Cobradores de mão única

por Luis Borges 21 de abril de 2019   Pensata

Tenho ouvido com frequência cada vez maior, em conversas com indivíduos ou pequenos grupos deles, referências sobre “pessoas cobradoras”. Elas têm como principais características uma enorme capacidade de questionar, às vezes em tom bastante agressivo, opiniões e pensamentos de seus interlocutores e uma enorme incapacidade de ouvir de maneira respeitosa a opinião do outro lado, discordante ou não. O jeitão é o de um imperial proprietário da verdade, cheio de achismos, nada preocupado com as evidências deixadas por seus atos falhos e lançando mão inclusive de fake news na tentativa obsessiva de fazer prevalecer o que pensa. A convicção é a de que os meios justificam os fins. É possível identificar esse tipo de comportamento em todos os segmentos da sociedade, tanto nos organizados quanto desorganizados, e também entre colegas, amigos, familiares, conhecidos…

Como o tema sempre desperta o interesse de muitos participantes dessas conversas geralmente sugiro que cada um que quiser narre fatos presenciados ou vividos e também as principais características dos “cobradores” que tem enfrentado. É bastante claro para a maior parte dos participantes que os “cobradores” só sabem falar, o que fazem de forma muito excitada. São também ansiosos, arrogantes e intolerantes e tem pouca disposição para ouvir qualquer réplica e muito menos tréplica. A percepção que fica é a da grande vontade que eles têm de estar sempre na ofensiva para sequer dar tempo aos outros de cobrar alguma coisa, mesmo porque não é da natureza deles se comprometer com respostas e questionamentos.

Para ilustrar o convívio com “cobradores” vou narrar rapidamente 2 situações em que a mão única predominou no ambiente familiar. Recentemente foi dia do aniversário de nascimento de um eminente “cobrador” que ficou na expectativa de ser cumprimentado pela maior parte dos familiares. No início da noite ele abriu o bico dizendo à esposa que as pessoas não estavam se lembrando de seu aniversário e ela lhe respondeu perguntando se, por acaso, ele tinha se lembrado dos outros em ocasiões semelhantes. É claro que ele ficou mudo em sua arrogância e falta de memória.

Numa outra situação o “cobrador” enviou uma mensagem de WhatsApp no grupo da família e ficou observando quem leu. Percebeu após algum tempo que muitos sequer olharam e os que assim o fizeram nada comentaram. Então o “cobrador” começou a cutucar daqui e dali, até chegou a telefonar para alguns membros cobrando porque não abriram a mensagem e aos que o fizeram por que nada comentaram. É claro que ele ainda não percebeu que seu índice de rejeição é muito alto, pois ele persiste em ser um “cobrador” de mão única, que também não dá retorno a ninguém.

Imagino que você, caro leitor, já tenha passado ou passe por diversas situações em que precisa conviver com os “cobradores de mão única”. Como você tem se posicionado em relação a eles? Em tempo: caso você se reconheça como um “cobrador de mão única”, é possível ou desejável fazer alguma coisa para modificar o seu modo de ser caso ele não esteja cristalizado?

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Nesses tempos em que a reforma da Previdência Social virou um mantra cansativo corremos o risco de chegar à exaustão sem conhecer o assunto mais profundamente. A excessiva – e também ameaçadora –  badalação nas mídias vai, de maneira geral, nos levando a uma situação em que muitos dirão ou pedirão que se vote logo essa coisa.

Enquanto passa o tempo as preocupações só aumentam com o futuro incerto que se aproxima a cada dia. No trabalho do setor público ou privado o assunto aposentadoria surge a qualquer momento a partir daqueles que estão em condições de se aposentar ou só estão esperando o momento da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que começou a ser discutida pelo Congresso Nacional. Existem também quem precise de alguns anos pra ficar “livre” do trabalho, mas que falam o tempo todo sobre simulações do tempo de transição até a chegada da hora derradeira. Obviamente que existe uma grande parte de pessoas na faixa dos 30 aos 39 anos que entram nas conversas dizendo que só sabem que terão de trabalhar até o fim da vida.

