O filho só pensa na França

por Luis Borges 23 de setembro de 2019   Pensata

A senhora Nirmatele Barros trabalha como vendedora numa loja especializada em roupas e calçados para crianças no bairro Funcionáriosm em Belo Horizonte. Ela é separada do marido há 13 anos, mas dessa relação resultaram três filhos que hoje estão com 19,17 e 15 anos de idade, sendo um rapaz e duas mocinhas respectivamente. A configuração gerada pela separação do casal resultou na permanência dos filhos com a mãe, no pagamento mensal de pensão básica por parte do pai para ajudar no sustento dos filhos e na cessão, pela avó paterna, de um apartamento para moradia dos netos com a mãe por tempo indeterminado. A descrição básica do imóvel mostra que ele possui três quartos, uma vaga de garagem – o que nem todos os apartamentos do local possuem – e fica no terceiro andar de um edifício de 12 apartamentos, sendo quatro por andar.

A vida prosseguiu o seu curso marcada pelos desafios cotidianos para a mãe, que optou por viver e lutar obsessivamente em prol dos filhos e contando com a ajuda sempre decisiva da avó naqueles momentos em que tudo parece sem saída para os problemas mais difíceis. Por sua vez, o ex-marido encontrou outro relacionamento do qual vieram mais três filhos, mas cumpre religiosamente o acordo feito na época da separação.

Agora os filhos de Nirmatele prosseguem suas trajetórias cheias de sonhos de melhorar continuamente a qualidade de vida com todas as pressões trazidas pelos diversos tipos de consumo numa conjuntura pouco favorável aos jovens, que vão se colocando à disposição do mercado na busca de oportunidades.

Sem conseguir trabalhar a frustração por não ter obtido a pontuação necessária para ingressar no curso de Engenharia Mecânica de uma Universidade Federal no último Enem, o filho primogênito decidiu passar um tempo com a namorada na França para conhecer outra cultura e aprender um pouco da língua francesa. Esse projeto virou uma grande obsessão e gerou expectativas bem maiores que a realidade. A mãe não conseguiu mostrar ao filho os limites para a realização de sua vontade e, ao mesmo tempo, ele se manteve irredutível em seu intento, alegando que se não fosse assim melhor seria encurtar o tempo de sua passagem pela Terra nessa encarnação.

A mãe entrou em pânico e começou a buscar uma solução para o novo problema. Procurou o ex-marido, que após muito discurso sobre a sua atual condição financeira concordou em pagar a semestralidade de um curso intensivo de francês só para o filho. Também procurada, como sempre acontece nas horas mais problemáticas, a avó deu a passagem aérea de ida e volta e o dinheiro para a emissão do passaporte do neto. Sobrou para a mãe a tarefa de conseguir dinheiro para bancar as despesas do filho com moradia, alimentação, transporte… lá em Paris contando com o fato de que a parte da nora será toda custeada pela família dela. Diante da necessidade urgente de fazer dinheiro, Nirmatele, que já é isenta da taxa condomínio de R$300,00 por ser síndica do prédio onde reside, tentou alugar sua vaga de garagem para um casal vizinho por R$2.400,oo por um ano, pagos na data de assinatura do contrato. A proposta “deu ruim” na negociação e o casal acabou alugando outra vaga por R$150,00 pagos mensalmente no último dia do mês. Ao mesmo tempo a mãe do rapaz tentou vender seu automóvel usado, mas sem sucesso. Chegada a hora da partida o jeito foi fazer um empréstimo numa cooperativa financeira enquanto prosseguem as tentativas de vender o velho automóvel.

Finalmente o filho partiu antes da chegada da primavera no Brasil dizendo que só no próximo ano voltará a pensar no Enem e no curso de Engenharia Mecânica enquanto a mãe ficou em prantos amparada pelas duas filhas e a sogra.

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Seu município também pode quebrar

por Luis Borges 16 de setembro de 2019   Pensata

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou no dia 28 de agosto os dados contendo as suas mais importantes estimativas sobre os números que fotografam a população brasileira na data base de 1 de julho de 2019. Foi mostrado que o país tem uma população de 210,1 milhões de habitantes vivendo em 5.570 municípios que formam os 27 estados constituintes da União Federal. O município mais populoso é São Paulo, capital que conta com 12,2 milhões de habitantes distribuídos numa área de 1.521 km². O de menor população é Serra da Saudade, com 781 habitantes distribuídos em 335,7 km² na região do Alto Paranaíba em Minas Gerais.

