Só resta a outra metade do ano

por Luis Borges 30 de junho de 2019   Pensata

Os primeiros seis meses do ano já se foram, deixando no rastro um legado de incertezas e desconfianças que não nos ajuda a saber com alguma clareza para onde vamos. Mas ainda assim é preciso parar ligeiramente, mesmo que no ar, para avaliarmos nossas percepções em relação às expectativas até então existentes para o semestre que está se findando.

Isso deve ser feito para os mandatos do Presidente da República e dos Governadores dos estados, eleitos em outubro do ano passado, com a certeza de que quanto mais o tempo avança fica mais difícil de encontrar culpados para justificar o não encaminhamento de soluções sustentáveis para resolver os problemas crônicos existentes. Tenho a sensação de que o tempo continua passando indelevelmente, como é da sua natureza, enquanto os eleitos ainda não conseguiram mostrar a que vieram e que planejamento estratégico formularam para nortear seus mandatos. Não basta dizer que foram eleitos pelas urnas, como se isso fosse um passaporte automático para ficarem sentados na cadeira até o último dia do mandato fazendo o que dá na cabeça.

Podemos e devemos estabelecer parâmetros para avaliar e medir o desempenho dos governantes, que devem gerenciar pela liderança e não pelo comando. É claro que todos precisam ter uma capacitada equipe de assessores para trabalhar na formulação consistente de suas propostas, sem revogar a lei da gravidade e com o devido respeito à Constituição do país e dos estados.

Só para ilustrar a importância da avaliação de desempenho para impulsionar a busca da melhoria contínua vou citar aqui uma pesquisa de opinião sobre a atuação Governo Federal feita pelo Ibope para atender uma encomenda da Confederação Nacional da Indústria (CNI) cujos resultados foram divulgados no dia 27 de junho. Por mais que se fale e se questione resultados de pesquisas dessa natureza é forçoso reconhecer que eles trazem parâmetros que podem ajudar a melhor compreender a distância entre o sucesso e o fracasso na visão dos participantes da amostragem feita. Nessa pesquisa, realizada entre os dias 20 e 23 de junho com 2.000 pessoas em 126 municípios, o governo do Presidente da República foi considerado Bom/Ótimo por 32% dos entrevistados, Regular também por 32% e Ruim/Péssimo por outros 32%. A margem de erro é de 2%. A comparação com a pesquisa anterior realizada pelo Ibope em abril mostra uma piora na avaliação, já que o índice de Bom/Ótimo era de 35%, Regular 31% e o de Ruim/Péssimo era de 27%.

A pesquisa também mediu a reação dos entrevistados à maneira de governar do Presidente e mostrou que o percentual de desaprovação cresceu de 40% para 48%, enquanto a aprovação recuou de 51% para 46%. A confiança no Presidente também diminuiu. O percentual dos que confiam nele passou de 51% para 46% e os que não confiam aumentou de 45% para 51%.

Como se vê, a observação e análise desses dados e de outros recortes da pesquisa podem trazer mais informações para quem quer melhor compreender o que está acontecendo no plano federal. O mesmo pode ser feito para os governos estaduais.

Pessoalmente percebo que entre erros, acertos, “bateção” de cabeças, polarização da sociedade, fake news no varejo e no atacado, 13 milhões de desempregados e 4,9 milhões de desalentados, projeção de crescimento do PIB de apenas 0,8% até o momento, reforma da previdência deixando de fora os militares, anúncio de uma barulhenta novidade a cada dia… se a economia não retomar um crescimento sustentável as incerteza e desconfianças prosseguirão cada vez maiores. Até quando será possível aliviar as tensões crescentes do barril de pólvora do país, que é tão desigual e injusto? Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados, negados ou justificados por causa de culpados.

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O professor é aquele que ensina ao doutor num processo que começa na mais tenra idade e vai até onde as pessoas conseguem ir na educação continuada. O que todos esperam é que os professores estejam sempre preparados para cumprir a nobre missão de ensinar e aprender na interação com seus alunos. Tudo deve partir das premissas de que não existe substituto para o conhecimento e de que a educação é a base de tudo. A crença é de que devemos partir dos fundamentos para os conceitos, suas aplicações e o atingimento dos resultados esperados. Mas como todos estamos cansados de saber e denunciar, nem tudo são flores para o professor em todos os níveis educacionais. É só parar um pouco e começar a fazer a lista de dificuldades de todos os modos que existem ao longo do caminho.