As conversas ficam mais animadas e acaloradas quando vaza ou circula oficialmente a informação sobre a aposentadoria do chefe de um setor de trabalho, um departamento ou divisão da estrutura organizacional. O clima fica muito alterado diante das especulações sobre a sucessão do colega e até mesmo se aquela “caixinha” continuará existindo ou se será anexada a uma outra para reduzir custos. Entra também no clima a fala de  muitas pessoas sobre o chefe e suas principais características que marcaram o tempo trabalhando juntos. Nessa hora ouve-se de tudo e algumas falas surpreendem pela hipocrisia. Elas vem daqueles que sempre “torraram” o chefe falando mal dele, do seu medo de ousar, de tomar decisões ou de enfrentar o diretor com seus caprichos pouco focados no negócio da organização. Esse é o típico caso em que alguém que era muito criticado em vida no trabalho que vira santo após a morte ou a aposentadoria.

Realista é a reação da maior parte dos colegas registrando que cada um deve cumprir o seu papel no processo de trabalho em busca dos resultados positivos e que alguns níveis hierárquicos são necessários para a gestão do negócio. Para esses, o que fica do colega são as lembranças do convívio profissional respeitoso e civilizado nos momentos fáceis e difíceis do dia-a-dia de trabalho e das conversas mais descontraídas nas festas de aniversariantes do mês ou do final do ano. Inegavelmente os que mais sentirão a falta do chefe aposentado serão aqueles dois ou três favoritos que sempre davam um jeito de aparecer em sua sala para falar de seus próprios feitos no trabalho em busca de reconhecimento permanente e também para comentar alguma coisa sobre os demais colegas.

Como se vê a produtividade saudável e necessária vai ficando para trás embalada pelos vários “se acontecer isso, se acontecer aquilo” que a discussão da reforma da Previdência Social suscita.

E você, caro leitor que ainda não se aposentou, como tem sido seu convívio com essas questões no trabalho? Seu chefe receberá uma mensagem de aniversário pelo WhatsApp?

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Não sei se acontece ou se já aconteceu com você. Sabe aquele ou aqueles dias em que você amanhece todo animado, cheio de planos mentais carregados de expectativas sobre o que precisará ser feito até o início da noite? Após o crepúsculo que percepção fica em relação aos planos do início do dia? A percepção mais imediata é que quase nada aconteceu e o sentimento de frustração predomina trazendo uma sensação de imensa improdutividade e grande cansaço. E daí? O que fazer diante da constatação de que o tempo de mais um dia escapuliu entre os dedos? A situação se agrava mais para aqueles que sempre falam que “tempo é dinheiro” ou que vão fazer certas coisas quando se aposentarem.

Uma alternativa poderia ser a realização de uma autoavaliação sobre as causas que levaram a um resultado tão insatisfatório no final do dia. Para fazer isso será necessário romper a barreira cultural que nos impede – a maioria, pelo menos – de encarar de frente uma avaliação de desempenho em qualquer processo que faça parte do nosso modo de viver.