Uma preocupação permanente dos municípios de todos os portes está na capacidade de se sustentarem diante de tantas atribuições que cada um tem, muitas das quais transferidas pela União ou estados sem necessariamente estarem acompanhadas dos recursos financeiros. Em suma, existe uma grande centralização da arrecadação de tributos nos planos federal e estaduais, que destinam aos municípios percentuais sempre questionados por eles devido à sua pequena magnitude. Também é bem lembrado que as pessoas moram nos municípios e muito mais na área urbana do que na rural.

Na atual conjuntura, o país prossegue em sua polarização político-partidária sem conseguir soluções para a crise econômica marcada pela aguda recessão de julho/2014 a dezembro/2016, pela pífia recuperação de 2017 a 2019 e pelas perspectivas nada animadoras até o final de 2022. Enquanto isso, o social grita.

A reforma trabalhista não combateu o desemprego, mas precarizou o trabalho. A reforma da previdência social se arrasta no processo de ser quase que carimbada pelo Senado. A reforma tributária pula que nem sapo para trazer de volta a CPMF enquanto o desmatamento das florestas e as queimadas agravam as condições vividas pelos municípios. A arrecadação de tributos em queda e os gastos sempre crescentes só acentuam o desequilíbrio das contas públicas dos municípios, dos estados e da União Federal. Tudo piora ainda mais diante do pouco apreço que se tem pelos modelos de gestão que podem ser utilizados na solução de problemas. Se a quebradeira de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Paraná, por exemplo, tem sido bastante divulgada, agora também está chegando a vez de muitos municípios começarem a mostrar seus níveis de quebradeira no exato momento em que todos preparam seus orçamentos para o ano de 2020. Será que o município em que residimos está bem das pernas e isso está demonstrado no Portal da Transparência das contas públicas? Ou será que seremos surpreendidos, como aconteceu com os 5.497 habitantes da cidade de Bento Fernandes, no Rio Grande do Norte, que dista 97 Km de Natal, onde o prefeito decretou calamidade financeira e suspendeu maioria dos pagamentos devidos pela prefeitura?

Apesar de todos os discursos sobre direitos adquiridos, do liberalismo econômico dos liberais sinceros – se é que existem – e da pressa dos que sonham em encurtar os caminhos da democracia real em nome de soluções mais rápidas para os crônicos problemas não resolvidos, o fato é que as coisas estão bastante difíceis para os municípios que, volto a repetir, são o local em que as pessoas moram.

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As cobranças desnorteantes

por Luis Borges 11 de setembro de 2019   Pensata

“Cada dia com sua agonia” é uma frase bastante repetida em alguns estados do Nordeste brasileiro como Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Tudo fica mais difícil quando a mesma agonia surge repetidas vezes ao longo de um período de tempo. É o caso da agonia causada pela cobrança de uma dívida financeira, por exemplo. Como amola! Ela pode começar numa segunda-feira pela manhã, prosseguir à tarde e se estender pelos dias subsequentes sem dar trégua na ânsia de alguém que busca alcançar um resultado sob intensa pressão. Essa agonia que tanto incomoda pela forma, conteúdo e momento vivido tira o sossego de quem começa a receber por diversos meios de comunicação – WhatsApp, e-mail, mensagens de texto… – insistentes cobranças pelo atraso no pagamento da prestação de uma dívida que acabou de vencer.

Ilustra bem a situação o caso vivido desde a segunda-feira passada pela senhora Miroca Silva, viúva, 57 anos de idade, empregada doméstica que trabalha há oito anos numa casa de família situada na zona sul de Belo Horizonte, onde recebe um salário mínimo e meio por mês numa jornada de 44 horas semanais. Ela tem três filhos na faixa etária de 30 a 35 anos, todos casados e com um filho cada. Aconteceu que a persistente crise econômica de seis anos para cá, que não dá sinais de recuperação, pegou em cheio o seu filho do meio, que ficou desempregado no início de 2017. Após seis meses de uma procura insana por nova oportunidade de trabalho e queimando o mínimo possível do saldo recebido do fundo de garantia pela demissão sem justa causa, surgiu um novo alento quando foi enxergada a possibilidade de comprar um automóvel popular seminovo, tipo Ford Ka básico, para trabalhar no transporte de passageiros por aplicativos.

