Os sons do silêncio

por Convidado 13 de dezembro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Eu sempre gostei de ficar em silêncio. Desde criança, na fazenda de meu avô, na serra da Ibitipoca, eu me sentava diante de um morro bem verde e ficava pelo menos por duas horas olhando para ele. Fechava os olhos por minutos e assim me sentia em paz. Procurava, aquele menino, o encontro com ele mesmo.

Passaram-se muitos anos desde aquele dia. E, hoje, vejo poucas pessoas buscando um cantinho para ficarem em silêncio consigo mesmas. Aliás, a meditação é prática comum nas religiões que acreditam que o silêncio seja um caminho de cura para muitos males. Sabe-se que a mente precisa de um tempo silencioso, já que não para nunca, nem mesmo quando dormimos.

É na pausa entre os sonos que a mente é ativada e se dá o pico da atividade cerebral. Porém, na contramão de todas as recomendações de órgãos de saúde, temos um sono agitado e embalado por um bombardeio de todo tipo de sons, ruídos e claridade que a vida nas grandes cidades nos impõe.

Neste momento em que escrevo, quando ressalto a necessidade de silêncio, ouço buzinas, pessoas falando alto, barulho de um motor de ônibus e um ensurdecedor e inaceitável ronco de uma motocicleta cujo piloto parece não ter ouvidos e que, lamentavelmente, as leis de trânsito não descobriram que aqueles veículos, assim como os automóveis, também têm a obrigatoriedade de portar a bendita peça chamada de “silencioso”. Ora, toda essa poluição sonora é geradora de estresse para o nosso psiquismo e também para a nossa espiritualidade. Não devemos nos esquecer de que o silêncio é uma face da nossa existência (“porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é o silêncio” O.M.). 

O filósofo suíço Max Picard, em 1989, quando publicou o livro The World of Silence, advertiu que nada mudou tanto a natureza do homem quanto a perda do silêncio. Mas os jovens, principalmente os que jogam futebol profissional, alheios ao que se passa à sua volta, dificilmente terão seus ouvidos livres de iPods, o que demonstra uma dificuldade enorme de ficarem relaxados e em paz.

Em minhas orientações aos meus clientes, ressalto a importância do silêncio e que talvez paire sobre a humanidade alguma espécie de medo da quietude, receio do recolhimento, do autoconhecimento e da descoberta do sentido profundo da própria existência. Fogem de si para não terem que encarar a realidade e ouvirem a própria consciência. Mergulham de cabeça no indeterminismo, no superficial e no fortuito. Quanta ilusão na caminhada para o abismo. Constroem suas vidas sobre bases mais efêmeras e impermanentes do que a vida.

Não se permitir usufruir do silêncio nos leva à perda de excelentes oportunidades de criar, de ter ideias brilhantes, arrependimentos. Santo Agostinho preconizou que o silêncio é necessário a todos para ter um estado de espírito saudável.

E, já que estamos falando de um santo, vem aí uma oportunidade de fazer uma pausa, de meditar, rever objetivos, corrigir a rota e sonhar coisas novas – em síntese – ficar um pouco com você em silêncio para ouvir sua voz interior e o som inaudível dos corações alheios. Vem aí o Natal, momento sublime, de mensagens de amor, de fé e de esperança. Festejamos no mês de dezembro o nascimento de Jesus. E, mais do que dar presentes, é uma oportunidade de estarmos presentes e ao lado das pessoas que amamos.

Desejo a todos os leitores que, pacientemente me dedicam seu tempo precioso e que me honram com seus comentários, um Feliz Natal e que, no ano de 2020, assim como nos pares 20 e 20, haja mais igualdade e persistência em fazer o melhor e ser melhor a cada dia, com saúde, harmonia, amor e sabedoria.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Praticando a empatia

por Convidado 15 de novembro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Outro dia, num dos trabalhos de orientação individual que realizo há 20 anos, um participante (ou coachee), num determinado momento em que falávamos de carreira e trabalho, me perguntou por qual razão as pessoas são tão falsas. Observei que a pergunta vinha carregada de uma tristeza significativa. Talvez uma decepção com as atitudes dos seres humanos. E continuou, se dizendo magoado com os ex-colegas que o abandonaram quando foi demitido do alto cargo que ocupava.

Eu lhe disse que estava sendo muito inocente. Que é a reação mais frequente de nossos colegas. Por essa razão é que se chamam colegas e não amigos. Também lhe confidenciei que enquanto fui diretor de uma instituição, pessoas me bajulavam, traziam presentes, pediam-me favores e que desapareceram junto ao meu pedido de demissão. Incomum seria o contrário. Mas a vida, gradativamente, nos mostra novas verdades e, pior, a descoberta da existência de muitas pessoas interesseiras, oportunistas, traiçoeiras e ingratas. E que, assim sendo, se torna inevitável a desilusão.

