A tia vai bem. Será?

por Luis Borges 9 de outubro de 2018   Pensata

Nesses tempos de elevado consumo de bens e serviços advindos dos diversos níveis do aceleradíssimo avanço tecnológico o mais frequente é cada um cuidar de si, preferencialmente dentro de algumas bolhas específicas, o que não é novidade para quase ninguém. Acaba sendo uma mera constatação. Mas e daí? Pode até sobrar para muitos de nós uma boa oportunidade para combater a solidão numa rede social digital ou mesmo numa relação bilateral e de maneira muito rápida pelo WhatsApp, por exemplo.

Entretanto fico pensando se além do texto, do áudio, do vídeo encaminhado, do pescoço dolorido, das ressecadas córneas dos olhos e de alguns dedos das mãos doendo se ainda é possível resgatar outras formas de contato com as pessoas, bem mais utilizadas nos tempos de outrora, com calor humano, afetividade e respeito mútuo.

Mas como fazer isso acontecer no tempo que urge sem gestão e na sobrevivência cotidiana que cobra permanentemente uma resposta em tempo real? E o pior é que ainda sobra tempo para a solidão, que os dispositivos tecnológicos não dissipam. Surge aí um espaço para reflorescer o propósito do reequilíbrio como na aurora de uma primavera que surge após longo e frio inverno. Melhor seria visitar a idosa tia solteira, irmã da finada mamãe, do que perguntar pelo WhatsApp ao irmão, ao primo ou à prima como vai a tia, se ela está bem sem necessariamente se preocupar em visitá-la ou saber se precisa de uma ajuda material ou de um pouco da presença do sobrinho que há tempos não comparece à sua casa. Até fico com a sensação de que a prevalência é da curiosidade mórbida alinhada com a necessidade de aparecer bem na fita, principalmente se da tia sobrar uma parte da herança a ser distribuída assim que seus olhos se fecharem definitivamente.

Essa menção à tia tão mais querida quanto abandonada que faço aqui pode ser considerada um exemplo genérico, mas verdadeiro, sobre nossas posturas em relação a outros parentes próximos, aos poucos amigos feitos nos tempos da universidade, inclusive na militância política estudantil, aos dois ou três colegas de trabalho que se tornaram nossos amigos ao longo de uma trajetória no serviço público, numa empresa estatal ou privada e até mesmo um vizinho de um bairro da cidade em que moramos noutros tempos. A tecnologia que pode facilitar a aproximação cada vez mais veloz entre as pessoas é a mesma que também pode facilitar o afastamento pelo excesso de acessos sem nenhuma presença física. Até o bom dia ou boa noite cotidiano no WhatsApp torna-se cansativo, frio e cada vez mais visualizado sem se prestar nenhuma atenção. É como se fosse apenas dar vazão a uma imensa ansiedade de estar ligado a qualquer coisa.

Você também tem refletido sobre o distanciamento ou mero afastamento cada vez mais frequente entre os humanos ou isso não está no foco das suas preocupações?

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Pelo quarto ano consecutivo está acontecendo o “Setembro Amarelo”, uma campanha que se iniciou em 2015 lançada pelo Centro de Valorização da Vida, Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria. O objetivo principal da campanha é conscientizar as pessoas sobre a prevenção do suicídio por meio de alertas à população sobre esta prática no Brasil e no mundo. Essas organizações defendem que a melhor forma de prevenir o suicídio é o diálogo e a discussão sobre as causas que geram o problema, o que pode contribuir para a definição adequada das principais medidas a serem tomadas em busca de uma solução para cada caso.

Melhor seria que o tema tivesse a mesma visibilidade que tem durante o “Setembro Amarelo” nos meses seguintes. Mas como toda campanha tem um tempo finito, o jeito é seguir pelejando com os meios disponíveis até se chegar novamente à maior visibilidade na campanha do próximo ano. Infelizmente até lá nos restará persistir no propósito de mostrar em todas as mídias que a não divulgação da ocorrência dos casos de suicídios pouco contribui para a solução desse problema de saúde pública. Mesmo diante do sofrimento, da dor e do luto das pessoas vale lembrar que os fatos não deixam de existir só porque são ignorados e que admitir que um problema existe já é 50% de sua solução.

