Ser ou não ser, eis a questão

por Convidado 8 de novembro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Não é nenhuma novidade dizer que está faltando gentileza no mundo. Talvez essas atitudes egocêntricas que testemunhamos em nosso prédio, no trânsito e estacionamento de qualquer Shopping Center, entre outros locais, sejam efeitos colaterais da desumanização que o homem está desenvolvendo. E, cabe lembrar, com muito orgulho.

Dia desses, estava no trânsito e, como de costume, parei o carro para que um ônibus pudesse fazer uma curva e entrar na rua onde me encontrava. Imediatamente atrás dele se formou uma fila de vários oportunistas – que esperei com toda paciência. Curiosamente, só o motorista do coletivo me agradeceu. Logo que todos passaram, avancei meio quarteirão até a esquina. Lá, uma senhorinha idosa vinha dirigindo seu veículo na direção contrária à minha para entrar na rua perpendicular, exatamente como eu faria. Meu veículo já estava no meio da rua, mas esperei a senhorinha que, de tanta lentidão, fez com que outro carro surgisse. O fato é que, devido à demora da senhora, a condutora do outro veículo aproximou-se de mim e não me poupou. Levei uma bronca com direito a sermão de uma senhora que, provavelmente por tratar-se de uma dessas pessoas que estão acima do bem e do mal, nunca passou num semáforo amarelo e nunca cometeu uma infração de trânsito. Mas a natureza humana é assim mesmo. Eu quis fazer o bem e veja no que deu.

A experiência relatada não é infrequente, pelo menos para mim. Em outra oportunidade, mesmo tendo a preferência, deixei que alguns motoristas mais apressados passassem. Quando, enfim, pude prosseguir, um veículo que saía do estacionamento tentou entrar na minha frente, mas eu já estava com velocidade maior e não tive como ser gentil. Resultado: xingou a pobrezinha da minha mãe.

Mas a falta de gentileza não é o maior problema. Parece que tem muita gente querendo levar vantagem. Faltam educação e respeito. É comum estar parado numa fila de conversão, com sinal, e ver os “espertos” que não entram na fila passarem na frente sem nenhuma cerimônia. Muitas pessoas confundem autoestima com ter auto (de automóvel) caro. São pobres de espírito, se sentem poderosas e se julgam no direito de tomarem a vaga de quem está esperando há 10 ou 15 minutos num supermercado.  Para ilustrar, recentemente um imbecil, revestido de sua grossura, estacionou na bomba de gasolina, fora do lugar e impediu que uma senhora – com o carro já abastecido – pudesse sair do posto. A mulher, com toda delicadeza, alegou que tinha pressa e pediu-lhe que desse uma ré. O “corajoso prepotente”, respondeu-lhe que esperasse, pois não tiraria o carro. E assim ocorreu.

Observando os fatos e recorrendo à antiga frase: “não faça do seu carro uma arma, pois a vítima pode ser você”, nos parece plausível entender o empoderamento que homens e mulheres sentem quando, muitas vezes, por necessidade de autoafirmação, se imaginam superiores e até blindados por estarem no interior de veículos luxuosos. No caso específico do beócio do posto de gasolina, não é difícil entender o porquê de ter violência no trânsito.

Analisando sob a fórmula da causa e do efeito, tudo isso é resultado da corrupção de um país cuja lei está a serviço dos mais poderosos. Um Brasil no qual os menos favorecidos morrem sem remédios e sem atendimento nos hospitais, enquanto governantes desonestos constróem castelos e desviam bilhões de reais. O descaso com a vida alheia e a impunidade nos fazem  reféns de bandidos, de corruptos e de velhacos de toda sorte.

