Arrumando a própria casa

por Luis Borges 17 de maio de 2021   Pensata

Enquanto a pandemia da Covid-19 persiste com suas ondas e variantes ameaçadoras ao longo do tempo que passa, prosseguimos na esperança permanente da chegada de mais doses das vacinas, apesar de todos os pesares. Também ainda vale lembrar dos alertas sempre difundidos como o “se puder, fique em casa”; “lave as mãos”; “use máscaras”…

Mas o que as pessoas que estão ficando em casa para trabalhar remotamente, cuidar de crianças e idosos… tem feito além disso? Sei que são inúmeras as possibilidades e impossibilidades em função das necessidades, expectativas e recursos de cada um, inclusive levando em conta uma certa fadiga inerente ao próprio prolongado processo pandêmico.

Tenho conversado por telefone com pessoas próximas, a maioria acima dos 50 anos, que tem destinado um pouquinho do tempo para observar e analisar a quantidade de documentos, artigos, comprovantes diversos, relatórios e livros, por exemplo, acumulados em algumas décadas e praticamente inertes desde então. Invariavelmente as pessoas tem relatado as lembranças – boas ou ruins – suscitadas ao ver de novo algo que estava parado há tanto tempo com a justificativa de que um dia poderia ser necessário o seu uso.

Foi interessante também o relato que todos fizeram sobre a quantidade de itens descartados por não serem mais necessários e dos poucos que foram mantidos em função dos critérios definidos para justificar a sua preservação. Entre os itens descartados, só para ilustrar, foram citados convites para formatura, atas de assembleias de clubes, convites para casamentos, o projeto de uma casa que nunca foi construída, o planejamento de uma viagem ao nordeste brasileiro, o plano de um negócio que ficou só no plano, uma enorme variedade de revistas, recortes de jornais… Isso me fez lembrar o programa 5S, utilizado pelos japoneses para iniciar a implementação da gestão pela qualidade em seus negócios. No programa, são aplicados cinco sensos – utilização, arrumação, limpeza, saúde e autodisciplina.

No caso das conversas ficou evidente a aplicação do senso da utilização, que nos ajuda a combater o desperdício. Ele propõe que fiquemos só com aquilo que precisamos e que o desnecessário seja doado para alguém que esteja precisando ou então seja descartado de maneira adequada. Muitos se disseram surpresos com a quantidade de espaços que estão ficando livres em gavetas, estantes, arquivos e que provavelmente uma parte deles poderá não ser mais necessária.

Por outro lado, alguns poucos disseram que aproveitaram para rever a configuração de suas casas e descobriram que havia excesso de móveis e aparelhos eletroeletrônicos, muitos dos quais estão em desuso devido ao avanço tecnológico acelerado, cheio de inovações. Também usaram o senso da utilização e os principais ganhos foram os espaços mais livres, a redução do estoque de bens não utilizados e uma menor quantidade de tropeços em móveis. Um dos amigos passou até a pensar na possibilidade de se mudar para um espaço menor, casa ou talvez apartamento. Porém tudo vai depender dos demais membros da família.

Enquanto isso, podemos tentar encontrar mais coisas que precisam ser feitas e para as quais nunca tivemos tempo ou ainda não temos. A gestão do tempo é um desafio permanente, difícil de terceirizar principalmente porque sabemos que tudo começa com a gente.

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Lá num dia não tão belo do verão do ano passado ficamos sabendo que a Covid-19 tinha chegado ao Brasil e logo veio a informação sobre a primeira morte causada pelo vírus. Fomos surpreendidos pelo acontecimento que chegou trazendo medo, incerteza, insegurança e ansiedade diante do que estaria por vir.

O que e como agir diante da nova conjuntura? Naquele momento, desenhar cenários era mais difícil ainda. Desde o início ficou claro que não havia unidade de ação entre os entes federativos para combater o problema, que era nacional e mundial, conforme reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

De lá para cá quase todo mundo sabe ou tem alguma noção do que foi feito ou deveria ter sido feito. Mas hoje, proponho uma reflexão sobre o processo de vacinação. Tomo como exemplo o município de Belo Horizonte.

