O essencial é invisível aos olhos

por Convidado 12 de setembro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

– O mundo mudou!

Esta é uma frase que temos ouvido com tanta frequência que já se tornou repetitiva. Segundo alguns pesquisadores, no século XV marinheiros se recusavam a navegar além de certo ponto, com medo de que seus navios deslizassem para fora da Terra.

Constata-se que antigos conceitos, como o de que “o Sol gira em torno da Terra”, atrasaram nossa evolução até a descoberta de que a Terra é que girava em torno do Sol.

Vencida aquela etapa, hoje temos outros paradigmas e não os percebemos como deveríamos. Outros há que se orgulham de não mudar, de não aceitar novas realidades.

Sabemos que negar o óbvio é uma atitude irracional. Então, além da necessidade de correção da visão externa, devemos atentar para a visão interna, pois o autoconhecimento será imprescindível ao homem atual para suportar a transformação de valores. Esse novo cidadão deverá pesquisar seu interior para encontrar respostas e soluções para os problemas existentes e para os que hão de vir.

Parece, então, que para sobrevivermos ao novo mundo teremos que desenvolver nossa visão e nossa sensibilidade para percebermos os cenários atuais e visualizarmos as tendências. Mas, ainda assim, não será fácil prever o futuro, pois as mudanças serão tão velozes e inovadoras que nem Peter Drucker, há alguns anos, ousou anunciá-las.

Em tempos acinzentados, onde a incógnita do que está por vir se acentua, será preciso ter outro tipo de visão. Não só a de antecipação mas, sobretudo, de um olhar de reaprendizagem, de interpretação e aceitação de um novo universo, que muitas vezes se confunde com enorme sanatório, no qual cidadãos inebriados compram por impulso, se locomovem e agem como robôs e, apesar de esclarecidos, aderem ao “Pokémon Go” numa caça nomofóbica e incompreensível às mentes que valorizam o essencial e não o supérfluo.

Diante dos desequilíbrios do homo sapiens e da incredulidade do que vemos com os olhos, vale lembrar de Antoine de Saint-Exupéry que nos ensina que “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O óbvio faliu

por Convidado 8 de agosto de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Dia desses fui a Barbacena visitar um amigo que está internado numa casa de saúde para doentes mentais. A doença foi diagnosticada após um desmaio. Quando acordou, falava coisas tão desconexas que alguns médicos chegaram a suspeitar que fosse ele quem escrevia os discursos da Dilma.

Encontrei-o com boa aparência, mas muito repetitivo. Ele dizia frases como “bandido tem medo de polícia”; “quem comete crime vai ser preso”; “quem paga imposto tem a garantia dos serviços básicos de saúde, educação e segurança”; “o governo só pensa em arrecadar, agora inventaram multa para quem não acender os faróis na estrada”.  E quando não falava frases “incoerentes” como essas fazia um movimento repetitivo com o corpo, num ir e vir para a frente e para trás, dizendo “o óbvio faliu, o óbvio faliu”…

Tentei mudar de assunto. Falei sobre as Olimpíadas no Brasil. Mas ele repetia:

– Vergonha! Vergonha! Vergonha! Somos medalha de ouro é na corrupção, no desemprego, no desvio de dinheiro público, em desaparecimento de pessoas. O Brasil é insuperável em criminalidade e corrupção. Nesse quesito é medalha de ouro! Muitos hospitais não têm os remédios básicos, o Brasil é campeão em mortes na fila de espera. Mas o governo tem dinheiro para estádios e prédios olímpicos. Em termos de desonestidade, ninguém supera os brasileiros!

Depois gritou novamente: “o óbvio faliu!”. E insistiu:

– O certo agora é o errado, e o errado é que está certo. Falam em respeito, mas perderam a noção do que significa respeitar o próximo. Temos que respeitar o desrespeito. Já pensou nisso?

E antes que eu respondesse, prosseguiu:

– Se um sujeito quiser entrar nu em uma festa, tem de ser respeitado. Sabia? Nós temos que respeitar isso?Mandei pintar a parte externa da minha casa de verde mas o pichador destruiu minha pintura. Sabe o que ouvi? Que ele é um artista e temos que respeitar a arte dele. Acredita? E eu é que sou doido? Ele não precisa respeitar a minha casa, o meu gosto, o meu prejuízo.

