Sem memória

por Convidado 13 de fevereiro de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Estamos novamente diante de uma cena de horror. Assistimos ao “repeteco” da tragédia que destacou negativamente a cidade de Mariana para o mundo. Um verdadeiro filme de terror e um atestado de irresponsabilidade e de descaso pela vida humana. Trata-se da famosa tragédia anunciada. Mas, desta vez, a lambança foi maior. Progrediram, inovaram, desgraçaram famílias e transformaram Brumadinho num cemitério de lama. E, como nada é por acaso, a lama talvez passe a ser nosso símbolo nacional, e represente, literalmente, o Brasil – este campeão de corrupção, assassinatos, assaltos, injustiças e tantas outras coisas ruins que infelizmente completam a pintura do quadro brasileiro.

Não vou repetir o que todos já ouviram e viram na mídia. Mas não dá para guardar no peito tanta insensatez e não desabafar sobre o absurdo que estamos testemunhando. Eu não sei como é a dor das famílias que perderam seus entes queridos. Também não saberia nunca avaliar os sentimentos daqueles que perderam e, definitivamente, não encontraram nem os restos mortais dos parentes que jazem sob a lama mal cheirosa, cheia de lixo e restos do que foram um dia a área administrativa e uma pousada.

A lei da causa e do efeito foi violada. O estudo de tendências deve ter sido engavetado. Mas, se por um lado tivemos que experimentar as consequências de uma série de erros, cometidos por quem jamais poderia cometê-los, pudemos, por outro ângulo, ver o trabalho incansável, insalubre e perigoso dos bombeiros que se arrastaram e chafurdaram na lama que sujou novamente o nome do Brasil.

Jornais de todo o mundo noticiaram o feito da Vale e estamparam manchetes dizendo que o Brasil não aprendeu a lição. E, de fato, não aprendeu. É um país sem memória, e essa é a constatação de todos os cidadãos desta terra descoberta por Cabral (não aquele… mas o Pedro Álvarez).

Houve uma grande comoção, inclusive observada em alguns repórteres que cobriram a tragédia. Mas aos poucos virão novos fatos, outros eventos bem mais agradáveis de serem noticiados. E aí, como nossa memória é fraca, vamos esquecendo aos poucos do que houve naquela pequena cidade. Porém, para quem dependia do emprego do marido, da mulher, do filho e de outro parente qualquer, o ocorrido jamais será esquecido. Brumadinho, assim como Mariana, sofreu um duro golpe e entra nos registros da história pela porta dos fundos. Foi vítima de uma invasão assassina que, sem pedir licença ou dar a chance de fuga, destruiu histórias individuais e matou a possibilidade de muitos sonhos se realizarem.

A queda da barragem me lembrou de Pompéia e, tal qual o vulcão daquela cidade, a lama de rejeitos cobriu a todos que estavam no caminho, sem piedade. E, embora tenha ouvido a palavra azar entre tantas vozes, não aceito a tese. Havia possibilidades, havia risco e o acidente era iminente. E, quando acontecesse, todos os trabalhadores seriam engolidos pela lama. E, como vimos e ouvimos, tudo falhou. Erros primários e inconcebíveis para uma empresa daquele porte.

Para quem está vivo, resta a esperança de um novo começo, com um novo governo que possa ser justo e honesto, e que inspire os brasileiros a seguirem caminhos retos, sem jeitinho e sem vantagens. Chega de lama, chega de mortes violentas, chega de lucro a qualquer custo e basta de favorecimentos…

“Já choramos muito/ Muitos se perderam no caminho/ Mesmo assim não custa inventar/ Uma nova canção/ Que venha nos trazer/ Sol de primavera…”( Beto Guedes).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Amigo virtual

por Convidado 7 de dezembro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

As novas maneiras de vida nos trouxeram conforto e uma rápida comunicação que salva vidas e nos permite saber de todas as notícias importantes em tempo real. A tecnologia, os humanoides, cuja alma se chama algoritmo, vieram para ficar e dominar.

Tenho amigos virtuais que me enviam de cinco a dez mensagens por dia. Algumas são informações importantes, mas a maioria é bobagem mesmo.

Há 25 anos conheci um desses mensageiros. Fomos colegas na diretoria de uma entidade de classe e ficamos muito amigos. Depois trabalhamos como professores e consultores numa mesma empresa. Nos últimos cinco anos nos tornamos mais virtuais e menos presenciais. Porém não havia passado um dia sequer sem uma mensagem que me fizesse rir. Confesso que algumas eram impróprias para menores de 60 anos.