Meu “orientado” – já meio desorientado – me diz que a culpa é das escolas porque incentivam as crianças a competirem. Acrescenta que a falta de sensibilidade e de conhecimento, sem maldade, faz com que alguns professores e professoras gerem antagonismos, rivalidades e complexos, quando dizem que uma criança é mais bonita ou mais inteligente do que as outras.

Não só na escola, mas também em casa – lembrei a ele – pais e mães utilizam da comparação ou do elogio a um filho como um exemplo a ser seguido pelos demais irmãos. Aí começam a nascer a raiva, o desprezo, a inveja e o ódio. Crescemos mais um pouco e, com a evolução da estatura, crescem também as divergências cujas raízes foram plantadas na infância.

Meu cliente pediu-me licença para naquela sessão apenas desabafar. Aceitei e acatei seu pedido, pois era a melhor forma de ajudá-lo naquele momento.

Ele reclamou do abandono, inclusive da família. Era nítida sua dor e tristeza. Poderia cantar “Meu Mundo caiu” da Maysa. Sim, seu corpo expressava a queda. Estava sem chão. Fora acostumado a uma rotina de tantos anos e, agora, num minuto, tudo havia acabado. Aí, neste momento, encarei minha missão e me lembrei da frase apregoada por santa Tereza de Calcutá que diz para que não deixemos alguém que venha à nossa presença sair sem estar melhor do que quando chegou. E prossegui, ouvindo seu desabafo e o tranquilizando, quando o seu pranto insistia em ser protagonista daquele drama.

Depois de algum tempo, perguntei-lhe se poderia pôr uma música. E com o seu consentimento escolhi “Vou-me embora” de Paulo Diniz.

Por que aquela música? Pelo fato de não ser tão conhecida, o que desperta maior atenção e pela mensagem, obviamente. Ei-la:

“Vou me embora, vou me embora, vou buscar a sorte/. Caminhos que me levam, não têm sul nem norte. / Mas meu andar é firme e meu anseio é forte. /Ou eu encanto a vida ou desencanto a morte. / Vou me embora, vou me embora. Nada aqui me resta, /senão a dor contida, um adeus sem festa…”

Ouvimos a canção até o final. Então concluí: é preciso saber perder, saber deixar no passado o que é do passado, porque não podemos mudar a velha história, mas escrever uma nova com final feliz. Deixe que os maus cuidem dos maus. Não vamos mudar o mundo. O mau e o bom, o mal e o bem sempre existirão, infelizmente. Fazem parte da mesma moeda, embora estejam em lados opostos.

Você tem seu valor, tem algo de bom para oferecer ao mundo. Comece a buscar o que deseja. Ponha no papel, defina datas, metas, objetivos. Saiba que, embora a vida seja a arte do encontro, a procura é muito mais importante do que o verdadeiro encontro, pois é na busca que aprendemos a melhores e mais importantes lições.

Como escreveu Fernando Sabino:

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Liderança até quando?

por Convidado 12 de outubro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Há mais tempo, uma colega tomou a decisão de não fazer palestras sobre liderança. O motivo alegado foi que a teoria estava muito distante da prática e que os estilos sugeridos pareciam ser contos de fadas no país das maravilhas.

Quando soube de sua decisão, confesso que fiquei preocupado e “balançado”. Afinal, o tema era o meu preferido e sobre o qual mais fazia palestras. Reconheci que aquela atitude estava respaldada na coerência, na nobreza e na honestidade, pois sua alegação era a de que não poderia enganar as pessoas Muitos empresários brasileiros têm um perfil que está muito mais próximo do senhor de escravos do que do líder sugerido pelos estudos dos últimos vinte anos”, afirmou.

Hoje, após mais de uma década de nossa conversa, reflito sobre tal decisão e continuo admirando a firmeza de caráter daquela senhora. Porém, como tudo tem duas faces, penso que se desistirmos de realizar, pregar, persuadir as pessoas para mudarem, teremos que fazer como os macaquinhos que tapam os ouvidos, a boca e os olhos – nos tornamos omissos e corremos o risco de extinção.

É fato que durante milênios a liderança foi exercida pela força. Os maiores reinos invadiam os menores e os conquistavam, escravizando ou exterminando sua população.

No fim do século XIX, Taylor com sua “Administração Científica”, fez nascer as primeiras luzes de uma gestão que primava pela Organização Racional do Trabalho. De lá para os dias atuais, as pessoas e os sistemas foram se aprimorando. O ranço da escravidão foi, aos poucos e muito gradativamente, ficando para trás, e surgiram novas concepções sobre gerenciar e liderar. Assim, nasceu o líder coach – que contemplava em seu perfil o treinamento e o desenvolvimento da equipe que liderava. Surge, nesse cenário, a Liderança Servidora (quase espiritual) que trouxe em sua essência a ideia de servir à equipe, com autenticidade, empatia e ter a habilidade de compartilhar e criar um ambiente colaborativo que estimula o aprimoramento e o desempenho.

James Hunter, autor do livro “O Monge e o Executivo”, um best seller, chegou a mencionar que essa modalidade de liderança fora adotada por Jesus – um Servidor que dava a outra face.