Devido ao desemprego coube à mãe “tirar”(ou seja, comprar) o automóvel, financiado em seu nome, mediante uma entrada de R$9.000,00 e o pagamento de 48 parcelas mensais fixas de R$930,00. Tudo caminhava a duras penas em longas jornadas diárias de trabalho e com os diversos riscos inerentes à atividade até o automóvel sofrer um “atropelamento” na traseira advindo de um caminhão baú, que causou sua perda total. Até conseguir receber o seguro feito pela empresa proprietária do caminhão por danos causados a terceiros, o tempo foi passando e o motorista entrou no lucro cessante devido à paralisação de sua atividade e ausência de seguro do seu veículo.

O atraso no pagamento das parcelas mensais foi inevitável e a cobrança insistente, agressiva e desrespeitosa por parte da financeira começou no dia seguinte ao vencimento. A mãe do rapaz foi acessada em seu próprio celular, em ligação direta, e pelo WhatsApp, além de diversos outros contatos pelo telefone fixo da casa onde trabalha. Por diversas vezes ela tentou explicar que apenas fez a dívida em seu nome para ajudar o filho desempregado e que ele estava com o pagamento atrasado devido a um violento acidente sofrido pelo automóvel. A situação prosseguiu na mesma toada ao longo da semana, com ameaças de recolhimento do automóvel independente de tudo o que já havia sido pago e também com lembranças de que a parcela atrasada deveria ser paga o quanto antes com juros e multa pelo período em atraso.

E assim os dias prosseguem na mesma agonia para a mãe e o filho, que agora evitam ser aproximar de qualquer meio de comunicação que lembre as cobranças e o mal estar que elas geram enquanto cresce a sensação expressa pelo dito popular “o que não tem remédio, remediado está”, mas as perspectivas são muito sombrias.

Vale lembrar que segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e o SPC Brasil cerca de 63% das famílias possuem dívidas em atraso e cada vez mais crescentes nos últimos anos. Entre as diversas causas desse fenômeno estão os altíssimos níveis de desemprego, a perda de poder aquisitivo de diversas categorias e também a falta de educação financeira das pessoas em geral.

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Todo dia tem novos idosos

por Luis Borges 25 de agosto de 2019   Pensata

Em fevereiro de 1962 comecei minha trajetória de estudante no curso primário do grupo escolar Pio XII na capital secreta do mundo, a cidade eterna de Araxá (Minas Gerais). Eu tinha sete anos de idade e a minha mãe 28. Na parede da memória, como diz o cantor e compositor Belchior em sua música “Como nossos pais”, está registrada uma fala de minha mãe sobre uma visita feita por ela a seu tio, que era considerado um velho de 56 anos de idade. Naquela época, dados do IBGE registraram que a expectativa de vida das pessoas era 52,5 anos e o censo de 1960 mostrava uma população de 76,57 milhões de habitantes no país.

Agora em 2019, 57 anos depois, tenho encontrado ou conversado com pessoas que estão completando 60 anos de idade ao longo dos meses deste ano. As manifestações de alegria e agradecimentos por tudo que já foi vivido e também preocupações com o ciclo idoso da vida, que é finita, sempre tem permeado as conversas. Vale lembrar que a lei brasileira nº10.741 de 01/10/2003 criou o Estatuto do Idoso, definindo que esta condição passa a existir quando a pessoa completa 60 anos de idade. Também segundo o IBGE a expectativa média de vida hoje está em 76,5 anos, sendo que as mulheres chegam aos 80 anos e os homens aos 73. Já a população brasileira está estimada em 210,3 milhões de habitantes dos quais em torno de 30 milhões tem acima de 60 anos de idade, número que deverá dobrar ao final das próximas três décadas.

Existem estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) do Ministério da Economia sugerindo que a idade limite para que a pessoa seja considerada idosa passe para 65 anos devido aos níveis de longevidade alcançados atualmente. Podemos considerar que mais dias, menos dias essa mudança ocorrerá fundamentada em argumentos semelhantes aos utilizados para justificar a necessidade da Reforma da Previdência Social.