Mas houve um dia em que as mensagens não chegaram. Uma semana depois, liguei para meu amigo. Ele havia se submetido a uma cirurgia meio às pressas. Felizmente recuperou-se rapidamente e depois de uma semana as mensagens voltaram.

Em todos os anos de convivência observei que não havia quem ficasse perto dele sem rir.  Sua espirituosidade sempre foi uma característica marcante. Os alunos o adoravam por seu jeito expansivo, inteligente e irreverente. Nas palestras não era diferente. A alegria era contagiante. Mas suas pernas, que um dia fizeram dele um craque no futebol, se desgastaram e geraram cirurgias, licenças e culminaram com a aposentadoria. Porém, nada conseguiu tirar sua alegria e humor.

A cada encontro que mantínhamos, eu saia revigorado de tanto rir. Seus exemplos de força e de humor me fizeram ser uma pessoa mais forte. “Não posso reclamar de nada” – pensava.

Um tempo depois de nossa última prosa as mensagens pararam novamente. Fiquei preocupado. Esperei uma semana. Liguei para ele. Atendeu o telefone rindo e dizendo que estava dando um passeio e que precisava sair de casa. E, quando indaguei sobre o lugar, disse-me que estava num hospital só para mudar a rotina.

Três dias após a nossa conversa as mensagens voltaram com toda força. E assim, em tempos tecnológicos, continuamos nossos contatos. E, como temos dito, a evolução da tecnologia nos põe em contato com pessoas distantes (mesmo nos afastando dos que estão próximos) e nos mantém conectados e informados sobre tudo simultaneamente.

O tempo passou e houve mais interrupções de mensagens e, quando eu ligava, ele me informava, com incrível senso de humor, sobre suas doenças novas como um “trombozinho” que veio para não alterar seu hábito de visitar hospitais.

Recentemente marcamos um encontro para um chopp e minha esposa quis me acompanhar para revê-lo. Rimos muito. Foi uma terapia muito proveitosa e ficamos muito felizes por  saber que o nosso amigo estava com planos de voltar a trabalhar.

E, como seria natural, as mensagens diminuíram. Imaginei que o trabalho estivesse intenso. Comentei com minha esposa que o homem deveria estar ocupado e que eu havia sentido falta das baboseiras dele.

Um mês depois cobrei: “pode trabalhar, mas dê noticias”. Mas não houve manifestação. Liguei em seu telefone e não obtive contato. Pesquisei em seu facebook e vi fotos recentes que me tranquilizaram, mas decidi pesquisar em outros amigos e conclui que, apesar de toda tecnologia, é preciso que as pessoas trabalhem a informação para que ela chegue ao destinatário.

Descobri que não receberia mais mensagens. Essa foi a pior piada, a mais sem graça que meu amigo me contou. Ele estava trabalhando, mas em outro plano, fazendo certamente muitas pessoas rirem. Partiu como uma estrela cadente e poucas pessoas viram.

Estamos sentindo sua falta, amigo, agora espiritual. Descanse em paz, Wilson.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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De olhos abertos

por Convidado 16 de novembro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Uma senhora fazia, calmamente, seu croché, sentada em sua poltrona numa sala simples quando, com muita naturalidade, pegou seu telefone e chamou a polícia.

Minutos depois, seu filho foi preso por assalto à mão armada.

Muitos vizinhos ficaram revoltados. Vieram críticas e rótulos de mulher fria, desumana, malvada. Mas a atitude daquela mulher deveria ser mais bem analisada antes de acusarem-na de perversa. Que pensamentos e sentimentos passavam por sua cabeça? Que razão teria para mandar prender seu próprio filho (a palavra “próprio” não precisava, mas serve para dar mais emoção ao texto).

Vamos tentar entendê-la. Ao ligar para a polícia estava no auge de seu desespero. O que ninguém sabia – nem queria saber – é que por trás de qualquer atitude há sempre um contexto. Não estou justificando erros, pelo contrário, estou reforçando a necessidade de avaliar contextos, de lançar um olhar sistêmico sobre acontecimentos e, assim, percebendo os detalhes e o enredo, compreender o desenlace dos fatos.

Aquela mãe já havia tentado de tudo. Por causa do filho perdeu saúde, terreno, carro e outros bens. O rapaz foi sempre um bandido. Teve emprego bom, todo o incentivo para estudar e ser uma pessoa de bem. Nada valeu. Era um ladrão, estelionatário e com suspeitas de homicídio.

Ouvi a história daquela mulher e, depois de conhecer toda a trama, lhe dei toda razão, embora outros tantos a crucificassem.

