Mudando de casa

por Luis Borges 9 de agosto de 2021   Pensata

De vez em quando converso com alguém ou alguns que abordam a vontade ou a necessidade de mudar de casa, apartamento ou edícula onde moram. Geralmente são pessoas que possuem moradia própria, pouquíssimas são as que estão no aluguel mas sonhando saltar do trampolim para um imóvel próprio.

Um caso interessante – que tenho visto aumentar a frequência de sua repetição – retrata a situação de um casal com a “síndrome do ninho vazio”. Ele com 69 anos e ela com 67, casados há 42 e morando há 26 anos na tão sonhada casa, de onde viram os 3 filhos partir para seus vôos próprios.

A partir daí o casal começou a se perguntar sobre a real necessidade de continuar morando num espaço tão grande – 190 m² – e com tanta coisa para apenas duas pessoas. Ainda mais diante da dificuldade para contratar trabalhadores diaristas para a prestação de serviços ligados à casa. A pandemia da Covid-19 acelerou a tomada de decisão rumo a uma moradia menor. Então, colocaram a casa à venda no final do ano passado, enquanto passaram a procurar um apartamento medindo em torno de 90m², com 3 quartos, num edifício de 6 apartamentos com 2 por andar e 2 vagas de garagem. Tudo se concretizou ao final de junho, com a melhoria do mercado para imóveis residenciais.

Ao se preparar para a mudança perceberam muitos detalhes que ficaram quase invisíveis ao longo dos anos que passaram na casa. Muito do que deixou de ser feito foi em nome da falta de tempo, da correria louca em função do trabalho sempre priorizado em função da sobrevivência e do crescimento. Se “consumo, logo existo”, ficou fácil de perceber porque o quartinho de bagunças estava tão cheio de bens parados, sem colocar a energia em  movimento a favor da renovação da vida. Assustador também foi descobrir a quantidade de livros, revistas e artigos de jornais armazenados na expectativa de que um dia poderiam vir a ser consultados – mesmo diante da escassez de tempo. Qual não foi o espanto diante de tantas roupas, inclusive dos filhos, sapatos, cintos, bolsas… abarrotando boa parte dos guarda-roupas, armários, mesmo que em muitos momentos tivessem dificuldades para escolher o que seria usado.

Outra descoberta foi a quantidade de modelos de aparelhos de telefones celulares e carregadores de baterias, bem como computadores, teclados, impressoras em desuso.

Na hora de reduzir a quantidade de móveis à metade para se adequar ao espaço da nova moradia é que o casal percebeu como a casa foi ficando entulhada de móveis e equipamentos eletroeletrônicos. Surgiu daí uma constatação tardia de que muito daquilo que ficou acumulado poderia ter sido útil para outras pessoas. Um pouco de desapego poderia ajudar a contrapor o alto desejo de acumulação primitiva de bens.

O fato é que a mudança de moradia trouxe a percepção, na prática, da importância e da necessidade da mudança a favor da melhoria das condições de vida em conformidade com a capacidade de processo em cada ciclo ou fase da vida, de preferencia para se viver só com o necessário e possível em função da renda, de cada um.

E você, o que pensa sobre o caso que abordei? Como está a acumulação na sua casa?

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Estamos chegando ao 18º mês da pandemia da Covid-19 sob a égide da variante Delta e outras denominações caracterizadas pela velocidade da transmissão do vírus. Enquanto isso o processo de imunização prossegue dentro do possível, premido pela capacidade política, gerencial e comportamental de todos os envolvidos. É claro que a cada qual com o seu qual, cumprindo ou descumprindo os papeis que lhes cabem.

Enquanto isso o tempo vai passando, cada pessoa e cada organização humana pulando de toda maneira para sobreviver em meio à crise gerada, que pegou todo mundo de surpresa e instalou o medo, a incerteza e a insegurança. Diversas mudanças se fizeram necessárias e obrigatórias em novos e rigorosos comportamentos sanitários e trouxeram as discussões sobre os trabalhos presenciais essenciais e os que poderiam ser feitos remotamente. O que se percebeu rapidamente foi a aceleração dos serviços de entrega de bens via delivery decorrentes das compras online. Esse serviço já era uma realidade e apenas ganhou um grande incremento para resolver as novas necessidades da logística.