Sem querer fazer nenhum alarme, mas sendo bastante realista e pragmático, reitero que quem já chegou à condição de idoso legal precisa repensar e se reposicionar estrategicamente em função de várias variáveis que poderão impactar desfavoravelmente o seu curso de vida até o dia em que o espírito deixar o corpo. Às vezes nessa idade já se pode sentir arrepios e calafrios ao se pensar sobre onde, como e com quem morar, com que nível de saúde (condições funcionais), com quais condições financeiras, com que grau de dependência de filhos – se existirem- e do Estado liberal, com que níveis de autonomia e independência… O futuro chega a todo instante e nos desafia permanentemente com suas ameaças e oportunidades que desafiam nossas fraquezas e forças. Só chorar e se vitimizar enquanto os governantes se sucedem no poder acaba sendo muito pouco e quanto pior para os idosos, pior mesmo.

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O que nos resta é ir levando

por Luis Borges 19 de agosto de 2019   Pensata

As manifestações políticas que sacudiram as ruas do país em 2013 já completaram 6 anos. Naquele ano a inflação anual ficou em 5,91%, a economia cresceu 1,7% ante 3% no ano anterior e o índice de desemprego ficou em 5,3% segundo o IBGE.

De lá para cá a economia passou por uma forte recessão econômica, que durou 2 anos e meio e está chegando agora ao final de 2019 no terceiro ano de estagnação. Neste momento as projeções indicam que a inflação anual ficará em torno de 3,7%, o crescimento da economia deve ser de pífios 0,8% e o índice de desempregados deverá ficar em torno de 12% – 12,8 milhões de pessoas.

Podemos observar no plano macro da economia, retratado pela amostra desses três indicadores, que as coisas pioraram. Sugiro que olhemos também o nível micro da economia ao longo desse mesmo período para que possamos perceber qual foi o impacto de tudo isso no cotidiano das pessoas, nas organizações em que trabalham ou trabalharam. Para facilitar esta avaliação podemos também observar uma amostra de 3 indicadores. Em primeiro lugar é importante saber se a organização para a qual você trabalhava em 2013 se manteve no mercado até o momento ou se encolheu e depois quebrou. O segundo indicador é verificar as condições em que o trabalho foi e está sendo feito, qual o seu nível de resiliência para enfrentar as pressões diárias vindas de chefes comandantes (e não líderes) e como ficou a sua remuneração anual perante todas as alegadas dificuldades enfrentadas pelo seu empregador no mercado. Uma terceira variável pode ser contar nos dedos da mão quantas vezes você teve vontade de ter seu próprio negócio após ouvir “pataquaras” ou falações autoritárias de chefes comandantes no melhor estilo de “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

Mas se é nas dificuldades que a gente se prova o que nos resta é não nos sentirmos vencidos para melhor prosseguir em busca de melhores condições vida e trabalho numa conjuntura que exige estratégias de sobrevivência, mesmo diante de tantas incertezas.

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A observação e análise do cotidiano de indivíduos e famílias deveria ser um exercício feito com mais frequência para ajudar na melhoria contínua das tarefas e atividades que fazem parte de seus processos de vida. Entretanto a realidade nos mostra que a maior parte das pessoas ainda está bem longe de fazer isso se tornar algo inerente ao avanço do curso de suas vidas.

Estou falando sobre isso a propósito de uma situação que vivi na tarde de quinta-feira da semana passada após sair de uma clínica dentária na Rua dos Goitacazes, no Centro da cidade de Belo Horizonte. Logo em frente ao edifício entrei num táxi, cumprimentando o motorista e solicitando a ele que me levasse até o bairro de Santa Tereza. Após retribuir o boa tarde o motorista disse que também era do bairro, onde mora desde que nasceu, há 43 anos, e que é taxista há 20.

Rapidamente o veículo chegou à Avenida Afonso Pena, onde o trânsito estava bem lento. O que começou a deixar o motorista irritadiço e ansioso para entender a causa daquela situação. Foi aí que resolvi perguntar a ele como é o seu cotidiano nesse tipo de trabalho ao longo da semana. Entre um pequeno avanço e outro pela pista ele começou dizendo que acorda por volta das 6h, toma um banho “esperto” e após o café da manhã deixa a esposa no trabalho e a filhinha numa escola municipal de educação infantil. Por volta das 7h30 começa a busca pelos clientes de seu negócio. Se não surgir ninguém pelo caminho ou pelo sistema central da cooperativa da qual faz parte ele segue diretamente para o ponto fixo da Praça Sete ou da Rua dos Goitacazes, onde passa a puxar fila até aparecer um cliente. Ele disse também que por longos anos trabalhou de segunda a sábado e que nos últimos tempos trabalha de segunda a sexta, até as 21h. Excepcionalmente atende alguns clientes fidelizados aos sábados, em situações bastante específicas. Seu almoço é sempre em casa, pois mora bem próximo do centro da cidade, e sempre que possível busca a esposa no trabalho para juntos buscarem a filhinha na escola.