Refletindo sobre nossa situação, assalta-me a mente (no Brasil até a mente é assaltada) a figura de Hamlet, personagem da tragédia de Shakespeare, que diz a famosa frase: “ser ou não ser, eis a questão”. Pois é, caros leitores que me honram com sua leitura, num mundo tão sombrio deparo-me com a mesma dúvida: ser ou não ser gentil, eis a questão.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Quando a vida imita a arte

por Convidado 10 de outubro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

A morte do ator Domingos Montagner, protagonista da novela Velho Chico, causou comoção em grande parte do povo brasileiro. O momento do ator, seu carisma, sua simpatia e a força do papel culminaram numa admiração extremamente elevada por parte de seus admiradores, colegas e fãs. O sentimento de tristeza externado por todas as emissoras demonstrou claramente o sucesso do personagem Santo, tão bem representado pelo ator. Mas veio o destino, ou seja lá o que for e, numa brincadeira sem graça, encerrou a novela da vida real de forma trágica. Com isso, os mistérios e as crenças que diferenciam nossa brava gente brasileira foram ingredientes fundamentais para mobilizar as pessoas. O personagem Santo dos Anjos, representado pelo ator Domingos Montagner, esteve morto nas águas do rio. O amor de Tereza (Camila Pitanga) o ressuscitou, quando os membros da tribo de índios que o resgataram já o consideravam morto. A arte que imita a vida não quis perder Santo e o manteve vivo. Porém, a vida que também por vezes imita a arte, talvez esperasse por um novo milagre. Mas ele não veio. Santo, que desta vez representava o papel de Domingos, não teve a mesma sorte.  Nem o amor pôde salvá-lo.

Capricho do destino? Fatalidade? Magia? O ator deixou de fazer outra novela porque disse que precisava fazer “Velho Chico”. Os índios atribuem sua morte ao fato de o Rio São Francisco ter precisado dele. Alegações voltadas a rituais também engrossam os comentários misteriosos que envolvem a morte de Domingos. Os depoimentos sobre o afogamento são permeados de mistérios, dúvidas e até versões que falam de magia negra.

Estranhas coincidências, armadilhas do acaso ou apenas um acidente. O fato é que até a música Mortal Loucura, tema do  personagem, em suas entrelinhas diz que: “Na oração, que desaterra a terra/ Quer Deus a quem está o cuidado dado/ Pregue que a vida é emprestado estado”. E ao final: “O voz zelosa, que dobrada brada/ já sei que a flor da formosura, usura/ Será no fim dessa jornada nada”.

Infelizmente, Domingos agora é dos anjos. O epílogo da novela de sua vida surpreendeu a todos. Estava em seu melhor momento, atingia seu ápice e ainda tinha muito por fazer, mas a traiçoeira morte, disfarçada de vida nas águas do Velho Chico, resolveu imitar a arte.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O essencial é invisível aos olhos

por Convidado 12 de setembro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

– O mundo mudou!

Esta é uma frase que temos ouvido com tanta frequência que já se tornou repetitiva. Segundo alguns pesquisadores, no século XV marinheiros se recusavam a navegar além de certo ponto, com medo de que seus navios deslizassem para fora da Terra.

Constata-se que antigos conceitos, como o de que “o Sol gira em torno da Terra”, atrasaram nossa evolução até a descoberta de que a Terra é que girava em torno do Sol.

Vencida aquela etapa, hoje temos outros paradigmas e não os percebemos como deveríamos. Outros há que se orgulham de não mudar, de não aceitar novas realidades.

Sabemos que negar o óbvio é uma atitude irracional. Então, além da necessidade de correção da visão externa, devemos atentar para a visão interna, pois o autoconhecimento será imprescindível ao homem atual para suportar a transformação de valores. Esse novo cidadão deverá pesquisar seu interior para encontrar respostas e soluções para os problemas existentes e para os que hão de vir.

Parece, então, que para sobrevivermos ao novo mundo teremos que desenvolver nossa visão e nossa sensibilidade para percebermos os cenários atuais e visualizarmos as tendências. Mas, ainda assim, não será fácil prever o futuro, pois as mudanças serão tão velozes e inovadoras que nem Peter Drucker, há alguns anos, ousou anunciá-las.