Nesse momento é mais que importante avaliar a qualidade dessas entregas, que são a parte final do processo de compra. Também é importante analisar as condições de trabalho dos entregadores – muitos deles ficaram desempregados na pandemia – bem como a relação da essencialidade do trabalho com a priorização para a vacinação e os treinamentos recebidos para realizar um trabalho consciente, não alienado.

Nunca é demais relembrar fundamentos da gestão que devem nortear as relações das pessoas quando estão no papel de clientes ou de fornecedoras, que podem mudar dinamicamente de lugar em cada processo em que se envolvem. Uma pessoa ao adquirir um bem ou serviço vive a expectativa que ele tenha a qualidade intrínseca especificada, um preço justo e o atendimento marcado pela entrega no prazo combinado, na quantidade requerida e no local definido. Cabe ao fornecedor saber que a sua entrega, os seus resultados serão medidos pelo seu cliente ao avaliar se tudo foi feito conforme as especificações combinadas no início da compra.

No caso aqui, podemos avaliar as compras de alimentos provenientes de restaurantes, lanchonetes, padarias, sacolões e distribuidoras de bebidas, por exemplo.

Como tem sido a sua própria experiência e a de outras pessoas da sua rede de relacionamentos nesses casos? Será que existem mais elogios do que reclamações sobre as entregas feitas pelos profissionais, que geralmente em sua maioria usam motocicletas? Os prazos combinados para as entregas tem sido cumpridos à risca ou às vezes acontecem atrasos? De vez em quando até acontecem alguns adiantamentos inesperados e o cliente reclama porque estava sozinho em sua residência e resolveu tomar um banho enquanto esperava a hora prevista para a entrega, me contou um vizinho. Uma outra vez alguém comentou que solicitou 4 sanduíches e 1 dúzia de latinhas de cerveja e quando foi conferir, já dentro de casa, percebeu que estava faltando 1 unidade de cada modalidade. O frete já embutido no preço, o modo de pagamento, a embalagem dos bens recebidos ou um pedido de uma boa avaliação feita pelo entregador também recebem muitos comentários e considerações. O que você acrescentaria a esses tópicos?

Já imaginou como seria sua postura se você estivesse no papel de entregador durante a pandemia?

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Há quanto tempo você ouve alguma afirmação sobre a necessidade de fazer uma reforma tributária no país, que a carga tributária é alta- 37% do PIB – e que a taxação é regressiva – proporcionalmente, paga mais quem ganha menos? Essas constatações estão no ar há pelo menos 30 anos, e ganharam mais intensidade de 2015 para cá, período marcado por recessão ou baixíssimos índices de crescimento econômico.

Segundo o dicionário Houaiss o substantivo reforma significa “mudança introduzida  em algo para fins de aprimoramento e obtenção de melhores resultados; nova organização, nova forma; renovação”, conforme consta no segundo dos 10 verbetes. Nesse sentido é importante trazer à lembrança os processos de reformas como a político- partidária que nunca avança, enquanto convivemos com remendos na lei a cada ano que antecede as  eleições, inclusive com o abusivo fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões para o próximo ano. Vale também lembrar das reformas de base, a começar pela Agrária, falada desde o início dos anos 60 do século passado, ou da reforma Urbana em décadas mais recentes

Por outro lado é fundamental perceber criticamente as reformas que chegaram a ser aprovadas, como a Reforma Trabalhista em 2017, que precarizou as relações de trabalho, e a Reforma da Previdência Social em 2019 cujos efeitos já são sentidos na pele, notadamente no setor privado. Essas reformas foram vendidas como a panaceia para resolver problemas como o desequilíbrio das contas públicas, remover privilégios de algumas categorias profissionais e combater o desemprego com a geração de 10 milhões de postos de trabalho, para citar apenas algumas premissas. E nem sempre os falados benefícios se verificaram na prática.