Fiquei pensativo e continuei ouvindo meu amigo defender seus pontos de vista. Naquele momento me lembrei do livro de Machado de Assis, “O Alienista”. Dr. Simão Bacamarte, o protagonista, era um psiquiatra e, no decorrer da trama, acaba por internar toda a cidade, pois percebeu que seus habitantes, coletivamente, tinham sintomas de loucura. No final, estando solitário, resolveu libertar a todos e se internar, pois era o único diferente.

De repente, refletindo sobre as frases de meu amigo, meus pensamentos me revelaram um contexto e me dei conta do risco que corria. Imediatamente abracei-o e me despedi, desejando-lhe pronto restabelecimento. Saí daquele lugar sombrio com muita rapidez. Não contei para ninguém, nem pretendo deixar que percebam, mas, deduzindo, conclui que também estava louco.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti

Desde os meus primeiros passos profissionais – que ocorreram na área de RH – ouço e leio que tal departamento é de uma importância estratégica imensurável. De lá para cá foram mais de vinte e cinco anos acreditando que são as pessoas que movem as organizações. Fui membro de entidade de classe voltada exclusivamente para a área de Recursos Humanos, participei de inúmeros eventos de gestão de pessoas e assisti às transformações que o mundo sofreu e nos fez vivenciar. Mas confesso que não consegui ver as empresas reconhecerem o valor real da área humana. É fato que vi mudarem os nomes desde o antigo Departamento de Pessoal, que passou a Recursos Humanos, Gestão de Pessoas, Talentos Humanos, Departamento de Inteligência, Divisão de Gente entre outros. Porém, na maioria arrasadora, não passam do antigo “DP”.  Prova disso é que algumas empresas ainda tem o cargo de Feitor.

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Muitas dessas organizações trabalham em três dimensões de profissionais, que explico: possuem empregados, chamam-nos de colaboradores e tratam-nos como escravos modernos. Por outro lado, os profissionais de RH também não conseguiram demonstrar a essencialidade da área. Na crise, ainda é a primeira que demitem.

Meu conselho para os empresários é que, com crise ou sem crise, não fiquem sem Gestão de Pessoas. A organização deve ter um profissional especialista em pessoas. Basta ter um contrato de prestação de serviços com carga horária inferior à normal. O custo é menor e o resultado é muito satisfatório. Será que dá certo? Sim. Eu tive a oportunidade de trabalhar como um consultor-gerente e, mesmo sem dedicação exclusiva, a contribuição foi significativa. É uma opção que sugiro e reforço com muita tranquilidade, inclusive para outras áreas.

Um profissional que reúne realizações e experiências pode contribuir muito para o alcance dos objetivos de qualquer empresa pois, além do currículo, vive realidades distintas e, por não estar em tempo integral, fica isento de um envolvimento emocional maior.

Caríssimos leitores, a crise ainda vai demorar a nos deixar. Esperar mais pode ser fatal. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” (Geraldo Vandré)

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O Galo e os livros

por Convidado 13 de junho de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Estou escrevendo algumas bobagens que pretendo transformar em um novo livro e, para não me tirar a inspiração, hoje não quero falar de problemas de governo, propinas e desonestidade. Falarei sobre algo mais ameno: futebol. Eu quero fazer indagações, mas com foco num time da capital. Antes, porém, caro leitor, permítame  hablar sólo un poquito com usted.  Você ou vocês, melhor dizendo, já observaram que nas entrevistas de jogadores de Atlético e Cruzeiro só ouvimos os craques hablando la lengua española? Digo, castelhano e portunhol? Quanto estrangeiro! Será que foi por isso que melhoramos tanto nosso futebol? Brincadeira, gente.

Não por acaso, vou falar do Galo. São observações e análises. Eu estou impressionado com o mau rendimento da equipe. Sei das ausências, porém ainda acho que no futebol há uma condescendência muito grande para com os seus profissionais. Vou fazer um pequeno histórico.