Na semana passada, entre os dias 3 e 7 de maio, as pessoas da faixa etária de 64 a 67 anos esperavam receber a segunda dose da vacina Coronavac, produzida em parceria pelo Butantan com a chinesa Sinovac. Essas pessoas começaram seu ciclo de imunização em abril e receberam o cartão de vacinação marcando a segunda dose para até 28 dias após a primeira agulhada no braço, o que seria em maio. Depois dessa agulhada, surgiu naturalmente a expectativa de algo bom para acontecer – a imunização completa – mantida pela municipalidade até a tarde da sexta-feira, 30 de abril.

Só a partir dai é que a Prefeitura começou a assumir que não tinha, em estoque, as quase 80 mil doses da Coronavac necessárias para o cumprimento do cronograma para todas as pessoas dessa faixa etária. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde a causa foi a orientação do Ministério da Saúde para que não se reservasse estoque para garantir a segunda dose, pois outras remessas chegariam em tempo hábil. Porém, isso não aconteceu e, com isso, o cronograma de vacinação foi atrasado. Essa informação foi repassada via imprensa pois, para quem consultou o portal da Prefeitura até o dia 06 de maio, a informação era conflitante e dizia que havia estoque de Coronavac, o que não era verdade. As causas internas dessa diferença cabe à Prefeitura explicar.

O fato é que ficou uma frustração para quem tinha a expectativa de concluir o processo de imunização no prazo marcado. Alguns até compareceram aos postos esperando “dar uma sorte” e outros ainda tentam entender os impactos para a saúde de esperar mais 10 ou 15 dias além do prazo inicialmente fixado. Hoje, 11 de maio, a Prefeitura está aplicando a segunda dose apenas para os que tem 67 anos, fazendo uma “rapa” do estoque e juntando com algumas doses que recebeu do Ministério da Saúde. Para os idosos de 64 a 66 anos resta seguir aguardando.

Essa acaba sendo uma boa oportunidade para refletirmos sobre nossas reações diante de um processo sobre o qual não temos autoridade nem controlamos, como no caso da pesquisa, produção, aquisição, distribuição e aplicação das vacinas. Se a expectativa for maior do que a realidade acabaremos sofrendo – e muito.

O que nos resta é treinar nossas competências emocionais para aumentar a paciência, a perseverança e a resiliência para nos fortalecer no enfrentamento de tantos problemas que a pandemia trouxe. Isso também não deixa de ser um cuidado mental que devemos ter.

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O engenheiro civil e sanitarista Décio Gonçalves, 54 anos, casado, 2 filhos solteiros, trabalha há quase 30 anos no serviço autônomo de água e esgoto de um município do interior de Minas Gerais, na bacia hidrográfica do Rio Grande. A esposa é professora do ensino fundamental na rede estadual e os filhos estão prestes a concluir o curso de Engenharia Agronômica numa Universidade Federal do estado.

Com o passar do tempo o engenheiro Décio foi se comprometendo cada vez mais com seu trabalho, sempre atualizando os conhecimentos técnicos específicos e também se sentindo confortável com a estabilidade de um servidor municipal concursado. Para ele ficou claro que um dia chegaria a hora de se aposentar por ali mesmo. Desde o início da carreira profissional ele estabeleceu a meta de poupar 15% dos rendimentos mensais, sempre colocados em aplicações financeiras conservadoras.