Finalmente, a primeira fase da Reforma Tributária foi enviada pelo Ministério da Economia ao Congresso Nacional em julho do ano passado. Ela propunha a simplificação do processo de arrecadação de tributos com a fusão de alguns impostos e contribuições com a criação do Imposto sobre Bens e Serviços – IBS. Tudo continua parado na Câmara dos Deputados.

No final de junho chegou ao Congresso a proposta da segunda fase da Reforma Tributária, tratando do imposto de renda (IR) das pessoas físicas e jurídicas, cujo texto base foi feito pela Receita Federal. Foi um balão de ensaio, com uma mera correção de 32% da altamente defasada tabela do IR, a limitação da declaração do IR no modelo simplificado só para quem tem renda de até R$40.000,00 anuais e a taxação de lucros e dividendos em 20%. Tudo isso para ser aprovado a toque de caixa pelo Congresso até dezembro para entrar em vigor no ano eleitoral de 2022.

Diante das reações imediatas das pessoas jurídicas o deputado federal relator da proposta apresentou um substitutivo em 13 de julho – assinado também pelo Ministro da Economia, o Superintendente da Receita Federal e o Presidente do Banco Central – reduzindo drasticamente a alíquota do IR das pessoas jurídicas para 2,5% ao invés dos 15% atuais. Além disso, cortou os incentivos fiscais para o programa de alimentação dos trabalhadores das empresas optantes pelo lucro real para a apuração do Imposto de Renda e jogou quem recebe de R$40.000,00 a R$83.000,00 anuais no modelo completo do IR, com gritante aumento de carga tributária numa verdadeira “passagem da boiada”.

No momento a falação e os questionamentos recaem sobre se haverá aumento ou redução da carga tributária, impacto do volume de recursos do imposto de renda a ser repassado pela União para os Fundos de Participação dos Estados- FPE e dos Municípios- FPM, a tributação de empregados que recebem seus salários como Pessoa Jurídica-PJ e o incremento da dedução de despesas diversas não ligadas diretamente ao negócio no caixa de empresas optantes pelo lucro real.

Haverá mesmo condições de discutir tudo isso em tão pouco tempo? O que será entregue à sociedade vai ser melhor para quem? A conferir!

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Sem cair na indiferença

por Luis Borges 13 de julho de 2021   Pensata

Faz tempo que a civilização brasileira tem sido marcada pela polarização política, que deve prosseguir cada vez mais intensa até as eleições presidenciais em outubro de 2022 – em pouco menos de 15 meses. Diante de tantas convicções de lado a lado, eis que vem à tona a tentativa de criar uma terceira via, buscando dizer que “nem um, nem outro”. Para tornar tudo um pouco mais complexo e complicado ainda temos a pandemia da Covid -19 a desafiar a arte de viver. Quantas mudanças tornaram-se obrigatórias diante do foco na necessidade de sobreviver apesar de todas as pedras do caminho, muitas delas surgidas por ações e omissões?

Considerando que tudo começa com a gente, seja individualmente e, a seguir, nas relações familiares e com os amigos, que percepções temos e que avaliações podemos fazer sobre o impacto da polarização no nosso cotidiano? Será que estamos conseguindo dar conta de prosseguir na caminhada mantendo a saúde mental e o convívio saudável, agradável e respeitoso com aqueles que estão mais próximos de nós? Percebo que tudo está muito desafiador e a nos exigir grande paciência histórica no esforço para viver e vencer um dia de cada vez, mas também carregados de expectativas sobre o que pode estar vindo por aí. Tudo isso sem deixar cair no esquecimento o filósofo grego Heráclito que no ano 508 antes de Cristo disse que “nada é permanente a não ser a mudança”. Como tem sido nossas atitudes e posturas diante do despreparo que nos torna mais fracos para enfrentar novas condições na sociedade em suas diversas camadas e nas nossas vidas com suas particularidades?