O motorista também disse que enfrenta todos os tipos de problemas no trânsito e que se preocupa muito com sua própria segurança e de seus clientes. No futebol, é torcedor do Galo e disse que de vez em quando vai aos jogos no estádio Independência. Ele faz parte da turma que acredita.

Quando o táxi estava entrando no bairro rumo ao destino final o motorista disse que a cada três dias frequenta um bar próximo à sua casa para “bambear os nervos” após a extenuante jornada de trabalho e que faz isso há muitos anos. Lá já é enturmado e as conversas são acompanhadas por quatro guias – doses – de cachaça, seis garrafas de 600 ml de cerveja Brahma – ele é brahmeiro – e diversos tipos de tira gosto. Nessas ocasiões sai do bar quando ele fecha por volta das 23h30 e rapidamente chega em casa “bem arrumado”.

E assim terminou a corrida do táxi. Despedi-me do motorista pensando sobre o meu cotidiano e nas possibilidades de melhoria que sempre existem, mas que precisam ser enxergadas para facilitar os reposicionamentos necessários.

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Você se lembra de quantas vezes visitou ou foi visitado por pessoas amigas do início do ano para cá? Digamos que isso tenha acontecido três ou quatro vezes por iniciativa de um lado ou de outro. Além disso, essas pessoas podem ter diferentes espectros políticos e ideológicos, bem como viver em bolhas distintas, mas tem a capacidade de polir as amizades para renová-las sempre e com o devido cuidado inerente a quem sabe falar e ouvir. Aliás, para muitas pessoas isso pode até parecer uma utopia nesses tempos que estamos atravessando.
 
Estou dizendo tudo isso por causa de um caso que me contaram. Ocorreu com um professor de matemática, 48 anos, que leciona no Ensino Médio da rede privada de Belo Horizonte. Foi no início de julho, no apartamento dele. Fazia um ano que o professor tinha se encontrado pessoalmente com o amigo no inverno passado e estava recebendo uma visita de retribuição. Assim que o amigo – também de 48 anos – chegou, no início da noite, houve uma efusiva troca de abraços pontuada pela lembrança de que o tempo passou muito rápido após o último encontro. 
 
Logo de cara o professor percebeu que o amigo, médico cardiologista, portava na mão direita seu telefone celular. Logo que começaram a conversar o anfitrião ficou pensando quanto tempo levaria para que o amigo passasse da posse para o uso efetivo do aparelho. Para a sua “não surpresa” passaram-se exatos 15 minutos da euforia inicial pelo reencontro e o visitante começou a olhar com maior frequência para a tela do seu dispositivo tecnológico, inclusive ficando atento aos sinais sonoros emitidos. Logo logo o professor e o amigo estavam plenamente divididos entre a conversa e a novidade do último minuto trazida pelo celular. Ficou visível a alta conectividade do cardiologista com seu aparelho e a sua crescente dificuldade para se conectar na conversa com o amigo. O hiato causado pela dispersão era cada vez mais cansativo para o professor, que dedicou seu tempo ao encontro e simplesmente ficou longe de seu próprio telefone celular que foi desligado. O fato é que o encontro ficou prejudicado pela presença de uma inteligência artificial que estava roubando a cena. 
 
Diante da realidade ensejada pelo comportamento do amigo em sua relação com o celular o professor propôs uma pausa para que pudessem tomar um café e que o telefone ficasse desligado, simples assim. Passaram-se exatos 50 minutos de boa conversa quando o professor começou a perceber uma certa inquietação por parte do amigo, que só foi aumentando à medida em que a noite avançava. Não demorou muito e depois de 5 minutos o visitante solicitou ao anfitrião sua compreensão, pois precisava religar seu telefone celular em função principalmente de seus compromissos profissionais. Só restou ao professor acatar a solicitação e conversar mais um pouco com o amigo, sempre que possível, sem deixar de atender aos chamados prioritários do celular. A conversa durou mais uma meia hora e tudo caminhou para o fim do encontro em função de tanta coisa envolvida em pouco espaço de tempo. Nova tentativa de visita ficou marcada para daqui a algum tempo, mas pelo que vai se vendo haverá pouco ou nada para se insistir em ficar com esse tipo de preocupação diante de tanta impaciência e necessidade.
 