O que quero contar aqui se refere a pedras não imaginadas que surgiram no caminho de um professor de um curso de pós-graduação, nível de especialização – sentido amplo, em Gestão Estratégica de Negócios ofertado ao mercado por uma fundação sem fins lucrativos, mas não filantrópica, cuja sede fica na cidade de São Paulo. O fato é que a crise econômica atingiu em cheio o curso, que respondia por 70% do faturamento da fundação, e o número de turmas vendidas por semestre em todo o país, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, caiu em torno de 50% nos últimos 2 anos.

O reposicionamento estratégico indicou a necessidade de uma inovação na estrutura curricular para aumentar a qualidade atrativa do produto, que era o mesmo desde o seu lançamento há 9 anos. De cara, foi admitido um novo coordenador para o curso, que exigiu a contratação de um assistente operacional de sua confiança. A primeira medida tomada foi redesenhar o curso em nome da inovação, sem pesquisar o mercado para verificar qual era a necessidade que seria atendida pelo curso “inovado” e de quem era essa necessidade. Ao começar a agir direto pelo “como fazer”, na ansiedade de alcançar resultados rápidos, a primeira medida foi cancelar algumas disciplinas e criar outras denominações que estão na moda, numa mudança muito mais cosmética do que consistente. O assistente do novo coordenador implementou as mudanças como um trator e sem coragem para conversar com os professores que tiveram suas disciplinas extintas, todos lecionando na fundação como pessoas jurídicas. Só afirmou que eles continuariam na lista de fornecedores da fundação caso surgisse alguma necessidade num momento futuro.

Então, sentindo na pele uma espécie de “demissão branca”, o professor que era o melhor avaliado pelos alunos numa série histórica de nove anos quis entender os parâmetros que foram utilizados para justificar as decisões tomadas pela nova coordenação. O assistente operacional tentou justificar dizendo que o professor questionador foi mal avaliado por uma turma, com a nota 8,2 numa escala de 0 a 10. O professor rebateu o assistente perguntando se ele havia lido suas outras 26 avaliações em que suas notas variaram de 9,3 e 9,8 em função da avaliação de quesitos como domínio e conhecimento do assunto, clareza e objetividade na exposição, capacidade de prender a atenção da turma, esclarecimento de dúvidas e cumprimento do programa. Sem argumentos para contestar o melhor professor segundo a avaliação dos alunos só restou ao assistente encerrar a conversa bruscamente, dizendo que as mudanças foram feitas para atender as exigências do mercado e recuperar a fatia perdida pela fundação. Arrematou dizendo que, infelizmente, aconteceu a dança das cadeiras e ele ficou sem espaço na nova configuração e que o passado glorioso não garante nada no presente.

Você já passou por uma situação desrespeitosa como esta em que os que deveriam ser líderes atuam como feitores correndo atrás do atingimento de metas malucas que jamais serão alcançadas?

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O senhor Candinho Rabelo, solteiro, 76 anos, aposentado pelo INSS, voltou a residir em sua cidade natal no interior de Minas há cerca de 2 anos. Ele deixou sua “terrinha”, que hoje tem em torno de 9 mil habitantes, com apenas 20 anos de idade, em busca de melhores condições de vida. Periodicamente voltava lá para visitar toda a família e seus descendentes, no melhor estilo dos mineiros. Com o passar dos tempos quatro dos seus irmãos se casaram e sua irmã mais nova, Dete Rabelo, hoje com 74 anos e solteira, também aposentada pelo INSS, ficou morando com os pais na casa da família e cuidando sempre deles com seu modo intransigente de ser.

Quem primeiro veio a óbito foi a mãe e Dete prosseguiu cuidando do pai, que algum tempo depois também partiu para outro plano. O luto passou e ela continuou morando sozinha na casa da família, onde tudo acontecia conforme o seu querer. Suas manias se acentuaram ao longo de três décadas, nas quais perdeu dois irmãos e viu os sobrinhos crescerem.