Bem, meus pacientes leitores, há neste episódio duas correntes de interpretação. Resumindo: temos os que são contra e os que são a favor da decisão da sofrida mãe. Mas o que desejo gerar são reflexões sobre nossas atitudes perante o mundo. Isso implica em usar o cérebro e ativar a função cognitiva que anda com ferrugem desde a descoberta do smartphone.

Há um bom tempo não decido nada sem antes entender o todo. Sugiro que façam o mesmo. Não julguem, não demitam, não passem a “fofoca” para frente antes de analisarem o contexto. Cuidado com as justificativas – muitas delas passam pela filosofia, falsamente atribuída a Maquiavel, de que os “fins justificam os meios”.  Nem sempre!

Em minhas aulas sobre relação humana e comunicação demonstro que tudo é circunstancial. A natureza se incumbiu de fazer tudo conectado. Uma folha não cai de uma árvore por acaso. Por essa razão é que é preciso ter visão global. Aconselho, se aceitarem, que não sejam imediatistas. A pressa tem gerado prejuízos incalculáveis. Também não devem agir por impulso. Reflitam, entendam e esclareçam os fatos. Em princípio, eu também atiraria pedras sobre a mãe desalmada. Mas tem um momento em que nos cansamos de aceitar o erro. Além da preocupação com a sociedade, ela quis proteger o filho de um confronto fatal. Estou com ela. Quando uma parte não tem limites, a outra deve tomar atitudes drásticas. Chega de tentar\ Dissimular\E disfarçar\E esconder\ O que não dá mais pra ocultar\E eu não quero mais calar…” (Gonzaguinha)

É imperativo agir.

“Uma visão sem ação não passa de um sonho. Ação sem visão é só um passatempo. Mas uma visão com ação pode mudar o mundo”. (Joel Barker).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Contador de histórias

por Convidado 12 de outubro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Quando era criança, enquanto meus amigos e irmãos vislumbravam um futuro como médicos, engenheiros, advogados, eu dizia que seria contador de histórias. Tal aptidão deixava meu pai desesperançoso, pois o pragmatismo era, como ainda é, sua doutrina.

Um tio emprestado, também não satisfeito com minha opção, disse-me que contador de histórias não era profissão. Era coisa de professora primária. Eu deveria pensar melhor e ser um doutor “adevogado”. De fato, lembro-me – e com saudade – que nos antigos grupos escolares, obrigatoriamente, as professoras (ainda não eram tias) nos contavam histórias. Eu adorava ouvi-las.

Mas as histórias não se resumiam às aulas. Meus avós contavam histórias melhores ainda. Nunca vou me esquecer de que minha bisavó italiana perdeu um filho durante sua viagem de navio para o Brasil. Segundo narrava meu avô, filho dela, em apenas 15 dias minha bisavó branqueou todos os fios de cabelo. A perda fora grande demais. De histórias tristes às mais amenas todas sempre me agradaram e ainda agradam. Os amigos de meu irmão atribuíam a ele uma história muita curiosa: quando ele era muito pequeno ganhou um relógio Lanco de nosso pai. Posteriormente, esse irmão foi passar férias na fazenda de nosso avô e, por lá, para sua tristeza, acabou perdendo o relógio. O tempo passou. Quinze anos depois meu irmão caminhava pela mata quando decidiu parar para descansar sobre o tronco de uma frondosa árvore. O silêncio era total. E foi justamente naquele momento que, de olhos fechados, ouvindo o som do silêncio, meu irmão captou um ruído que lembrava o batimento cardíaco. Pasmem, meus perseverantes leitores. Era o batido do relógio perdido. Sim, ele era automático e com o crescimento da árvore o milagroso relógio nunca deixou de funcionar. “É verdade Terta?”

Mudando de contexto e de ambiente, as empresas estão redescobrindo a importância de criar histórias para que seus stakeholders e clientes possam sentir a essência que vem sendo perdida num mundo tecnológico, frio, calculista e sem tempo para entender ou exercitar a visão sistêmica.  A empresa fabricante do relógio Lanco poderia explorar a história para proclamar sua qualidade e durabilidade.

Segundo a revista Exame, uma pesquisa recente feita pela Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD) com 159 executivos, indicou que 45% conhecem aplicações de storytelling no mundo corporativo; 27% afirmaram que sua empresa a utiliza em alguma área e 22%  afirmaram que a praticam na organização.

O crescimento do fator storytelling é iminente, a exemplo de empresas como Ritz-Carlton Hotel, Sodexo Health Care, Hospital Albert Einstein entre tantas outras que desenvolveram histórias e obtiveram resultados excelentes.