Há 5 anos Décio ficou muito incomodado e preocupado com a “falação” sobre a Reforma da Previdência Social. Pensou muito em obter uma renda para complementar os proventos vindos da aposentadoria e também numa atividade suficiente para não deixá-lo sentado nos aposentos, ou seja, “apo-sentado”. Foi aí que surgiu a ideia de ter um pequeno negócio próprio, no qual aplicaria a metade dos recursos financeiros até então acumulados. Dois anos depois conseguiu comprar uma fazendinha distante 30 km do perímetro urbano. O lugar tem bom acesso, instalações físicas em razoável estado de conservação, água em quantidade e qualidade adequadas. A propriedade adquirida mede 3 alqueires – 14,4 hectares – algo em torno de 150 mil metros quadrados.

Hoje ele se ressente por não ter feito o passo-a-passo de um plano de negócios documentado e ter apressado tudo em função da ansiedade e se esquecendo que estava arriscando seu próprio dinheiro. Assim, cada dia desses três últimos anos tem sido uma peleja para fazer as coisas acontecerem diante de tantos problemas que surgem. A começar por ele mesmo, que só pode ir ao local nos finais de semana e feriados, pois ainda não se aposentou.

Ele possui 30 cabeças de gado bovino, das quais 10 são vacas leiteiras cujo leite se destina a produção de queijo artesanal, não certificado. Nesse momento, os custos da ração estão pesando muito – mais que dobraram – e não dá para repassar quase nada ao preço pago pelos clientes.

Mas a maior dificuldade mesmo está na rotatividade dos profissionais para trabalhar na função de caseiro e de auxiliar de caseiro, que são fundamentais para operar bem o dia-a-dia. Até agora ninguém chegou a completar um ano no trabalho, mesmo recebendo salários e benefícios competitivos no mercado regional. Um dado interessante é a baixa escolaridade de todos, pois a maioria não conseguiu cursar além da primeira metade do ensino fundamental, e a idade deles varia na faixa de 30 a 40 anos. Mesmo eles sendo treinados em procedimentos operacionais padrão, escritos ou verbais, é grande a dificuldade que sentem para colocá-los em prática. Eles querem fazer tudo do jeito que já conhecem e são muito resistentes a outras práticas que podem ser melhores ou mais eficientes.

Décio não conseguiu mais poupar os 15% dos seus rendimentos mensais, que têm sido direcionados ao negócio. Às vezes ele pensa em “chutar o balde” diante da análise mensal das contas que não fecham, das raivas que tem passado, das surpresas ruins como a morte de uma vaca, os ovos de galinha que não aparecem, ou do uso “recreativo” da cachaça, por exemplo. Mas quando pensa na vida depois da aposentadoria ele ainda acredita que tudo vai melhorar quando for possível a sua presença diária na operação do negócio.

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O planejamento estratégico de qualquer negócio trabalha com o desenho dos cenários para fazer projeções sobre que futuro poderia vir a ser no curto, médio e longo prazo. É claro que é muito difícil acertar tudo no centro do alvo, mas é possível ter uma boa aproximação, principalmente para quem tem disciplina no uso do método para perceber as mudanças permanentes que ocorrem em função do dinamismo dos acontecimentos.

O que me inspirou a dizer isso foi uma entrevista de Marco Antônio Lage, filiado ao PSB e prefeito do município de Itabira, MG, concedida ao repórter Eduardo Costa no programa “Chamada Geral”, da rádio Itatiaia de Belo Horizonte, que foi ao ar em 2 de abril.

Segundo o prefeito, a população de seu município é de 120 mil habitantes. A arrecadação de tributos é a 8ª do estado – entre 853 municípios – e a 90º do país, entre 5.570 municípios. Ele enfatizou que no próximo ano a exploração do minério de ferro no município, feita pela Vale, completará 80 anos e é pioneira no país. Por outro lado, ele lembrou que segundo as informações obrigatórias passadas pela Vale para a Bolsa de Valores de Nova York, a exaustão das jazidas em Itabira está prevista para o ano de 2028. Se assim for, faltam apenas pouco mais de 7 anos para o início do fim ou, quem sabe, até venha uma certa sobrevida.