Em tempos acinzentados, onde a incógnita do que está por vir se acentua, será preciso ter outro tipo de visão. Não só a de antecipação mas, sobretudo, de um olhar de reaprendizagem, de interpretação e aceitação de um novo universo, que muitas vezes se confunde com enorme sanatório, no qual cidadãos inebriados compram por impulso, se locomovem e agem como robôs e, apesar de esclarecidos, aderem ao “Pokémon Go” numa caça nomofóbica e incompreensível às mentes que valorizam o essencial e não o supérfluo.

Diante dos desequilíbrios do homo sapiens e da incredulidade do que vemos com os olhos, vale lembrar de Antoine de Saint-Exupéry que nos ensina que “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O óbvio faliu

por Convidado 8 de agosto de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Dia desses fui a Barbacena visitar um amigo que está internado numa casa de saúde para doentes mentais. A doença foi diagnosticada após um desmaio. Quando acordou, falava coisas tão desconexas que alguns médicos chegaram a suspeitar que fosse ele quem escrevia os discursos da Dilma.

Encontrei-o com boa aparência, mas muito repetitivo. Ele dizia frases como “bandido tem medo de polícia”; “quem comete crime vai ser preso”; “quem paga imposto tem a garantia dos serviços básicos de saúde, educação e segurança”; “o governo só pensa em arrecadar, agora inventaram multa para quem não acender os faróis na estrada”.  E quando não falava frases “incoerentes” como essas fazia um movimento repetitivo com o corpo, num ir e vir para a frente e para trás, dizendo “o óbvio faliu, o óbvio faliu”…

Tentei mudar de assunto. Falei sobre as Olimpíadas no Brasil. Mas ele repetia:

– Vergonha! Vergonha! Vergonha! Somos medalha de ouro é na corrupção, no desemprego, no desvio de dinheiro público, em desaparecimento de pessoas. O Brasil é insuperável em criminalidade e corrupção. Nesse quesito é medalha de ouro! Muitos hospitais não têm os remédios básicos, o Brasil é campeão em mortes na fila de espera. Mas o governo tem dinheiro para estádios e prédios olímpicos. Em termos de desonestidade, ninguém supera os brasileiros!

Depois gritou novamente: “o óbvio faliu!”. E insistiu:

– O certo agora é o errado, e o errado é que está certo. Falam em respeito, mas perderam a noção do que significa respeitar o próximo. Temos que respeitar o desrespeito. Já pensou nisso?

E antes que eu respondesse, prosseguiu:

– Se um sujeito quiser entrar nu em uma festa, tem de ser respeitado. Sabia? Nós temos que respeitar isso?Mandei pintar a parte externa da minha casa de verde mas o pichador destruiu minha pintura. Sabe o que ouvi? Que ele é um artista e temos que respeitar a arte dele. Acredita? E eu é que sou doido? Ele não precisa respeitar a minha casa, o meu gosto, o meu prejuízo.

Fiquei pensativo e continuei ouvindo meu amigo defender seus pontos de vista. Naquele momento me lembrei do livro de Machado de Assis, “O Alienista”. Dr. Simão Bacamarte, o protagonista, era um psiquiatra e, no decorrer da trama, acaba por internar toda a cidade, pois percebeu que seus habitantes, coletivamente, tinham sintomas de loucura. No final, estando solitário, resolveu libertar a todos e se internar, pois era o único diferente.