Não me tornei engenheiro, nem médico e muito menos advogado. Tampouco  consegui ser um bom contador de histórias. Mas continuo adorando ouvi-las e acreditando que são formas infalíveis de envolvimento e aprendizado, seja nas empresas ou nas escolas. E conforme Cícero, a história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida e anunciadora dos tempos antigos.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Nós, mineiros

por Convidado 9 de setembro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Para quem viaja por este Brasil afora ser mineiro é quase uma marca. Basta chegar a algum lugar e já tem um engraçadinho falando “uai”, “sô”, “trem” e outras palavrinhas mais. Pior ainda é quando imitam nosso sotaque. Aí sim, chega a doer, pois quando nos imitam vejo e me sinto como a imagem de Mazzaropi em sua personagem “Jeca Tatu”, criado pelo grande Monteiro Lobato em sua obra “Urupês”. O que muita gente não sabe é que o escritor retratou o homem da zona rural paulista. Mas, ao que parece, o rótulo de capiau é de “nóis meso”. Será por quê? “Vê se tem base uma coisdessa”? “Fiquemo quetinho”, sentado no “noscanto”, “intirtido” com “noscoisinha”, “comeno” um queijinho sem “mexê” com ninguém. E os “escurmungado” debochando de “nóis”?. Ara! O minero come “queto”, “enconomiza” umas letra e “pãe” “n” e diminutivo adonde num tem precisão. Troca o “l” pelo “r” para ficar mais “carmo”. “Arreda” tudo, e ainda “garra” no trânsito e no trabalho. Além disso, quando nos cumprimentamos com um “- como vai?” o mineirinho da gema responde; “- tô correndo atrás”.

Por isso tem tanto poema de mineiro. “Povinho veiaco, mais é carinhoso e anda em riba do muro só pra num contrariá os outros.”

Como escreveu Batista Queiroz:

“Ser mineiro

É fingir que não sabe aquilo que sabe.

É falar pouco e escutar muito.

É passar por bobo e ser inteligente.

É vender queijos e possuir bancos…”

O danado é desconfiado, leva tempo para tomar uma decisão. Não compra lançamento pois espera para ver se vai dar certo. Acha os consultores empresariais enganadores e gosta de fazer curso em São Paulo.

Para vocês terem ideia, caro leitores, certa vez lancei dois cursos de oratória quase que simultaneamente: um em Belo Horizonte e outro em São Paulo. O curso de Belo Horizonte teve em torno de 15 matriculados. Já o da capital paulista mais que o dobro. Mas não foi só isso que me chamou a atenção. No curso paulista havia oito belo-horizontinos. Não é curioso? Sabem o que me responderam quando indaguei o porquê de optarem por realizar o curso fora? Disseram que curso de São Paulo é melhor do que o de Minas Gerais. Êta povinho custoso!

Outra característica – essa reclamada por colegas de outros estados – está nos taxistas da nossa capital que, categoricamente, não ligam o ar-condicionado sem que se peça. Sobre o trânsito, dizem que nós mineiros somos competitivos e que não deixamos os automóveis de terceiros trocarem de pista. Nas rodovias o mineiro acelera seu carro para dificultar ou impedir que o outro o ultrapasse.

Mas há esperança para nós. Em meu trabalho como personal consultant (consultor, orientador individual e personalizado em oratória, comunicação e carreira), que realizo há vinte anos, vejo que os mineiros estão saindo da toca e procurando orientação, haja vista o crescimento desse trabalho. Concluo que, se deu certo em Minas, definitivamente o coach e o mentor vieram para ficar.

Lembro a todos que sou mineiro, mas tenho repetido em todas as oportunidades que, neste novo mundo em transformação, não há tempo para desconfiarmos ou para pensarmos muito. Tudo acontece com uma rapidez jamais testemunhada por nós. Não podemos mais ser reativos. Temos que antecipar, inovar e sair na frente.

Acreditam?

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Um “ser” professor

por Convidado 10 de agosto de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Segundo pesquisa divulgada em julho pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) o Brasil está entre os países que tem as salas de aula mais cheias, ou seja, mais alunos por professores. A mesma pesquisa informa que somente 2,4% dos alunos envolvidos na pesquisa desejam ser professores em escolas de ensino básico e médio.

Triste realidade. Mas me espantaria se fosse diferente. Com escolas públicas sucateadas, alunos sem os princípios mais básicos de educação, advindos de famílias que não têm a menor noção da importância do conhecimento, o resultado não seria outro. O fato é que o “saber” não é valor na cultura brasileira. Um cientista de uma universidade federal ganha menos do que um jogador de futebol iniciante.