Uma face triste da invisibilidade do tema “suicídio” é que temos dificuldades de perceber os sinais de alerta dados por quem pensa em tirar a própria vida. Em muitos casos, só identificamos os sinais depois que a morte acontece. O Ministério da Saúde divulgou novos dados sobre o suicídio e também um guia com sinais de alerta para amigos e familiares. Vale a leitura do material.

Outro aspecto que chama atenção é quando se levanta o número de pessoas que são afetadas pelo suicídio de alguém. Existem pesquisas mostrando que esse número em geral varia de 9 a 140 ao se considerar família, parentes, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e irmãos de fé. Muitas terão que lidar com a culpa por não terem percebido os alertas…

Se observarmos as várias possibilidades de causas e maneiras que podem levar alguém à morte – e geralmente todas com algum potencial de publicação em determinadas mídias, inclusive nas redes sociais digitais – não dá mais para esconder o suicídio. Ainda mais quando, de repente, somos confrontados por ele, quando às vezes acontece nas grandes cidades, ou ficamos sabendo de um suicídio de um amigo ou familiar.

Aproveite o “Setembro Amarelo” para se informar mais sobre o tema. E, não custa lembrar, estar disponível para amigos, familiares e nutrir boas conversas e amizades pode dar confiança e abrir caminhos para que os outros nos peçam ajuda. Ou para nos ajudarem, se for o caso.

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A primavera brasileira terá início no próximo sábado e deve nos encontrar cheios de expectativas quanto ao reflorescimento da flora e a beleza das flores que darão o característico colorido da estação. É nela que terá inicio o período chuvoso do Sudeste brasileiro, que deverá se prolongar até o final do verão.

Também será na primavera que acontecerão os dois turnos das eleições de outubro, que estão gerando muitas expectativas, incertezas e variados níveis de esperança e ceticismo para a solução de crônicos problemas brasileiros. Um dos mais citados em prosa e verso mostra que o Estado brasileiro – União, estados e municípios – está simplesmente quebrado. Isso pode ser verificado pelos déficits orçamentários previstos para 2019, como os R$139 bilhões da união, R$6,8 bi do Rio Grande do Sul, R$5,6 bi de Minas Gerais e R$5 bi do Rio de Janeiro. Aliás, nenhum desses déficits começou agora, mas terão que ser enfrentados pelos que serão eleitos no próximo pleito.

Enquanto os brasileiros vão se preocupando de diversas maneiras e intensidades – inclusive com indiferença e alienação – diante das grandes questões do nível macro da política partidária ou não, da economia e do tecido social é importante se verificar como está a situação dos indivíduos e das famílias no micro mundo do cotidiano em que estão vivendo. Se tudo começa com a gente, cabe às pessoas, com o nível de informações e conhecimentos que possuem, também imaginar e projetar suas situações a partir de premissas que poderão dar condições de contorno às suas vidas no próximo ano.

Será que quem está trabalhando atualmente terá a garantia de continuidade ao longo do próximo ano? Se sim, será possível conseguir um reajuste salarial que reponha as perdas inflacionárias medidas pelo IPCA nos 12 últimos meses que antecederão a data-base de sua categoria profissional? Se vier o pior, a falta de trabalho, como poderia ser feito um plano de ação para se atingir a meta de recolocação no mercado em até 6 meses, por exemplo? Será que os novos governantes retomarão as discussões para a reforma da previdência social, solicitando um sacrifício extra de quem recebe acima de dois salários mínimos para combater o déficit da previdência dos servidores públicos e dos empregados da iniciativa privada? Quem trabalha para o poder executivo dos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul já sabe que os seus salários continuarão a ser parcelados no próximo ano, independente dos resultados que os futuros governadores conseguirem no primeiro ano de suas gestões…

Não tenho aqui a pretensão de levantar todas as possibilidades de situações que poderão ocorrer nos próximos meses, mas apenas sugerir que é importante fazer o dever de casa. Inclusive quem está na zona de conforto, para não ser surpreendido pelos cenários que se desenham para o futuro cada vez mais próximo. Acredito que ainda serão predominantes as estratégias de sobrevivência pois quanto pior, pior mesmo. Só se vitimizar depois que as coisas acontecerem não será suficiente. Por isso é preciso ter “um olho no peixe e outro no gato”. Às vezes muitas pessoas são surpreendidas por estarem sabendo e acompanhando tudo que acontece no Brasil e no mundo, mas perdem o foco ao não cuidarem de si mesmas.