Devemos entender que se trata de uma metáfora, contudo, meus insistentes leitores, vocês hão de convir que a gestão evoluiu e tornou crível o que antes parecia ficção. E não tem volta. Os modelos são outros, a diversidade se acentua e pede passagem. As gerações Y e Z não aceitam gritos, não sabem o que é apanhar dos pais e, portanto, não reconhecem a figura de um chefe com o chicote nas mãos. Os mais cultos vão pensar que se trata de um Dom Quixote alucinado,lutando contra os moinhos de vento.

Pois é isso. Eu consigo persuadir meus alunos. E, interessados, me perguntam: como, então, será a relação das pessoas nas organizações do novo mundo?

Eu respondo que essa pergunta não faz parte do novo mundo. E sabem por quê?

Porque no novo mundo não temos como prever o que virá…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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*por Sérgio Marchetti

Não é nenhuma novidade ouvir que a doença dos próximos anos é a depressão. É o mal deste século, como revelam os estudos da Organização Mundial de Saúde. Artistas famosos, de quem você nunca esperava ter notícias de terem sido vitimados pelo transtorno do pânico, são os mais afetados. E nos bate aquela interrogação: fama, dinheiro, conforto, beleza, e ainda são tristes? Mas a doença não é um privilégio das celebridades. O transtorno tem atingido uma parte significativa da sociedade. No caso de pessoas famosas ocorre por estarem na mídia e terem um grau de visibilidade expressiva, privacidade invadida, além de serem alvo de toda espécie de notícias.

Outro fator é que as pessoas ainda não se deram conta de que não vivem para elas. A sociedade contemporânea representa papéis no teatro da vida, no qual todos querem ser protagonistas e, por ser impossível que todos sejam atores principais, vem a decepção, a autocobrança, a frustração e, sem perceberem, acabam por ser meros figurantes de suas próprias vidas.

Sabe-se que as causas geradoras da doença que será a vilã do campo da saúde estão relacionadas a um conjunto de fatores hereditários e psicossociais. Porém, ninguém me convence de que a doença psicológica não seja causada justamente pela forma como as pessoas tiveram suas vidas escancaradas na mídia. A tudo isso, ainda se soma a evolução tecnológica, que talvez seja a causa maior de propagação desse mal que aflige a sociedade mundial. Pois, hoje, sabemos de tudo que acontece no mundo. E vale a máxima popular: o que os olhos não veem, o coração não sente.

Ser bem sucedido, magro, bonito, estudar idiomas, ter um automóvel do ano, fazer parte de vários grupos — sejam eles virtuais ou presenciais, frequentar academia, fazer terapia, viajar, ser “escravo” de filhos, fazer yoga, postar textos e vídeos, e ter um coach são “apenas” alguns elementos do repertório que compõe o “Kit da pessoa classe A”.

Bem, vocês notaram que não mencionei “trabalho” no repertório de atividades, mas num mundo com tanta exigência, fica evidente de que um dia de apenas 24 horas é pouco para realizar tudo isso, e ainda trabalhar.

“Como beber dessa bebida amarga / Tragar a dor, engolir a labuta…”

Como vimos, ser chique não é fácil, principalmente num Brasil de mais de doze milhões de desempregados e de tanto trabalho informal. E aí, os jornais, principalmente os televisivos, apresentam sua altíssima dose de cooperação para que a esperança de dias melhores seja sepultada no seio de cada cidadão – que já perdeu o senso de cidadania há tempos. E isso, sem contar que a imparcialidade, lamentavelmente, não é mais uma prerrogativa de todas as emissoras.

A sociedade padece de um mal que é o de obter o poder a qualquer custo. E o objetivo, obrigatoriamente, deve ser alcançado. E, se não for por amor, que seja pela dor. Os fins justificam os meios.

Mas, imaginem, caros leitores, que diante de tanta exigência para se manter na ilusória corrida em busca de “status”, a realidade, assim como o barco de Creonte, nos conduz a um destino oposto ao vislumbrado por uma sociedade, que se afogou no desvario de uma onda que trouxe uma falsa conotação de felicidade.

A depressão não assombra apenas as pessoas que vivem a busca compulsiva de um lugar ao pódio. Neste cenário, um percentual expressivo da população não tem satisfeitas as necessidades básicas como: saúde, educação, segurança e emprego. Aliás, não preciso dizer mais do que já disse o menino Gonzaguinha: “o homem se humilha se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida e vida é o trabalho/ E sem o seu trabalho, o homem não tem honra / E sem a sua honra, se morre, se mata / Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”.

É! Não dá pra ser feliz…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Doces recordações

por Convidado 15 de agosto de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

“Eu me lembro com saudade o tempo que passou/ o tempo passa tão depressa/, mas em mim deixou/ jovens tardes de domingo/ tantas alegrias, velhos tempos/ belos dias.”