Diante de uma realidade como a nossa é bem melhor tentar ser cantor, jogador de futebol e, até, ser diarista em casa de família, pois, qualquer que seja o ganho, é maior do que o de um professor de ensino básico ou médio. É sim. O salário desses “ensinantes” gira em torno de R$2.200,00 por mês. E ainda, para completar, convivem com dificuldades conjunturais como falta de recursos, estrutura, material didático, equipamentos obsoletos e estragados, ausência de laboratórios etc. E as autoridades, para justificarem sua má-fé, dizem que são despreparados para exercerem suas funções. Mas a culpa é de quem? Como um profissional que ganha dois salários mínimos pode fazer cursos de pós-graduação, participar de congressos, comprar livros? Isso sem dizer que deveriam receber aulas de defesa pessoal. Sim. São alvos de violência de alunos insatisfeitos. Bem, meus caros e persistentes leitores, esse é um pedacinho do quadro caótico de nossa educação.

Mas, mudemos de cena. Convenhamos, estudar para quê? Para ser jogador de futebol precisa saber escrever? Para ser político precisa ter diploma? Parece que muita gente já chegou à conclusão de que vivemos num país onde ética, honestidade, cultura e educação não têm nenhum valor. Aqui, nesta terra descoberta por Cabral, os valores são outros. Um amigo, fazendo um trabalho com jovens carentes e incentivando-os a estudar e buscar profissões como advogados, engenheiros etc ouviu a seguinte pergunta: “mas isso dá dinheiro?”. O jovem não está errado. Vivemos, principalmente no Brasil, um capitalismo cafajeste, pois nosso principal objetivo é obter lucro. E, acrescente-se, “a qualquer custo”.

Lembremos de que o tempo dos mártires já passou. Ninguém admira heróis pobres. Os millennials e a geração Z são mais frios, pragmáticos, egocêntricos e buscam uma forma de hedonismo pós-moderno, com muita tecnologia, sexo e rocknroll. Nós, passageiros de um trem antigo que ouvimos Taiguara, temos um pé no passado e outro no presente. E podemos cantar: “Lá onde eu estive, o sonho acabou”. E, em outra canção: “Hoje/ Trago em meu corpo as marcas do meu tempo/… Ah, sorte/ Eu não queria a juventude assim perdida/ Eu não queria andar morrendo pela vida…”

Enfim, é doloroso para grande parcela da população amadurecida encarar os novos valores que, muitas vezes, desprezam a fidelidade, a linguagem respeitosa e culta e, até mesmo, a honestidade.

Ser professor nestes novos tempos não é fácil. Mesmo em cursos de pós-graduação e em palestras nos deparamos com um público composto por boa parte de pessoas mal-educadas e desrespeitosas que, a despeito do trabalho do outro, insistem em utilizar seus smartphones, chegando a falar em voz alta, como se estivessem em suas casas.

Já enfatizei, em oportunidades anteriores, que a profissão de professor já foi motivo de orgulho. Não é mais. Hoje é motivo de deboche, sinônimo de pobreza e, por ironia, de alguém que sabe pouco. Duvidam? Basta olhar para dentro de suas próprias casas e ver quem deseja que o filho seja professor.

Por isso, ressalto que um “ser” professor é um ser especial. É um missionário. E para cumprir sua missão é necessário ter conhecimento, empatia, humildade, amor ao próximo, resiliência, saber doar, e ter consciência de que “Mestre não é aquele que sempre ensina, mas aquele que de repente aprende”. (G.R).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O filme da minha vida

por Convidado 9 de julho de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Outro dia assisti ao filme mais recente de Selton Melo, “O Filme da Minha Vida”, baseado no romance “Um Pai de Cinema”, do chileno Antonio Skármeta. O enredo me atraiu muito e, mesmo não entendendo nada de cinema, gostei das interpretações desde os protagonistas Johnny Massaro (Tony), Ondina Clais (Sofia) do francês Vincent Cassel (Nicolas), Selton Mello (Paco), Bia Arantes (Petra) e Bruna Linzmeyer (Luna), além dos meninos e, principalmente, de Rolando Boldrin, que infelizmente aparece pouco na tela, mas com carisma e essência que valorizam o filme. É um condutor de trem e de sonhos.

Tony adorava o filme “Rio Vermelho”, com John Wayne e Montgomery Clift nos papéis principais. Chega a ser emocionante seu olhar para a tela. Não. Não se preocupem. Fiquem tranquilos. Não vou narrar o filme para não tirar a graça de quem deseja assisti-lo. Mas como diz Rolando Boldrin: uma conversa leva a outra. Então, o filme e esta conversa me levaram a pensar também no filme da minha vida.