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A crise política, econômica e social pela qual está passando a Venezuela colocou em evidência na mídia a cidade de Pacaraima, que fica no norte do estado de Roraima, na divisa com o país vizinho. É por lá que os Venezuelanos estão entrando no Brasil em busca da sobrevivência, de um abrigo que não existe para todos, do combate à fome e da perspectiva de um recomeço em outros lugares pelo Brasil afora. É claro que diante da quantidade de imigrantes chegando – já seriam mais de 30 mil na capital, Boa Vista, segundo a prefeitura municipal – tornou-se inevitável o conflito com brasileiros, como o que aconteceu há três semanas em Pacaraima. E olha que a cidade é apenas um ponto de entrada e de passagem até que se chegue o momento de rumar para Boa Vista e de lá para onde for possível ficar. Vale lembrar, segundo estimativas do IBGE em 2018, que o estado de Roraima tem população de 522.636 habitantes, enquanto Pacaraima tem 12.375 habitantes e Boa Vista 375.374. A energia elétrica usada no estado é comprada da Venezuela, a quem a Eletronorte deve atualmente U$30 milhões pelo fornecimento.

O estopim para confrontos com os venezuelanos pode vir do furto de um bem, como um aparelho de telefone celular, até o roubo em uma casa ou estabelecimento comercial, por exemplo. Há registros de casos de imigrantes que preferiram retornar à Venezuela. Sobreviver é preciso, custe o que custar e das mais variadas formas.

Mapa de parte do Brasil com a cidade de Pacaraima destacada em vermelho. | Fonte: Google Maps

Enquanto isso o finado governo Temer continua batendo cabeças em busca do que fazer com a fronteira diante das razões humanitárias e dos acordos internacionais que abordam o assunto. Nesse instante prevalece a decisão de manter as fronteiras abertas e de direcionar os venezuelanos que estão em abrigos ou vias públicas de Boa Vista para diversos municípios ao longo do país.

Nesse contexto fico imaginando como muitos de nós se comportariam caso morassem em cidades como Pacaraima e Boa Vista. Penso também nas atitudes que seriam tomadas em função da espiritualidade, religiosidade e generosidade por quem prega o sempre falado “coloque-se no lugar do outro”, mesmo na plenitude da luta de classes do regime capitalista.

Fico imaginando também se muitos de nós estivéssemos no papel de refugiados que comportamento teríamos diante de uma situação pessoal e familiar nunca imaginada antes? Isso porque é mais fácil imaginar que as coisas só acontecem com os outros e nunca com a gente. Dá até para lembrar como ficamos perplexos diante de mais de 7 mil pessoas, segundo a prefeitura de Belo Horizonte, sobrevivendo nas vias públicas em frente a edifícios residenciais, comerciais ou simplesmente acampadas em praças ou debaixo de viadutos. Lembro-me também que o Brasil recebeu imigrantes do Haiti, da Síria… Agora uma queda de braços está se dando na Nicarágua, país da América Central que é logo ali, onde uma das causas do impasse foi a proposta de reforma da previdência social, que já foi retirada da pauta pelo Presidente da República cuja renúncia é pedida por parte da população.

Será que estamos realmente preparados para colocar em prática diversas ações por razões humanitárias, logo nós que somos tão preocupados com a ordem, a segurança pessoal, a familiar e do patrimônio?  Em tempos de escassez e de outras configurações para atenuar as muitas desigualdades e os chamamentos para trabalhos voluntários, como ficaria o “farinha pouca meu pirão primeiro”? Será que o baile seguirá com a mesma valsa?

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Os pretendentes a uma das diversas vagas que estarão em disputa no primeiro turno das eleições brasileiras em 7 de outubro já registraram suas candidaturas na Justiça Eleitoral. Agora o calendário eleitoral prossegue sendo cumprido e mostrando que a campanha já começou nas redes sociais e sinalizando que, a partir de 31 de agosto, será a vez de também acontecer nas emissoras de rádio e TV.