O prefeito falou também que seus antecessores e a Vale não fizeram nenhum planejamento estratégico para o município levando em consideração a sua sustentabilidade após a exaustão da mina. Afirmou que 25 municípios fazem parte da microrregião de Itabira e somam em torno de 450 mil habitantes. O orçamento de Itabira para 2021 prevê arrecadação de R$ 638 milhões. Dos quais, estima o prefeito, 85% estão relacionados à cadeia produtiva da mineração. É importante lembrar que o atual marco regulatório da mineração, aprovado em 2017, estabeleceu que a Contribuição Financeira sobre a Exploração Minerária (CFEM) deve ser calculada sobre o faturamento bruto das empresas mineradoras e que para o minério de ferro a alíquota é de 3,5 %. Até então o calculo era feito com base no  faturamento líquido. A arrecadação da CFEM no país passou de R$ 1,8 bilhão em 2017 para R$ 6 bilhões em 2020. O município minerador fica com 60% do valor gerado e 15% vão para os municípios diretamente impactados pela atividade. Cabe aos municípios e à Agência Nacional de Mineração (ANM), a fiscalização do cumprimento da Lei.

Como estará o município de Itabira em 2029, sem a receita da CFEM e as demais receitas correlatas à mineração? Prevalecerão as estratégias de sobrevivência ou serão construídas – com muita transpiração e um pouco de inspiração – as estratégias de manutenção, crescimento e desenvolvimento?

Infelizmente quem não tem estratégia esta condenado à morte. Nunca é demais lembrar dos versos do poeta itabirano Carlos Drummond Andrade dizendo que:

Itabira é apenas um retrato na parede / mas como dói!”

Importante também lembrar da situação de outros municípios mineradores de Minas Gerais, como Araxá, Nova Lima, Brumadinho, Ouro Preto , Itabirito, Mariana, Congonhas. Há planejamento estratégico para quando as minas se exaurirem?

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Sempre que somos surpreendidos por algo inesperado tendemos à paralisia, ao medo. O que nos resta é reagir em busca de soluções adequadas, consistentes para o problema. É o caso da peleja com o ensino a distância na tentativa de suprir a suspensão das atividades presenciais do ensino nos ambientes de uma escola.

Tenho conversado com alguns poucos professores de cursos de graduação e pós-graduação sobre dificuldades e restrições que estão enfrentando na modalidade online do ensino a distância. As referências são tanto para as aulas síncronas, que acontecem ao vivo com a possibilidade de interação entre professor e aluno, quanto para as aulas assíncronas, já gravadas e que podem ser assistidas a qualquer momento.

Como o país tem muita dificuldade para trabalhar com o planejamento estratégico em curto, médio e longo prazo tenho lembrado a todos que o Ministério da Educação propôs o Ensino a Distância – EAD em 1996, com parâmetros definidos pela Lei Federal  nº 9.394/96 . Efetivamente tudo começou a ganhar ritmo em 1999, notadamente no ensino superior, em cursos de maior carga teórica.

Meu ponto aqui se refere às aulas síncronas para evidenciar algumas afirmações quase que unânimes e outras bem específicas que também despertam nossa atenção. Todavia deixo claro que minha amostra é pequena e, por isso mesmo, não posso generalizar conclusões, mas apenas registrá-las. Todos notam a falta que faz a interação face a face permitida pela aula presencial. Agora é mais difícil reorientar uma aula, já que muitos alunos não ligam suas câmeras. Todos também se lembram da concorrência permanente dos dispositivos tecnológicos, sempre ao alcance dos participantes, o que só aumenta a dispersão. Portanto faltam foco e autodisciplina.

