Desatenção no trânsito

por Luis Borges 9 de setembro de 2015   Pensata

Era uma sexta-feira do início de agosto, por volta das 20h30, na Av. Antônio Carlos, em Belo Horizonte. O trânsito estava assim:

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Eram muitos problemas – trânsito pesado, motoristas forçando passagem e furando fila, o cansaço, a visão da longa fila de carros na avenida… o que indicava ainda mais necessidade de atenção.

A motorista que estava no meio desse engarrafamento contou que, ao passar pelo viaduto São Francisco, viu um ônibus e um táxi que estavam na pista que daria acesso ao Anel Rodoviário forçando a entrada na faixa da av. Antônio Carlos. O carro da frente soltou o freio, na ânsia de não ser batido. Mas, aparentemente, não prestou atenção na distância do carro que vinha atrás. Resultado – bateu no pára-choque dianteiro da motorista citada. Nem buzinar adiantou.

Num caso desses, como parar, no meio da avenida engarrafada, para ver se houve algum estrago? Como se comunicar com o motorista da frente? O jeito foi seguir até seu destino, esperando que nada tivesse acontecido com o carro.

Essa mesma motorista teve outro dissabor alguns dias depois. Entrando no seu bairro, dirigindo pela rua principal, foi atingida na lateral direita por um motorista que abria a porta, mas se esqueceu de olhar pelo retrovisor antes. Na porta que foi aberta, o estrago foi pequeno, apenas um friso se soltou. No carro atingido, a roda foi amassada, o pára-choque danificado e foi preciso trocar parte da lataria. O carro ficou 8 dias corridos no conserto, coberto pelo seguro.

Centenas de acidentes diários

Essas pequenas desatenções são expressas na estatística da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social. Em 2015, de janeiro a julho, foram registrados 34.977 acidentes de trânsito sem vítimas em Belo Horizonte – 165 por dia. Se incluirmos a Região Metropolitana, o número sobe para 57.923. Isso sem contar os casos que não foram registrados, já que algumas seguradoras não estão pedindo mais o B.O., que passou a ser feito na delegacia online. O que comprova que o trânsito de Belo Horizonte continua cheio de pessoas dirigindo seus veículos desatentamente.

É bom lembrar que “acidente sem vítima” não quer dizer acidente sem transtornos ou consequências. Os envolvidos ficam dias sem o veículo, precisam modificar a rotina e, em muitas vezes, tirar dinheiro do bolso.

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O rádio prossegue firme

por Luis Borges 20 de agosto de 2015   Pensata

Ouço rádio desde os tempos de menino na minha cidade natal, Araxá (MG), capital secreta do mundo. Ao lado de minha mãe, tornei-me um ouvinte atento da ZY-4, Rádio Imbiara, com sua programação de música, esporte e notícia. Com o passar do tempo fui cursar o ensino médio em Uberaba e lá ouvia a Rádio 7 Colinas. Em 1973 cheguei a Belo Horizonte. Passei a ouvir músicas na Rádio Mineira, esporte e notícias nas rádios Guarani e Itatiaia. E assim cheguei aos dias de hoje, acompanhando os avanços da tecnologia da comunicação.

De vez em quando surge alguém dizendo que o rádio não vai resistir ao avanço das mídias digitais, mas o mero achismo ainda não prevaleceu e o rádio também pode ser ouvido pela internet. Como um dos fundamentos da gestão nos ensina que devemos trabalhar com fatos e dados para melhor compreendermos os fenômenos e os processos que os geram, fiquei feliz ao encontrar uma recente pesquisa do Ibope Mídia. Ela mostra que o rádio prossegue firme e com bastante força entre os meios de comunicação no país. Vou citar aqui alguns fatos e dados que, observados e analisados, podem comprovar a minha percepção.

O Ibope ouviu 41 mil pessoas em 13 capitais brasileiras e aproximadamente 90% delas afirmaram que ouvem emissoras de rádio. Em Belo Horizonte o número de ouvintes chegou a 94%, enquanto nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília ficou em 88% dos entrevistados.

A pesquisa mostrou também que 53% dos ouvintes são mulheres, 47% são homens e que eles passam 3h50 por dia ligados nas ondas do rádio.