Terão grandes destaques os debates entre candidatos à Presidência da República, que se iniciaram em 9 de agosto na TV Bandeirantes, com os candidatos tentando vender nacionalmente os seus programas e projetos estratégicos. Em menor escala, também os candidatos a Governadores dos estados, embora despertem maior interesse estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Pernambuco.

É importante observar o tipo de abordagem que os candidatos estão fazendo sobre os diversos e grandes temas nacionais com seus respectivos impactos nos estados e nos municípios que, em última instância, é onde residem as pessoas. Afinal de contas estamos no momento do jogo eleitoral em que os eleitores devem buscar mais informações e conhecimentos que os ajudem a compreender melhor o momento vivido pelo país e as proposições de quem se dispõe a representá-los em nossa democracia representativa.

Apesar de muitos problemas brasileiros estarem gritando por uma solução mais duradoura e sustentável fico observando que alguns temas já vão sendo abordados tangencialmente como, por exemplo, a reforma da previdência social pública, a reforma fiscal, os aspectos ambientais e o avanço das organizações criminosas pelo país afora. Fico com a sensação de que isso é para não melindrar determinados grupos e não perder seus votos. Nesse sentido é preciso também observar e analisar com bastante atenção as abordagens e proposições daqueles que sabem recitar de cor e salteado o que deve ser feito para resolver os problemas. Mas, além disso, é preciso verificar como eles farão para resolver esses mesmos problemas, a que benefício e custo e, obviamente, com qual dinheiro e de onde ele virá.

Num país em que faltam formuladores de soluções – e mesmo entre os que existem podem ocorrer erros de planejamento – basta lembrar de uma premissa adotada por muitos desses planejadores para o ano de 2018. É só olhar a projeção do crescimento de 3% da economia que embalou o sonho de aumento da arrecadação da União, estados e municípios. Aliás, neles o que se tem garantido é só o aumento de gastos e as tentativas de ampliar o percentual da carga tributária. Nesse momento a projeção de crescimento da economia aponta que 1% pode ser melhor do que 0%.

De novo o grande desafio é conseguir mostrar como fazer para que os resultados aconteçam e encontrar pessoas que queiram e consigam implementar o que precisa ser feito. Por isso mesmo é sempre mais confortável falar só o que deve ser feito. Fiquemos atentos e não nos deixemos enganar. Sinceramente, espero que aumente o percentual de eleitores que já não se deixam enganar por coisas superficiais ou falsas.

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O interfone de minha casa foi acionado por duas vezes, quase que sem intervalo entre uma chamada e outra, denotando uma certa ansiedade de quem estava no portão. Era Dona Penha, de Cachoeiro do Itapemirim, nossa vizinha de duas décadas. Ela veio nos trazer uma notícia que entristeceu a nossa tarde de terça-feira, 31 de julho.  Tratava-se do falecimento da senhora Affonsina Patto Gomes, ou simplesmente e carinhosamente chamada de Dona Cicinha, que estava com 94 anos de idade. Ela veio a óbito no entardecer do domingo anterior, 29/07, 11 anos após a partida de seu marido, o senhor Sebastião Barroso Gomes. O casal teve seis filhos, sendo três meninas conhecidas como as três Marias – Cristina, Tereza e Antonieta – e três meninos – Eurico, Eduardo e Hermínio – que lhes deram 15 netos e 14 bisnetos.