A preparação das aulas ao longo desse tempo todo da pandemia também é objeto de muita reclamação. Todos dizem que estão trabalhando muito e não são remunerados devidamente para esse trabalho adicional. É diferente o esforço para dar uma aula presencial com duração de 2 horas e outra com o mesmo tempo no digital. Outros reclamam que estão investindo do próprio bolso para ter tecnologia e espaço físico adequados a um nível de qualidade aceitável. Lembram que, não raro, a conexão cai e é aquela agonia até que tudo se restabeleça. Um professor falou de alunos que deixam o dispositivo tecnológico ligado na aula, mas com a câmera desligada, e vão fazer outras coisas. O padrão de sua escola exige que o professor seja o último a sair do ar, mas às vezes ele se vê obrigado a encerrar as atividades mesmo sem a retomada dos distraídos dubladores de presença. Outro professor disse que, em sua escola, é preciso chamar um aluno pelo nome aleatoriamente a cada 10 minutos fazendo perguntas para assim confirmar sua presença e movimentar a aula.

Para finalizar, registro a fala de um professor que descobriu que precisava ser ator diante das câmeras e ensaiar mais suas apresentações, pois de vez em quando perde o “fio da meada” em seu palco vazio, sem plateia.

Aguardemos as aulas presenciais quando for o momento.

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Sentiu chegar o seu momento

por Luis Borges 7 de abril de 2021   Pensata

Sabe aquelas ocasiões em que você liga para um antigo colega de trabalho com quem as relações eram marcadas pela empatia e um bom grau de afinidade nas ideias? Recentemente lembrei-me de um que era meu colega no magistério de uma instituição federal de ensino superior. Resolvi cumprimentá-lo pela passagem de seu aniversário de nascimento. Ele ficou um pouco surpreso, mas agradecido pela lembrança. Afinal de contas nosso último contato aconteceu há pouco mais de 3 anos. Logo a conversa já se encaminhou para várias dimensões da pandemia da Covid-19 e como ela tem sido enfrentada no plano individual e coletivo, nem sempre a partir do conhecimento científico.

De repente falei sobre a dificuldade para se conseguir uma vaga numa Unidade de Terapia Intensiva de um hospital público ou privado, tanto pelo SUS quanto por um plano de saúde suplementar ou mesmo com pagamento particular. Foi aí que meu colega pediu um tempo para contar o perrengue que passou em meados de 2018, portanto um pouco depois de nossa última conversa.

Segundo sua narrativa ele ficou surpreendido por um diagnóstico que indicou uma certa urgência para a realização de uma cirurgia de grande porte em seu aparelho digestivo e que deveria passar alguns dias na UTI para sua maior segurança. Feitos todos os preparativos para a cirurgia, ele se internou num hospital de alta complexidade conveniado de seu plano de saúde em vigor desde o tempo em que estava na ativa. À medida em que foi chegando a hora de ir para o bloco cirúrgico ele disse que também sentiu chegar seu momento, que poderia ser o da partida para outro plano espiritual. Às vezes tentava contrapor a isso com a esperança matemática de que o problema poderia ser resolvido e a vida teria sua continuidade. Logo ele, que era professor de estatística e probabilidade, ou seja, uma parte da matemática. Acabou por pensar na finitude da vida, no quanto deixou de levar isso em consideração, inclusive varrendo para debaixo do tapete qualquer conversa sobre a morte. Nos preparativos para o início da cirurgia listou mentalmente coisas que ainda gostaria de fazer, mas nem terminou, pois o anestesista entrou em ação. Despertou horas mais tarde e percebeu que a vida continuava. Agradeceu pela nova oportunidade de prosseguir vivo diante da gravidade de seu caso.

Como para saber falar é preciso saber ouvir, continuei ouvindo o colega sem me preocupar com o tempo. Então, foi a vez do colega narrar o período passado na UTI. Ele disse que ficou pensando muito em si mesmo, em como valorizar mais o tempo de vida que poderia ter pela frente. Em outros momentos pensava bastante na esposa, nos 3 filhos, nas 2 netas e nos boletos a pagar. De vez em quando se assustava com a grande movimentação no ambiente, principalmente nos curtos horários de visitas. A UTI estava com as 10 vagas daquele bloco ocupadas.