Outro aspecto interessante é o fato de que as pessoas afirmaram que ouvem rádio ao mesmo tempo em que fazem outras atividades. Nesse sentido 21% afirmaram entrar na internet simultaneamente, 17% também se ligam na televisão e 14% leem jornais e revistas.

Rádios portáteis, rádios relógios e outros aparelhos comuns são os escolhidos por 60% dos ouvintes. Outros 24% sintonizam as estações de sua preferência no automóvel e 16% via aparelhos de telefone celular.

Finalmente em termos dos conteúdo da programação, 65% focam em notícias e prestação de serviços, 47% em música, 19% em temas religiosos e 18% em esportes.

Eu também prossigo ouvindo em torno de 4 horas de rádio por dia, com a predominância de música e jornalismo. E, quando nada, os minutos finais dos jogos do América Futebol Clube narrados por Ênio Lima, pela Rádio Itatiaia.

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Farinha pouca, meu pirão primeiro

por Luis Borges 11 de agosto de 2015   Pensata

Em meio à crise política que muito contribui para realimentar as dificuldades da economia e às dificuldades para aprovar o ajuste fiscal das contas públicas, causa espanto ver projetos que propõem aumentar gastos. Na semana passada o portal G1 noticiou que o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, negocia com o governo um aumento de 16% nos salários dos Ministros do STF, que gera efeito cascata. Para os demais servidores, pede reajuste de 46%, parcelados em quatro anos.

Ainda que o trabalho do STF seja necessário, o que assusta é a gula e a desenvoltura para salvaguardar os interesses da corporação, independente da capacidade do Tesouro Nacional para bancar tais índices. Se tudo acontecer como esta sendo proposto, um Ministro do STF que recebia em torno de R$27.000,00 em 2014 entrará janeiro de 2016 embolsando pouco mais de R$39.00,00 mensais. Isso equivalerá a um reajuste de aproximadamente 35% em dois anos.

Mas de onde virão os recursos para bancar esses aumentos, nesses anos em que a economia só decresce e não mostra perspectivas de recuperação tão cedo? Para completar todo esse quadro, os técnicos do STF avaliam que a proposta de aumento salarial não impacta significativamente nos gastos da União. Pelo visto o ditado popular “farinha pouca, meu pirão primeiro” está mais vivo do que nunca, e é muito bem praticado. A função de arrumar o dinheiro não lhes pertence.

Já que os pagadores de impostos ainda mantêm baixa a sua capacidade de se organizar e se indignar, caberá a eles continuar bancando essa conta, em nome da obediência civil. Até quando, não sei, mas o pós-capitalismo pode estar menos longe do que parece. E não é em anos luz.

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No início de julho a Presidente da República viajou até a Rússia para participar de uma reunião dos Brics, o grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na volta, passou pela Itália, onde se encontrou com o Presidente e o Primeiro-Ministro do país. Essa foi a agenda oficial, comunicada pelo Palácio do Planalto.

Ufá - Russia, 09/07/2015. Presidente Dilma Rousseff durante VII Cúpula do BRICS. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Ufá – Russia, 09/07/2015. Dilma Rousseff e Vladimir Putin durante VII Cúpula do BRICS. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

No entanto, antes de chegar ao destino oficial, Dilma Rousseff passou em Portugal, onde até se reuniu com o Presidente do STF, Ricardo Lewandowski. A diferença é que essa parte não foi informada na agenda e simplesmente acabou chegando ao conhecimento público quando a comitiva presidencial já estava chegando lá. E, cá pra nós que nos preocupamos com a qualidade e a quantidade dos gastos: não seria possível fazer uma reunião com o Ministro Lewandowski em Brasília? Ou o aumento salarial do funcionalismo do poder judiciário, de 58% a 79%, está incomodando tanto?

Passemos a outros exemplos. Uma secretaria de estado do Governo de Minas, ao receber solicitações de informações e questionamentos sobre temas ligados ao negócio da pasta, informa friamente e com “cara de paisagem” que não vai se posicionar sobre o assunto.