O Atlético demitiu o Levir Culpi – que se intitulou de “burro com sorte”. São palavras dele, não fui eu quem disse tamanha ofensa. Eu apenas concordo. E é esse o título de seu livro: Burro com sorte. A diretoria não satisfeita e, ainda tomada pela emoção, contratou Diego Aguirre, desta vez sem livro mas, se escrevesse, provavelmente trocaria o “com sorte” por “sem sorte”. Não deu certo. Creio, deve ter ido para Barbacena para tentar a cura. Veio o Marcelo. Bem, ele chegou agora e estou torcendo para que dê um jeito naquele grupo de jogadores, que mais parecem soldados feridos em combate. Por enquanto, só diria que o Marcelo não está com sorte. O outro atributo – aquele ponto comum entre os dois técnicos anteriores – quero crer que ele não terá. Mas tomara que não escreva livros. Os livros não estão fazendo bem para o Galo.

Torcida do Atlético no Independência em fevereiro/2016 | Foto: Igor Costoli

Torcida do Atlético no Independência em fevereiro/2016 | Foto: Igor Costoli

Mas vamos aos jogadores. Eu aconselharia um treino de olhos vendados. Assim, quando descobrissem seus olhos, talvez acertassem mais passes. Os cegos desenvolvem outras habilidades. Pode ser uma ideia para o novo técnico. Já o nosso goleiro – sou admirador dele – mas depois que virou santo e escritor (olha o livro aí) parece que um espírito baixou nele. Anda numa preguiça de sair do gol que nem oração forte está resolvendo. E os lançamentos… o goleiro não consegue chutar a bola dentro das linhas do campo. Ele chuta para as laterais. O índice de erro é elevadíssimo. E nas bolas atrasadas ele tem se enrolado todo.  Eu sei que o rapaz tem crédito, mas está com baixa rotação faz tempo. Mas nem me falem em substitui-lo pelo Uilson.  Agora, convenhamos, a zaga também não ajuda. Quando o adversário ataca é aquele “Deus nos acuda”. E na lateral esquerda… O Lucas Cândido parece aprendiz de patinação. Já notaram? É todo desengonçado e não marca ninguém. Mas não para por aí. Tem uma turminha que joga lá na frente que não assusta nem a bebê de colo. São tão bonzinhos que reabilitaram o Dênis, goleiro do São Paulo. Deve ser o próximo a ser beatificado.

Diria que no Galo, o que tem para hoje é saudade, principalmente do Luan. O Menino Maluquinho passava garra aos colegas e alegria ao torcedor. Sem ele o futebol ficou mais pobre. Coincidência ou não, foi depois do livro.

Eu já ia voltar ao meu livro e continuar escrevendo, mas me assalta uma dúvida: será que devo? Estou me lembrando que o Muricy Ramalho, aposentado por arritmia cardíaca, também lançou um livro recentemente. Sei não…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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A loucura nossa de cada dia

por Convidado 9 de maio de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Dia desses um amigo me disse que preferiria ser louco a ter de assistir a todo esse circo do governo brasileiro.  Ao ouvi-lo meu pensamento criou asas, voou de volta ao ano de 1509 e pousou nas páginas de um livro escrito por Erasmo de Rotterdam. O título é “O Elogio da Loucura”. Nele, de forma satírica e sombria, o autor demonstra que a loucura é boa companheira.  Pois o que seria da paixão se não houvesse a loucura dos apaixonados? O que seria do circo, se não fosse a loucura dos palhaços? O que seria dos eleitos, se não fosse a loucura dos eleitores?

Erasmo de Rotterdam criou a “Deusa da Loucura” que é quem, segundo ele, dá prazer ao mundo.

“Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão [filósofo], se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria”.

Daquela época para cá, a loucura pode ter deixado de ser deusa, mas está entre nós com uma intensidade ainda maior. Talvez, nestes tempos nebulosos que estamos vivendo, ser louco possa ser realmente uma solução.

Mas não foi só por isso que me lembrei de Erasmo. Foi também porque ele dedicou seu livro ao amigo Thomas Morus.