Podem dizer que sou um saudosista e que a vida acontece no presente. Eu bem sei disso e até incentivo as pessoas a pensarem assim. Mas uma grande paixão do passado é difícil de esquecer. A vida, meus caros e persistentes leitores, é feita de momentos que se tornam lembranças e que nos indicam que vivemos dias felizes. Os dias ruins que fiquem enterrados definitivamente no passado. Deixemo-los por lá. Porém, desconsiderar as alegrias ou desluzir momentos iluminados e rejeitar os retratos da juventude e tudo que ela representou é sintoma iminente de depressão, trauma ou amor mal resolvido. Não! Não estou falando de uma namorada. Tampouco irei narrar paixões que só têm importância para quem as vive. Nada disso! Simplesmente estou recordando minha infância poética e, por coincidência, vivida na rua Alvarenga Peixoto (poeta e inconfidente), conhecida carinhosamente como rua do Anjo – em minha judiada e inesquecível Barbacena. Foi lá, numa rua calma de paralelepípedos que aprendi a jogar futebol, a brincar de pique e a gostar de poesia.

“…Ai que saudade dessas terras/ entre as serras/doce terra onde eu nasci…”

Eu morava próximo à estação ferroviária e, embora o barulho do minério de ferro deslizando sobre trilhos trouxesse desconforto auditivo, aquela poluição sonora se tornou parte de nossas vidas. Eu adorava acordar de madrugada e olhar pela janela o imponente Vera Cruz  – trem de luxo – todo prateado, estacionado logo abaixo de minha casa. Eu o denominava de príncipe dos trens.  Digam se não merece nosso sentimento de saudade? Não temos mais um transporte como aquele. Andamos para trás e com rapidez. Agora, esquecendo do trem, a estação se tornou um símbolo da minha infância e também das lembranças de Barbacena. Ainda hoje, sempre que estou lá, não me furto ao prazer de ficar apreciando a vista da cidade e a imponente estação ferroviária. E, caso pudesse, iria fazer dela um espaço de cultura, museu, artesanato e de outros eventos que pudessem aproveitar toda sua extensão. Contudo, antes daria a ela uma pintura à altura de sua beleza. Algo como a igreja de São José em Belo Horizonte. Ali, naquela praça, poderia ser o encontro de carros antigos, festival de vinhos e tantos etcs.

Convido meus conterrâneos a observarem o quanto de beleza se esconde naquele maltratado prédio.  Em Belo Horizonte, a estação ferroviária é símbolo da cidade. E, cá entre nós, sem querer puxar a sardinha para nossa lata, a de Barbacena é mais bonita e imponente.

Como disse, sou saudosista, talvez ufanista e, com o passar do tempo, adoro ainda mais minha terra, e fico muito sentido quando vejo que as belas e antigas casas são derrubadas para se levantarem sobre seus escombros, caixotes de concreto que sepultam, sob seus alicerces, histórias como a de Guimarães Rosa e Honório Armond.

Barbacena tem grandeza, faz parte da história dos primeiros governantes do Brasil. Nela, nasceram famílias tradicionais da política brasileira: Andradas e Bias. Também registra Emeric Marcier, o pintor romeno que escolheu nossa terra por causa da beleza do céu. “O crepúsculo mais belo que já vi”, dizia. E, além de Rosa, um outro escritor, o francês Georges Bernanos, que também viveu por lá. Mas há registros na arquitetura, como o Viaduto Pontilhão Dom Pedro II, com seus três lindos arcos – outro símbolo que merece cuidados.

Enfim, muito mais do que ser lembrada como “holocausto brasileiro e “terra de doidos”, pode ser conhecida como a cidade das rosas, das serras, da fazenda da Borda do Campo, e destacar sua contribuição para a educação com a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, a antiga Escola Agrotécnica, que hoje, se não me falha a memória, é Instituto Federal de Ensino Tecnológico. E ainda, obviamente, as faculdades e colégios tradicionais e renomados.

E o clima? Aquele frio maravilhoso que me fazia fugir do banho da manhã e esperar o sol sair para não congelar? Era aconchegante ficar abraçado com alguém para minimizar os efeitos do frio. Atualmente, não faz mais aquele frio. O mundo aqueceu e as pessoas esfriaram.

De fato, são muitas lembranças de um tempo que não volta mais. Por isso, entendo com tamanha empatia o poeta Casimiro de Abreu:

“Oh! Que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Discutir a relação

por Convidado 10 de julho de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Numa feia manhã de um domingo chuvoso, a Alma e o Corpo resolveram discutir a relação, e a primeira divergência estava na disputa para ver quem era mais importante.

O Corpo disse que não tinha dúvidas, pois sem ele a Alma não existiria. E disse mais:

– Eu tenho nome, endereço, profissão. E você? Ninguém nem sabe se existe!

– Existo sim – retrucou a Alma. – Sou eu quem lhe dá vida, seu ingrato. Sou sua essência, seu guia e toda sua existência está em mim.

– Ora, não me amoles com essas baboseiras. Você acaba de ter uma descarga de arrogância. A essência está no cérebro, no DNA, em meus aprendizados, minha inteligência e meu psicológico. Sabia que psique, em grego, é alma? – questionou o Corpo.