Uma empresa de porte médio ou grande recebe benefícios fiscais da união, estados e municípios. Esses são publicados nos Diários Oficiais dos respectivos níveis de poder, que citam códigos de protocolos, parágrafos, alíneas, leis conexas e anexos de complicada e complexa legislação. São códigos tão complexos que até um especialista em garimpo de sutilezas e escondidinhos legais, mas muitas vezes imorais, tem dificuldades para encontrar e entender do que se trata especificamente. Assim podem ser lembrados diversos exemplos, como o abastecimento de água, as causas de um apagão na distribuição de energia elétrica… Esconde-se ao máximo aquilo que não seria interessante mostrar, pois toda pessoa bem informada é perigosa, ainda mais nesses tempos de redes sociais bastante atuantes!

Temos a Lei de Acesso à Informação, mas os órgãos públicos sujeitos a ela sabem se fingir de mortinhos sempre que necessário. Para cumprir o que dispõe a Lei, muitas vezes o site não é amigável, de pouca usabilidade e encontrar lá a informação correta e completa torna-se um desafio, como se fosse uma caça ao tesouro.

Outra forma de se fazer o jogo do escondidinho é simplesmente deletar a informação assim que expira o prazo mínimo previsto para que ela fique no ar.  Aí o jeito é torcer para que tudo tenha ficado registrado no “São Google”.

Se por um lado por um lado existem melhorias, por outro ainda há muito o que melhorar nas posturas de todos os envolvidos no processo de dar transparência a todas as informações que a sociedade tem o direito de acessar. Não dá mais para tolerar a aparência embalando a frase de um ex-Ministro da Fazenda quando disse “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.

Para completar, que tal refletir sobre aparência e transparência em nossa vida familiar, nos nossos círculos de amigos, no associativismo e em nossos locais de trabalho?

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Em meados de maio publiquei no Observação e Análise a pensata Atendimento que desencanta, na qual abordei o calvário pelo qual passei para mudar um plano de telefonia celular. Ao final da narrativa, contei que o atendente da loja física da operadora admitiu que houve problemas na migração do plano.

Tudo aparentava alegria e tranquilidade até o recebimento da conta contendo a medição dos serviços de 21 de maio a 20 de junho. Era relativa ao plano que foi cancelado, com uma cobrança de R$192,00 pela utilização de 12 linhas do plano virtual. Ficou visível que a cobrança era indevida.

Preparei-me para perder um tempo inimaginável e entrei em contato com a operadora visando a resolver a situação.

A ligação estava só começando...

A ligação estava só começando…

Durante o atendimento fiquei tentando descobrir as causas do problema. Ao final do processo, que durou 55 minutos, ficou claro que a perda desse tempo foi causada pela falta de treinamento do operador no procedimento padrão e também pela sua desatenção ao praticá-lo. O operador admitiu que, no mês anterior, o atendente se esqueceu de cancelar as linhas virtuais e que, por isso, o sistema continuou gerando a conta em relação àquele quesito. Aproveitei para perguntar se esse tipo de falha acontece muito. O operador disse que não é raro ocorrer e que o problema só é sanado quando as pessoas reclamam.

Em um segundo procedimento padrão foi feita a contestação da fatura e a solicitação do cancelamento das tais linhas virtuais. Entretanto fui alertado que um novo período de medição se iniciara dia 21 de junho e que ele só seria encerrado naquele dia em que efetivamente estava sendo feito o cancelamento. Mais ainda: nova fatura será enviada com a cobrança desse período, ocasião em que deverei entrar em contato novamente com a Central de Atendimento e fazer nova contestação da fatura. Inocentemente solicitei ao atendente que me poupasse desse novo desgaste, já cancelando também esse resíduo de fatura no sistema. Ele foi curto e grosso para dizer que “o sistema  não aceita esse tipo de procedimento”. Ah! Sempre o sistema para explicar o inexplicável e encobrir as, digamos, bem intencionadas irracionalidades do processo.

Agora enquanto aguardo a chegada da nova conta, reflito e compreendo por qual(is) razão(ões) as operadoras de telefonia fixa e móvel ocupam o primeiro lugar no ranking de reclamações dos usuários nos Procons, sob o desatento olhar da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Aliás, se a Anatel não existisse, quem sentiria falta? Bom, pelo menos a sua diretoria.