Quais são as principais causas de um resultado indesejável? Podemos começar por aquelas que só dependem de nós mesmos e sobre as quais temos autoridade para remover. Depois podemos verificar as demais causas e sobre as quais não temos autoridade e cuja solução depende da cooperação de outras partes envolvidas. Vamos pensar num exemplo genérico, um dia de alguém que foi para o trabalho logo pela manhã e pegou trânsito engarrafado como todos os dias no mesmo horário. Vale também lembrar que geralmente nosso personagem sai de casa em cima da hora, bem no limite, e qualquer obstáculo significará atraso garantido. Se o atraso for de meia hora é possível ouvir de seu chefe que ficou lhe esperando para começar a reunião, aliás, bastante improdutiva e garantidora de perda de tempo na maioria das vezes. Vamos imaginar que lá pelas 10h a bendita reunião chegue ao fim e o nosso personagem tenha que formular uma proposta técnica e comercial de prestação de serviços a um novo cliente que deve ser entregue até às 18h30. Antes de focar na proposta ainda é preciso conferir o e-mail, o WhatsApp, o Twitter… e até atender um insistente telefonema de seu superintendente. Assim sendo dá até para imaginar contar quantas vezes o trabalho poderá ser interrompido enquanto o dia cresce e qual tempo que se gasta para retomar a concentração no que estava sendo feito. De repente ainda faltam informações para fundamentar a proposta, novas buscas devem ser feitas e acaba chegando a hora do almoço que é uma parada obrigatória. Uma hora depois é o momento de recomeçar. Antes, porém, pode ser preciso dar uma boa tarde a 5 insistentes grupos de WhatsApp, além de conferir o Twitter e combater a vontade de dar uma tuitada, por exemplo. E pode acontecer tanta coisa na sequência, desde os dados que demoram a chegar até uma solicitação ansiosa e prioritária de um diretor que quer tudo pronto até às 17h30. Enquanto isso a proposta que precisava ficar pronta já dá sinais de que não será possível acontecer e o WhatsApp continua sinalizando que o cliente esta ansioso pela sua chegada. Como a política da empresa não permite que se faça hora extra o jeito é deixar a conclusão do trabalho para a manhã do dia seguinte e avisar ao cliente que, infelizmente, não deu para cumprir o prazo combinado pedindo todas as desculpas pelo ocorrido.

O que mostrei aqui é uma pequena amostra de causas que podem levar a uma perda de tempo muito maior do que imaginamos e cujas consequências podem nos afetar de diversas maneiras, inclusive na perda de clientes ou mesmo da saúde.

E você, caro leitor, tem conseguido perceber as causas que te levam a perder tempo, pelo menos aquelas que dependem só de você para remover? Ou então o jeito será constatar que não deu para fazer quase nada no dia…

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Faz tempo que a Reforma da Previdência Social entrou na pauta brasileira, mais precisamente a partir do lançamento do Plano Real, em 1994. De lá para cá vieram o fator previdenciário do INSS, para desestimular aposentadorias precoces, os novos servidores públicos federais ficaram sem a garantia de se aposentar pela última remuneração integral a partir do final de 2003 e os que entraram no serviço a partir de 2013 passaram a seguir o teto máximo das aposentadorias do INSS. Nesse caso, o valor acima do teto passou a ser complementado por um fundo de previdência caso o servidor queira contribuir para a sua formação.

Vieram também o recuo da economia em 2013/2014, a forte recessão econômica de 2015/2016, a pífia retomada do crescimento em 2017/2018, o impacto direto na arrecadação do INSS causado pelo desemprego ainda persistente de 13 milhões de pessoas e a desoneração da folha salarial para efeitos da contribuição previdenciária patronal. Vale também lembrar que o INSS tem esse nome desde de 1990 e seu déficit começou a se formar a partir de 1997. O fato é que os gastos continuam crescendo em valores reais e a arrecadação obviamente não consegue acompanhá-los em função da ruindade da economia e também da gestão.

Enquanto isso os servidores públicos federais – com as exceções citadas anteriormente – estaduais e municipais prosseguiram recebendo seus proventos conforme os direitos adquiridos, independente da queda da arrecadação de tributos e do aumento real de gastos. Se o modelo é sustentável ou não, isso é outra história que pode começar com a informação a seguir. A Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO do Governo Federal para 2019 mostra que, em 2017 a aposentadoria média dos servidores do Poder Legislativo Federal ficou em torno de R$26,8 mil, a do Judiciário R$18 mil, a do Ministério Público R$14,7 mil e a do Poder executivo em R$8,5 mil.