– Então você acabou de comprovar que existo.

– Sim, existe como papai Noel. Alma é uma invenção das religiões. Criaram-na para que as pessoas temam o castigo no juízo final. Foi uma ideia dos religiosos para gerar limites nas atitudes dos seres humanos e ter domínio da sociedade.

– Então não adiantou – replicou a Alma. –  As pessoas estão sem medo e sem fé. Ouça esta frase: “não sois seres humanos passando por uma experiência espiritual. Sois seres espirituais passando por uma experiência humana”. – Escreveu Teilhard de Chardin. – disse a Alma e continuou: leia o diálogo de Símias, Sócrates e Cebes, em Fedon (no livro de Platão). Lá, o genial Sócrates compara a lira com o corpo, e a alma com a harmonia. Ou seja, quando a lira apodrecer e estiver com as cordas estragadas não significa que a música tenha morrido também. Ela, por certo, será tocada em outro instrumento. Assim sou eu. Sairei de você e habitarei um outro ser. De forma que sou imortal e você não. Sinto muito!

– Tamanha pretensão a sua, minha cara Alma. Você por acaso está aderindo à onda de empoderamento feminino? Tome cuidado. Minha avó dizia que quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.

– Não devemos discutir, meu amado Corpo, apenas devo lembra-lhe de que é mortal e, assim sendo, sua morte será iminente. Lamento por isso, porém não há como mudar essa lei. Você retornará ao pó. Enquanto que eu irei prestar contas do que fizemos.

–  Deixe de ser idiota. – contestou o Corpo. – Você tem inveja da minha beleza. Ou vai dizer que é sua também? Um corpo humano é um milagre de Deus. Poder ser visto, tocado e amado, é uma graça. Não me leve a mal e desculpe-me dizer, mas se você existe, então sua vida é uma prisão; é um castigo cuja sentença foi a de nunca ser vista por ninguém. Nem mesmo por aquele corpo que carrega. Que trágico!

– Não existe nenhum invento perfeito – retrucou a Alma. –  Posso sofrer por não ser vista, no entanto sinto emoção, tristeza e alegria por suas vitórias. Tudo que lhe acontece reflete em mim. Por outro lado, veja a sua fragilidade. Está sempre com uma dor física, uma preocupação com o envelhecimento que o transforma vinte e quatro horas por dia. Minha missão é vir com você e, juntos, vivermos sem cometer grandes falhas para acertar os erros do passado.

– Você é uma enviada especial do Allan Kardec? Faz-me rir.

– Não. Eu vim muito antes dele. Mas não vamos discutir sobre assuntos em que não temos como estabelecer pontos comuns. Ao invés de discordâncias, por que não tratamos de nossas afinidades? Estamos unidos e só a sua morte poderá nos separar.

– A nossa morte. – corrigiu o Corpo, já impaciente, e acrescentou: – deixe de ser superior… sua… imortal.

– Meu querido Corpo, se estamos dizendo verdades, então, não sei se o que vou dizer lhe consola. Contudo, saiba que quando a matéria estiver morta, ou seja, no dia em que você, o Corpo, não responder aos estímulos da vida, eu estarei viva e em possível sofrimento. Pois, a separação é mais dolorida para mim do que para você. E naquele momento, esse “nós” será apenas o “eu” e, como escreveu João (8:32) “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

–  Então será assim? – perguntou o Corpo melancolicamente.

–  Sim, meu companheiro… Naquele momento a resposta veio de uma outra voz. Era a Consciência que após escutar toda a discussão resolveu intervir para chamá-los à razão: –  nada no mundo está aqui por acaso. Tudo tem um valor. O Corpo precisa da Alma e a Alma precisa do Corpo, assim como o homem precisa da mulher e a mulher precisa do homem –  em qualquer dos casos a união é imprescindível para que haja a vida. A guerra, o ataque, o desejo de querer ser maior e mais poderoso do que o outro, por si só já demonstra sua pequenez.  A Alma tem a função de sustentar a vida espiritual e você, Corpo, tem a missão de constituir uma vida física. Mas quanto mais valor lhe atribuírem sobre a Alma, menos essência terá.  A humanidade se perdeu na busca desvairada do poder, do hedonismo e se esqueceu de trabalhar a espiritualidade –  que é o que vai contar no final.

Desculpem-me por ter invadido a conversa de vocês, mas me competia ajudá-los nessa disputa de “cabo de guerra”. Lembrem-se de que a palavra mágica para ser feliz e manter a saúde do Corpo e da Alma é equilíbrio.

– Consciência, me permita dizer algo para o Corpo? –  pediu a Alma com a voz terna.

– Sim, diga.

– Meu amado Corpo, para que saibas do meu amor, deixo-lhe um poema de Ernesto Cardenal Martínez:

“Ao perder a ti, tu e eu perdemos/ Eu, porque tu eras o que mais amava/ E tu, porque eu era o que te amava mais/ Contudo, de nós dois, tu perdeste mais do que eu/ Porque eu poderei amar a outras como amava a ti/ Mas a ti não te amarão como te amei.”