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Abusos financeiros contra idosos

por Luis Borges 15 de junho de 2015   Pensata

 

O 15 de junho é o dia mundial para se chamar a atenção sobre a importância do combate aos abusos dos quais são vítimas as pessoas idosas, segundo proposição da ONU (Organização das Nações Unidas). O assunto é extremamente relevante na medida em que aumenta a longevidade da população. No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a expectativa média de vida já se aproxima dos 76 anos de idade, enquanto 23 milhões de pessoas possuem idade igual ou superior a 60 anos – idosos, conforme a Lei. Desse contingente, 3 milhões têm idade igual ou superior a 80 anos e, entre eles, 450 mil possuem 90 anos ou mais.

O envelhecimento ativo e saudável é desafiante e exige preparação ao longo do curso da vida, o que nem sempre se verifica para muitas pessoas de diversas camadas sociais. As surpresas vão se sucedendo mediante os abusos físicos, emocionais e financeiros. A negligência e a omissão de parentes, familiares, amigos e de todo o aparato de assistência social do estado e da sociedade civil organizada muitas vezes nos chocam diante de tanta penúria, dificuldades e graus de exploração da desgraça alheia. E quanto pior, pior mesmo, quase que beirando-se ao clássico popular quando afirma que “o que não tem remédio, remediado está”. Só não sabemos ainda até quando.

Nesse espaço quero falar especificamente sobre uma modalidade de abuso contra o idoso que está crescendo geometricamente nesses últimos anos – o abuso financeiro. Saímos dos tempos do desenvolvimento econômico baseado no incentivo ao consumo amparado pelo crédito fácil, notadamente o consignável para os idosos aposentados. Agora o modelo anterior foi dado como esgotado. Juros e inflação estão em alta, poder aquisitivo e emprego estão em baixa e a Presidente da República ainda diz que todos devem continuar consumindo. Como o idoso vulnerável vai se defender dos ataques especulativos de todos que lhe torpedeiam? Se a conta não fecha, a primeira dimensão que faz tudo balançar é a financeira, que simplesmente puxa as demais, a começar pela emocional.

abuso financeiro contra idosos

Quase todo dia alguém tem um caso para contar sobre um idoso que levou um golpe financeiro. Nos últimos dias fiquei sabendo de uma senhora idosa que recebeu empréstimo consignável sem ter solicitado, mas foi usada pelo gerente do banco que queria bater a meta de empréstimos. O mesmo gerente já havia lhe empurrado a aquisição de títulos de capitalização cujo processo documental foi feito no próprio lar da idosa.

Um outro caso e após vários anos, descobriu-se que o próprio cuidador do idoso estava se apropriando do seu dinheiro para fazer viagens turísticas pelas praias brasileiras e realizar compras em centros comerciais.

Soube, também, de uma mocica que casou-se com um senhor que tem idade seis décadas superior à sua, e ele se diz muito bem cuidado por ela. Já seus filhos nunca se preocuparam com ele e, após a viuvez, um novo casamento foi um passo, já que surgiu alguém de alma boa.

Outro caso super interessante é o de um empresário que está em dificuldades financeiras e passou a fazer operações em nome da mãe e a usar seus bens imóveis como garantia. Para não alongar muito e dar uma oportunidade para que você também se lembre de outros casos, vou terminar lembrando da filha de um casal que voltou para casa dos pais separada do marido, desempregada e trazendo dois filhos, um de 20 e outro de 22 anos. Outro detalhe é que um deles é dependente químico e toda hora quer dinheiro com a avó.

O que e como devem fazer para não serem pegos de surpresa todos aqueles que hoje tem 30, 40, 50 ou 60 anos de idade? O curso da vida continua desafiando a todos. Só xingar e reclamar dos governantes não será suficiente.

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Convívio difícil

por Luis Borges 4 de junho de 2015   Pensata

 

No fim da tarde desta quarta-feira, 3 de junho, véspera de feriado, quem passava pela rua Mármore presenciou uma cena que se torna cada vez mais comum.

Por volta das 17h30, no segundo quarteirão da referida rua no bairro de Santa Tereza, Belo Horizonte, uma senhora de presumíveis 50 anos buscava um local para estacionar seu carro. Não havia mais espaço. Ignorando a legislação de trânsito, a mulher simplesmente “jogou” seu automóvel na esquina das ruas Mármore e Ângelo Rabelo.