Estamos quase chegando aos 25 anos de vigência do Plano Real e prosseguindo com as discussões sobre a Reforma da Previdência, o equilíbrio das contas públicas, o fim de privilégios, o teto de aposentadoria do INSS válido para os trabalhadores da iniciativa privada e do setor público… Acontece que a proposta de reforma enviada pelo Governo Federal ao Congresso Nacional deixou de fora os servidores militares, o que contraria a premissa básica inicial de que a reforma será para todos os servidores públicos. A saída para o Governo foi anunciar que a previdência dos militares seria tratada num Projeto de Lei para tramitar juntamente com a Proposta de Emenda Constitucional – PEC dos demais trabalhadores. Novamente o Ministério da Economia perdeu o foco ao acrescentar no Projeto de Lei uma reestruturação da carreira dos servidores militares no melhor estilo dos “jabutis” colocados nas medidas provisórias.

Nessa toada, a tão necessária Reforma da Previdência, cantada e decantada em prosa e verso pela sua urgência, acaba aumentando o seu nível de patinação diante de um pleito totalmente inoportuno. Como a estratégia faz falta num momento como esse! Nesse vai da valsa quanto tempo mais será necessário para que se chegue a uma solução consistente e defensável?

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Temas ligados à saúde das pessoas ao longo do curso de vida tem a capacidade de gerar discussões familiares acaloradas, opiniões incisivas e o uso de muitas informações, por exemplo, da internet, que podem estar corretas ou não.

Também são comuns nessas ocasiões a defesa de cada argumentação citando que caso parecido aconteceu com algum conhecido que ficou bem ou lembrando o caso do pai de um colega de trabalho que acabou falecendo, por exemplo. Mas considerando que cada caso é um caso fica difícil embarcar nessas discussões em que a emoção prevalece.

Aqui vale lembrar que o conhecimento advém de fundamentos e conceitos que dão suporte às técnicas e métodos que, se aplicados adequadamente, podem levar a resultados significativos, inclusive nas questões ligadas à saúde.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades. Como se vê, estamos longe da excelência.

Muitas são as dificuldades enfrentadas por quem precisa resolver um problema ligado à saúde tanto na rede pública quanto na maior parte dos planos privados de saúde suplementar com seus limites técnicos. E o que fazer quando os especialistas divergem em seus diagnósticos e prognósticos?

Ilustra bem a situação o que está acontecendo com uma senhora de 87 anos de idade, viúva, lúcida, com dificuldades motoras e cliente de um plano de saúde de ampla cobertura com reajustes anuais acima de 20% nos últimos 3 anos. Ela tem uma família grande e mora em sua própria residência onde tem o suporte de uma empregada doméstica ao longo do dia e de cuidadoras de idosos todas as noites e nos finais de semana.

Acontece que as condições funcionais vão piorando com o avanço da idade e com ela não é diferente, mesmo com todos os cuidados. É o metabolismo que desafia, a tireoide que ajuda no desânimo, os rins brigando com a creatinina, a memória que se enfraquece ou a pressão arterial subindo e descendo tal qual um iô-iô enquanto o coração vira uma palpitação só. No momento, o que mais esta pegando para a idosa é que os especialistas que cuidam dela não estão se entendendo sobre a medida da pressão arterial mais adequada para o seu caso. O geriatra diz que a pressão arterial é aceitável até 16×9 em função da idade, mas com o uso continuo de uma combinação de medicamentos apropriados. Entretanto solicitou o acompanhamento de um cardiologista que, com alguma relutância, acabou concordando com a medida prescrita pelo geriatra. Mas como este também pediu o acompanhamento de um nefrologista e um endocrinologista, os dois propuseram uma meta de pressão arterial a 12×8 e uma ortodoxa dieta, restringindo a quantidade de alimentos ricos em carboidratos e proteínas. O endocrinologista esqueceu-se das dificuldades motoras e chegou a prescrever caminhadas.