Enfim tudo se passou, inclusive o luto pelas perdas significativas que teve no aparelho digestivo. Ele segue firme, vivendo com as condições funcionais que passou a ter. Na sequência da conversa sugeri ao colega que imaginasse como teria sido o seu perrengue se isso tivesse acontecido no atual momento da pandemia.

Por último ficamos de tentar tornar nossas conversas mais frequentes. Será que conseguiremos?

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Como vai você na pandemia?

por Luis Borges 29 de março de 2021   Pensata

Chegamos ao 2º outono da pandemia da Covid-19 no Brasil – e quiçá um terceiro pode estar se avizinhando. Os números e seus recordes mostram as perdas para todos em variadas dimensões e intensidades, indo dos que perderam a vida (mais de 312 mil), aos enlutados na dor pela perda dos que partiram, aos sobreviventes sequelados até o sistema de saúde colapsado. Fica também visível como a Gestão Estratégica e Operacional faz falta e é extremamente necessária – principalmente para um país que sente há anos os efeitos do pífio desempenho da economia. Pena que o horizonte segue perdido no modo realista.

Partindo da premissa de que tudo começa com a gente e que precisamos estar bem para que possamos cooperar com as outras pessoas, a começar pelas que estão próximas, podemos até fazer uma analogia com a orientação dada no início de uma viagem de avião para que, em caso de despressurização da cabine, coloque primeiro a sua máscara para só depois ajudar outras pessoas. Meu ponto aqui é refletir e dar consequência ao aprendizado que pode advir dos “telecontatos” que eu, você e nós provavelmente estejamos protagonizando nesses momentos de tantas incertezas e desafios à continuidade da vida.

A pergunta padrão que tenho ouvido no início das conversas é “Como vai você na pandemia?”. Na maioria das ocasiões respondo que estou indo bem dentro do possível, observando e praticando com muita disciplina todas as determinações dos padrões sanitários vigentes. Realço que é preciso muita resiliência e que tento ser semelhante ao bambu que “enverga, mas não quebra”. Só não sei até quando. Algumas vezes respondo com a lembrança da música Sinal Fechado (1970), de Paulinho da Viola, dizendo ou cantarolando:

“Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe quanto tempo, pois é. Quanto tempo?”.

Mas indo como, diante de tantas ameaças? É possível ter um sono tranquilo hoje, às vezes me pergunta alguém. Na verdade tenho buscado viver um dia de cada vez essencialmente em casa, mantendo uma observação e análise críticas em relação às informações e conhecimentos que surgem em diferentes meios. O que vem pela frente é um aspecto sempre levantado. Tenho dito que minha expectativa maior é pelo aumento rápido da velocidade da vacinação, para que as pessoas tenham um comportamento adequado ao momento e que os dirigentes do país em todos os níveis cumpram as suas obrigações lastreadas na verdade.

Quanto pior, pior mesmo!

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Celina Oliveira, 23 anos, estudante do 3º ano de medicina, mudou-se da casa de sua avó materna após 14 anos de permanência. Celina chegou lá aos 9 anos de idade juntamente com sua mãe, a administradora de empresas Juliana Souza, em função dos desdobramentos da morte traumática de seu pai, o engenheiro mecânico do setor automobilístico Telmo Oliveira, então com 40 anos de idade. A causa de sua morte foi o infarto agudo do miocárdio. Na época, ele enfrentava uma acentuada dependência do álcool e do tabaco industrializado.

A avó materna, Dona Marli Souza, à época com 70 anos de idade, ficou muito comovida com o estado emocional da filha – então com 36 anos – e também da neta. Diante disso propôs que ela retornasse para a casa dos pais com a filha. Ainda mais que lá só moravam, na época, Dona Marli e o marido Olavo Souza, que acabou vindo a óbito 2 anos depois.

Então foram acertados os parâmetros para a nova configuração da casa, inclusive os gastos financeiros. Dessas conversas participaram também os dois irmãos e uma irmã de Juliana, todos mais velhos que ela e que sempre visitam a casa, principalmente nos finais de semana.