Em Belo Horizonte, Candinho seguia no seu baile da vida. Até que perto de completar 74 anos se viu sem emprego e doente. Depois de doze dias de internação, participação efetiva de alguns sobrinhos em sua recuperação e prognóstico de que não poderia mais viver sozinho, só foi possível uma saída. A solução foi voltar para a cidade natal e tentar se reintegrar à família, contando com a irmã, as sobrinhas e um sobrinho.

Passados dois anos morando com a irmã na casa herdada dos pais, agora ele toma uma pequena dose diária de cachaça para bambear os nervos e aguentar o duro convívio marcado pelas manias da “mana”. Candinho Rabelo diz que tem passado por grandes provações, que nos momentos mais conflitantes tem vontade de “voar no pescoço” da irmã, que ele considera louca, e que só vai levando a vida por não ter coragem de se suicidar. Entretanto ele lamenta não ter se preparado para a aposentadoria e a cada dia sente falta dos projetos que não fez para essa fase da vida. Ele chega até a tentar compreender o sistemático e ditatorial jeito de ser da irmã, também idosa como ele, mas o que ele nunca imaginou é que um dia voltariam a morar cotidianamente na mesma casa. E após as raivas de todos os dias acaba por se conformar com o dito popular que diz que “o que não tem remédio, remediado está”.

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O IBGE divulga no final de cada mês o resultado da Pnad Contínua do trimestre formado pelos três meses anteriores. A que foi divulgada no dia 31 de maio mostrou que, de fevereiro a abril, a taxa de desocupação da população economicamente ativa chegou a 12,5%, o que equivale a 13,2 milhões de pessoas desempregadas, e que as pessoas desalentadas, que desistiram de procurar trabalho, chegaram a 4,9 milhões. Esses números tem se mantido em torno do mesmo patamar desde o último trimestre de 2017 e, até o momento, a economia não dá sinais de recuperação capaz de reverter esse quadro.

Um ponto aqui é verificar ou imaginar como tem sido a estratégia de sobrevivência para quem não está conseguindo trabalhar, ainda mais que, quanto pior a situação, pior mesmo. Será que alguma reserva financeira ou patrimonial já foi usada nesse período recente ou as dívidas aumentaram? Como será que está a capacidade de familiares e amigos para ajudar solidariamente na travessia tão difícil nesse tipo de situação, em todos os seus aspectos? O que esperar das organizações de ajuda humanitária, já que do poder público não há muito do que se obter?

Outro ponto é pensar um pouco nos 92,4 milhões de pessoas que estão trabalhando, segundo a Pnad Continua, número que obviamente também tem se mantido estável após sucessivas quedas, ou seja, caiu para pior. Para esses também é bastante visível que o poder aquisitivo está caindo em função da inflação medida pelo IPCA, que é diferente conforme o perfil familiar, dificuldades nas negociações de reajustes salariais anuais, além de reajuste zero, em geral, para servidores públicos do Poder Executivo da União, estados e municípios, isso para citar apenas algumas causas. Para agravar a situação a energia elétrica aumenta em 6,93%, o plano de saúde suplementar aumenta 21%, a gasolina, o óleo diesel e o gás de cozinha aumentam seus preços em função da cotação internacional do petróleo e da variação do dólar enquanto os alimentos em geral, medicamentos e a prestação de serviços também dão seus pulos, apesar da sazonalidade da oferta e da procura específica de alguns deles. O que é possível fazer diante de tantas restrições e piora de condições, principalmente para quem não quer se endividar com juros tão altos ou mesmo queimar reservas ainda existentes? Provavelmente terá chegado a hora de rever o perfil de consumo elegendo novas prioridades que, no mínimo, abrem mão dos supérfluos e combatem fortemente os desperdícios de qualquer natureza. Ainda é preciso pensar em poupar um certo percentual da renda para que, num futuro não muito distante, essa mesma reserva venha se somar aos proventos recebidos de uma aposentadoria.

O fato é que estamos passando por uma conjuntura em que a estratégia continua sendo de sobrevivência que já vem de um bom tempo atrás e que ainda persistirá por mais um bom tempo, pois os cenários que se desenham não nos permitem enxergar de outra forma. É por isso mesmo que não dá para abrir mão da gestão orçamentária e tomar sempre as medidas necessárias em prol da sobrevivência, por mais difícil e desafiante que seja tudo isso. Haja resiliência!