D. Cicinha

Dona Cicinha morou no bairro de Santa Tereza durante 55 anos, dos quais 44 foram na Rua Capitão Procópio a partir de Janeiro de 1963 e os outros 11 na Rua Azurita, após o falecimento do Senhor Barroso. Mesmo sabedor da finitude da vida para cada um de nós, não dá para esconder a surpresa e a tristeza que a notícia trouxe para a minha família e os nossos amigos que com ela conviveram. Vieram à mente saudosas lembranças. Grande amiga e o também amigo senhor Barroso com os quais convivemos nos últimos 10 anos em que moraram na Rua Capitão Procópio, mais precisamente de 1997 a 2007. Não é todo dia que temos a graça de encontrar vizinhos tão bons, de fácil convívio e muito solidários. Dona Cicinha e seu marido eram apaixonados torcedores do Galo (Atlético), mas sempre tiveram um ótimo convívio com os torcedores do Coelho (América) como eu e o Carlos, genro deles casado com a primeira Maria, a Cristina. Dona Cicinha adorava música, as plantas muito bem cuidadas de seu jardim, cozinhava muito bem, sempre nos brindou com um delicioso café em sua casa. Nunca deixou de ter um olhar para o lado social e até pouco tempo atrás era uma exímia costureira em seu trabalho voluntário num grupo do Lions Clube.

Eu poderia narrar aqui muito mais coisas sobre ela e o também criativo senhor Barroso, mas o intuito aqui nesse pequeno espaço é registrar e render uma homenagem à dona Cicinha pelo conjunto de sua obra em vida. Ficará sempre a saudade de uma grande mineira que nasceu em Ribeirão Vermelho, veio para Belo Horizonte aos 7 anos para morar na Rua Salinas, no Bairro da Floresta, foi para Tumiritinga após se casar em 1947, voltou a Belo Horizonte em 1958 para morar novamente no Floresta e finalmente chegar a Santa Tereza em 1963,  no bairro onde um dia tive a honra de conhecê-la.

Entendo que dona Cicinha apenas partiu antes de nós, mas tornou-se uma reluzente estrela nos céus de Santa Tereza, que nos faz lembrar dela sempre com muitas saudades.

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Ruídos e barulhos só aumentam

por Luis Borges 14 de agosto de 2018   Pensata

Os vereadores de Belo Horizonte aprovaram, em primeiro turno, o Projeto de Lei 147/17 que dispõe sobre a proibição da fabricação, comercialização, manuseio, utilização, queima e soltura de fogos de artifício no município. As justificativas para o projeto se baseiam em possíveis danos causados à saúde, segurança e poluição ambiental dentre outros. Provavelmente o tema terá a sua discussão bastante ampliada entre todos os setores interessados na cadeia produtiva, com os mais diversos argumentos a favor, contra ou de pragmática conciliação, típica de quem fica em cima do muro. Partindo da premissa de que ruídos e barulhos são quaisquer sons indesejáveis, desagradáveis e que perturbam, tanto de forma física como psicológica a todos que os percebem em intensidades, frequências e durações, por que não aproveitar a oportunidade para discutir amplamente o mapa acústico da cidade com todos os seus impactos na qualidade de vida de seus habitantes?

Quem quiser refletir um pouco sobre esta proposição só precisa começar a enumerar os ruídos que tornam a cidade cada vez mais barulhenta do início da manhã até altas horas. Poderíamos começar pelo quarteirão da rua em que moramos, onde passam veículos em diversas velocidades, muitas vezes buzinando ou emitindo os sons de seus alarmes quando são trancados ou abertos. Prosseguindo nessa direção é possível se lembrar da música em alto volume do vizinho, dos cachorros que latem incessantemente, dos sistemas de segurança eletrônica de casas e edifícios que disparam frequentemente – e às vezes prosseguem de maneira intermitente até que surja alguém para desligá-los.

Também é interessante se lembrar dos ruídos de um bar com música ao vivo sem proteção acústica, de uma oficina mecânica de médio porte com alvará de funcionamento liberado pela prefeitura em qualquer lugar de um bairro residencial e do carro de som fazendo propaganda de bens e serviços no último volume e muitas vezes estacionado na porta da residência. É duro também morar próximo de templos religiosos de alta performance sonora, à beira da linha onde passam diversas composições do trem de ferro durante a madrugada e de torcedores de futebol que vibram mais com a derrota do rival do que com as vitórias do seu próprio time. E, se surge um conflito com vizinhos, a lei diz que é preciso chamar a Polícia Militar para fazer a mediação, mas se for com um estabelecimento comercial cabe aos agentes do disque-sossego da Prefeitura Municipal entrar em ação, o que nem sempre é possível devido à demanda maior que a capacidade de processo.