O Código de Trânsito Brasileiro estabelece, em seu artigo 181, que é infração média estacionar o veículo na esquina ou a menos de 5 metros do alinhamento com a via transversal, sob pena de remoção do veículo. Mas a referida senhora ignorou esse dispositivo da lei. Com a insuficiência de espaço, ela estacionou o veículo na esquina e ainda ocupou cerca de um metro da pista de rolamento da rua seguinte. Com isso, atrapalhou quem estava na rua Ângelo Rabelo e queria atravessar a Mármore e também quem estava na rua Mármore e queria virar à direita na Ângelo Rabelo.

Cruzamento entre as ruas Mármore e Ângelo Rabelo, onde se passou a história. / Fonte: Google Street View

Cruzamento entre as ruas Mármore e Ângelo Rabelo, onde se passou a história. / Fonte: Google Street View

Estava instalado o caos. Quem passava à pé ou conduzindo seu veículo “fuzilava” a senhora com os olhos. Ela, no entanto, demonstrava não estar nem aí e seguiu no seu “pulinho” à padaria. Tudo aconteceu como ela queria, à revelia das leis de trânsito, da segurança coletiva ou do direito dos outros.

Depois de quase 10 minutos de trânsito embatumado, a mulher voltou empertigada, atravessou de um lado para outro entre os veículos que desciam a rua Mármore até chegar a seu carro. Partiu sem dar seta, deixando o local onde estacionou de forma irregular realizando uma manobra arrogante e insegura.

Esta senhora demonstrou pensar apenas em si mesma e em seu pãozinho quentinho, sem se preocupar com os outros usuários da via ou com os raríssimos fiscais de trânsito que passam pelo local. Aos poucos tudo voltou ao normal, compatível com o volume do trânsito para o horário.

Mas ficou a constatação de que está cada vez mais difícil conviver com essas pessoas de posturas individualistas, pensando apenas em si mesmas e querendo levar vantagem sempre. E, claro, dispostas a ignorar, burlar ou fingir desconhecer as leis. Geralmente essas pessoas gostam muito é de reclamar dos outros e patrulhar os atos alheios.

Não sei até onde irá o limite e a tolerância de quem é atingido por este tipo de postura mas, como diz Chico Buarque na música Gota d’água:

“Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água”.

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Atendimento que desencanta

por Luis Borges 15 de maio de 2015   Pensata

Comecei a usar um telefone celular 20 anos atrás, não sem uma resistência inicial. Foi inevitável começar pelo hoje saudoso “tijolão”, cuja bateria logo se descarregava. Os anos passaram, os aparelhos telefônicos receberam sucessivas inovações multifuncionais e o setor de telecomunicações foi privatizado. O que nunca mudou, e sinto que só piora, é o atendimento aos usuários que, na maioria das vezes, não são tratados como clientes das operadoras.

O saudoso "tijorola". / Foto do site "O Antiquário"

O saudoso “tijorola”. / Foto do site “O Antiquário”

É claro que o cliente tem a expectativa de receber um serviço de qualidade, com preço justo e atendimento adequado. Justamente por discordar dos preços abusivos cobrados pela operadora à qual estou vinculado nessas duas décadas, é que fiz uma mudança de plano de prestação de serviços para reduzir o gasto à metade. Aí começou o meu calvário, que é semelhante ao sofrido pela maioria dos usuários, como pude constatar ao longo de oito dias consecutivos.

Meu relato é apenas para registrar mais uma ocorrência de serviços não prestados, enorme perda de tempo e permanente exercício da paciência para não desistir de lutar pela solução do problema. O objetivo era só ter a linha telefônica fazendo e recebendo ligações conforme as condições negociadas, já que o faturamento mensal começou a valer desde o primeiro minuto apesar da indisponibilidade.

Nesses oito dias pude perceber mais uma vez como a empresa é mal operada no seu dia-a-dia, como os padrões padecem de consistência e, principalmente, como os terceirizados operadores são mal treinados, se é que eu posso imaginar que eles realmente estão sendo treinados. Mais de 80 horas foram quase totalmente perdidas, tanto no atendimento telefônico feito a partir de uma base instalada em Teresina, capital do Piauí, como em duas idas a uma loja de multi-problemas na região central de Belo Horizonte.