A cada dia ficamos sabendo de casos numa família ou num grupo de amigos, colegas de trabalho ou de vizinhos protegidos, por exemplo, em que alguém postou algo num grupo de WhatsApp e que alguns membros não gostaram. A consequência mais imediata tem sido o cancelamento, a exclusão monocrática, fora os demais desdobramentos na sequência. É obvio que se gasta muita energia para se ter uma participação efetiva nesse tipo de rede com variações em torno de uma bolha. Aliás, muitos são aqueles que sabem falar – e muito – quase como juízes do mundo da verdade absoluta. Porém não sabem ouvir. Os ditados populares dizem que “quem fala demais dá bom dia a cavalo” e “quem fala o que quer, ouve o que não quer”.

Imagine especificamente os casos de famílias ou amigos rachados pela polarização política e pelos patrulhamentos ideológicos. Muitos já são aqueles que tem preferido ficar à margem dos grandes embates para só conversar amenidades e prosseguir na convivência. Dizem que é melhor ficar no “modo silencioso” para não criar transtornos. Porém, qual deve ser a dosagem desse silêncio para não cair na indiferença?

 E você, caro leitor, como tem se posicionado em tempos tão belicosos?

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Um dia sem água

por Luis Borges 28 de junho de 2021   Pensata

Sabe aqueles momentos do finalzinho das tardes de domingo em que algumas pessoas sentem que já não dá para fazer quase mais nada enquanto a segunda-feira se aproxima? Foi nesse momento do penúltimo domingo que o professor Leôncio alertou o seu vizinho, o comerciante Samuel, que havia um vazamento de água importante na calçada, mais precisamente na divisa entre suas casas. Elas ficam no bairro de Santa Tereza, zona Leste de Belo Horizonte, que tem quase que a mesma idade da cidade.

Ao observar detidamente o fenômeno da água estava escoando livremente rua abaixo, caracterizando um desperdício pleno, o professor Leôncio manifestou preocupação com a falta que ela faria nas casas enquanto Samuel tentava encontrar possíveis causas do problema percebido. Indagava se poderia ser a fragilização da rede de distribuição da água instalada há décadas e sem manutenção preventiva ou preditiva visível nos últimos tempos.

O jeito foi ligar para o atendimento ao cliente da companhia de saneamento, na esperança de não ser tratado como mero usuário. A atendente cumpriu o padrão de atendimento e conseguiu compreender que o caso necessitava de uma atenção imediata, do tipo “ver e agir”.

Por volta das 20h30 chegou ao local um técnico de uma empreiteira da empresa concessionária do serviço, que diagnosticou um vazamento na rede distribuidora de água instalada na calçada. Disse que o reparo seria feito a partir da manhã da segunda-feira e que tentaria fechar os registros da rede distribuidora nas esquinas de duas ruas próximas. Por volta de uma hora da madrugada o professor Leôncio percebeu que a água parou de escoar quase que totalmente. Soube-se depois que houve dificuldade para fechar totalmente os registros da rede, que estavam um pouco emperrados. Isso piorou as condições para o reparo da rede ao longo do dia.

Lá pelas 17h de segunda-feira a tubulação danificada estava substituída, mas ficou um buraco sinalizado que deveria ser totalmente fechado com a respectiva recomposição da calçada até 48 horas após.

Tudo ficou pronto na quarta-feira à tardinha, ou seja, 3 dias após o vazamento ter sido descoberto. Há quanto tempo o vazamento teria se iniciado sem ter sido percebido e qual o nível de qualidade do serviço feito pela empreiteira perguntou o professor Leôncio ao vizinho Samuel? “Sei lá, vamos ver quanto tempo vai durar”, respondeu ele.

Enquanto todos os moradores da rua passaram 24 horas sem água chegando em suas casas, os dois vizinhos conversaram sobre o período sem chuvas e o impacto que isso causa no consumo de água nas diversas modalidades de seu uso. Samuel levantou a hipótese de ficar três dias seguidos sem água em casa e como sua família se viraria no período. Nada de lavar roupas, aguar as plantas, reduzir drasticamente a duração dos banhos diários e sempre lembrando que a caixa d’água só tem capacidade para armazenar 1000 litros. Arrematou a conversa lembrando-se da crise hídrica e do muito que precisa ser feito para que a água não caminhe para a sua própria finitude. Mas como fazer para que isso não aconteça?