Como fazer para combinar tudo isso, os especialistas ainda não disseram. Enquanto isso, a família tenta chegar a um consenso sobre como agir e a idosa manifesta cansaço, além de pouca empatia com o nefrologista e o endocrinologista.

Você já passou por uma situação semelhante? Se sim, qual foi a solução encontrada?

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20% do ano já foi embora

por Luis Borges 10 de março de 2019   Pensata

O tempo caminha, indelével como sempre em seu soberano escoar, deixando para muitos a sensação de perda por não terem feito o que deveriam fazer. Uma rápida olhada no calendário gregoriano nos mostra que 20% do ano de 2019 já ficou para trás e, como sabemos, águas passadas não movem moinhos.

Qual é o resultado efetivo desse período, se é que houve um planejamento estratégico que faça jus ao nome? Como todos deveríamos saber “quem não tem estratégia está condenado à morte”. Isso vale para governos, empresas, famílias e pessoas em seus diversos modos de interação social.

Se olharmos para o caso dos governantes e parlamentares eleitos em outubro passado veremos que a maior parte de suas propostas ficou no campo das generalidades e que muitos governantes eleitos ainda permanecem repetindo bordões das campanhas eleitorais. Nesse sentido e em função dos fatos e dados disponíveis, inclusive com tentativas de explicar declarações mal ajambradas ou simplesmente desviar a atenção sobre acontecimentos nada ilibados, fico com a nítida sensação de que muitos são aqueles que estão perdidos no espaço. E aí vale lembrar Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C – 65 d.C) ao dizer que “não existe vento favorável a quem não sabe onde deseja ir”. Também é importante saber que os atos impulsivos caminham na contramão da estratégia, caso ela exista.

Enquanto escrevo o tempo continua passando. Uma grande festa da cultura brasileira que é o Carnaval já acabou e estamos na quaresma, rumando para o Domingo de Ramos e à Semana Santa, que ensejará mais uma semana de folga para os brasileiros que tem esse direito adquirido. Também pudera, os Poderes da República são independentes e harmoniosos para sempre gerar o necessário equilíbrio previsto constitucionalmente.

Partindo do meu modo realista e esperançoso de ser e consciente de que nada é tão ruim que não possa ser piorado, ainda fico na expectativa de que ainda haja um espaço para trabalhar com um sistema estratégico de gestão, com absoluta transparência, sem espaço para as fake news. Ainda que a política e a economia tenham uma relação bi unívoca em seus fazeres, não dá para continuar crescendo a 1,1% ao ano e muito menos fazer da Reforma da Previdência Social um mantra para resolver todas as causas dos problemas advindos do desequilíbrio das contas públicas. Muito menos ainda estabelecer metas malucas para resolver estes mesmos problemas crônicos da União, estados e municípios.

Enquanto o tempo continua passando os novos governantes e parlamentares prosseguem queimando o capital político que amealharam há 5 meses e que se reduz rapidamente diante da falta de resultados. Que o digam os 12,7 milhões de desempregados, os 4,7 milhões de desalentados, todas as vítimas da tragédia do rompimento da barragem da mina da Vale em Brumadinho(MG) e as demais vítimas retiradas das proximidades de outras barragens com risco de ruptura.

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No anonimato de tragédias caseiras

por Luis Borges 26 de fevereiro de 2019   Pensata

Passados 30 dias da tragédia causada pela ruptura da barragem de rejeitos da mina de Córrego do Feijão, pertencente à Vale no município de Brumadinho-MG, vão ficando claras as causas que geraram o acontecimento e as trágicas consequências para as pessoas que agora lutam para sobreviver numa correlação de forças muito desfavorável. Tudo nos choca, assusta e revolta quando nos colocamos no lugar das vítimas diretas no estrago enorme deixado para a comunidade e a natureza.