Num determinado dia, um atendente disse que minha linha estava livre. Mas ao fazer um teste com um técnico de suporte, o sistema simplesmente caiu. Fiz nova ligação e surgiu outro atendente dizendo que havia um bloqueio na minha linha. Enquanto eu tentava conversar, o operador pedia “um instante por favor” e, de repente, nesse vai e vem sem nada resolver, entrou aquela dolorosa gravação mandando discar 1 se a solicitação foi atendida e dar uma nota de 0 a 10 ao serviço do atendente. E assim foram se sucedendo os casos, que não são diferentes dos que provavelmente você já enfrentou em algum momento em que se viu obrigado a usar os serviços de sua operadora de telefonia.

Ao final dos oito dias eu já estava me adaptando à vida de não-usuário do celular, mas confesso que estava sentindo alguma falta dele. Essa falta era atenuada pela expectativa de que, diante da baixa previsibilidade operacional da empresa operadora, a qualquer momento tudo poderia voltar a funcionar.

Por fim, depois de inúmeros protocolos de atendimento e diversas explicações para o problema, o atendente da loja física resolveu o problema, constatado como “uma falha na migração de planos”.

atendimento protocolo celular

Um dos muitos protocolos de atendimento que recebi 

Apesar do Código de Defesa do Consumidor e da capacidade de alguns para lutar pelos seus direitos, fica nítida a nossa incapacidade de boicotar ou abrir mão de bens e serviços desrespeitosos no cumprimento do que foi combinado. A condição de usuário fica nítida, também, por sermos obrigados a usar o que está aí e ponto final.

A Agencia Nacional de Telecomunicações até registra as nossas reclamações, mas até o seu numero 1331 apresenta, por vezes, uma mensagem dizendo que “no momento todos os operadores estão ocupados” e pede que se retorne a ligação mais tarde. Além disso, pra reclamar na Anatel só ligando em dias úteis, das 8h às 20h. Só que os problemas não obedecem esse horário.

Esse texto foi inspirado por dias sem celular, dias de telefone “pai de santo” e dias de telefone que só fazia chamadas. Agora meu serviço já voltou ao normal.

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Sem ação

por Luis Borges 6 de maio de 2015   Pensata

Na última quinta-feira, véspera do Dia do Trabalhador, uma operadora do Direito de 53 anos se viu sem ação por duas vezes num curto intervalo de tempo.

Com algumas demandas a resolver, ela se dirigiu a um hipermercado que também conta com lojas de conveniência. Entrou em uma delas para comprar um perfume. Era a única cliente da loja, foi atendida por uma vendedora e notou que outra moça aguardava no caixa pelo momento do pagamento.

De repente, um rapaz alto e forte invadiu a loja, como um felino, e determinou agressivamente que as três mulheres ficassem quietas. Diante do susto o medo tomou conta delas, que ficaram paralisadas como estátuas, sem ação. Ainda assim, deu tempo de pensar em Deus e torcer por um desfecho de sorte. O rapaz falava enfaticamente, levaria os perfumes que queria de qualquer maneira, ao mesmo tempo em que sugeria estar armado. Demonstrando muito foco e rapidez, ele agiu em poucos minutos e deixou o local em desabalada carreira rua abaixo, enquanto a vendedora balbuciava os primeiros gritos de socorro.

Antes sem ação, as mulheres foram se refazendo da paralisia e retomando os movimentos. A cliente concluiu sua compra com a bolsa intacta e a vendedora afirmou ser aquele o segundo roubo feito pelo rapaz na loja. Acionado pela funcionária do caixa, o gerente da loja mandou computar o prejuízo e dispensou o registro do caso em Boletim de Ocorrência, demonstrando desalento com o tipo de situação.

Acreditando-se refeita do susto, a operadora do Direito entrou no espaço do supermercado para fazer algumas compras. Reuniu rapidamente os itens e caminhou para a área dos caixas. Eram poucos os que funcionavam, então apostou num daqueles para pessoas que compraram um número determinado de volumes. A fila não andava. Contou e viu que era a sexta pessoa na espera. O problema que empacava a fila era uma divergência nos preços de uma cerveja em promoção.