De repente, refletindo sobre as frases de meu amigo, meus pensamentos me revelaram um contexto e me dei conta do risco que corria. Imediatamente abracei-o e me despedi, desejando-lhe pronto restabelecimento. Saí daquele lugar sombrio com muita rapidez. Não contei para ninguém, nem pretendo deixar que percebam, mas, deduzindo, conclui que também estava louco.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti

Desde os meus primeiros passos profissionais – que ocorreram na área de RH – ouço e leio que tal departamento é de uma importância estratégica imensurável. De lá para cá foram mais de vinte e cinco anos acreditando que são as pessoas que movem as organizações. Fui membro de entidade de classe voltada exclusivamente para a área de Recursos Humanos, participei de inúmeros eventos de gestão de pessoas e assisti às transformações que o mundo sofreu e nos fez vivenciar. Mas confesso que não consegui ver as empresas reconhecerem o valor real da área humana. É fato que vi mudarem os nomes desde o antigo Departamento de Pessoal, que passou a Recursos Humanos, Gestão de Pessoas, Talentos Humanos, Departamento de Inteligência, Divisão de Gente entre outros. Porém, na maioria arrasadora, não passam do antigo “DP”.  Prova disso é que algumas empresas ainda tem o cargo de Feitor.

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Muitas dessas organizações trabalham em três dimensões de profissionais, que explico: possuem empregados, chamam-nos de colaboradores e tratam-nos como escravos modernos. Por outro lado, os profissionais de RH também não conseguiram demonstrar a essencialidade da área. Na crise, ainda é a primeira que demitem.

Meu conselho para os empresários é que, com crise ou sem crise, não fiquem sem Gestão de Pessoas. A organização deve ter um profissional especialista em pessoas. Basta ter um contrato de prestação de serviços com carga horária inferior à normal. O custo é menor e o resultado é muito satisfatório. Será que dá certo? Sim. Eu tive a oportunidade de trabalhar como um consultor-gerente e, mesmo sem dedicação exclusiva, a contribuição foi significativa. É uma opção que sugiro e reforço com muita tranquilidade, inclusive para outras áreas.

Um profissional que reúne realizações e experiências pode contribuir muito para o alcance dos objetivos de qualquer empresa pois, além do currículo, vive realidades distintas e, por não estar em tempo integral, fica isento de um envolvimento emocional maior.

Caríssimos leitores, a crise ainda vai demorar a nos deixar. Esperar mais pode ser fatal. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” (Geraldo Vandré)

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O Galo e os livros

por Convidado 13 de junho de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Estou escrevendo algumas bobagens que pretendo transformar em um novo livro e, para não me tirar a inspiração, hoje não quero falar de problemas de governo, propinas e desonestidade. Falarei sobre algo mais ameno: futebol. Eu quero fazer indagações, mas com foco num time da capital. Antes, porém, caro leitor, permítame  hablar sólo un poquito com usted.  Você ou vocês, melhor dizendo, já observaram que nas entrevistas de jogadores de Atlético e Cruzeiro só ouvimos os craques hablando la lengua española? Digo, castelhano e portunhol? Quanto estrangeiro! Será que foi por isso que melhoramos tanto nosso futebol? Brincadeira, gente.

Não por acaso, vou falar do Galo. São observações e análises. Eu estou impressionado com o mau rendimento da equipe. Sei das ausências, porém ainda acho que no futebol há uma condescendência muito grande para com os seus profissionais. Vou fazer um pequeno histórico.

O Atlético demitiu o Levir Culpi – que se intitulou de “burro com sorte”. São palavras dele, não fui eu quem disse tamanha ofensa. Eu apenas concordo. E é esse o título de seu livro: Burro com sorte. A diretoria não satisfeita e, ainda tomada pela emoção, contratou Diego Aguirre, desta vez sem livro mas, se escrevesse, provavelmente trocaria o “com sorte” por “sem sorte”. Não deu certo. Creio, deve ter ido para Barbacena para tentar a cura. Veio o Marcelo. Bem, ele chegou agora e estou torcendo para que dê um jeito naquele grupo de jogadores, que mais parecem soldados feridos em combate. Por enquanto, só diria que o Marcelo não está com sorte. O outro atributo – aquele ponto comum entre os dois técnicos anteriores – quero crer que ele não terá. Mas tomara que não escreva livros. Os livros não estão fazendo bem para o Galo.