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o resultado do PIB do primeiro trimestre de 2019 mostrando que houve uma queda de 0,2% na comparação com o trimestre anterior. Por outro lado, os dados preliminares do segundo trimestre também não são nada animadores. A economia prossegue estagnada, o desemprego segue altíssimo e sem perspectivas de queda, o consumo das famílias só cai, os investimentos estão longe do necessário e a piora das expectativas em relação ao futuro sinaliza que nova recessão econômica pode estar a caminho. Então dá pra imaginar o que pode estar passando pela cabeça das pessoas ao verificar a distância que existe entre a necessidade de crescimento do PIB e os resultados que estão sendo entregues no momento. Há sinais de que o ano poderá ser perdido e que não é suficiente jogar todas as causas nas costas da não aprovação da Reforma da Previdência Social.

Pensando no que e como fazer para prosseguir diante de tantas dificuldades, alertas e ameaças lembrei-me da obra do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) nos versos livres da poesia “José”, publicada em 1942, ano de muitas dificuldades na plenitude do Estado Novo, na ditadura de Getúlio Vargas e na Segunda Guerra Mundial. A seguir leia “José”, ou releia, para quem já leu, enquanto fico na expectativa de que surjam contribuições alentadoras para melhor compreender a nossa existência no momento que estamos passando.

José
Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
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Preocupações não faltam

por Luis Borges 28 de maio de 2019   Pensata

Sabe aquele dia em que você acorda bem cedo e enquanto espera a hora de tomar o café da manhã fica pensando na vida e nas coisas materiais e imateriais inerentes a ela? Pois é, chega ao pensamento uma espécie de clamor para que possamos viver numa sociedade civilizada, marcada pelo respeito mútuo na complexa arte de viver individualmente e coletivamente. O desafio é reconhecer que as coisas fáceis já foram feitas e que para nós só ficaram as difíceis, qualquer que seja a camada social. Mas, em quem acreditar e com quem caminhar se “infeliz a nação que precisa de heróis” (Bertolt Brecht – 1898-1956) e não há lugar para salvadores da pátria? Promessas de campanhas eleitorais, achismos, fake news, impulsos, polarizações e bolhas não são suficientes para negar o conhecimento e tentar revogar a lei da gravidade. Também não dá para dizer que se as coisas não acontecerem conforme foram imaginadas o jeito será fazer as malas e ir para Portugal.

Enquanto o café não é passado outra preocupação entra em cena versando sobre o trabalho para quem o tem e para os milhões de brasileiros que estão na expectativa de encontrá-lo antes que caiam no desalento. Será que daqui a um ano continuarão existindo os postos de trabalho que estão ocupados hoje no setor privado da economia? E se imaginarmos um cargo ou função de confiança, preenchido por recrutamento amplo, em órgãos da União Federal, estados e municípios? Que funções repetitivas já terão sido substituídas pela inteligência artificial, tanto no setor público quanto no privado?

Enquanto o pensamento voa pensando na gente mesmo dá para imaginar a altura que ele alcança quando o foco se volta para os filhos. Surge a preocupação com o filho que está no ensino médio ou num curso de graduação na universidade ou mesmo num mestrado sem bolsa de estudos à espera de alguma luz depois do fim do túnel do mercado de trabalho. Também faz pensar a filha graduada em economia desempregada há 2 anos ou os filhos com mais de 30 anos sem perspectivas de ter seu próprio lugar para morar. Estes ainda querem impor aos pais outros modos de vida, que geram muitos enfrentamentos e exigem muita paciência histórica na gestão dos conflitos gerados. Diante de tudo isso ainda reverbera a frase dizendo ou lembrando que “pai é pai”, “mãe é mãe” e tudo fica anestesiado, deixando as coisas do jeito que estão para depois verificar que soluções poderão ser encontradas. Pode ser inclusive o conformismo trazido por outra frase dizendo que “o que não tem remédio, remediado está”.

Como preocupações não faltam e agora o café já acabou de passar o jeito é dar um tempo para a mente e degustar o saboroso café, cujo dia foi comemorado em 24 de maio. Enquanto o dia for crescendo outros cafezinhos poderão ser degustados, permeados pelas preocupações que nos acompanham.