Antes, devo dizer que nada era mais belo do que os filmes de Tarzan nas matinês de domingo, em minha Barbacena, quando o Concerto Nº 1 de Tchaikovsky enriquecia nossos ouvidos e nos preparava para a sessão e o apagar das luzes. Para mim, a descoberta do cinema foi um dos eventos mais fascinantes que já vivi. Também me apaixonei por “Sansão e Dalila” e me revoltei com a morte dele. E, embora fosse uma criança, convenhamos, as duas atrizes, Angela Lansbury e Hedy Lamarr eram maravilhosas. Talvez, na minha visão, Hedy Lamarr tenha sido a mais bela atriz da história.

Não vou citar todos os filmes que preencheram minha vida, pois adoro uma película e muitas delas estão passando em minhas lembranças neste momento. Destaco o grandioso (e longo) “E o vento levou”. Um filme de Victor Fleming e George Cukor com Vivien Leigh, Clark Gable, Leslie Howard, Olivia de Havilland. Construído em 1939 e lançado em 1940, com duração de 3horas e 58 minutos; literalmente um filmão. Um só filme com três gêneros: guerra, romance e drama. Foi peculiar, pois revolucionou a essência dos filmes da época. O herói era um aventureiro, a heroína uma moça que flertava com vários rapazes, mas que desejava mesmo era Ashley (Leslie Howard), um homem comprometido. Bem, no final não há o happy end, o casal de protagonistas não fica junto, conforme era de praxe na maioria das produções daquele tempo.

Mas o filme da minha vida foi “Romeu e Julieta”. Um filme dirigido por Franco Zeffirrelli e estrelado por Leonard Whiting (Romeu Montecchio) e Olivia Hussey (Julieta Capuleto). Os diálogos rimados, o vocabulário rico, a elegância da produção e a maravilhosa música “A Time for us” que penetrava o fundo de minha alma e fazia meus olhos verterem lágrimas, enquanto seguia o cortejo fúnebre de Romeu e Julieta. Eu, menino sonhador que era, me identifiquei com o casal e com a intensidade daquele amor, sem saber que, até no filme, tanta pureza e tanto amor seriam impossíveis de uma realização.

“Romeu e Julieta”, de Franco Zeffirelli.

Que saudades do Cine Acaiaca, de Romeu, de Julieta, da minha infância, dos amigos, dos meus sonhos de menino…

De repente, me dou conta de que acaba de passar um filme em minha memória – talvez o verdadeiro filme da minha vida.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti

Já tive a oportunidade de escrever que estamos vivendo o momento das maiores mudanças de que se tem registro em toda a história do universo. Sei que já mencionei minhas dúvidas e inquietações sobre o caminhar da humanidade. Mas me dou o direito de repetir algum ponto de vista, pois os jornais televisivos repetem as mesmas falcatruas diariamente e têm audiência.

Estamos no meio de uma grande tempestade. Quando vier a bonança (se vier) muita coisa estará definitiva e irremediavelmente transformada. Mas a tempestade intitulada de mudança não cessará. Viveremos uma metamorfose perene que ninguém sabe aonde irá nos levar, nem como seremos depois do dia “D”. Desculpem-me, dia “D“ é coisa de humano e não de humanoide.

O que sabemos é que, desde o advento da revolução tecnológica, as ondas se multiplicaram de tamanho e, além de assumirem proporções gigantescas, – verdadeiros Tsunamis – possuem também uma rapidez jamais vista pelos habitantes do planeta. Os valores, as condutas, os credos, os dogmas – tudo mudou. Há apenas 20 anos uma pequenina parcela da população brasileira usava telefone celular. Hoje, só para exemplificar, numa faculdade o uso é de 100% de alunos. E nos próximos dez anos? E daqui a vinte anos? Eu não tenho a resposta. Mas sei que enquanto evoluímos com a tecnologia, o relacionamento entre seres humanos piora bastante.

Com alegria, um aluno me disse que cada um de nós – que nos encontrávamos numa sala de aula em Porto Alegre – estava sendo monitorado 24 horas por dia. E, mesmo sabendo que é verdade, fiquei pensativo quanto à questão da privacidade das pessoas.

Mas é um caminho sem volta. Não sou louco de dizer que a tecnologia é algo ruim. Não é. Pelo contrário, trouxe e continuará trazendo soluções em todas as áreas e segmentos, e será fundamental ao aumento da nossa longevidade. A história do mundo será dividida em antes e depois da tecnologia. Contudo, há um movimento insano de deslumbramento de uma multidão que marcha sem rumo certo em busca do novo – sabendo que “o novo” pode ser a desumanização. Falta-lhes a temperança.