O que e como fazer para buscar soluções equilibradas para resolver este problema em função do sempre crescente aumento dos ruídos e barulhos? Será que a Câmara de Vereadores consegue encarar o tema em nome da população que representa? Enquanto isso seguiremos no desconforto e constatando de vez em quando o aumento das perdas auditivas que cada vez mais impactarão as nossas condições funcionais. Só espero que alguém não venha com a tosca frase de que “os incomodados que se retirem”, pois a sociedade que se diz civilizada deve saber falar e saber ouvir na busca de soluções para os seus problemas.

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O butim das coligações

por Luis Borges 6 de agosto de 2018   Pensata

Para quem está acompanhando o andamento do calendário eleitoral, definido pela pequena reforma política de um ano atrás, chegou a hora da definição das candidaturas. Segundo a lei em vigor quem é candidato pode ir às urnas pelo seu próprio partido político ou juntar forças se coligando com outros partidos. Hoje faltam apenas 62 dias para o 1º turno das eleições e encerrou-se ontem o prazo de realização das convenções partidárias, que definiram quem serão os candidatos e se haverá coligações com outros partidos. Todas as candidaturas precisam ser registradas na Justiça Eleitoral até 15 de agosto. Daqui para frente tudo acontecerá muito rapidamente durante os 35 dias de duração da campanha eleitoral explicitada pela lei.

Depois de termos aguentado tantos desejos de postulantes à Presidência da República, se intitulando pré-candidatos para não infringir a lei, vimos o cargo de vice-presidente ganhar mais valor. Candidato a vice também ficou mais difícil de ser encontrado em função das demoradas negociações nos próprios partidos e nas composições com outras legendas. Afinal existem 35 partidos políticos no país que terão que provar o seu valor para enfrentar as cláusulas de barreira previstas na lei eleitoral. Também valem muito nesse mercado eleitoral as 513 vagas de deputados federais que formarão as bancadas dos diversos partidos, pois os recursos públicos do fundo eleitoral para o financiamento das campanhas serão distribuídos em função do tamanho das respectivas bancadas a serem eleitas em 7 de outubro.

Há diversos fatos presentes no noticiário das eleições nas diversas mídias. Muito se fala das coligações partidárias em busca de mais tempo para propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. Também se destacou o fraco desempenho de muitos candidatos à Presidência da República, medido em diversos tipos de pesquisas de intenção de votos. Porém, quero destacar neste espaço a primeira coligação que foi definida. Mais precisamente o destaque é para o comentário do Senador Romero Jucá  (MDB Roraima) diante da coligação para a disputa da Presidência da República feita pelo PSDB com o “Centrão” formado pelo DEM, PP, PR, SD e PRB – aliás sempre acostumados a viver no poder. O Senador disse que:

 “O Centrão é uma manifestação política, o Centrão não tem dono, ali só tem gente esperta”.

Vale lembrar que o Senador do MDB está participando do poder com extrema assiduidade nos últimos 6 períodos de mandatos presidenciais. Será que ele estava pensando sobre o butim que foi acertado entre os partidos caso a coligação que formaram seja a vencedora das eleições presidenciais? Ministérios, empresas estatais, cargos de confiança nomeados por recrutamento amplo (sem concurso)… já foram todos loteados.

Segundo alguns dicionários da língua portuguesa os verbetes mais apropriados para nos ajudar a entender o que é o butim eleitoral podem ser “o que se ganha”, segundo o verbete do Aurélio, ou  “proveito, lucro”, na definição do Houaiss. Como é bom estar e permanecer no poder!

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Em outubro próximo será eleito o futuro Presidente da República. Em seu primeiro ano de mandato ele governará o país com o orçamento guiado pela LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias – aprovada na última quarta-feira.

Essa aprovação é um requisito constitucional a ser cumprido para que os parlamentares do Congresso Nacional possam dar início ao recesso da segunda quinzena do mês de julho. Isso aconteceu num momento caracterizado pelos sintomas da fase terminal do rejeitadíssimo governo Temer, que não conseguirá eleger um sucessor ao mesmo tempo em que a maioria dos parlamentares, inclusive os poucos que sobraram de sua base aliada, estão em busca da reeleição. Afinal de contas permanecer no poder e garantir o foro privilegiado no exercício do mandato não é nada desprezível. Entretanto conseguir votos com a imagem altamente desgastada dos políticos e de seus partidos exige que se mostre muito compromisso e resultados aos eleitores.