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Era gripe

por Luis Borges 14 de maio de 2019   Pensata

Estamos fazendo a travessia de mais um outono e já passamos da metade da estação. Mais uma vez a grande sensação da temporada é a epidemia de dengue trazida pelo mosquito aedes aegypti para deixar muita gente fora de combate. Ainda que nem tudo acabe em dengue, ela acaba causando muitas preocupações. E, de repente, lá num dia nem tão belo assim e como se não tivesse vindo, do nada sua garganta começa a dar sinais de desconforto, principalmente com a sensação de que tudo está arranhando ao passar por lá. A auto-observação geralmente induz à conclusão de que se trata de um resfriado de pequena magnitude.

Enquanto os dias passam parece que vários sintomas aumentam, como a tosse, dor no corpo em geral, dor de cabeça e sobra apenas ficar amuado. De repente surge uma febrícula, que logo é combatida com o uso de um antitérmico em típica automedicação. A tosse fica ainda mais seca, o sono mais difícil, cheio de variações e o tempo que não pára logo registra que o processo todo já dura 7 dias. Acontece que você convive com diversas pessoas em casa, no trabalho, na igreja, na padaria ou no clube de lazer e aqueles que se interessam por você e se preocupam com a melhoria das suas condições funcionais. Invariavelmente essas pessoas querem saber se você já fez uma consulta médica, se seus sintomas são de dengue, pneumonia, faringite, sinusite ou gripe muito forte e uma pergunta que nunca falta é se você se vacinou contra a gripe.

Uma resposta muito citada tem sido que você tomou a decisão de se vacinar pela primeira vez, mas foi pego pela gripe na fase que ficou entre a decisão e ação de tomar a vacina. Muito comum também é surgir alguém afirmando que sua resistência está baixa e, por isso, você está sofrendo com tantos sintomas sem saber do que realmente se trata. Isso acaba sendo mais um tipo de achismo que, aliás, é bastante comum entre muitos de nós.

Lá pelo nono dia de desconforto e sofrimento você acaba conseguindo ir a um consultório médico tentando encontrar alguma resposta para as suas próprias preocupações e também para as de todos que lhe querem bem e fazem parte do seu cotidiano. Depois de feitos todos os procedimentos determinados pelo protocolo médico você ainda fica na expectativa do diagnóstico. “Sabe o que era?”, pergunta você às pessoas de seu convívio. E você responde logo – e aliviado – que era gripe mesmo e que ela vai prosseguir por mais alguns dias e será combatida com o uso de xarope, muito líquido, soro no nariz…

Ainda bem! Pior seria se fosse a dengue ou a pneumonia. Melhor seria mesmo era ter se vacinado, o que teria poupado o sofrimento e a preocupação de tanta gente, a começar por você mesmo. Vivendo e aprendendo permanentemente no curso de vida.

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Os fatos e dados colhidos de maneira adequada não deixam de existir mesmo quando são ignorados, negados ou justificados por uma desculpa esfarrapada. Mas se o que mais temos são problemas que exigem soluções, o Dia do Trabalhador nos permite reconhecer que a coisa está feia, sem contudo apontar  como despiorar, estancar ou melhorar.

A economia não deslancha após dois anos de recessão econômica e outros três de crescimento do PIB em torno de pífios 1%. Pensando bem, quem, em sã consciência, pode se considerar seguro no trabalho em que atua? Talvez possamos nos lembrar de quem escolheu ser um servidor público concursado, amparado pela estabilidade, mas preocupado em manter direitos adquiridos. É bom lembrar que boa parte de estados e municípios simplesmente quebrou e agora só lhes resta tentar renegociar dívidas, fazer reformas administrativas “enxugantes” na estrutura, parcelar o pagamento dos salários mensais dos servidores do poder executivo e do décimo-terceiro salário que, aliás, há muito tempo não são reajustados. Uma boa e excepcional lembrança, que até causa inveja a quem está de fora, vem dos servidores concursados e estáveis dos Poderes Judiciário e Legislativo. O Poder Judiciário teve aumento de 16,4% para os Ministros do Supremo Tribunal Federal, o que gerou um efeito cascata aplicado em toda a carreira da magistratura. Vem também a lembrança de outras possibilidades não estáveis para quem consegue ser contratado pelo recrutamento amplo do serviço público e também através de contratos de prestação de serviços terceirizados.