E os três se abraçaram.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Caos iminente

por Convidado 11 de junho de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

É voz corrente, quase unanimidade, dizendo que está faltando gentileza no mundo. Talvez a explicação mereça estudo mais profundo para entendermos o porquê de testemunhar atitudes de tantas pessoas grosseiras, mal-educadas, arrogantes que apostam todas as suas fichas no poder que, muitas vezes, foi adquirido por apadrinhamento ou por vias nada convencionais. Lamentavelmente falta mais do que conduta gentil – faltam respeito, educação e honestidade.

Também nas organizações o relacionamento é ruim e a confiança anda em baixa. Porém, em minha humilde visão, o que presumo é que grande parte do nosso passado tenha sido assim. Antes, o que definia o poder era a força física e a hierarquia dos grandes reinos – que também se valiam da força para roubar os mais fracos. Depois, a humanidade se educou e alcançou melhoria expressiva. Mas não durou muito.

Vocês devem estar pensando: mas tanta coisa mudou. Sim, os valores mudaram muito, mas as pessoas continuam se valendo da posição que alcançaram e sentindo o “gosto” de dar ordem – eu mando e você obedece – independentemente de saberem menos do que o outro sobre determinado assunto. O que prevalece é o poder e não a autoridade. Mas felizmente todos sabemos que jabuti não sobe em árvore.

Dessa forma, os feitores pós-modernos defendem, na teoria, o trabalho em equipe e proferem palavras falsas de sentimento de time. Isso mesmo. O que se esquecem é de que as atitudes devem ser fieis ao discurso, pelo simples fato de que as pessoas percebem mais a força das ações do que das palavras.

O filósofo iluminista, Denis Diderot, afirmou que “a prosperidade descobre os vícios, e a adversidade, as virtudes”. Entretanto, em meio a tantos problemas, não estamos conseguindo ver nada muito virtuoso. E “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Ora, meus persistentes leitores, sabemos por diversas pesquisas e variadas fontes que a doença do século já é a depressão e que será ainda mais intensa nos próximos anos. Pudera! O que assistimos é o enfrentamento de pessoas, de mulheres contra homens e vice-versa, onde predomina o jogo de interesses que os tornam demasiadamente incoerentes e agindo contra si.

O que pode salvar o mundo é a união e não a ruptura. O que faz um casal feliz é a soma das diferenças, a intercessão e não a competição. O que faz uma nação ser forte é um trabalho com foco e um povo convergente. Mas há forças veladas e oportunistas que desejam o caos, pois agem na surdina, na confusão e na escuridão.

É tão triste constatar que a insensatez humana chega ao ponto de as pessoas se sentirem mais felizes com a derrota dos rivais do que com a sua própria vitória.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Os anjos existem?

por Convidado 12 de maio de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti 

Eu nunca acreditei em anjos, tampouco que me protegem por todo o tempo. Mas cresci vendo e ouvindo tantas pessoas falarem do anjo da guarda que resolvi questionar o papel daquele benfeitor. Mas ressalto que em minha busca nunca desrespeitei a crença das pessoas.

Um dia, li o livro do Paulo Coelho, “O Diário de um Mago”, cujas páginas traduzem sua odisseia pelo caminho que leva a Santiago de Compostela. Gostei do livro e puder ver que o escritor fala de anjos e do seu anjo, especificamente. Porém, o que mais me chamou a atenção foi o fato do Paulo ser o escritor de mais sucesso no Brasil e de tantas pessoas dizerem que não gostam de seus livros. Ora, só mesmo tendo um anjo protetor para vender tanto livro para quem diz que não gosta. Confesso que comecei a acreditar em alguma coisa que nos proteja. O problema é que, no meu modelo mental, anjo é um menininho de asas, com cabelos louros e encaracolados que toma conta de marmanjos. Não! É inconcebível para minhas crenças.

O tempo passou… veio a poesia em minha existência e com ela, em Casimiro de Abreu, aprendi que “primavera e mocidade/ irmãs gêmeas, elas são/ vem o inverno/ vem a idade/ uma volta/a outra não”. E, então, no meu entardecer, num dos invernos da minha vida, comecei a compreender o que antes parecia indecifrável, e apurei minha visão para ver o que antes era invisível; tendo compreendido que “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry). E aí, meus caros, pacientes e fieis leitores, falem a verdade: quanto mais nossos olhos vivem, mais nos levam a acreditar em coisas inacreditáveis.

Entendi, depois de um bom tempo, que a vida é circular e que, quando estamos completando a nossa trajetória, ficamos mais perto da criança que fomos e da qual nos distanciamos por um período. E criança vê coisas que só idosos veem. Olha aí a intercessão.

O escritor português José Saramago disse em um discurso, pouco antes de sua morte, que quando estamos próximos de fazer a nossa última viagem, nossa chama – igual à da vela que está para apagar -, cresce, fica forte e depois se finda. Creio que a luz a que Saramago se referiu venha dos anjos que guiam nosso caminho final.