É nesse desespero final que a LDO e outros projetos de leis em tramitação formam uma verdadeira “pauta bomba” ao criar novos gastos, renunciar a receitas e prever aumentos salariais para o funcionalismo público federal. Mas de onde virá o dinheiro para bancar tudo isso num orçamento que começará com um déficit de R$139 bilhões? A equipe econômica do governo federal já disse que a LDO aprovada exigirá mais R$100 bilhões além do previsto e que esse montante será obtido por aumento na arrecadação (novos tributos?) e corte de gastos (serviços a prestar ou mordomias?), ao mesmo tempo em que a economia se recupera muito lentamente da recessão econômica enquanto avança a guerra comercial global. Seria possível sonhar com algum nível de compromisso dos políticos partidários com a população brasileira de janeiro em diante ou prevalecerá cada um cuidando apenas de si no melhor estilo do “farinha pouca, meu pirão primeiro”?

A título de ilustração quero citar aqui alguns efeitos de um projeto da “pauta bomba” desse fim de festa caso o Congresso Nacional aprove a flexibilização da lei que rege a criação de novos municípios a partir de localidades que tenham população de 5 a 8 mil habitantes. Nessas condições existem 300 localidades com o potencial de gerar 300 novos prefeitos e vices, 2700 vereadores, no mínimo 1500 novos secretários de educação, saúde, obras, finanças, planejamento e um tremendo dimensionamento do quadro permanente de servidores municipais além dos de recrutamento amplo. É claro que todos contarão com a transferência obrigatória de recursos financeiros da União e estados para que possam garantir sua sustentação.

Até quando vai dar para segurar essas ondas ainda que as pessoas fiquem oscilando da indignação à apatia?

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Nesses tempos mais recentes, que estão sendo regidos pelo princípio da incerteza, tenho conversado com algumas pessoas próximas e mais presentes no meu cotidiano sobre o significado da amizade. De um lado surgem as expectativas em relação a quem consideramos amigos e, de outro, contabilizamos as percepções que temos das práticas em relação ao que consideramos amizade. A constatação inexorável é de que existe uma enorme distância entre a intenção e o gesto, embora haja a esperança de que, em algum momento, um sinal ainda vá ser dado. Mas se isso acaba não acontecendo fica mais fácil e realista constatar e exclamar como está difícil ter e manter amigos.

Acaba sendo consenso que temos poucos amigos participativos, aqueles sempre presentes em momentos essenciais em nossas vidas. A quantidade deles é menor que a dos dedos de nossas mãos, embora sejam de muita qualidade. Eles conseguem, inclusive, saber falar e também ouvir de maneira respeitosa e construtivista, sem obsessão pela propriedade da verdade.

Por outro lado também é consenso que os amigos representativos são a maior parte. São aqueles que não tem tempo nem foco para um convívio mais frequente. Os contatos com esses amigos acontecem principalmente em reencontros mais amplos, onde prevalecem cumprimentos efusivos seguidos de conversas eufóricas e rápidas, com a proposição de um novo encontro brevemente. As ocasiões podem se dar num encontro de colegas de uma escola na qual se formaram no mesmo ano, no casamento de um filho, na posse de alguém num cargo de relevância e poder, nos velórios de amigos ou familiares…

Talvez valha a pena até fazer uma analogia da amizade com a democracia, pois esta também possui a modalidade participativa – mais rara – e a representativa, a predominante. Nesse caso basta-nos a lembrança daqueles candidatos de partidos políticos que só nos procuram ou nos acessam em tempos de eleições…

Não raro, as conversas sobre amizade terminam em tentativas de entender as causas para que os amigos participativos estejam cada vez mais escassos. Com esses amigos com quem converso, tento encontrar formas e medidas pra ajudar cada um a polir suas amizades. Só que, é claro, não é fácil chegar a um generoso consenso nem colocar em prática as medidas sugeridas. Mesmo que em nome da amizade.

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