“Foi pelo fato de ter pensado, no início, em teu próprio sobrenome Morus, tão próximo ao da Loucura (Moria), quanto realmente longe dela estás e, certamente, é seu maior adversário, segundo o conceito que em geral dela se tem.” [carta a Thomas Morus]

Como vimos, Erasmo se lembrou de Morus fazendo alusão à loucura. Somente por intermédio dela (loucura) poderia haver a salvação de um povo oprimido e dominado pela religião que os explorava. Ocorreu-me também que precisamos de uma boa dose de loucura para fugir da opressão e dos abusos cometidos pelos governantes.  Então, em vez de Morus, pensei em Moro – Sérgio Moro – um louco provido de muita sanidade que ilumina uma vereda com uma luz ainda fraca, mas que pode nos indicar um caminho de esperança com menos sombras e mais luzes.

E já que estamos falando da loucura nossa de cada dia, caros leitores, vamos mudar de Moro para moria, e lembrar que os discursos de nossa governante (ou seria governanta?) são a prova viva de que a loucura é aceita e aplaudida. Lembremo-nos da saudação à mandioca, da tecnologia de estocar vento e de festejar o dia da criança e do animal, entre tantas pérolas que fariam Erasmo se corar de vergonha. Porém, uma das mais loucas verborreias de nossa governanta, digo presidenta, foi a da descoberta do “homo e mulheres sapiens” que provavelmente nos guiam nesta galáxia. “Por que da galáxia? Porque a galáxia é o Rio de Janeiro. A Via Láctea é fichinha perto da galáxia de que o nosso querido Eduardo Paes tem a honra de ser prefeito”.

“Loucura! Loucura!”, gritaria um apresentador global. Mas não para por aí. Um ex, ou atual, ou futuro presidente, em momento de humilde grandiloquência, já demonstrando sintomas quixotescos, e digno de estada em alguma hospedagem de Barbacena, acabou por crucificar Tiradentes.

Caros companheiros deste espaço textual, não sei por qual razão acabo de me lembrar de um outro Sérgio… o Porto. Talvez não o conheçam, mas foi ele quem compôs o “Samba do Crioulo Doido”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Poesia, a voz da alma

por Convidado 4 de abril de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

“Quero falar de uma coisa. Advinha onde ela anda. Pode estar dentro peito ou caminha pelo ar.” (Milton Nascimento e Wagner Tiso).

Quero falar da poesia. Dizem que ela morreu. Que ninguém mais declama versos, nem se lembra dela. É que os tempos são outros – menos versados e mais proseados. Confesso que já tive uma paixão muito forte por ela. Andamos juntos na mesma estrada. Depois veio o tempo…

Lamento que não tenhamos mais a leitura de poemas, como faziam os alunos de antigamente. Sinto falta também de poetas. Eles eram um misto de homens e santos. Hoje, dizem que alguns desses homens eram chatos. Mas o mundo era melhor quando tínhamos mais poetas do que ladrões.

Quero chorar pela morte da poesia e prestar minha solidariedade aos poetas vitimados pelo vento devastador – efeito colateral da contemporaneidade. Sei que os mais jovens nem vão me entender, porém remeto minhas palavras àqueles que conheceram e que conviveram com a poesia. Ela foi cupido de muitos casais apaixonados. Era universal e serviu, tanto aos amores realizados como aos nunca correspondidos. Servia de catarse. Aliviava dores, sobretudo dores de amor. Possuía muitos trajes, várias formas e também deu voz aos insatisfeitos com governos e outras situações.

Confesso que não sei definir o que é poesia. Mas imagino que sua finalidade não era a de atacar e sim de conquistar, de exaltar. Seus alvos eram os corações das pessoas amadas. Os poetas eram os magos do amor.