Partindo dessa percepção meu ponto aqui é propor uma observação e análise sobre as condições em que nós e nossas famílias estamos vivendo cotidianamente em nossos lares, nos aspectos ligados à tecnologia, segurança e manutenção das instalações e bens que utilizamos. Frequentemente ficamos sabendo de alguma tragédia anônima que aconteceu com alguém de nossa rede ou bolha, vizinhos, isso sem esquecer do que acontece também  em nossos próprios lares cujo porte varia em média na faixa de 40m² a 120m². Já as consequências sobram para cada indivíduo ou grupo familiar, por exemplo, e são cada vez mais difíceis de serem terceirizadas para o Estado e seus governantes ou a uma entidade filantrópica do terceiro setor.

De repente alguém pisou em falso na escada sem corrimão, o corpo se estatelou no chão e a sequela gerou mais um paraplégico. Se pensarmos nas pessoas idosas dá para lembrar que existem levantamentos mostrando que cerca de 70% de suas quedas acontecem dentro de casa. E quais são as causas? Pode ser um escorregão no tapete colocado na entrada da sala sobre o piso bem encerado e brilhante. Pode ser também um tropeção oriundo de uma gambiarra que gerou um emaranhado de fios e cabos espalhados em meio a uma quantidade de móveis entupindo os espaços. Vale lembrar também a queda de uma senhora de 65 anos que subiu numa cadeira para abrir um armário instalado próximo ao teto de sua cozinha. Ela se desequilibrou e caiu batendo a cabeça no piso. Após um semana na no hospital veio a óbito. Também tem o caso de um pequeno edifício de três andares com dois apartamentos por andar, inaugurado há um ano, que teve seu telhado arrancado numa dessas fortes chuvas com ventos de até 50km/h e que levou junto as placas do sistema de aquecimento solar. Faltou qualidade no projeto, na especificação dos materiais, na construção do edifício ou um pouco de tudo? O que dizer de outro edifício de pequeno porte em que a falta de manutenção do telhado impediu que fossem vistas as folhas entupindo as calhas e o resultado foi a água descendo pelas lajes e paredes dos apartamentos de cima abaixo? Para completar um raio caiu numa casa sem pára-raios e por onde passou deixou uma série de equipamentos danificados. Ainda bem que ninguém estava lá dentro naquele momento.

É claro que cada leitor pode se lembrar de inúmeros exemplos ilustrativos do quanto que ainda é frágil a nossa cultura no que tange a dar prioridade máxima aos aspectos de segurança, que a manutenção preventiva e preditiva tem que ser gerenciada continuamente e que tecnologias baratas não resistem a uma análise mínima de benefício e custo.

E a gente vai levando e pagando o pato no anonimato da tragédia pessoal e familiar com dinheiro curto, pouco chão para dar firmeza, tristeza, angústia e a certeza de que sobrou para cada um dos envolvidos encontrar forças para dar a volta por cima. É cada um carregando a sua própria tragédia com a dimensão e o significado que ela traz.

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Chefe de gabinete e sucessora?

por Luis Borges 24 de fevereiro de 2019   Pensata

Passados quatro meses das últimas eleições e quase dois meses da posse dos governadores e Presidente eleitos, as articulações políticas já miram as eleições para prefeitos e vereadores no ano que vem. Faltam apenas 19 meses, que passarão rapidamente. Tudo será feito pela vitória, não importa como, pois “o feio é perder as eleições”. Propostas para resolver problemas podem ser abordadas genericamente, pois dependerão dos recursos que estarão disponíveis.

Um caso que ilustra bem essa movimentação está acontecendo num município de aproximadamente 45 mil habitantes na região central de Minas, que tem orçamento de R$198 milhões para 2019. Lá o atual prefeito está no segundo mandato, tendo sido eleito por uma coligação de sete partidos que o apoiam incondicionalmente, inclusive com uma bancada majoritária na Câmara de Vereadores.