Torcida do Atlético no Independência em fevereiro/2016 | Foto: Igor Costoli

Torcida do Atlético no Independência em fevereiro/2016 | Foto: Igor Costoli

Mas vamos aos jogadores. Eu aconselharia um treino de olhos vendados. Assim, quando descobrissem seus olhos, talvez acertassem mais passes. Os cegos desenvolvem outras habilidades. Pode ser uma ideia para o novo técnico. Já o nosso goleiro – sou admirador dele – mas depois que virou santo e escritor (olha o livro aí) parece que um espírito baixou nele. Anda numa preguiça de sair do gol que nem oração forte está resolvendo. E os lançamentos… o goleiro não consegue chutar a bola dentro das linhas do campo. Ele chuta para as laterais. O índice de erro é elevadíssimo. E nas bolas atrasadas ele tem se enrolado todo.  Eu sei que o rapaz tem crédito, mas está com baixa rotação faz tempo. Mas nem me falem em substitui-lo pelo Uilson.  Agora, convenhamos, a zaga também não ajuda. Quando o adversário ataca é aquele “Deus nos acuda”. E na lateral esquerda… O Lucas Cândido parece aprendiz de patinação. Já notaram? É todo desengonçado e não marca ninguém. Mas não para por aí. Tem uma turminha que joga lá na frente que não assusta nem a bebê de colo. São tão bonzinhos que reabilitaram o Dênis, goleiro do São Paulo. Deve ser o próximo a ser beatificado.

Diria que no Galo, o que tem para hoje é saudade, principalmente do Luan. O Menino Maluquinho passava garra aos colegas e alegria ao torcedor. Sem ele o futebol ficou mais pobre. Coincidência ou não, foi depois do livro.

Eu já ia voltar ao meu livro e continuar escrevendo, mas me assalta uma dúvida: será que devo? Estou me lembrando que o Muricy Ramalho, aposentado por arritmia cardíaca, também lançou um livro recentemente. Sei não…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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A loucura nossa de cada dia

por Convidado 9 de maio de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Dia desses um amigo me disse que preferiria ser louco a ter de assistir a todo esse circo do governo brasileiro.  Ao ouvi-lo meu pensamento criou asas, voou de volta ao ano de 1509 e pousou nas páginas de um livro escrito por Erasmo de Rotterdam. O título é “O Elogio da Loucura”. Nele, de forma satírica e sombria, o autor demonstra que a loucura é boa companheira.  Pois o que seria da paixão se não houvesse a loucura dos apaixonados? O que seria do circo, se não fosse a loucura dos palhaços? O que seria dos eleitos, se não fosse a loucura dos eleitores?

Erasmo de Rotterdam criou a “Deusa da Loucura” que é quem, segundo ele, dá prazer ao mundo.

“Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão [filósofo], se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria”.

Daquela época para cá, a loucura pode ter deixado de ser deusa, mas está entre nós com uma intensidade ainda maior. Talvez, nestes tempos nebulosos que estamos vivendo, ser louco possa ser realmente uma solução.

Mas não foi só por isso que me lembrei de Erasmo. Foi também porque ele dedicou seu livro ao amigo Thomas Morus.

“Foi pelo fato de ter pensado, no início, em teu próprio sobrenome Morus, tão próximo ao da Loucura (Moria), quanto realmente longe dela estás e, certamente, é seu maior adversário, segundo o conceito que em geral dela se tem.” [carta a Thomas Morus]

Como vimos, Erasmo se lembrou de Morus fazendo alusão à loucura. Somente por intermédio dela (loucura) poderia haver a salvação de um povo oprimido e dominado pela religião que os explorava. Ocorreu-me também que precisamos de uma boa dose de loucura para fugir da opressão e dos abusos cometidos pelos governantes.  Então, em vez de Morus, pensei em Moro – Sérgio Moro – um louco provido de muita sanidade que ilumina uma vereda com uma luz ainda fraca, mas que pode nos indicar um caminho de esperança com menos sombras e mais luzes.