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Neste 21 de junho o Inverno chegou novamente ao hemisfério Sul do planeta, embora o frio já se fizesse presente a partir de meados do Outono na região metropolitana de Belo Horizonte. Nessa época começaram a pipocar notícias nas diversas mídias dando conta de que o último período chuvoso não foi forte o suficiente para encher de água os reservatórios das usinas hidrelétricas.

Também surgiram com mais intensidade notícias sobre o uso múltiplo das águas para o abastecimento humano, a irrigação das lavouras e criação de animais do agronegócio bem como sobre a vazão mínima para garantir a navegabilidade do sistema formado pelos rios Tietê – Paraná e a contribuição da bacia do Rio Grande, que nasce na serra da Mantiqueira, em Minas Gerais.

Em meio a tudo isso lembrei-me do racionamento do uso da energia elétrica, iniciado em 16 de maio de 2001, com a meta de reduzir 20% no consumo. Vale lembrar que o racionamento terminou em fevereiro de 2002. Todo mundo teve que fazer seus planos de ação próprios com as medidas necessárias e suficientes para atingir o resultado esperado.

Mas quais eram as causas do “apagão” da energia elétrica naquele momento? Falta de chuvas, desmatamento, falta de investimentos para a construção de linhas de transmissão de energia, matriz energética brasileira com baixa participação da energia fotovoltaica (solar) e dos ventos (eólica), planejamento e gestão deficientes. Agora, passados 20 anos, todas essas causas continuam sendo faladas em diferentes graus de aleatoriedade.

A grande saída para o capitalismo sem riscos no setor de energia elétrica é continuar fazendo o que tem sido feito nos últimos anos. A cada semana vem uma notícia ruim sobre a estiagem para justificar a necessidade de usar a energia das usinas térmicas movidas a óleo, gás e carvão e repassar o seu elevado custo para as tarifas pagas pelos consumidores. Tudo isto ancorado em lei, enquanto a cada mês o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) anuncia uma nova bandeira tarifária extra que está projetada para o nível máximo da bandeira vermelha a partir de julho custando R$ 7,57 a cada 100 kWh (quilowatts-hora) consumidos.

A sensação que fico diante de tanta falação sobre a escassez das chuvas é que ou aceitamos pagar um preço maior pela geração das usinas termelétricas ou teremos um racionamento de energia elétrica.

Não nos esqueçamos de que faz parte da nossa conta de energia elétrica o ICMS de 42%, as ligações clandestinas –“gatos”- com 5% e outros penduricalhos mais.

Fico pensando no impacto disso tudo na inflação em aceleração, que há seis meses vem sendo justificada como momentânea – 8,06% do IPCA dos últimos 12 meses. A pior perda para o poder aquisitivo das pessoas vem da inflação e quem consegue ter uma reposição dela anualmente em seus salários pode pôr as mãos para os céus.

Pelo andar da carruagem e segundo dizem as autoridades governamentais precisaremos esperar até novembro para que se inicie o próximo período chuvoso e, com ele, talvez ficaremos livres da bandeira tarifária vermelha em seu nível mais alto e caro. É o capitalismo sem riscos na energia elétrica.

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Na quarta-feira da semana passada telefonei para uma amiga de longa data visando cumprimentá-la pela passagem de seu aniversário de nascimento. Ela sempre espiritualizada, muito sensível e caminhante no campo da luz. Fazia algum tempo que não conversávamos voz a voz e, após os cumprimentos pela data, perguntei-lhe pelas expectativas sobre o que vem por aí, inclusive a aposentadoria no trabalho profissional em homeoffice atualmente .

Foi aí que ela contou que está reunindo forças para prosseguir, vivendo um dia de cada vez. Disse que enfrentou três casos de pessoas da família contaminadas pela Covid-19 em diferentes graus de gravidade.