Você acha que ainda é possível tentar ficar sem ouvir o celular ou é melhor render-se e adaptar-se diante da atual realidade cada vez mais dominada pela conectividade obrigatória? Pelo visto, é o que é possível nessa mudança de era…
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A Constituição Brasileira assegura a todos nós o direito de ir e vir. Mas como ir e vir à pé, no patinete ou no veículo automotor diante da cada vez maior quantidade de pedras distribuídas de todas as maneiras pelos caminhos que trilhamos?

Moramos na cidade, num bairro, numa determinada rua e, mais especificamente, num lote em que foi construído um barracão, uma casa ou um edifício de apartamentos, por exemplo. Sair de lá e retornar para lá faz parte do processo cotidiano em busca das melhores condições de vida, trabalho e lazer. Acontece que esse ir e vir está ficando cada vez mais complicado, principalmente nos horários de maior demanda para o trânsito.

É o caso do bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, e também de diversos outros, onde é alto o índice de reclamações por parte dos moradores bem como daqueles que frequentam o bairro a lazer ou a trabalho. Quais seriam as principais causas desse problema cada vez mais crônico? Tomando como exemplo o bairro de Santa Tereza e as três ruas que dão acesso à entrada e à saída do bairro a partir da Avenida do Contorno, no bairro Floresta, para quem está num veículo, veremos que o caminho quase obrigatório – e mais usado – é a Rua Hermílio Alves, com mão direcional nos dois sentidos. Ela dá acesso ao interior do bairro pela Rua Mármore, a mais importante do ponto de vista comercial, enquanto a principal saída se dá pela Rua Salinas, que tem mão única até se encontrar com o final da Rua Hermílio Alves para daí prosseguir até o início dessa rua na esquina com a Avenida do Contorno.

Mapa de parte do bairro de Santa Tereza. | Fonte: Google Maps

É claro que uma coisa é chegar de automóvel com uma ou duas pessoas, motocicleta, bicicleta, ônibus, táxi, cada um com as suas especificidades e atitudes perante as regras do trânsito. Outra coisa é andar em qualquer das calçadas pouco amigáveis e muitas vezes ocupadas em desacordo com o código de posturas municipais. Como acredito que tudo começa com a gente vou citar inicialmente algumas causas do problema que são devidas às atitudes das pessoas.

A observação e análise dos acontecimentos mostra que o não cumprimento dos padrões definidos pela legislação de trânsito por parte de uma parcela dos condutores de veículos atrapalha muita gente de diversas maneiras. Isso vai desde a velocidade acima do limite, passa pela falta de sinalização de intenção dos condutores de veículos através de seta, farol e vai até estacionar um carro sem observar se é preciso ficar afastado pelo menos 5 metros da esquina. Também são notórios dispositivos colocados ao longo das calçadas, notadamente nas esquinas, que tiram a visão de quem vai fazer conversões à esquerda ou à direita, como acontece na Rua Mármore nas esquinas com as ruas Gabro e Ângelo Rabelo. Existem também aqueles que param seus veículos em fila dupla, com ou sem pisca-alerta ligado, os que estacionam de qualquer jeito, longe do meio-fio e abrem a porta no sentido da pista de rolamento sem olhar o fluxo do trânsito bem como aqueles que buzinam para quem está à frente ou fazem uma irritante pressão silenciosa tentando abrir passagem. Tem também os motoqueiros ultrapassando os automóveis de qualquer maneira, pela esquerda ou direita, em atos imprudentes que geram insegurança, quase acidentes e também acidentes.

Olhando pelo lado do poder público, que também é exercido por pessoas em suas diversas instâncias, é importante observar como são feitos o planejamento e a gestão do trânsito no bairro de Santa Tereza e em outros bairros da cidade. Percebo que a empresa municipal BHTRANS, gerenciadora do sistema viário, prioriza a região centro-sul da cidade e os grandes corredores, mas dá pouca atenção ao interior dos bairros. No caso do bairro de Santa Tereza várias perguntas poderiam ser feitas e melhor estudadas a partir dos fatos e dados do trânsito. Será que a atual configuração das vias do bairro, com mão única, mão dupla, estacionamento de veículos nos dois lados das pistas… ainda é a mais adequada diante da quantidade de veículos em circulação? Como estão as sinalizações nas pistas por meio de placas ou de semáforos orientadores para a circulação de pessoas que andam a pé ou nos veículos? É possível uma fiscalização presencial aleatória, ainda que por amostragem, que vá além da blitz da Lei Seca ou por meio eletrônico?