“Poetas, seresteiros, namorados, correi/ É chegada a hora de escrever e cantar/ Talvez as derradeiras noites de luar …” (Gilberto Gil)

O que era poesia? A pureza das donzelas? O respeito ao próximo ou os versos inteligentes de outrora? Talvez tudo isso fosse poesia. No seu período de esplendor, a poesia tinha variadas linguagens que veneravam um amor ideal. Sei, caros leitores, que isso tudo é apenas fantasia. Então a poesia é uma ilusão? Penso que em parte sim. E este pensamento está representado nestes versos:

“o poeta é um fingidor/ e finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente…”  (Fernando Pessoa, psicografado).

Detalhe da casa de Fernando Pessoa, em Lisboa (Portugal). | Foto: Marina Borges, set. 2013.

Detalhe da casa de Fernando Pessoa, em Lisboa (Portugal). | Foto: Marina Borges, set. 2013.

Convenhamos, pense em você, seu traje de executivo não é uma fantasia? Sua maquiagem não é uma forma de se fantasiar? A vida é ilusão, “é o sopro do criador numa atitude repleta de amor” (Gonzaguinha).

A poesia, se estivesse em uso, provavelmente poderia atenuar os “sapos” que engolimos em nossa rotina do dia-a-dia. Antes se fazia poesia. Hoje se faz terapia.

“O imposto, a conta, o bazar barato/ O relógio aponta o momento exato/ da morte incerta, a gravata enforca/ o sapato aperta, o país exporta/ E na minha porta, ninguém quer ver/ Uma sombra morta, pois é, pra quê?”(Sidney Miller)

Dizem que ser poeta é ser “brega”. Mas antes era característica de destaque social e cultural. Havia o poeta do bem. Havia o poeta do mal. Também havia o poeta ruim. Oscar Wilde, o talentoso escritor irlandês, disse que “os verdadeiramente grandes poetas escrevem a poesia que não conseguem viver; já os poetas medíocres vivem a poesia que não conseguem escrever – por isso são tão encantadores”.

Com tudo isso eu afirmo que a poesia pode ser ressuscitada. “Mas há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. (M.N. e W.T.).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti

– Então, como posso ajudá-lo?

– Seu doutor me dê licença para minha história eu contar. Eu já fui muito feliz, vivendo no meu lugar. Hoje eu tô numa terra estranha, é bem triste o meu penar. Nasci na zona rural. Fui roceiro e dono de curral. Adorava olhar para a serra, com seu verde de esperança. Espiar o azul do céu, que ainda trago na lembrança. Sendo adulto, era criança que subia a serra, que mergulhava no rio e cultivava a terra. Tinha um cavalo baio que gostava de campear, enquanto o vento vinha me acariciar, cochichando ao meu ouvido segredos do meu lugar. Seu doutor não imagina o que é sentir um vento mimoso, um arzinho fresco e cheiroso que a natureza lhe doa. Por que a terra, seu doutor, é grata e boa. E fique o senhor sabendo que ela proseia com a gente. Lá no meu sertão, quem nos aconselha é a natureza. Lá não tem luxo de doutor com cadeira e mesa. E digo mais, pode não ter conforto, mas tem gente de presteza. Pessoas que se acolhem, amizade sincera, com certeza. A prosa era verdadeira – não carecia de muito pensar. As palavras iam saindo e arranjando seu lugar. As conversas tinham sentido e não precisava florear. Nosso céu tinha mais estrelas na amplidão; aqui, apesar da luz, tudo é escuridão. Agora, falando assim, uma saudade invade meu peito. Desculpe seu doutor, que eu lhe devo respeito, mas quando a represa das lágrimas invade as cercas do meu quinhão, eu me deito a ruminar as lembranças do coração. Mas não vou mais tomar o seu tempo. Vim aqui para consultá-lo, recuperar a calma. Estou padecendo de uma dor, seu doutor, mas não é dor de corpo é dor de alma.  Estou amuado como um boi que comeu erva. Nada me anima, só me enerva. Estou como um capim esturricado que a geada queimou. Eu perdi a fé nas pessoas – a falsidade me decepcionou. Então, seu doutor, o senhor ainda não me examinou, mas tem cura esta dor?

