sido e não é suficiente para resolver o problema. Também podem ser paliativos os investimentos nas mais diversas modalidades de segurança eletrônica se as pessoas não tiverem uma atitude mais firme e focada nas questões ligadas à segurança. A autodisciplina será sempre fundamental para o cumprimento de todas as determinações contidas nos procedimentos padrão de segurança.

Na semana passada um pequeno e rápido descuido na entrada de um edifício típico de 6 apartamentos, modalidade 2 por andar e garagem no subsolo, foi o suficiente para que um ladrão esperto entrasse no do prédio. A mãe foi levar sua filha de 8 anos até o portão da rua, onde ela embarcaria num transporte especial rumo à escola. O detalhe que decidiu o jogo se deu após o acionamento do dispositivo para a abertura do referido portão, instalado dentro do prédio e antes da porta principal. Aqui é bom lembrar que a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte exige, para o bairro, uma distância mínima de 3 metros entre a parede frontal do edifício e o muro que faz divisa com a rua.

Acontece que o ladrão já estava à espreita e, ao ver o portão se abrir, caminhou rapidamente para dentro prédio. Quando a mãe passou por ele, pensou se tratar de alguma visita para o outro apartamento do primeiro andar. Após o embarque da filha, voltou para seu apartamento, onde deixara a porta da sala semiaberta. Percebeu que sua bolsa, com todos os clássicos pertences, tinha desaparecido. Foi quando ela finalmente se lembrou da pessoa que havia passado por ela há poucos instantes na entrada. Em seguida foi até a garagem, onde quatro pedreiros que estavam trabalhando nas obras de reforma do prédio cochilavam após o almoço. Aí foi percebido outro detalhe. O portão da garagem estava destrancado e ligeiramente encostado. As câmeras do circuito interno mostraram que o ladrão saiu por ali. O resto da história é o que todo mundo sabe e, ainda bem, para consolo da vítima e de outras possíveis vítimas, não houve confronto  nem violência. Ficaram os transtornos dos bloqueios de cartões e documentos, a luta para se registrar um boletim de ocorrência na Polícia e a lembrança do acontecido sempre batendo intensamente na cabeça nos dias seguintes.

Mas o que restou mesmo foi a conscientização da necessidade de se mudar de atitude e a certeza de que tudo começa com a gente. Em situações como a que foi descrita acima não dá para simplesmente terceirizar a causa principal do efeito gerado.

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Missão sem transparência

por Luis Borges 6 de abril de 2016   Pensata

A corrupção no Brasil está em altíssima evidência e discussão em função de seguidas revelações nas últimas duas décadas, com maior expressividade e volume notadamente a partir de 2014. São frequentes as afirmações que dizem ser a corrupção mais velha que a serra, que ela está impregnada na cultura do país ou mesmo que faz parte da índole de políticos e seus partidos financiados por tenebrosas transações nada republicanas.

As relações entre o público e o privado se complementam em profícuas ações de seus agentes nos papéis de corruptos, corruptores e beneficiários dos resultados alcançados.  Se nos altos escalões estão as grandes corrupções, raramente percebidas por auditorias e tribunais de contas, o que pensar das pequenas corrupções, que começam a vir à tona no microcosmos do cotidiano das pessoas? Qual é o impacto que tudo isso acaba trazendo às relações sociais de muitos daqueles que não se sentem em condições de mostrar os desmandos que vêem em seus locais de trabalho em função da sobrevivência imediata?

Fiquei sabendo de um caso que pode ilustrar um pouco uma situação dessa natureza. Trata-se de um grupo de pessoas católicas que realizam missões de evangelização em distritos de pequenos municípios. O trabalho começou há mais de 15 anos, com a participação de 80 missionários. Eles saíam da capital em dois ônibus, gentilmente cedidos pelo proprietário de uma grande empresa do setor, rumo às cidades escolhidas. Havia duas viagens por ano – na Semana Santa e na semana que antecede o dia da Padroeira do Brasil.

A cessão dos ônibus só era conhecida, inicialmente, pelo coordenador da missão, por seu assistente imediato e pelo gerente comercial da empresa. Mesmo assim, nos últimos cinco anos cada missionário pagava R$180,00 pelo transporte e R$30,00 pelo lanche a bordo do ônibus. Cada missionário levava, também, uma cesta básica para a família que o hospedava.

Durante a preparação para a primeira viagem do ano passado, um dos participantes ficou sabendo do caráter gratuito do ônibus ao longo de todos os anos de existência da missão. A informação espalhou-se rapidamente pelo grupo, mas ninguém se dispôs a questionar o coordenador, nem individualmente e nem em grupo. Os mais revoltados decidiram abandonar a missão já naquele momento. Outros fizeram o mesmo no segundo semestre.

O fato é que na Semana Santa deste ano, apenas 20 pessoas participaram da missão e, como que por encanto, não tiveram que pagar os R$180,00 da passagem. Entre os remanescentes do grupo circulou a informação de que o coordenador está à procura de doações vindas de outras empresas de boa vontade. Entretanto como nada foi perguntado, nada foi explicado sobre o destino dado ao dinheiro arrecadado ao longo de todo esse tempo, apesar da fértil imaginação de muitos. Aliás, o que mais se fala nesse momento é colocar uma pedra sobre o passado e tentar começar uma vida nova, com o grupo passando a ser dirigido por uma comissão de 4 pessoas, sem a presença do coordenador, mas contando com a participação do atual assistente.