A mãe ficou internada durante 20 dias num hospital, sem a necessidade de intubação, mas precisando de um respirador, enquanto o marido cumpriu 14 dias de isolamento em casa. Posteriormente foi a vez de seu irmão também passar, em casa, pelo mesmo processo de 14 dias de isolamento. Felizmente todos já superaram as respectivas fases, mas ela relatou como fez para enfrentar o “rojão” e como está participando da recuperação de sua mãe no pós-Covid.

Tomada por uma grande ansiedade nos desdobramentos de cada dia na estratégia de sobrevivência, ela disse que foi ao cardiologista para entender por que o coração batia tão forte e o sono desapareceu. Nada importante ou preocupante foi encontrado pelo profissional da saúde, que acabou sugerindo que a amiga se consultasse com um psiquiatra.

Foi o que ela fez e quando a consulta começou ouviu a clássica pergunta inicial do tipo “o que te trouxe até aqui?”.  A amiga deixou bem claro ao profissional que não estava buscando um decreto, um pacote sobre o que fazer. Disse que queria conversar um pouco mais sobre seu caso após a anamnese. Foi o que acabou acontecendo e o consenso foi pelo uso de uma “pílula” para domar a ansiedade elevada e combater a insônia, inclusive analisando algum possível efeito colateral. O tempo de uso da medicação foi previsto para 3 meses e seus resultados estão sendo avaliados mensalmente. A última avaliação prestes a acontecer. Se não houver suspensão ou redução da dosagem da medicação, ela disse que não vai sofrer e continuará firme cumprindo a sua missão. Felizmente, os piores momentos ficaram para trás, a mãe está em casa melhorando a cada dia, enquanto o marido e o irmão estão plenos em suas vidas cotidianas.

De qualquer maneira a amiga esta aliviada e agradecida pela força que teve para enfrentar e vencer o medo, a insegurança e a incerteza. Esses momentos são difíceis para todos em suas diferentes dosagens.

Quando terminamos a conversa eu disse à amiga que, parafraseando Aldir Blanc e  João Bosco na música O Bêbado e o Equilibrista, “a esperança equilibrista / sabe que o show de todo artista / tem que continuar”.

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Uma comparação interessante e importante que podemos fazer é sobre o comportamento de algumas pessoas ao fazer compras antes e durante a pandemia – que ainda está longe de se acabar.

Um pequeno esforço de memória pode nos fazer lembrar o “jeitão” de como agiam determinados grupos e tipos de pessoas no supermercado, padaria e sacolão. É só recordar daqueles que quase nos atropelavam com o carrinho de compras nos corredores internos indo na direção de um setor de frios ou bebidas, por exemplo. Vale lembrar também dos que ficavam atrás de nós na fila do caixa, esbarrando o carrinho de compras em nossos calcanhares com enorme ansiedade e conferindo com o olhar fixo a passagem de nossas compras pela registradora, a embalagem dos produtos nas sacolas plásticas, a escolha da modalidade de pagamento. Isso tudo imaginando que o sistema da registradora não cairia ou que algum produto estava sem preço na etiqueta.

De vez em quando se via um carrinho de compras abandonado no saguão após o caixa, no estacionamento de veículos ou mesmo na rua. De tempos em tempos, viria um empregado do supermercado para recolhê-los e dar destinação a tudo.

Nada muito diferente numa padaria, com algumas pessoas tentando passar à nossa frente para serem atendidas mais rapidamente, enquanto outros tomavam café ou o pingado – café com leite – acompanhado por pão com manteiga ou presunto e queijo.

No sacolão, a compra de frutas, verduras e legumes também sempre tinha alguns afoitos querendo resolver tudo rapidinho, até pedindo para furar a fila do caixa por estarem comprando poucas unidades, mas se esquecendo que todos devem fazer a gestão do tempo numa sociedade civilizada e respeitosa.