– Meu senhor, que posso eu dizer, mesmo sendo doutor? A sua doença é tristeza de quem perdeu o chão. É sentimento doído de tanta decepção. É angústia e solidão. É doença de gente normal, que não se conforma com um mundo desigual. Não tenho um remédio para tal dor. Também sofro desse mal. Estamos todos muito tristes com tanto desamor. A humanidade enlouqueceu. Trocou tudo por dinheiro, agrediu a natureza e em desatino se perdeu. O desgoverno roubou a nossa liberdade, matou nossos sonhos e nos faltou com a verdade. O seu caso é muito grave, mas o senhor vai sobreviver. Sua moléstia é lucidez e, para tal doença, nada há que cure de vez.

– Mas não há um remédio, seu doutor, que resolva doença tão tinhosa?

– Lucidez é uma doença nervosa. Seus sintomas incomodam a todos que praticam a fala enganosa.

– E a receita, seu doutor?

– Volte para o seu ranchinho à beira-chão, conviva com seus bichos e não assista à televisão. Em breve nosso céu terá estrelas novamente. Observe-o e, quando a estrela solitária for cadente, é o sinal de que haverá esperança de um povo contente.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Olha o Brasil aí, gente!

por Convidado 3 de fevereiro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Então é Carnaval outra vez. Samba, suor e cerveja. O tempo passa, corre desenfreadamente como um trem desgovernado. Mas, embora as energias tenham se renovado para o novo ano, o Brasil é o mesmo. Um gigante adormecido, deitado em berço esplêndido. Também está desgovernado – continua endividado e explorando seus cidadãos. Os números dizem tudo. PIB negativo, desemprego (em torno de 10%), inflação (10,67%), dólar nas alturas, 60 mil assassinatos por ano, mais de 40 mil mortes nas estradas, milhões de assaltos, 40 mil crianças e adolescentes desaparecidos por ano.

Vivemos uma democracia – dizem os governantes do Planalto. Mas não podemos ter uma bicicleta, porque ladrões vão roubá-la. Não temos a liberdade de caminhar com nosso cão, pois, se tiver pedigree, será levado por alguém que nos aponta uma arma. O Brasil é muito “democrático” para os bandidos, sejam eles de gravata ou de bermuda e boné.

Mas pelo menos a comitiva de viagem da presidente Dilma (talvez a maior entre todos os países) está em alta. Entre hospedagem, aluguel de carros de luxo (com direito a limusine), restaurante e transporte aéreo, uma pequena fortuna é gasta sem nenhum pudor. Aliás, pudor é o que não houve nos últimos anos de desgoverno. Mas o governo tem a solução. Vai aprovar a CPMF, vai fazer uma reforma na Previdência. Talvez possamos nos aposentar quando tivermos 100 anos de idade e 80 de contribuição. Interessante é que tem brasileiro que se aposenta com oito anos de trabalho. Trabalho?

Para piorar, vivemos hoje duas pandemias. Primeiro a do mosquito aedes aegypti, muito bem adaptado às zonas urbanas. Gosta de água fresca em locais preferivelmente de sombra. Podem ser pretos ou rajados.  Vivem do sangue alheio.

O mosquito aedes aegytpti. | Fonte da imagem: Portal Brasil

O mosquito aedes aegytpti. | Fonte da imagem: Portal Brasil

A outra pandemia, a do hominis corrupti que, assim como o mosquito, teve sua população aumentada nos últimos tempos. Também gosta de sombra e água fresca. Cresceu muito nos últimos anos e possui ótima adaptação à zona urbana. Habita em todas as regiões do Brasil e prolifera tanto em regiões frias quantos nas quentes. Sua massacrante maioria tem o hábito de subtrair dinheiro alheio. Seus corpos são, em sua grande maioria, cobertos por ternos.

Mais do que nunca, entendo o sentimento de Ruy Barbosa:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Observação: é Carnaval e sou brasileiro. Vou tomar minha cerveja e cantar um samba-enredo que me faça esquecer da situação do Brasil, pelo menos enquanto é Carnaval.