Como se vê não é nada muito diferente do que acontece em outros escalões da República. A cultura é muito forte.

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Quem vê o atual Ministro da Fazenda, ex-Planejamento, falando sobre a queda da arrecadação do Governo Federal, ligada aos tributos que incidem sobre a atividade econômica, pode imaginar que ele veio do reino das palavras. No lugar de ir direto ao ponto e mostrar as causas que levaram a esse efeito, ele faz um “lero lero” danado para afirmar que aconteceu uma “frustração de receitas”.

Como esperar algo diferente? Entendo que, mesmo se o acirramento político não estivesse tão elevado, os resultados decorrentes do projeto de poder focado em vencer as eleições presidenciais a qualquer custo não seriam muito diferentes dos que estão sendo colhidos.

Se você ler no site significados.com.br algumas definições de frustração verás que pode ser um sentimento, uma emoção que ocorre quando algo que era esperado não ocorreu ou que surge quando identificamos um erro entre aquilo que planejamos alcançar e o que realmente aconteceu.

A arrogância impede que se admita os erros nas premissas que foram utilizadas, mas o uso de belas palavras não é suficiente para justificar ou mascarar a recessão econômica que também paralisa o país.

Também sobrou para as pessoas a “frustração de receitas”, com a perda do poder aquisitivo diante da alta inflacionária, o desemprego direto de quase 10 milhões de pessoas de acordo com o IBGE e até mesmo as dificuldades que aqueles que permanecem trabalhando têm encontrado para repor suas perdas inflacionárias.

A frustração é mais que real e sobrou mesmo foi para a população pagar a conta. Há um ano, que palavras o ministro tinha para negar o crescimento do desemprego? Agora as pessoas não podem contribuir com mais dinheiro para evitar a frustração do Governo Federal, pois elas estão precisando é de trabalho e renda para sobreviver. Será que as cores de abril nos sinalizarão a chegada ao fundo do poço?

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Barrado na despedida

por Luis Borges 24 de março de 2016   Pensata

Parentes, amigos e familiares de um senhor, morto aos 69 anos, encontraram-se no adro da igreja após a celebração da missa de sétimo dia de sua passagem para outro plano espiritual. A troca de cumprimentos, condolências e informações sobre o ocorrido foi permeada pela distribuição dos santinhos, que se tornarão mais um meio de lembrança do morto enquanto o luto vai se dissipando para dar lugar à saudade. Esse clima não impediu que numa das rodas de conversas alguém perguntasse por qual razão um dos irmãos do falecido não estava presente. Esse mesmo alguém, aliás, não percebeu que outros irmãos também estavam ausentes. Mas o fato é que um primo, de ouvidos atentos e que estava próximo à roda, entrou na conversa se dispondo a explicar as causas.

Segundo o primo, tudo começou quando foi diagnosticada a doença que causou o óbito. O irmão se colocou à disposição da família do morto para colaborar na gestão da empresa do irmão enfermo caso eles sentissem necessidade de um suporte solidário. A oferta foi interpretada pela esposa e filhos como oportunismo, típico de quem tinha interesse de “mamar na teta da vaca”. Chateado por ter sido mal interpretado e sem chance de clarear mais a sua boa intenção, o irmão se manteve à distância enquanto a doença avançava célere.

Foram poucas as possibilidades de visitas, mas o dito irmão ausente comparecia dentro do possível. Quando soube que o fim se aproximava, ele tentou fazer uma visita ao irmão enfermo. Foi à sua residência um dia antes da partida. Seria um gesto de despedida, ainda que o irmão estivesse sedado. Após insistentes chamadas pelo interfone, seu acesso à residência foi autorizado e lá dentro um dos sobrinhos lhe disse que não seria possível sua entrada no quarto do pai, conforme orientação médica fixada na porta, com restrição à visitação (o enfermo já estava em coma), para que ele não ficasse agitado. Ao tentar engatar uma fala reforçando a decisão da família, o sobrinho foi interrompido peremptoriamente pelo tio que disse a ele: “não gostei, e vou te poupar de continuar falando, tentando de forma incoerente justificar a atitude de vocês, pois estou aqui como irmão de seu pai, não sou visita, e tentei exercer o direito de me despedir dele ainda em vida”. Logo em seguida deixou o local.

Assim só lhe restou se despedir do irmão no espaço onde se realizou o velório, no qual permaneceu tempo suficiente para consumar o seu ato. Não havia espaço para mais nada em função das circunstâncias.

Aos poucos as pessoas foram se dispersando na porta da igreja e foi cada um para o seu lado, no prosseguimento do curso da vida de quem ficou por aqui. Quando nada, fica o benefício da dúvida sobre o que poderá acontecer durante o processo do inventário dos bens do irmão morto.