A ficção tornou-se realidade. Filmes como “Blade Runner”, “Inteligência artificial”, “Ex-machina” e outros mais antigos, como “Perdidos no Espaço”, tornaram-se reais. Teremos que aprender a conviver com os robôs.

Robô babá; robô para terapia de autistas; cachorro robô (Golden Pup); robô doméstico; robô sexual (Rodofilia – tomara que não deem choque). Este último já está gerando muitas discussões éticas e do “politicamente correto” (acho este termo tão estranho, parece que as palavras não cabem na mesma expressão). Sob meu ponto de vista é uma concorrência desleal conosco, pois esses humanoides não terão alterações de humor e de hormônios que tanto trazem mal-estar ao ambiente de trabalho. Os robôs não envelhecem, não implicam, falam pouco…

A C&S (C&S Wholesale Grocers Inc.) é a maior distribuidora por atacado para supermercado nos Estados Unidos. No seu centro de distribuição em Newburgh, New York, mais de 100 robôs transitam livremente pelos corredores. Alcançam velocidades de 40 km/h no escuro e utilizam braços mecânicos portáteis para colocar ou retirar caixas de prateleiras a um ritmo de uma caixa por minuto – quase cinco vezes mais rápido do que os humanos costumam fazer. Dois ou mais hospitais na Bélgica já utilizam o robô humanoide Pepper para auxiliar seus pacientes.

Enfim, o novo mundo. Dos livros de ficção para as telas, e das telas para a vida real.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Verdade! Que verdade?

por Convidado 9 de maio de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Tenho dito em minhas aulas, quando questionado sobre alguns temas, que os fatos são circunstanciais e que, dependendo de uma série de fatores e situações, tudo pode acontecer. Em certos momentos podemos ser capazes até de matar. Não se assustem, caros amigos que ainda têm paciência de ler meus escritos. Mas é verdade. Não é à toa que pessoas se matam por causa de discussões banais. Estão todos enlouquecidos.

Em minha caminhada neste cosmos já tive momentos de certeza, de esperança, ambição e, até, de mais fé.  Aos poucos, a realidade os foi minando. Descobri que aqui (pelo menos no Brasil) não se vence por mérito, e não creio mais no penhor dessa igualdade conquistado com braços fortes. Penso ser realista mas, para alguns, minhas convicções podem ser vistas como pessimistas. Tudo é circunstancial e relativo, não disse? Então, como bom mineiro, diria que tudo depende de um tanto de coisas, uai!

Os programas de televisão insistem que podemos mudar o Brasil nas próximas eleições. Sabem como? Votando certo. Mas se o voto é o instrumento, e acho que seja, precisamos ter as pessoas certas.  Quem planta pepino invariavelmente vai colher pepino. Quisera eu ter uma safra boa de morangos, pêssegos, uvas e outras frutas para colher. Mas não estou vendo o plantio dessas sementes. Além do mais, está chovendo mais do que o necessário.

Aceito a hipótese de que, por estar tão desiludido, o pessimismo tenha me pegado. Quem sabe? Quando a chuva cessar, tudo pode acontecer. Depois da tempestade vem a bonança (caso tenha pensando nos prejuízos, você está pessimista). Os rios se enchem, o mato cresce, o gado se farta, o homem colhe o alimento que brota do solo, os brotos se renovam, as flores desabrocham. Realmente o que nos parece fim pode significar um novo começo. Tudo é possível num mundo circunstancial

Mas justamente por depender de cada condição é que não ouso dar respostas totalmente verdadeiras, pois muitas verdades de ontem não são mais verdades hoje. Não existe uma verdade absoluta e permanente. Acreditar que o Brasil possa mudar neste ano, para mim, pessimista ou não, é como acreditar em Papai Noel. E já acreditei. Agora não mais.

Falando nisso, ocorreu-me um “causo” que ouvi há muito tempo e que exemplifica claramente as diferentes maneiras de interpretar o mesmo fato.

Dois meninos franceses, irmãos gêmeos, com nove anos de idade, eram alvo de deboches na escola. Seus pais foram informados de que o motivo era por ainda acreditarem em Papai Noel. Decisão tomada: os pais dos meninos convidaram um vizinho, senhor Pierre Dupré, para jantar com eles, oportunidade em que seria revelada a verdade sobre Papai Noel.

Ao final do jantar, senhor Dupré informou que ele era o Papai Noel da rua e que amava crianças. Mas disse que quem dava presentes eram os pais. As cartinhas eram de brincadeira. Agora, que estavam com nove anos, era o momento de saberem aquela verdade. Houve silêncio e olhares de decepção.