Aos poucos as perdas foram sendo elaboradas e as coisas chegando ao seu desejável lugar. Juliana dando continuidade à sua trajetória profissional e afastando sempre qualquer possibilidade de encontrar um novo companheiro. Celina passou pela adolescência cursando o ensino fundamental e o médio com excelente aproveitamento, mas também mostrando uma forte personalidade para exigir que tudo fosse feito conforme a sua vontade. Caso contrário, as brigas com a mãe e a avó seriam certas.

Por outro lado, o tempo também passou para a avó Marli, que foi ficando mais lenta e com a memória mais fraca mas se mantendo à frente de todos os afazeres da casa como sempre fez.

Um ponto de inflexão marcante se deu quando Celina ingressou numa Faculdade de Medicina, dessas que exigem investimentos anuais de 12 parcelas mensais entorno de R$10 mil, fora livros, transporte, alimentação… Ela, que já “se achava”, passou a “se achar” ainda mais, e começou a cobrar insistentemente de sua mãe que se mudassem para um apartamento mais apresentável do que a casa de sua avó. Ela queria ter um ambiente que considerasse mais adequado para convidar amigos e colegas de faculdade para se encontrarem.

Após dois anos de muitas pressões e discussões, Juliana cedeu às exigências da filha Celina e se mudaram no início deste ano para o sonhado apartamento. Porém, no pior momento da pandemia da Covid-19. A avó Marli foi convidada para morar com elas mas recusou-se peremptoriamente. Reafirmou o desejo de ficar em sua casinha até o dia em que seus olhos se fecharem.

Agora, os filhos tentam convencê-la a aceitar a presença de cuidadoras de idosos para acompanhá-la durante as noites e de uma empregada doméstica para ajudá-la nos serviços da casa durante o dia.

E a vida segue nas duas casas, no pior momento da pandemia.

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Aluga-se imóvel sem fiador

por Luis Borges 15 de março de 2021   Pensata

Espero que você esteja percebendo em suas caminhadas pela cidade de Belo Horizonte a grande quantidade de placas com os dizeres “Aluga-se” ou “vende-se” em imóveis diversos. Após um ano de pandemia o mercado imobiliário também busca se reposicionar estrategicamente dentro da lei da oferta e da procura nesse momento tão ruim da economia brasileira.

Quem já precisou de alugar um imóvel residencial – casa, apartamento, barracão – ou comercial – sala, loja, galpão – sabe bem das exigências que um locatário/inquilino deve atender. É por isso que chama a atenção dos mais atentos um anúncio de aluguel colocado na frente de uma loja numa das ruas mais movimentadas do bairro Santa Efigênia, na zona leste de Belo Horizonte. A descrição do imóvel mostra que trata-se de uma loja de 50m² com mezanino de 30m², uma vaga em frente à entrada para estacionamento de veículo, aluguel mensal de R$2.500,00 acrescido do IPTU de R$120,00. O proprietário solicita um locatário com renda mensal de R$8.000,00 e não é preciso fiador/avalista. Mas o que fica para ser dito por último pela imobiliária é que existe a necessidade de se fazer um Seguro Fiança que pode variar de 9% a 16% do valor do aluguel, o que depende de qual seguradora vai aprovar o cadastro do potencial locatário. Só ai fica claro que não é preciso fiador porque ele foi substituído por outra modalidade de garantia para o locador que, no caso, é o Seguro Fiança.

Será que essa loja vai ser alugada rapidamente após esse ano de pandemia que hoje esta em seu pior momento? Aliás, estima-se que cerca de 20% dos imóveis comerciais estão fechados em Belo Horizonte à espera de um novo inquilino, mesmo com os preços dos aluguéis semelhantes aos de um ano atrás ou até bem menores. Vale lembrar que muitos locatários conseguiram descontos de até 50% no valor de seus aluguéis por um determinado período no início da pandemia através de negociações bem como a troca do índice usado para reajustar os valores dos contratos renovados com o uso do IPCA no lugar do IGPM, que aliás, chegou a 28,95% em fevereiro desse ano.