Atrás da advogada, chegou uma senhora de uns 60 anos, com poucos volumes numa cestinha, que começou a pressioná-la, de graça. Foi quando, de novo, a advogada se viu sem ação. Primeiro a senhora se insinuou para passar à frente na fila que estava parada. Quando finalmente as pessoas começaram a andar, a senhorinha resolveu ficar no seu lugar, mas começou questionar as compras feitas pela advogada. Questionou a escolha das marcas. Não satisfeita, quis saber da vizinha de fila se poderia ganhar uma carona até o bairro Planalto. Informada, com poucas palavras, que a advogada morava em outro bairro, a insistente senhorinha continuou tentando invadir a privacidade da compradora, questionando por qual razão ela não fazia suas compras no próprio bairro.

A advogada resolveu parar de responder. Mesmo sem receber mais explicações e já impaciente, a senhorinha ainda questionou o valor das compras registrado no visor do caixa ao mesmo tempo em que tentava ver a senha do cartão sendo digitada.

E assim a operadora do Direito deixou o ambiente, tão aliviada por ter se livrado de pessoa extremamente amolativa que até se esqueceu do roubo na loja de perfumes. Depois de se ver sem ação por duas vezes no mesmo dia, a advogada concluiu que está muito difícil viver e que são muitos os perigos dessa vida, também nos supermercados.

Por fim, decidiu que vai comprar mesmo é no supermercado em que já se abastece. Lá quem fica atrás na fila do caixa às vezes olha a senha, às vezes dá um jeito de ir enfiando as compras na esteira mesmo antes da pessoa da frente passar. Mas, pelo menos, ninguém questiona o que está sendo comprado, o valor ou a forma de pagamento.

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Já não aguentava mais tanta falação sobre o Imposto de Renda e o prazo final para a entrega da declaração de 2015. Ainda bem que o dia 30 de abril chegou. Em quase toda roda de conversa alguém surgia com a pergunta clássica, mas que sempre cutuca e pressiona – “você já fez sua declaração?”. Daí, emendava-se a discussão: já enviou? Vai pagar? Vai ter restituição?

Sei que tudo isso já faz parte da nossa cultura, inclusive a aceitação de que salário é renda e, por isso, vale o tributo que lhe é imputado. Também não podemos nos esquecer que essa carga tem aumentado ano a ano em termos reais, devido à não correção plena da tabela do Imposto de Renda pelos índices inflacionários. A defasagem nos últimos 20 anos já chega a quase 70%.

Muitos de nós devem ser do tempo em que a data limite da declaração era adiada várias vezes e muitos contavam com essa possibilidade para dar um jeitinho até a última hora possível.

Mas se me sinto aliviado porque o prazo acabou. Sei que o assunto ainda permanecerá mais alguns dias na mídia, com os tradicionais balanços dando conta de que tantos milhões de pessoas entregaram a declaração do Imposto de Renda 2015 no prazo. Também serão passadas as informações de que, a partir de 04 de maio, a Receita Federal reabrirá o sistema para o recebimento das declarações dos que perderam o prazo, só que acrescidas de multas, juros e correções, sempre nos termos da Lei.

Outra possibilidade que também será muito citada é a de retificação da declaração, ou seja,  ainda será possível modificar informações, tanto acrescentando quanto retirando. Também prosseguirão falações sobre erros de preenchimento, despesas inventadas, rendimentos omitidos ou falta de lastro para bens e direitos. O medo de cair na malha fina também ficará, pairando como uma espada sobre a cabeça das pessoas. E, finalmente, virá um destaque para a prioridade que idosos e portadores de doenças classificadas como graves terão na fila das restituições.

Lembrando de tudo isso sou obrigado a concluir que apenas um prazo acabou mas que todo dia continuará com a sua agonia, inclusive com a obrigação de guardar os documentos deste Imposto de Renda 2015, relativos ao ano-base 2014, durante 5 anos.

Não dá para esquecer, também, da próxima data. Amanhã, 1 de maio, é dia do trabalhador, que faz a travessia da crise econômica com estratégia de sobrevivência enquanto sua macia central sindical sorteia brindes e atenua a luta política na sociedade de massas.

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