Outra lembrança importante – e preocupante – foi trazida pelo IBGE ao divulgar na véspera do feriado de primeiro de maio os resultados da Pnad Contínua do primeiro trimestre de 2019. Foi registrado um aumento na quantidade de pessoas desempregadas cujo índice chegou a 12,7% da população economicamente ativa, o que equivale a 13,4 milhões de pessoas. Os desalentados, aqueles que desistiram de procurar trabalho, chegaram a 4,8 milhões, o que resultou num crescimento de 3,9% em relação ao trimestre anterior. Nesses tempos de muito “achismo” é importante lembrar que a  metodologia da pesquisa da Pnad Contínua prevê uma visita a 211.344 casas em cerca de 3.500 municípios. O IBGE considera desempregado quem não tem trabalho e procurou uma ocupação nos 30 dias anteriores à semana em que os dados foram coletados.

Também fica difícil não se lembrar dos resultados trazidos pela reforma trabalhista após 18 meses de vigência. A premissa que justificou sua aprovação era de que traria um significativo aumento do número de vagas para combater o desemprego, já altíssimo em 2017.

Agora, uma nova proposta de reforma, a da Previdência Social, também sinaliza grandes efeitos como panaceia para a maioria dos males que afligem o país.

Entre as reflexões e pensamentos que o Dia do Trabalhador nos enseja é bom que nos coloquemos no lugar das pessoas que fazem parte das estatísticas do desemprego crescente nesse início de ano. Quanto pior, pior mesmo e os números não mentem. Só para ilustrar, basta conferir a quantidade de jovens na faixa de 16 a 24 anos procurando uma primeira oportunidade de trabalho que, quando surge no meio de tanta escassez, ainda traz exigências absurdas, como experiência mínima de um ano na função. O que pensar de alguém com 50 anos de idade, que acabou de ser demitido de uma prestadora de serviços terceirizados, que fica imaginando onde encontrar nova oportunidade de trabalho após o fim do seguro desemprego?

De toda maneira a gente vai tentando, levando, combatendo a depressão e se reposicionando sem negar a realidade, apesar de todos os pesares que nos cercam. É o que temos para hoje, infelizmente.

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Ao longo dos últimos dois meses e mais especificamente nos últimos 15 dias foram quase que massacrantes as referências feitas em diversas mídias sobre o fim do prazo para a entrega da declaração do Imposto de Renda da Pessoa Física em 30 de abril. Numa frequência um pouco menor também foram abordadas tecnicalidades como modelo de declaração, deduções, aplicações financeiras, fontes pagadoras de salários, rendimentos tributados exclusivamente na fonte, bens e direitos e, é claro, imposto a pagar ou a ser restituído. Os profissionais da contabilidade também foram bastante lembrados e acionados por muita gente querendo se posicionar melhor perante a Receita Federal e evitar cair na malha fina.

Todo ano tem sido a mesma coisa quanto ao alarido sobre a improrrogável data limite e as multas que penalizarão as pessoas físicas inadimplentes. Por que estou voltando ao assunto se acabo de falar em tom de reclamação sobre o incômodo cansaço gerado por tanta repetição da mesma coisa? Simplesmente porque as matérias quase não abordaram que a tabela do Imposto de Renda está congelada desde 2015, o que por si só já significa aumento de carga tributária para quem permaneceu no mercado de trabalho e ainda teve algum reajuste salarial repondo a inflação anual ou parte dela. Nesse sentido vale lembrar os dados divulgados pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) mostrando que nos últimos 23 anos – 1996 a 2018 – a inflação acumulada medida pelo IPCA do IBGE foi de 309,74% enquanto a  tabela do Imposto de Renda foi corrigida em 109,63%. Segundo o Sindifisco seria necessário um reajuste de 95,46% para corrigir a defasagem da tabela registrada nesse período. Isso faria com que o limite de isenção do Imposto de Renda passasse dos atuais R$1.903,98 para R$3.689,93. Já a faixa de renda que hoje fica acima de R$4.664,68 e é taxada em 27,5% passaria a ser de R$9.169,34. É claro que também seriam reajustados pelo mesmo índice as despesas por dependente e anuidade escolar.