Agora, ao compararmos o antes da pandemia com esse durante que está passando pelo 16º mês, o que é possível perceber diante da necessidade de se cumprir os novos padrões e protocolos sanitários para combater a transmissão do vírus da Covid -19 e suas variantes?

Os comentários mais frequentes que ouço de quem vai fazer as suas necessárias compras tendo a disciplina do uso de máscaras, álcool em gel e mantendo distância para não aglomerar, é que sempre existem algumas pessoas que não seguem os procedimentos que são para todos. Alguns deles não usam máscaras ou ficam com ela no queixo e deixam a sensação de que a pandemia acabou.

Interessante observar que na padaria que atende pelo delivery as encomendas são preparadas nos balcões do café da manhã enquanto no sacolão os pedidos são preparados nos carrinhos que transitam diretamente pelos mesmos corredores em que os demais clientes escolhem seus produtos.

Se a educação é a base de tudo, o que nos resta é compreender que ainda estamos longe da excelência, mas sonhando que “esta terra ainda vai cumprir seu ideal”. Mas tudo também depende de nós e de nossas escolhas.

Como tem sido a sua experiência ao fazer compras nos supermercado, padaria e sacolão?

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A pandemia da Covid-19 surpreendeu a todos, de uma maneira ou de outra, e exigiu muita criatividade na busca por soluções imediatas para problemas inesperados. Ficou visível a necessidade de se ter estratégias de sobrevivência diante de tanta ameaça.

Agora estamos passando pelo 16º mês de pandemia preocupados com sinais de uma 3ª onda e na esperança do aumento da velocidade da vacinação. Que avaliação já podemos fazer de alguns aspectos evidenciados com maior frequência após a expansão do homeoffice – trabalho profissional em casa? Se ele era uma leve tendência antes, tornou-se uma realidade imediata na pandemia. A necessidade vem sendo encarada com diferentes graus de estruturação lógica ou simplesmente sendo feita através do delineamento de experimentos com os erros, ajustes e acertos inerentes ao processo.

Vou relatar a experiência de dois profissionais que estão mergulhados no trabalho em casa. Um deles é graduado em Engenharia Mecânica, especializado em Gestão de Negócios, tem 29 anos e é analista de dados numa empresa do segmento de telecomunicações. O outro é bacharel em Ciências da Computação, também com 29 anos, e trabalha como gerente de tecnologia da informação num banco digital.

Na avaliação deles, e é claro que a amostra não é representativa do todo mas tem sua importância enquanto observação, essa modalidade de trabalho veio para ficar e sua adequação ocorrerá permanentemente em função da natureza e do porte dos negócios conforme suas especificidades e localização geográfica de seus mercados.

Segundo eles, os primeiros meses foram extremamente desafiantes, pois muitas coisas tiveram que ser feitas rapidamente para assegurar uma estrutura consistente ao mesmo tempo em que o mercado abalado aguardava as entregas. Em meio às incertezas, medo e insegurança vieram uma extensão de jornadas de trabalho, muitas chamadas a qualquer instante pelos dispositivos tecnológicos, como se a disponibilidade fosse permanente, o que na prática acaba acontecendo para as funções de confiança da direção em alguns segmentos privados. Assim, houve gente perdendo o horário clássico do almoço para “dar conta do recado”, outros desequilibraram o organismo diante de tantos fatores estressantes.

Nessa fase ficaram evidentes as dificuldades para ter em casa um local minimamente adequado para trabalhar à distância. Ainda hoje são muitos os que trabalham nas salas de visitas de suas casas, apartamentos ou edículas, nas mesmas limitadas condições do início dos processos atuais. Sendo assim, é possível ouvir durante uma transmissão o som de um televisor ligado, a fala de crianças, o latido de um cachorro, o barulho da reforma na moradia de um vizinho ou de uma obra na rua… E ainda assim na expectativa de que a conexão nunca caia.

Ainda quanto à saúde os dois profissionais falaram sobre queixas relativas a dores na cabeça, no pescoço e na coluna, além de secura nos olhos que piscam menos diante de tantas abas abertas na tela do computador. Citaram também as diferentes condições dos dispositivos tecnológicos, muitos dos quais não possuem câmeras, e das diferentes condições oferecidas pelas empresas para a sua aquisição, manutenção e demais gastos para a sua utilização.