“Luz, divina luz que me conduz/ Clareia meu clarear, clareia/ Nas veredas da verdade, cadê a felicidade/

Aportei num santuário de ambição/ Eu quero liberdade, dignidade e união/…

Chega de ganhar tão pouco/ Tô no sufoco, vou desabafar/Pare com essa ganância, pois a tolerância/Pode se acabar…”

(BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS-2003)

Um ótimo Carnaval para vocês.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Depende, uai!

por Convidado 5 de janeiro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Eu tenho repetido sempre em meus cursos e trabalhos com o público que tudo é circunstancial. Tudo depende do contexto. E alerto-os para que não cometam inferências sem analisar o processo. Compreender o todo ou exercitar a visão sistêmica são práticas decisivas para a compreensão das causas e dos efeitos. Mas num mundo tecnológico de pessoas impacientes, nomofóbicas e robotizadas, parece não haver tempo para contextualizar mais nada.

Talvez para sair desse manicômio, dia desses fui para o interior desta nossa Minas Gerais e aproveitei para visitar uma tia idosa. Constatei (eu já sei há tempos) que a vida no interior é mais intensa. Eu disse vida – coisa de gente ultrapassada que cumprimenta os vizinhos e conversa com os amigos… Algum leitor deve estar se perguntando: vida intensa, como? O tempo não passa, as pessoas falam devagar. Não há diversão nas pequenas cidades. Ressalto que isso é relativo. Ou como diria minha tia, mineirinha legítima: “aí depende, uai!”. Fiquei pensando naquela frase e percebi nela uma profundidade bem maior do que imaginava. O mineiro – desconfiado por natureza – não se arrisca a responder nada sem pensar bastante. Por isso o “depende, uai!” vem sempre antes de qualquer afirmação. E, ao contrário do que muitos pensam, há sim muita sabedoria contida naquela expressão. Porque tudo depende mesmo do contexto e das circunstâncias. Nada deve ser visto, resolvido, respondido sem que se conheça o processo. Minha tia possui visão sistêmica, mas não sabe o que é isso, nem precisa saber.

Mas em meu agradável diálogo com a parenta idosa, fiz uma viagem ao passado e revivi momentos, além de um vocabulário muito especial. Ela usou frases interessantes: “de primeiro, uma moça não saía de casa desacompanhada de seus pais”. Há quanto tempo eu não ouvia o “de primeiro”. E faz tempo que “moça” não podia sair desacompanhada dos pais. E continuou me “interteno” com aquela prosa quase musicada, me dizendo para por sentido na modernidade e falando que não era do “feitio” dela falar mal de ninguém, mas as mulheres de hoje não “se dão ao respeito”. “A vizinha, por exemplo”, disse ela, “é uma sirigaita daquelas”. “Vê se tem base uma coisa dessas, meu querido” – completou minha tia com um olhar compenetrado e com volume de voz bem baixo para que ninguém ouvisse suas inconfidências sobre a vida alheia. Enfim, prosseguiu com suas histórias que trouxeram à tona a Emulsão de Scott, a gemada, os chás caseiros, inclusive o de Macela – que de tanto ser chamado de Marcela foi aceito nos dicionários como tal. Também se referiu às suas chinelas, à “cardeneta” que anotava o fiado. E sempre surgia o “depende, uai!” Não posso deixar de mencionar que em nossa conversa ainda surgiram acode, arreda, marmota, cruz-credo, “partileira” e outras pérolas do mineirês que me fizeram gostar ainda mais de minha origem. E, antes de sair, claro que não faltaria o café “quentin” passado no coador de pano e acompanhado com quitandas, broa de fubá, pão de queijo, sonhos e muita iguaria. Mas mineiro não sai de mãos abanando da casa de um parente. Além da azia, trouxe na mochila doces de leite cortados em losango e goiabada cascão na caixinha de madeira.

Pão de queijo não pode faltar em mesa mineira. / Foto: Marina Borges

Pão de queijo não pode faltar em mesa mineira. / Foto: Marina Borges

Ao me despedir, decidi que iria andar à pé pela cidade e usufruir da calma e do ar puro que muitas cidades ainda ousam exalar. No caminho, um homem me abordou com toda educação e perguntou quanto tempo levaria para chegar ao centro da cidade. Eu, sem pensar, talvez ainda contaminado pela autenticidade de minha tia, respondi a ele: depende, uai!