Como deve estar sendo o posicionamento de muitas das pessoas que investiram na aquisição de imóveis para serem alugados na expectativa de que gerariam um complemento financeiro para os proventos da aposentadoria? Imaginemos o que é ter, de repente, um imóvel desocupado pois o inquilino não consegue mais pagar o preço contratual enquanto o proprietário não renegocia nada, na certeza de que não pode fazer nenhuma concessão para não prejudicar seu próprio orçamento. O inquilino devolve o imóvel e o proprietário, além de ficar sem o dinheiro do aluguel – mesmo pagando 15 % de imposto de renda e 10% de taxa de administração da imobiliária – ainda tem de arcar com o IPTU e o condomínio no caso de um edifício, por exemplo.

Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, mas reflita um pouco sobre o que você faria se estivesse numa situação como a descrita aqui.

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Na janela da dispersão

por Luis Borges 8 de março de 2021   Pensata

Frequentemente ouço pessoas dizendo que estão muito cansadas e que já não aguentam mais tantas coisas que precisam fazer ou deveriam ser feitas no dia, na semana ou no mês. Muitas dessas pessoas ainda emendam as falas abordando a complexidade exponencial das várias variáveis que desafiam a arte de viver nesses velozes tempos de mudanças e incertezas que estamos atravessando. É livre a queda de paradigmas que exigem um rápido e consistente reposicionamento estratégico. Mas como fazer isso é o grande desafio que temos. Falar o que fazer aparentemente é mais fácil. Imaginemos uma espécie de engenharia – criação – simultânea diante de tantas possibilidades e restrições presentes na conjuntura vivida e nos cenários que podemos tentar desenhar em meio a tantas incertezas. Enquanto isso a inteligência estratégica ainda fustiga aqueles que ficam na dúvida entre ter razão ou ter sucesso.

Tenho perguntado a essas mesmas pessoas quais são as causas presentes no plano macro que estão tirando a sua energia e aumentando o seu cansaço. As respostas mais citadas passam pelas preocupações com a economia que não se recupera, o desemprego aberto, a pandemia que se agrava, a volta da carestia e da inflação. Todas são variáveis externas que as pessoas não controlam, mas podem acompanhar.

Por outro lado podemos também tentar melhor observar e analisar o nível micro do cotidiano de nossas vidas para melhor conhecer e compreender os processos dos quais fazemos parte e temos autoridade para atuar neles.  Será que as pessoas que estão reclamando muito, cada vez mais queixosas, estão percebendo as causas fundamentais e secundárias dos resultados que estão colhendo, das entregas que não estão fazendo? Afinal de contas, qual é o seu negócio? Você tem foco em que? O que é preciso fazer para combater a dispersão? Por exemplo, buscar as informações e os conhecimentos necessários para a tomada de decisões no tempo adequado. Estamos necessitando muito mais de buscar um foco para o que estamos fazendo e precisamos fazer, até mesmo pela sobrevivência e isto depende também de nós. Não dá só para terceirizar a nossa parte.

Muitas das mesmas pessoas que estão cansadas justificam o estado em que se encontram alegando que é fundamental permanecer na janela das conexões para descobrir oportunidades e buscar o seu melhor aproveitamento. Tudo bem, mas em qual dosagem? Qual é o ponto de equilíbrio? Reflita um pouco sobre o seu comportamento diante de tudo que está à sua disposição, a começar pelos inúmeros grupos de WhatsApp dos quais você participa, por exemplo. Qual é o nível de agregação de valor trazido ou qual é o valor retirado? Infelizmente, queiramos ou não, precisamos estar atentos para não ficarmos estagnados na janela da dispersão em nome da conectividade apenas e tendo a vida mediada pelo celular na palma da mão.

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