A conversa foi mais longa, mas o espaço aqui acabou e espero voltar ao tema num outro momento. E você, o que acrescentaria, de imediato, ao que foi abordado nessa Pensata?

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O médico veterinário Fred Lima, 57 anos, e a psicóloga Neusa Ávila, 51 anos, são casados há duas décadas e não tem filhos. No início deste ano foram contaminados na segunda onda da Covid-19, com diferentes desdobramentos. Ela ficou em casa, se cuidando conforme o protocolo e tudo caminhou para o resultado de cura esperado. Ele teve um quadro de piora contínua, procurou ajuda num hospital credenciado pelo SUS, onde ficou internado durante 2 meses e entubado na maior parte do tempo.

Há 3 semanas Fred teve alta hospitalar e prosseguiu sua convalescência no apartamento onde moram e tem a companhia de uma estimada cachorra.

Acontece que no sábado, 22 de maio, Fred fez aniversário de nascimento e Neusa resolveu romper a mesmice do isolamento e do cansaço mental promovendo um lanche. Fred se convenceu de que seria uma boa ideia, mesmo estando recolhido ao próprio quarto e se deslocando com o auxilio de um andador. Assim convidaram um grande amigo, o professor Lutero Almeida, de 54 anos, para um breve encontro lá pelas 17 horas. O amigo manifestou suas preocupações quanto aos riscos que todos correriam, lembrando a eles que ainda não se vacinou contra a Covid-19 e nem o influenza, mas acabou por concordar diante dos apelos de Neusa, que disse ser ele a única pessoa convidada. Ainda assim, o professor consultou seu médico de confiança que deu parecer favorável à ida com os devidos cuidados após ouvir todos os dados do caso.

Em torno da hora combinada, o professor chegou ao apartamento. Usando máscara, cumprimentou o convalescente na porta do quarto, sentou-se à sala de visitas e ouviu a campainha tocando. A porta foi aberta e entraram três vizinhos do mesmo prédio – pai, mãe e filha – todos com máscaras, que conversaram efusivamente e brincaram com a cachorra de estimação; seguiram todos para o quarto de Fred. Enquanto o professor se recuperava da surpresa, que furava o que tinha sido combinado, a campainha tocou novamente. Dessa vez chegou um sobrinho de Neusa, acompanhado pela esposa e uma filha, todos usando máscaras, e este foi direto ao quarto do convalescente enquanto a esposa tentava entabular uma conversa com o professor.

Neusa dava atenção aos convidados que chegaram enquanto o professor aguardava; pensava ele que realmente seria o único convidado conforme lhe adiantaram.

Minutos depois a aglomeração recebeu ainda uma tia de Neusa, beirando os 80 anos de idade, em companhia de uma filha com idade em torno de 50 anos, com máscaras e beijoqueiras ao cumprimentar Fred e Neusa. Por último entrou um irmão de Neusa, sem máscara, cumprimentando todos com apertos de mão, abraços e também beijoqueiro. Se dirigiu ao professor igualmente, mas o professor foi claro com o inoportuno senhor dizendo-lhe com ousada clareza  “mantenha distância”. Este, sempre muito brincalhão, movimentou –se em direção aos demais convidados expressando “o ambiente está tenso”.

Já tinham se passado 35 minutos da chegada do professor quando Neusa chamou a todos para se servirem de uma torta de frango; na mesa também foi colocada uma bela torta de morangos. Todos em volta da mesa falavam ininterruptamente em cima das tortas. O professor percebeu o grande acúmulo de pessoas, sem o esperado distanciamento, e decidiu se retirar, sem degustar as tortas tão expostas.

No caminho de volta o professor Lutero passou numa confeitaria especializada e comprou uma torta de frango para degustar em casa.

Se o que foi narrado tivesse acontecido com você, que atitudes você teria?

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