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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E agora, José?

por Convidado 7 de dezembro de 2015   Convidado

por Sérgio Marchetti*

Caríssimos leitores,

Venho por estas mal traçadas linhas contar a minha história. Não vou tomar o tempo de vocês, pois não tenho muito para falar. Meu nome é José, mas sou conhecido como Zé do Bento. Isso mesmo, Zé do Bento Rodrigues. Nascido e criado num distrito de Mariana. Ninguém me conhecia. Eu não tinha fama e nunca havia aparecido na televisão. Hoje sou famoso. Vejam a ironia do destino. Por causa da lama, criei fama e já estou até fazendo rima. Digo a vocês que “Eu já fui muito feliz, vivendo no meu lugar. Eu tinha um cavalo bom e gostava de campear… Morreu minha Vaca Estrela, se acabou meu Boi Fubá. Perdi tudo quanto eu tinha, nunca mais pude aboiar”... (P.A.)

Minha casa era humilde. Uma casinha branca com varanda e vista para a serra, um quintal e uma janela para ver o sol nascer. Eu queria ter na vida, simplesmente, um lugar de mato verde pra plantar e pra colher (P.). E tive. Mas um dia, como num filme de terror, parecendo o vulcão de Pompeia, um rio, com a força do mar bravio, invadiu o nosso mundinho e cobriu de lama a nossa história. Nós não temos mais memória. Não perdemos “apenas” o gado, nossas casas, familiares e amigos. Perdemos nossa referência, nos perdemos de nós mesmos e, literalmente, tiraram nosso chão. Agora, caminhamos “contra o vento, sem lenço e sem documento”. (C.V.) Éramos religiosos, festeiros e muito alegres. Recebíamos os visitantes que queriam encontrar a paz, a simplicidade e o silêncio. Jipeiros, ciclistas, motociclistas e caminhantes preenchiam nossa rotina com uma prosa agradável.

Em nossa inocência, por estarmos longe das grandes cidades, pensávamos que éramos imunes à lama de desonestidade que cobre o Brasil. Porém, havia outra lama, que não continha metáforas nem escondia a sujeira de um Brasil em decomposição. Mas, em vez disso, uma enchente que viria carregada de rejeitos de minério para soterrar a nossa história.

Imagem de satélite mostrando a área atingida pela lama em Mariana. / Foto:  Globalgeo Geotecnologias, retirada do portal G1

Imagem de satélite mostrando a área atingida pela lama em Mariana. / Foto: Globalgeo Geotecnologias, retirada do portal G1

Mesmo ferido de morte pelas perdas, mesmo com a alma em frangalhos e o coração estraçalhado penso que nossa única opção é a de refazer alguma parte de nossas vidas, já que outras estão definitivamente sepultadas. Não gosto de falar de culpados. Encontrá-los é uma forma de distrair a atenção de quem está emocionalmente revoltado e aspirando por justiça. Mas não resolve o problema. As autoridades devem procurar as causas – por trás delas, fatalmente, se houver, estarão os verdadeiros culpados.

Sei que aos olhos da ganância nós não possuíamos nada. Mas quando o nada é tudo que temos, aprendemos a amar e preservar o pouco que a vida nos permitiu conquistar. Perdemos tudo sim  – não caçoem nem nos impeçam de dizer esta frase – porque está doendo em nós.

Saibam, leitores que tiveram a paciência de ler meu relato, que acredito que o ambiente molde as pessoas e que, de tanto lidarem com o minério, algumas delas ficaram duras, frias e com alma de ferro. Há mais de quarenta anos muitos brasileiros vêm lutando para que preservemos as montanhas e deixemos nossas serras e sertões existirem. Mas a ganância cega é maior do que a preservação da própria vida. E o sertão virou mar… de lama.

Vocês, leitores, me perguntam: e agora, José? “Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?” (C.D.A.)

Que as perdas imputadas aos moradores e ao meio ambiente de todos os municípios atingidos possam ser reparadas no menor espaço de tempo possível.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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