Enquanto cada um cuida de si só nos resta considerar que isso é o que temos para hoje.

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Essa pergunta pode ser respondida com um “depende”. O pode ser classificada como inoportuna ou de difícil resposta nesses tempos de muita polarização em torno da visão de mundo que cada um tem.  Quem quer conservar energia deve estar atento ao que se fala ou se posta, pois qualquer interpretação enviesada pode levar à intolerância, à raiva e ao ódio, deixando de lado o respeito às pessoas de uma sociedade que se quer civilizada em seu convívio. Se as coisas estão assim no plano macro da vida ao longo do país, fico tentando observar e analisar como estão as relações entre as pessoas no nível micro do cotidiano nas ruas em que moram cercadas por vizinhos.

Para ilustrar a situação sugiro que imaginemos uma rua de apenas um quarteirão, que tem comprimento de 100 metros e é perpendicular à duas outras ruas que lhe dão acesso numa cidade como Belo Horizonte. Suponhamos também que nela existam mais casas e barracões no fundo da horta do que edifícios de pequeno porte contendo de 4 a 8 apartamentos e apenas um lote vago. É possível também imaginar que nessa rua existem moradores bem antigos, outros mais recentes que são proprietários de seus próprios imóveis bem como pessoas que moram de aluguel e que geram uma maior rotatividade em função da transitoriedade da maior parte deles. Isso faz com que frequentemente apareçam caras novas pela rua enquanto algumas outras saem de cena.

Então podemos nos colocar na condição de moradores dessa rua imaginária para avaliar alguns aspectos que podem chamar a atenção sobre o convívio cotidiano das pessoas do local. Quantos se cumprimentam com um “bom dia” ou apenas trocam um olhar com o rabo do olho ou ainda até balbuciam algumas palavras? E quantos baixam a cabeça ou fingem que não estão vendo ninguém e se tornam invisíveis? Existem também aqueles que só andam em algum veículo automotor e já saem da garagem com os vidros fechados e bastante atentos ao pequeno trânsito, o que não lhes permite ficar olhando para alguém que esteja na calçada. Dá até para pensar se existem vizinhos que se frequentam ou se aqueles que conversam preferem fazer isso nas calçadas ou mesmo falar com voz um pouco mais alta com quem está na janela da casa do outro lado da rua.

Outro aspecto que mexe com muitos moradores é a coleta do lixo domiciliar. Nem todos observam o horário de coleta nem os dias. Acabam por colocá-lo na calçada a qualquer momento, inclusive nos finais de semana em que não há coleta e, algumas vezes, o lixo doméstico é acompanhado por bens que o caminhão de lixo não recolhe. Se alguém tentar educar o vizinho indisciplinado fica difícil prever a sua reação e até mesmo a animosidade que poderá ser gerada.

E qual é a sua reação quando o visitante do seu vizinho para o carro na porta de sua garagem? Como fica sua paciência quando o alarme do carro ou da casa/prédio de vizinhos começa a disparar? E quando o cachorro de alguém começa a latir insistentemente ou o gato de algum vizinho pula o muro de sua casa para miar no seu jardim? Tem também o galo de outro vizinho que canta a partir das 4h da madrugada ou os pombos batendo asas em busca do alimento colocado na calçada por um outro vizinho. Também é inesquecível o vizinho que começa a lavar o carro todo sábado às 7 horas ouvindo música com o som nas alturas.

A segurança de pessoas e bens é sempre uma preocupação, mas formar uma rede de vizinhos protegidos é muito desafiante e mantê-la funcionando é um desafio ainda maior. Não sei se você ou algum vizinho já pensou em fazer algo semelhante em sua rua. Ao mesmo tempo fico me perguntando que vizinhos tem o número do telefone, e-mail ou WhatsApp daqueles que estão mais próximos e quantos ficam sabendo em tempo quase real se algo mais preocupante aconteceu com algum morador.  Pode ser um ato de violência, um roubo, um problema grave de saúde ou até mesmo um caso de morte que vai se descobrindo aos poucos, por exemplo.