Ainda não atingi esse estágio. Penso, em minha ilusão, que estou vivendo o crepúsculo e não a noite. Mas vá saber. O que percebi em meu entardecer é que enquanto pensar que anjos voam, eu nunca os verei. Eles não se personificam somente como crianças. E não são exclusivos de uma pessoa. Mas eles existem e nos aparecem em momentos difíceis, quando nos sentimos sós e abandonados. Descobri essa verdade assistindo um filme baseado em fato, na qual uma família lutava para salvar a vida de uma filha, uma menina que sofria de uma doença rara. Ela teve tantas pessoas para ajudá-la que a mãe concluiu que anjos estão mais perto do que imaginamos. Não saberia dizer o nome do filme, me esqueci. Mas entendi que cada pessoa que me estende a mão e me possibilita resolver um problema grande ou pequeno – esse é um anjo. Eles são discretos, compreensivos e aparecem quando você está perdido e sem saber o que fazer para solucionar um problema.

Sei que todos que me leem irão entender que anjos existem e que, em algum momento, todos nós, mesmo sendo imperfeitos, podemos ser o anjo que alguém tanto precisa.

Que assim seja!

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Historinha pra boi dormir

por Convidado 5 de abril de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti 

Era uma vez um país de sapos, onde todos viviam tranquilos em seus espaços. Era um enorme brejo, mas com muitas árvores e muito verde. Nos finais de tarde, quando a noite chegava, era aquela cantoria; canções de ninar para sapinho-boi dormir (boi, boi, boi… Boi da cara preta pega este sapinho que tem medo de careta). Em dias chuvosos, as cigarras cantavam sua última canção, e se “ouvia o canto triste da Araponga anunciando que na terra”… iria chover. Havia muitos pássaros cantadores, vagalumes que brincavam de engolir fogo e grilos malabaristas. O talento artístico se sobrepunha ao talento para tarefas e trabalhos mais rotineiros.

No início, os sapos viviam de acordo com suas leis selvagens e chamavam seu torrão natal de Sapolândia. Era um povo-sapo muito “brejeiro”, literalmente falando, e adorava seu espaço, úmido, com muito verde e muita água.

Mas, numa linda manhã de sol, aconteceu uma grande novidade que iria mudar para sempre a vida daqueles habitantes. Sapos de fora chegaram naquele lugar. Foi um verdadeiro pandemônio. Eram diferentes, vestiam roupas estranhas, coaxavam numa linguagem incompreensível para aqueles sapos nativos que falavam tupi-guarani.

Veio então a mudança. E, mesmo, que os sapos mais rebeldes dissessem em suas reuniões secretas – sob o céu risonho e límpido – que sapo de fora não ronca, não foi o que ocorreu. A Sapolândia foi invadida por sapos mais civilizados, e, apesar disso, não demonstraram, em seus costumes, que civilização era sinônimo de educação. Os invasores trouxeram sapos bandidos, oportunistas e golpistas que chafurdaram na lama.

Naquele tempo, vieram reis e rainhas-sapas, rãs e pererecas estrangeiras que fizeram de um lugar brejeiro uma enorme colônia de anfíbios. A Sapolândia, a partir de então, foi governada por príncipes e princesas, mas nunca foi bela como nas historinhas para boi dormir. Os sapos de fora deram um novo nome para o lugar. Nascia então o Brejil. Muitos anos depois, proclamaram a república e elegeram um presidente.

“Mas um dia tudo mudou, a vida se transformou e a nossa canção também ”. Houve revolução militar, comandada por sapos de fora que roncaram forte – americanos -, e anos sombrios dominaram o brejo.

O tempo passou e os cidadãos-sapos do Brejil pregaram a democracia. Porém, por não conhecerem a fundo os preceitos democráticos e, sem conseguirem abandonar a cultura da lama, instituíram a anarquia e meteram as mãos… digo, meteram os pés pelas mãos. Mantiveram o Brejil no lamaçal. Constatou-se que os sapos governantes não haviam evoluído, mas aprenderam a usar terno e gravata para consolidar a postura de poder. As princesas-pererecas, primeiras-damas que se passavam por sapas, também não foram nem um pouco parecidas com as dos contos de fadas e não foram felizes para sempre. E, os sapos oprimidos e sofridos, cantando seu lema de “não desistirem nunca”, continuavam esperando por um salvador da pátria – talvez um Messias que viesse do fundo do poço da Sapolândia.

Apareceram sapos cultos, arrogantes, simples, mal-humorados. Mas numa linda manhã de sol, eis que surge um anfíbio vindo do povo. Era bem tosco, “zuiúdo”, coaxando algo muito parecido com o tupi-guarani. Compunha as características que muitos habitantes do Brejil queriam. O perfil era adequado aos sonhos dos sapinhos da pátria amada, mãe gentil. Teve a adesão dos grilos falantes, muitos com talento artístico, que passaram a pregar liberdade, direitos humanos e falar de diversidade com tanta incoerência que seus discursos de bicho-grilo, ainda agora, não têm nenhuma fidelidade com suas atitudes burguesas.