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Muitas são as pessoas que têm me perguntado sobre como estou vendo a atual situação brasileira e em que vai dar isso tudo. Tenho falado e repetido que, quando a história muda, tudo volta à estaca zero em um novo patamar, seja ele melhor ou pior que o anterior.

Viemos de um período recente de crescimento econômico e de uma maior inclusão das camadas sociais nas categorias de consumo. O emprego era quase pleno e o super ciclo das commodities embalava a economia e era considerado como se fosse eterno para quem governava o país. A crise econômica internacional foi desprezada e considerada uma “marolinha”, para só depois ser defendida pelos ocupantes do poder como a principal causa da deterioração da situação.

A fracassada nova matriz econômica, implementada a partir do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, e a sua necessidade de ganhar a qualquer custo as eleições presidenciais de 2014 acentuaram as dificuldades, com o estouro das contas públicas. O acirramento da disputa política entre os partidários de A, B e C contaminou de vez a economia e agrava a cada dia o social. Até a presidente já chegou a admitir a possibilidade de não ter percebido no tempo certo que a situação estava piorando rapidamente ao final de 2014.

O sofrimento das pessoas torna-se maior neste março de 2016, ao perceberem que a quase totalidade dos indicadores que medem a situação do país está em visível piora, rumo ao fundo do poço ainda não atingido. Os mais acompanhados e sentidos diretamente por todos nós são a inflação alta e a queda do poder aquisitivo dela decorrente, o altíssimo desemprego e a recessão econômica.

Como estamos olhando para trás, os números de 2015 foram bem ruins em relação ao ano anterior. E os de 2016 continuarão piorando diante da incapacidade política e da falta de líderes com credibilidade suficiente para propor soluções para uma sociedade tão dividida. Além disso, não dá para deixar de citar a necessária capacidade de gestão.

Ainda vamos continuar passando pelo purgatório, quase que sem sair do lugar, e precisando olhar para frente na expectativa de que os indicadores começarão a “despiorar” a partir de 2017, só que com os parâmetros do novo patamar – o país tendo encolhido algo em torno de 10%.

O automóvel vai ter que ficar mais em casa, as viagens aéreas ou terrestres terão que ser reduzidas, os imóveis prosseguirão com a lucrativa bolha estourada e os banqueiros estarão felizes como sempre. Nas ruas, a insegurança e a sensação de insegurança maiores ainda, mas a conjuntura é de sobrevivência no Brasil real. Infelizmente recuamos pelo menos 10 anos com dois passos atrás e o paraíso perdido no projeto de poder e na corrupção secular inerente à nossa cultura.

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O galo não cantou

por Luis Borges 25 de fevereiro de 2016   Pensata

A insatisfação rondava alguns moradores de um prédio residencial de muitos andares, no centro do bairro Sagrada Família, em Belo Horizonte. O motivo? O galo da casa de um vizinho. É um detalhe interessante, o bairro é um dos maiores de BH, com cerca de 46 mil habitantes de acordo com o IBGE, e ainda conserva muitas casas com quintal e barracões no fundo. Mas, aos poucos, os edifícios começam a predominar na paisagem do bairro e o número de moradores aumenta.

A tal insatisfação começava lá pelas 03h00, quando o galo confirmava os versos da música “Samba do jato”, de Toquinho e Vinícius de Moraes: “um galo cantou, meu sonho acordou…”.

A reação não demorou muito. Intolerantes e incapazes de conversar, dialogar em busca de uma solução equilibrada para a situação, alguns entre os vizinhos optaram pelo pior caminho. Tentaram um galicídeo para silenciar o galo.

Segundo os moradores da região, observando do alto do prédio a vida no galinheiro, alguns desses incomodados moradores perceberam que o galo e as dez galinhas passavam, ao longo do dia, por um portão que dava acesso ao jardim da casa. Logo alguém sugeriu que se jogasse nesse jardim um pouco de milho misturado com veneno em forma de chumbinho, na esperança de eliminar o galo.

Aconteceu que quatro galinhas morreram envenenadas, fato imediatamente percebido por um dos moradores da casa, aliás, dono do galinheiro, que resolveu bloquear a passagem para o jardim. Sem perder tempo, repôs imediatamente o seu plantel com quatro novas galinhas. O galo continuou a cantar até o amanhecer para a alegria de um outro vizinho, que mora em um barracão de fundos e se levanta de madrugada para trabalhar do outro lado da cidade.

Mas na madrugada do sábado de Carnaval o galo não bateu asas e nem cantou às três da manhã, como de costume. O admirador do canto ficou intrigado com a falta do seu despertador. Logo ao sair de casa ficou sabendo da morte do dono do galo e do galinheiro, no início daquela noite. Achou incrível o silêncio da ave, que só voltou a cantar na madrugada seguinte.

Enquanto isso, os vizinhos intolerantes – e que não conversam – não sabiam que o morador que sobrou na casa não gostava de galo, galinhas ou galinheiro. Uma semana após a morte, nada sobrou no quintal da casa. O admirador do galo respirou aliviado ao saber que o destino das aves não foi a panela, mas que o galo branco de pintas pretas foi viver e cantar num sítio do Morro do Chapéu, ao lado de suas galinhas brancas, pretas e marrons.

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