E já que estamos falando da loucura nossa de cada dia, caros leitores, vamos mudar de Moro para moria, e lembrar que os discursos de nossa governante (ou seria governanta?) são a prova viva de que a loucura é aceita e aplaudida. Lembremo-nos da saudação à mandioca, da tecnologia de estocar vento e de festejar o dia da criança e do animal, entre tantas pérolas que fariam Erasmo se corar de vergonha. Porém, uma das mais loucas verborreias de nossa governanta, digo presidenta, foi a da descoberta do “homo e mulheres sapiens” que provavelmente nos guiam nesta galáxia. “Por que da galáxia? Porque a galáxia é o Rio de Janeiro. A Via Láctea é fichinha perto da galáxia de que o nosso querido Eduardo Paes tem a honra de ser prefeito”.

“Loucura! Loucura!”, gritaria um apresentador global. Mas não para por aí. Um ex, ou atual, ou futuro presidente, em momento de humilde grandiloquência, já demonstrando sintomas quixotescos, e digno de estada em alguma hospedagem de Barbacena, acabou por crucificar Tiradentes.

Caros companheiros deste espaço textual, não sei por qual razão acabo de me lembrar de um outro Sérgio… o Porto. Talvez não o conheçam, mas foi ele quem compôs o “Samba do Crioulo Doido”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Poesia, a voz da alma

por Convidado 4 de abril de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

“Quero falar de uma coisa. Advinha onde ela anda. Pode estar dentro peito ou caminha pelo ar.” (Milton Nascimento e Wagner Tiso).

Quero falar da poesia. Dizem que ela morreu. Que ninguém mais declama versos, nem se lembra dela. É que os tempos são outros – menos versados e mais proseados. Confesso que já tive uma paixão muito forte por ela. Andamos juntos na mesma estrada. Depois veio o tempo…

Lamento que não tenhamos mais a leitura de poemas, como faziam os alunos de antigamente. Sinto falta também de poetas. Eles eram um misto de homens e santos. Hoje, dizem que alguns desses homens eram chatos. Mas o mundo era melhor quando tínhamos mais poetas do que ladrões.

Quero chorar pela morte da poesia e prestar minha solidariedade aos poetas vitimados pelo vento devastador – efeito colateral da contemporaneidade. Sei que os mais jovens nem vão me entender, porém remeto minhas palavras àqueles que conheceram e que conviveram com a poesia. Ela foi cupido de muitos casais apaixonados. Era universal e serviu, tanto aos amores realizados como aos nunca correspondidos. Servia de catarse. Aliviava dores, sobretudo dores de amor. Possuía muitos trajes, várias formas e também deu voz aos insatisfeitos com governos e outras situações.

Confesso que não sei definir o que é poesia. Mas imagino que sua finalidade não era a de atacar e sim de conquistar, de exaltar. Seus alvos eram os corações das pessoas amadas. Os poetas eram os magos do amor.

“Poetas, seresteiros, namorados, correi/ É chegada a hora de escrever e cantar/ Talvez as derradeiras noites de luar …” (Gilberto Gil)

O que era poesia? A pureza das donzelas? O respeito ao próximo ou os versos inteligentes de outrora? Talvez tudo isso fosse poesia. No seu período de esplendor, a poesia tinha variadas linguagens que veneravam um amor ideal. Sei, caros leitores, que isso tudo é apenas fantasia. Então a poesia é uma ilusão? Penso que em parte sim. E este pensamento está representado nestes versos:

“o poeta é um fingidor/ e finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente…”  (Fernando Pessoa, psicografado).

Detalhe da casa de Fernando Pessoa, em Lisboa (Portugal). | Foto: Marina Borges, set. 2013.

Detalhe da casa de Fernando Pessoa, em Lisboa (Portugal). | Foto: Marina Borges, set. 2013.