Não tenho a pretensão de citar aqui tudo o que pode acontecer num quarteirão de uma rua e nem seria possível. Mas você teria outras situações para narrar que podem impactar o convívio entre vizinhos?

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A moradia é uma das necessidades básicas do ser humano segundo Abraham Maslow (1908-1970) e não é para menos. Se é grande a luta de quem busca conseguir ter a sua própria moradia e ficar livre do imóvel alugado dá para imaginar o que é a dor e a delícia de residir num espaço próprio, mesmo financiado, num edifício com 6, 12, 24, 50 ou 100 apartamentos de tamanho médio, variando na faixa de 40 a 80 m².

Ainda que exista toda uma legislação e um regimento próprio de cada condomínio é muito comum ouvirmos narrativas de acontecimentos de todos os tipos envolvendo pessoas que moram ou circulam nesses espaços. Na maior parte das vezes as causas dos problemas gerados, inclusive os mais bizarros, estão no desconhecimento e descumprimento dos padrões que regem os edifícios e na falta de disciplina de boa parte dos moradores para respeitar as regras do jogo. Tudo pode começar na Assembleia geral do condomínio, com baixo comparecimento dos interessados na maioria das vezes, ocasião em que são tratados os assuntos de interesse dos moradores, entre eles a eleição do síndico e subsíndico. É comum quase ninguém querer assumir o papel de síndico e é também comum que muitos moradores se posicionem contra a contratação de um síndico profissional para não aumentar ainda mais a taxa de condomínio.

Recentemente tomei conhecimento do caso de uma assembleia geral de um edifício à qual compareceram representantes de 7 dos 12 apartamentos existentes, fato que foi considerado uma grande vitória e um alento para os que acreditam na possibilidade de uma vida civilizada e respeitosa no espaço comum. Como também já passei pela experiência de ser síndico de um edifício residencial em outros tempos percebo hoje que as dificuldades ainda são muitas principalmente nesses tempos de intensa polarização da sociedade. Nesse sentido não é raro constatar que existem moradores dos edifícios, seja em apartamentos próprios, alugados de acordo com a lei do inquilinato ou mesmo para curtas temporadas, que se comportam de maneira desrespeitosa e deixando a sensação que podem fazer o que quiserem no espaço em que estão morando e nas áreas comuns. Cabe aos vizinhos se acostumarem com a balbúrdia gerada.

Podemos até fazer uma lista contendo diversos outros acontecimentos que surpreendem e incomodam ao longo do dia, da semana ou do mês. A lista poderia começar pelos moradores de um apartamento que ouvem música de qualquer gênero num alto volume. Continua no desrespeito aos limites demarcatórios das vagas para veículos nas garagens, nos animais soltos que deixam suas “marcas” nas áreas comuns desacompanhados dos donos, nos visitantes barulhentos, nas festas igualmente barulhentas até altas horas, nos prolongados churrascos espalhando cheiro e fumaça para os vizinhos, no portão da garagem e da entrada social destrancados ou simplesmente abertos demonstrando desatenção e despreocupação com a segurança… Você pode se lembrar de outras coisas que incomodam e surpreendem.

Alguns destaques especiais merecem ser citados com mais ênfase. Podemos começar pelos moradores reclamões, que se queixam de tudo, a começar pelo mau cheiro da garagem causado pelo lixo que eles mesmos deixaram lá por não observarem os dias em que a coleta é feita no local. Também não dá para esquecer os condôminos que não pagam a taxa de condomínio no dia marcado e aqueles que prolongam esse atraso por meses e ainda fazem cara feia quando são cobrados, mas provavelmente reclamarão com o síndico se faltar água, se o portão eletrônico estragado não for consertado, se houver lâmpada queimada, se o prédio estiver sujo… O último destaque pode ser dado ao grupo de WhatsApp que existe em muitos condomínios onde são feitos os comunicados do síndico sobre os assuntos de interesse comum a todos os moradores que, aliás, também postam perguntas, reclamações e temas diversos que nem sempre interessam a todos.

Diante de tudo que foi falado pode até surgir a clássica dúvida sobre se é melhor morar num apartamento ou numa casa e até mesmo se existem condições que nos permitem fazer tal escolha. Mas de qualquer maneira cada caso é um caso.

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