No outro dia, na escola, os meninos que faziam bullying se aproximaram de um dos irmãos e, com deboche, perguntaram quem foi jantar com eles na noite anterior. O garoto respondeu que fora senhor Dupré, para falar que no natal ele se vestia de Papai Noel.

Mais distante estava o outro irmão, muito pensativo, e os meninos, também com ares de deboche, fizeram-lhe a mesma pergunta: quem foi à sua casa ontem? E o pequeno respondeu: Papai Noel foi jantar conosco mas, ontem, estava vestido de senhor Dupré.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti

Outro dia um amigo me procurou e me convidou para tomarmos um café. Combinamos um horário. Confesso que senti preguiça de ir. Estamos perdendo o hábito de conversar pessoalmente. Pensei em dar uma desculpa, inventar outro compromisso. Mas lá estávamos nós. Trocamos novidades, falamos mal do governo e da vergonha de sermos brasileiros. Reclamamos da vida difícil, da crise, da injustiça social, falamos dos filhos e nos percebemos tristes. Sabem, pacientes leitores, quando a conversa não rende? Fez-me lembrar daqueles fuscas antigos que depois de empurrados pareciam que iam pegar. Mas, aos poucos, iam falhando e morriam novamente. Nosso diálogo estava assim. Dava um lampejo e se apagava.

Então resolvi botar fogo na conversa e quebrar aquele gelo, já que hoje é comum até enxugá-lo. Dei um empurrão ladeira abaixo. Perguntei como estão as finanças e os trabalhos. Naquele momento vi lágrimas verterem nos olhos do meu amigo. Ele disse que estava muito mal e que nem seus parentes sabiam.

– Estou com depressão, tonturas, mas nem plano de saúde eu tenho. Meus filhos estão na “luta”, porém não conseguem nada sem uma indicação forte.

– Você quer dizer indicação política – comentei.  E meu amigo concordou.

– Porque você não conversa com seus familiares? – perguntei.

E a resposta foi que ninguém tem paciência para ouvir quem está passando por dificuldades. E concluiu:

–  O mundo é capitalista e as pessoas imediatistas. E, mesmo que um dia eu tenha sido importante e bem de vida, quando o dinheiro sai por uma porta, os amigos saem pela outra.

– E se você fechar a porta, eles escapam pelas janelas – completei, e rimos sorrisos tristes.

Que os amigos e familiares se distanciam, não tenho a menor dúvida. Mas disse a ele que, em momentos como esse que está passando, o ideal é procurar um psicólogo. Não podendo, teria que apelar para pessoas que estejam na mesma busca, vivendo problemas parecidos. Mas desde que ainda não tenham desistido de seus objetivos. Caso contrário, o único trabalho que terão será o de carpideiras.

– Há momentos – e são muitos – em que precisamos de um ombro amigo e não apenas de dinheiro – afirmei.

Meu amigo concordou e, novamente com lágrimas nos olhos, disse que nesses momentos desejamos o colo da mãe e a mão estendida de alguém que não nos critique, mas que apenas nos compreenda.

– Quanto melhor a situação das pessoas, menor será a empatia com os necessitados – concluí.

– Sorte, azar ou incompetência?

Foi a pergunta que me fez.  Naquele momento pensei em mim, pois também tenho minhas montanhas russas. Sabia que era incapaz de ter uma resposta. Destino ou desígnio? – refleti em silêncio. Um sopro veio ao meu ouvido e sussurrou: “escolhas erradas”.  Continuei calado, ensimesmado. Em seguida, disse a ele para tentar entender o seu papel neste mundo. Somos atores e o que vivemos aqui é uma peça teatral na qual desempenhamos muitos papeis.

– Talvez o seu papel seja o de um figurante, assim como o meu. E, nesse caso, teremos que fazer diferença, sermos muito melhores do que os canastrões que protagonizam essa enorme peça chamada vida.

Prometemos que iríamos ter outros encontros, mas sem convicção, e nos abraçamos desejando-nos uma vida melhor. Sei que não pude ajudá-lo, mas tive que dizer-lhe que o valor do momento é o dinheiro e que as pessoas gostam de vencedores, independentemente da maneira como chegaram ao pódio. Nem os familiares e, acho que, principalmente aqueles, não querem compartilhar derrotas. Por essa razão, disse-lhe:

– Mostre-se vencedor, levante a cabeça, olhe para trás, mesmo sabendo que o passado deve ficar no passado. Busque forças nas vitórias que conquistou e no sucesso que teve um dia. Lembre-se de que, apesar de todas as dificuldades atuais, você já foi protagonista um dia. Isso ninguém poderá lhe tirar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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