O sapão da esperança ainda nos apresentou uma sapa-falante, cujo dialeto nunca foi compreendido, pois não tinha nexo.  Chafurdaram na lama. Mas deixaram seguidores que adotaram os três macaquinhos como símbolo – não quero ver, não quero ouvir e não quero falar.

Em algum cantinho do Brejil, alguns sapinhos cantam o hino (Brejo adorado, Entre outros mil, És tu Brejil, Ó Pátria amada!…) e continuam a alimentar a esperança de que um dia serão felizes para sempre.

Mas acho que tudo isso é conversa para boi dormir.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti 

Apesar de toda a evolução tecnológica sobre a qual o homem mergulha de cabeça, deslumbrado com as maravilhas do novo mundo cibernético, ainda assim, será necessário falar em público. Mais do que isso, teremos que falar com propriedade, conhecimento e ótima argumentação.

Como preconizou Aristóteles, (384 a.C. – 322 a.C.) serão essenciais ao discurso o ethos, que apela para a ética, o pathos, que traz sentimento ou emoções, e o logos, que é a própria lógica. Com estes elementos as possibilidades de sucesso tendem a aumentar.

Não será excesso de rigor dizer que em muitas apresentações tem faltado a ética. Alguns profissionais mentem absurdamente e fazem comentários deselegantes. Também presenciamos apresentadores fazendo charme e carregando a voz de maneirismos. Em outros momentos, assistimos a técnicos que dispõem de uma boa pronúncia, de uma base sólida de conhecimento, mas dão a impressão de serem alimentados por algoritmos e de não terem alma – tamanha a distância mantida entre eles e a plateia.

Conheci instrutores de oratória cuja fala tem mais tempo de cacoetes e sons estranhos ao tema do que de palavras que compõe os seus discursos. Em meus tempos de coordenador acadêmico, diretor e professor de faculdade, tive a oportunidade de conhecer excelentes professores, porém, muitos daqueles traziam em suas apresentações vícios que os marcaram eternamente perante os alunos. Sons inadequados, palavras e expressões repetidas e quase cadenciadas os tornavam professores e oradores cansativos. Um caso que ilustra minha observação é do Pelé – atleta do século, melhor jogador do mundo, campeão mundial pela seleção brasileira e pelo Santos – , mas, quando chamado para realizar um comercial, o que exigem dele é que diga “entende?”, por ser o seu vício de linguagem. Ora, o cacoete linguístico parece ser mais forte do que todas as conquistas do rei do futebol.

Os “campeões” do repertório de sons indesejáveis são: né, é, tá, e aquele chiado arrastado de UUU. Mas as dificuldades não param por aí. A lógica apregoada pelo referido filósofo também parece faltar em algumas apresentações. É um tal de começar do fim ou do meio. E o apresentador vai… volta, repete, ratifica, acaba transformando o conteúdo numa mistura de ideias que algumas vezes perdem até o nexo. São os “Odoricos Paraguassus” (que ainda se dizem falsamente que não merecedores de tamanha homenagem). Há algumas pessoas, porém, que se justificam, se dizendo “modernas” e apresentadores e apresentadoras vanguardistas. E, com essa autorrotulação, transformam uma palestra em picadeiro, e devem fazer Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade, os modernistas genuínos, se arrepiarem em seus túmulos.

Ressalto, para que não pairem dúvidas, que sou totalmente favorável aos movimentos de mudança e, obviamente, sei que a arte de se expressar acompanha e até antecipa as transformações. Não é diferente com a evolução linguística. Tudo se transforma o tempo todo, mas tudo deve ter início, meio e fim. Também já tive a oportunidade de informar que me incomoda a forma como alguns palestrantes abordam a plateia. Muitas vezes a prática de interação agride e menospreza algum espectador, quando é solicitado que participe e que suba ao palco e, não raro, para fazer algo que o ridicularize. Estou reiterando meu incômodo para que outras pessoas possam evitar tamanha falha, o que ainda pode lhes custar uma ação na justiça. Lembro aos palestrantes que não temos o direito de “convidar” (intimar) um membro da plateia para fazer qualquer coisa caso aquele não se sinta à vontade. Em alguns episódios, “as vítimas” são submetidas a dancinhas infantis e protagonizam um teatro, cuja comédia gira em torno de um cidadão ou cidadã que não recebeu cachê para fazer papel de palhaço.

Talvez você não esteja preocupado com meus comentários, pelo fato de não realizar palestras ou não ter contato direto com o público. Porém, me compete informar-lhe que processos de seleção, entrevistas, apresentações de projetos e até aquele evento em família irão surgir na sua vida. Não dá para fugir eternamente da sua dificuldade. O domínio das técnicas é o primeiro passo para vencer o medo, a timidez e a insegurança. E saiba que falar em público e comunicar… é só começar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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