Convenhamos, pense em você, seu traje de executivo não é uma fantasia? Sua maquiagem não é uma forma de se fantasiar? A vida é ilusão, “é o sopro do criador numa atitude repleta de amor” (Gonzaguinha).

A poesia, se estivesse em uso, provavelmente poderia atenuar os “sapos” que engolimos em nossa rotina do dia-a-dia. Antes se fazia poesia. Hoje se faz terapia.

“O imposto, a conta, o bazar barato/ O relógio aponta o momento exato/ da morte incerta, a gravata enforca/ o sapato aperta, o país exporta/ E na minha porta, ninguém quer ver/ Uma sombra morta, pois é, pra quê?”(Sidney Miller)

Dizem que ser poeta é ser “brega”. Mas antes era característica de destaque social e cultural. Havia o poeta do bem. Havia o poeta do mal. Também havia o poeta ruim. Oscar Wilde, o talentoso escritor irlandês, disse que “os verdadeiramente grandes poetas escrevem a poesia que não conseguem viver; já os poetas medíocres vivem a poesia que não conseguem escrever – por isso são tão encantadores”.

Com tudo isso eu afirmo que a poesia pode ser ressuscitada. “Mas há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. (M.N. e W.T.).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti

– Então, como posso ajudá-lo?

– Seu doutor me dê licença para minha história eu contar. Eu já fui muito feliz, vivendo no meu lugar. Hoje eu tô numa terra estranha, é bem triste o meu penar. Nasci na zona rural. Fui roceiro e dono de curral. Adorava olhar para a serra, com seu verde de esperança. Espiar o azul do céu, que ainda trago na lembrança. Sendo adulto, era criança que subia a serra, que mergulhava no rio e cultivava a terra. Tinha um cavalo baio que gostava de campear, enquanto o vento vinha me acariciar, cochichando ao meu ouvido segredos do meu lugar. Seu doutor não imagina o que é sentir um vento mimoso, um arzinho fresco e cheiroso que a natureza lhe doa. Por que a terra, seu doutor, é grata e boa. E fique o senhor sabendo que ela proseia com a gente. Lá no meu sertão, quem nos aconselha é a natureza. Lá não tem luxo de doutor com cadeira e mesa. E digo mais, pode não ter conforto, mas tem gente de presteza. Pessoas que se acolhem, amizade sincera, com certeza. A prosa era verdadeira – não carecia de muito pensar. As palavras iam saindo e arranjando seu lugar. As conversas tinham sentido e não precisava florear. Nosso céu tinha mais estrelas na amplidão; aqui, apesar da luz, tudo é escuridão. Agora, falando assim, uma saudade invade meu peito. Desculpe seu doutor, que eu lhe devo respeito, mas quando a represa das lágrimas invade as cercas do meu quinhão, eu me deito a ruminar as lembranças do coração. Mas não vou mais tomar o seu tempo. Vim aqui para consultá-lo, recuperar a calma. Estou padecendo de uma dor, seu doutor, mas não é dor de corpo é dor de alma.  Estou amuado como um boi que comeu erva. Nada me anima, só me enerva. Estou como um capim esturricado que a geada queimou. Eu perdi a fé nas pessoas – a falsidade me decepcionou. Então, seu doutor, o senhor ainda não me examinou, mas tem cura esta dor?

– Meu senhor, que posso eu dizer, mesmo sendo doutor? A sua doença é tristeza de quem perdeu o chão. É sentimento doído de tanta decepção. É angústia e solidão. É doença de gente normal, que não se conforma com um mundo desigual. Não tenho um remédio para tal dor. Também sofro desse mal. Estamos todos muito tristes com tanto desamor. A humanidade enlouqueceu. Trocou tudo por dinheiro, agrediu a natureza e em desatino se perdeu. O desgoverno roubou a nossa liberdade, matou nossos sonhos e nos faltou com a verdade. O seu caso é muito grave, mas o senhor vai sobreviver. Sua moléstia é lucidez e, para tal doença, nada há que cure de vez.