Também quase nada se discute sobre o fato de que salário não é renda e que, por isso mesmo, devido à sua própria natureza, não deveria ser taxado como se fosse renda. Isso ficaria para os ganhos decorrentes das aplicações do capital, taxação das heranças e das grandes fortunas e de maneira progressiva.

A julgar pelas ofertas de financiamento pelos bancos para antecipar a devolução do Imposto de Renda para quem conseguiu alguma restituição, fica parecendo que ninguém vai cair na malha fina da Receita Federal, que dá para pagar as altas taxas de juros cobradas e que existe um grande conformismo com o congelamento da tabela do imposto. Para aqueles que ainda insistem na reposição das perdas inflacionárias contidas na tabela o máximo que o Ministério da Economia fala é que o tema poderá ser discutido por ocasião da proposta de Reforma Tributária, pois hoje o país convive com o déficit das contas públicas.

Muda isso, muda aquilo, mas na prática é tudo a mesma coisa. A diferença entre o velho e o novo jeito de fazer as coisas esta só na embalagem e a gente vai ficando para trás.

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Expectativas nem sempre atendidas

por Luis Borges 28 de abril de 2019   Pensata

De vez em quando é bom fazer uma análise crítica sobre nossas expectativas de consumo de bens e serviços bem como das percepções que tivemos após tudo ter acontecido. É importante observar desde o sonho e o planejamento do consumo, que nem sempre acontece, até a satisfação trazida pelo ato de consumir. Se a crise econômica persiste e se existem necessidades básicas inadiáveis, também existem consumos adiáveis já que, em geral, a estratégia das pessoas na atual conjuntura é a de sobrevivência. Para quem quer antecipar um consumo que não cabe no bolso no momento, mas é fustigado pela ansiedade, pode ser dado um jeito através de um financiamento a juros altíssimos e com risco de se tornar um futuro inadimplente do cadastro negativo, onde será chamado pela alcunha nada carinhosa de “negativado”.

Ainda assim e embalado pelo “consumo, logo existo” não dá para negar que são muitas e às vezes altas as expectativas do consumidor. O mínimo que ele espera é consumir um bem ou serviço com as características de qualidade especificadas verbalmente por ele ou padronizadas num determinado código oriundo do fornecedor. Espera também que o preço seja justo, adequado e que o atendimento dado pelo fornecedor leve em conta a sua condição de cliente. Aí é que entra a reflexão sobre a percepção que se tem comparada com a expectativa que se tinha. Assim fica mais fácil perceber as lacunas que ficaram em relação à expectativa inicial ou a lembrança das brigas travadas durante o processo de atendimento para conseguir receber o que realmente foi solicitado. Nesse caso ficam visíveis muitos pontos de conflito no contato do fornecedor com o consumidor, que deveria ser tratado como cliente. Pior ainda é pensar nos serviços públicos prestados diretamente pelos próprios órgãos ou por aqueles a quem foram concedidos, mas isso será tema de outra pensata…

Vale pensar no atendimento no caixa de um supermercado ou da padaria, na compra pela internet, na consulta médica ou na internação hospitalar, na pizza que família degustou numa pizzaria, no contato com a operadora de telefonia ou cartão de crédito e no meio de transporte escolhido para uma melhor mobilidade urbana e interurbana, por exemplo. Dá para lembrar que o pagamento à vista não tem nenhum desconto e é o mesmo que o valor a prazo, que o número do CPF, telefone e o endereço eletrônico são solicitados insistentemente ou que muitas vezes a entrega de um bem é marcada para ser feita entre 8h e 18h ou que simplesmente o prazo de entrega não é cumprido e o fornecedor sequer faz um contato para apresentar alguma justificativa ou renegociar o prazo.

A partir desses casos citados e de outros que você, caro leitor, deve estar se lembrando é possível avaliar qual é o tamanho da distância entre as nossas expectativas e as percepções que temos sobre o que realmente nos é entregue. Afinal de contas temos até um código de proteção e defesa do consumidor e, mesmo sendo cada vez mais conscientes desses direitos, continuará sendo preciso lutar para que eles sejam cumpridos.

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