Ao longo desses seis anos de poder municipal começaram a surgir nomes de possíveis sucessores do alcaide do município, a começar pelo seu vice-prefeito, que é de outro partido da base aliada. O que muita gente demorou a perceber foi a crescente desenvoltura da chefe de gabinete do prefeito, notadamente a partir do segundo mandato. No primeiro mandato ela era uma espécie de executiva, colocando a gestão em movimento onde o “sim” era dado pelo prefeito e o “não” ficava para ela.

Obtida a reeleição com folga tudo mudou e o foco da chefe de gabinete passou a ser a sua própria eleição no próximo pleito. Cercou o prefeito de tal forma que quase ninguém consegue falar com ele sem que ela esteja presente. Colocou a mão no orçamento anual da prefeitura onde o pouco que sobrou para investimentos passa pelo seu crivo na definição do que é prioritário para ser feito. É óbvio que ela está de olho nos dividendos eleitorais, tendo inclusive virado uma “seda” com os vereadores da base aliada e jamais fala não, no máximo um “bem, vejamos o que é possível fazer”. Para completar aumenta a cada dia suas amplas articulações ao mesmo tempo em que tenta minar de todas as maneiras o desejo do vice-prefeito, seu adversário mais direto na coligação partidária.

Por outro lado começam a crescer nos bastidores variadas críticas ao estilo da chefe de gabinete cada vez mais intempestiva e ansiosa para assegurar o atingimento de seu objetivo estratégico. Seus atos mais obsessivos têm sido classificados como burrice estratégica por alguns membros importantes dos partidos políticos aliados do prefeito. Este, por sua vez, parece altivo e soberano na observação da cena política, deixando que sua chefe de gabinete vá se desgastando naturalmente nesse início de processo enquanto ainda não é chegada a hora “da onça beber água”, conforme aprendeu ao longo de sua trajetória político-partidária.

Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos sabedores de que “nada existe em caráter permanente a não ser a mudança”, ainda mais na política partidária que só foca no poder.

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Aberto para balanço

por Luis Borges 17 de fevereiro de 2019   Pensata

Conversando com algumas pessoas mais presentes em meu cotidiano tenho falado que em muitos momentos fico também “nas nuvens” – mais naquelas mutantes lá do alto e menos nas da neblina que se forma perto do solo. Na prática, estou sempre aberto para a observação e análise de variados fenômenos e dos processos que os geram.

Mesmo que às vezes um ou outro tema possa se repetir e desafiar a paciência de algum interlocutor, os resultados alcançados incentivam a continuidade da troca de expectativas e percepções.

Neste início de ano, notadamente a partir de 25 de janeiro, têm sido praticamente obrigatórias as conversas em busca de uma melhor compreensão das causas de tantas mortes envolvendo quatro dos principais elementos presentes na natureza – terra, fogo, ar e água. A ruptura de mais uma barragem de rejeitos de minério de ferro da Vale, o incêndio no Ninho do Urubu – Centro de Treinamento do Flamengo, o fortíssimo temporal que caiu no Rio de Janeiro com ventos de até 110 km/h e a queda do helicóptero em que estava o jornalista Ricardo Boechat sacodem a pauta formada por sucessivas tragédias em curtíssimo espaço de tempo.

Fico imaginando como estão as pessoas que perderam familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos… de maneira tão abrupta e inesperada. Prossigo imaginando como estariam as coisas se eu ou alguém próximo de mim estivéssemos na mesma situação de quem ficou chorando a perda daqueles que partiram. Seria hora de questionar o sentido da vida, mesmo sabendo que a vida termina com a morte, instante em que o espírito deixa o corpo? Ou seria a hora de, cada um a seu modo e segundo suas convicções, se esforçar para elaborar a perda num processo que passa pelo choro, dor, luto, saudades e recordações, por exemplo?

Quando nada esta também pode ser uma oportunidade para fazer uma autoavaliação do curso da vida que estamos vivendo, com as escolhas que sempre temos que fazer gerando acertos, erros e consequências. Tudo isso com a consciência de que a vida tem sua finitude, que o tempo escoa indelevelmente e que podemos chegar ao final da reta ou da curva a qualquer momento. Simples assim.