– Mas não há um remédio, seu doutor, que resolva doença tão tinhosa?

– Lucidez é uma doença nervosa. Seus sintomas incomodam a todos que praticam a fala enganosa.

– E a receita, seu doutor?

– Volte para o seu ranchinho à beira-chão, conviva com seus bichos e não assista à televisão. Em breve nosso céu terá estrelas novamente. Observe-o e, quando a estrela solitária for cadente, é o sinal de que haverá esperança de um povo contente.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Olha o Brasil aí, gente!

por Convidado 3 de fevereiro de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Então é Carnaval outra vez. Samba, suor e cerveja. O tempo passa, corre desenfreadamente como um trem desgovernado. Mas, embora as energias tenham se renovado para o novo ano, o Brasil é o mesmo. Um gigante adormecido, deitado em berço esplêndido. Também está desgovernado – continua endividado e explorando seus cidadãos. Os números dizem tudo. PIB negativo, desemprego (em torno de 10%), inflação (10,67%), dólar nas alturas, 60 mil assassinatos por ano, mais de 40 mil mortes nas estradas, milhões de assaltos, 40 mil crianças e adolescentes desaparecidos por ano.

Vivemos uma democracia – dizem os governantes do Planalto. Mas não podemos ter uma bicicleta, porque ladrões vão roubá-la. Não temos a liberdade de caminhar com nosso cão, pois, se tiver pedigree, será levado por alguém que nos aponta uma arma. O Brasil é muito “democrático” para os bandidos, sejam eles de gravata ou de bermuda e boné.

Mas pelo menos a comitiva de viagem da presidente Dilma (talvez a maior entre todos os países) está em alta. Entre hospedagem, aluguel de carros de luxo (com direito a limusine), restaurante e transporte aéreo, uma pequena fortuna é gasta sem nenhum pudor. Aliás, pudor é o que não houve nos últimos anos de desgoverno. Mas o governo tem a solução. Vai aprovar a CPMF, vai fazer uma reforma na Previdência. Talvez possamos nos aposentar quando tivermos 100 anos de idade e 80 de contribuição. Interessante é que tem brasileiro que se aposenta com oito anos de trabalho. Trabalho?

Para piorar, vivemos hoje duas pandemias. Primeiro a do mosquito aedes aegypti, muito bem adaptado às zonas urbanas. Gosta de água fresca em locais preferivelmente de sombra. Podem ser pretos ou rajados.  Vivem do sangue alheio.

O mosquito aedes aegytpti. | Fonte da imagem: Portal Brasil

O mosquito aedes aegytpti. | Fonte da imagem: Portal Brasil

A outra pandemia, a do hominis corrupti que, assim como o mosquito, teve sua população aumentada nos últimos tempos. Também gosta de sombra e água fresca. Cresceu muito nos últimos anos e possui ótima adaptação à zona urbana. Habita em todas as regiões do Brasil e prolifera tanto em regiões frias quantos nas quentes. Sua massacrante maioria tem o hábito de subtrair dinheiro alheio. Seus corpos são, em sua grande maioria, cobertos por ternos.

Mais do que nunca, entendo o sentimento de Ruy Barbosa:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Observação: é Carnaval e sou brasileiro. Vou tomar minha cerveja e cantar um samba-enredo que me faça esquecer da situação do Brasil, pelo menos enquanto é Carnaval.

“Luz, divina luz que me conduz/ Clareia meu clarear, clareia/ Nas veredas da verdade, cadê a felicidade/

Aportei num santuário de ambição/ Eu quero liberdade, dignidade e união/…

Chega de ganhar tão pouco/ Tô no sufoco, vou desabafar/Pare com essa ganância, pois a tolerância/Pode se acabar…”

(BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS-2003)

Um ótimo Carnaval para vocês.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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