Enquanto isso acredito que só nos resta caminhar, seguir em frente, apesar das tristezas de determinados momentos, mas sempre com os motivos para a ação que vem de dentro de cada um de nós, ainda que falar sobre a morte seja um tabu para muita gente.

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Esperando a próxima tragédia

por Luis Borges 4 de fevereiro de 2019   Pensata

Já se passaram onze dias do rompimento de mais uma barragem de rejeitos de minério de ferro construída por alteamento a montante na mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), pertencente à Vale Sociedade Anônima. Fico pensando sobre a avalanche de fatos, dados, informações e até conhecimentos consolidados que estão sendo difundidos por diversas mídias. É inquestionável a dimensão da tragédia humana em todos os seus aspectos, a começar pela dor trazida pela morte de quase 400 pessoas das quais ainda falta encontrar a maior parte dos corpos. Para quem mora num dos 34 municípios da região metropolitana de Belo Horizonte, como eu por exemplo, fica a sensação que tudo aconteceu muito pertinho de nós, logo ali a 5, 10 ou 20 km de onde moramos, trabalhamos ou frequentamos em busca de lazer. Também fica uma pergunta passeando pela mente, que vai e voltam querendo saber ou imaginar como estariam as coisas se eu, nós ou um de nossos parentes ou amigos estivéssemos lá no local onde aconteceu o acontecido.

Passaram-se apenas 11 dias, mas o que aguarda os envolvidos direta e indiretamente na tragédia nos próximos dias, meses e anos? Se tudo começa com a gente e a desgraça é individual dá para imaginar a ordem de grandeza das perdas de cada parte e do todo, chamado sociedade, com seus diferentes grupos de interesse vivendo num país típico do capitalismo tardio?

Em meio a tanta inquietação e na plenitude do veranico que retarda o sono só aumenta a entropia trazida pela lama que desceu da barragem. Mas, se quanto maior a entropia mais próximos estaremos da solução para o problema, é preciso também saber se existe um querer que implique na busca de uma solução que leve em conta todos os interessados, e não apenas parte deles, segundo as melhores práticas em prol da sustentabilidade em todas as suas dimensões.

Como isso ainda é só um ideal, quase que uma utopia, dá para entender porque a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Basta lembrar que uma barragem de rejeitos de minério de ferro com alteamento a montante se rompeu há pouco mais de três anos em Mariana e quase nada mudou de lá para cá. No momento estamos passando por um grande brainstorming, tentando encontrar as causas fundamentais e prioritárias que levaram a esse efeito tão trágico. Da ganância dos donos da Vale –  focados na máxima lucratividade para seus investimentos – passando pelas ações e omissões do estado e seus agentes e chegando-se até as condições em que se realiza o trabalho na mineração, diversas são as causas que tem surgido nas discussões sobre essa tragédia de Brumadinho.

É importante lembrar que um dos donos da Vale é a Litel Participações com, 20,98% das ações. A Litel é formada pelos fundos de pensão dos empregados do Banco do Brasil (Previ), da Caixa Econômica Federal (Funcef), da Petrobras (Petros) e da Cesp (Funcesp). Entre outros acionistas da Vale estão o BNDESPar e o Bradespar além de ações comercializadas em bolsas de valores.

Enquanto isso fico me perguntando se serão necessários mais três anos para que se removam as causas da atual tragédia e também penso no que poderá ser feito para desativar as bombas relógio instaladas em barragens de municípios como Rio Acima, Nova Lima, Itabirito, Congonhas e Itabira, por exemplo. Afinal de contas depois de “Mariana nunca mais” chegou a vez de “Brumadinho nunca mais”. Será que haverá um próximo nunca mais?

Parafraseando o educador Paulo Freire “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento a tua fala seja a tua prática.” A necessária transformação que o momento aponta continua desafiando a todos e a cada um nas partes que lhes cabem nesses tempos liberais.

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