Uma vendedora sem treinamento

por Luis Borges 10 de novembro de 2021   Pensata

Algumas vezes tenho insistido neste espaço que os clientes esperam receber de seus fornecedores de bens e serviços tudo o que foi solicitado conforme as especificações feitas, com preço justo e que a entrega aconteça no prazo combinado. Imagine a insatisfação de qualquer cliente, por mais complacente que ele seja, quando pelo menos uma dessas três dimensões não é atendida plenamente! Alguns clientes até tentam entender as causas do efeito indesejável, ou seja, do problema gerado. Com certeza o gerente do processo deveria resolver o problema após identificar a suas causas, para estancar as perdas que decorrem dele, inclusive a perda do cliente.

Exemplifica bem essa situação o caso de um cliente de uma loja que comercializa tintas para pintura de paredes de imóveis na região Leste de Belo Horizonte. A construção civil está retomando o crescimento em meio a uma alta inflação, inclusive no setor, e falta de alguns insumos que, quando reaparecem, voltam mais caros. Assim, atrasos de cronogramas tornam-se inevitáveis, até mesmo para fazer o reequilíbrio orçamentário.

Esse cliente comprou duas latas de tinta com a capacidade de 18L, na cor branco neve, e saiu da loja rapidamente sem conferir a especificação do bem adquirido. Como sempre, estava com muita pressa na “correria louca” do seu cotidiano. Tão logo o pintor de paredes recebeu a tinta já foi dizendo que a cor estava errada, pois veio branco gelo. Mesmo diante da falta de tempo e da necessidade da continuidade da pintura, o jeito foi voltar rapidamente à loja para efetuar a troca das latas para a cor branco neve.

A chegada à loja foi o início de um verdadeiro calvário. O estacionamento para veículos dos clientes estava com as três vagas ocupadas e sem previsão de alteração. O jeito foi procurar outro local para estacionamento nas proximidades. Passaram-se 15 minutos até o cliente finalmente entrar na loja. Todas as atendentes do balcão estavam ocupadas e 10 minutos depois é que uma delas ficou disponível. Como se tratava de uma devolução, com geração de crédito no sistema operacional, ela sentiu-se insegura alegando que não conhecia o processo. Estava há menos de um mês trabalhando na loja e o sistema é diferente daquele que ela utilizava em seu trabalho anterior. Só lhe restou pedir ajuda a uma colega, o que foi iniciado após a conclusão do atendimento do cliente que já estava em andamento. Lá se foram mais 10 minutos de espera. Finalmente começou um treinamento no padrão de lançamento de crédito que não era escrito, e cada empregado faz do jeito que entende até conseguir concluir a tarefa. Após mais 10 minutos a vendedora se sentiu em condições de fazer a operação.

Lançado o crédito no sistema foi possível dar saída no estoque das latas de tinta na cor branco neve. Outros 10 minutos se passaram para que um Auxiliar de Serviços Gerais levasse as latas até o carro do cliente, que estava estacionado a dois quarteirões da loja. O cliente acabou gastando quase 1 hora do seu precioso tempo para fazer a troca das latas de tinta, mas poderia ser bem menos se a vendedora da loja tivesse sido treinada no Padrão Operacional do Processo (POP) ou se a mercadoria tivesse sido conferida antes de sair da loja. Obviamente nem teria sido necessária a troca.

O treinamento continua sendo essencial no sistema de gestão de qualquer negócio, seja ele micro, pequeno, médio ou grande, público ou privado. Continuamos longe da excelência, mas não podemos desanimar.

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A sobrinha e a tia idosa

por Luis Borges 26 de outubro de 2021   Pensata

Todo dia é dedicado à lembrança de uma ou mais coisas de natureza variada e foi assim que passamos pelo primeiro de outubro, Dia do Idoso. Vale lembrar que a lei brasileira considera idosas as pessoas com idade a partir dos 60 anos. Estima-se que o Brasil tem, hoje, aproximadamente 28 milhões de idosos e que esse número chegará a 43 milhões em 2031. Diante de tantas consequências políticas, econômicas, sociais e culturais que isso tem, de vez em quando surge alguém propondo que a idade limite seja elevada para 65 anos devido ao aumento da expectativa de vida. Apesar desse tipo de proposição, é importante conhecer onde, como (com quais condições?) e com quem (ou sozinhos?) vivem os idosos brasileiros.

Ajuda-nos a tentar encontrar respostas para essas perguntas, ainda que a título de ilustração, um caso do qual tomei conhecimento recentemente. Trata-se de uma senhora de 86 anos, solteira, servidora pública aposentada e sempre muito determinada em seus propósitos. Faz tempo que ela mora num apartamento de 100 m², com 3 quartos, numa movimentada rua no Centro de Belo Horizonte. Há seis anos ela teve importantes perdas em suas condições funcionais e passou a viver – ou sobreviver – numa configuração bem diferente do que era até então.

Uma sobrinha, hoje com 50 anos, passou a ser sua procuradora e resolve monocraticamente todas as questões relativas às coisas de sua vida. Ela montou uma estrutura operacional que conta com uma empregada doméstica, uma cuidadora de idosos para as noites de segunda a sexta-feira e outra para os finais de semana. A sobrinha também recebe os proventos da aposentadoria e dos aluguéis de dois apartamentos que a tia possui no bairro dos Funcionários. Acontece que a sobrinha resolve praticamente tudo a distância. Conta essencialmente com a empregada doméstica para as compras diárias, inclusive de medicamentos e itens de higiene pessoal, e assim chega a ficar até três semanas sem visitar a tia. Quando ela aparece por lá, a tia começa a reclamar das coisas e logo recebe réplicas em tom de ameaça por parte da sobrinha, que diz que ela será encaminhada para uma Instituição de Longa Permanência para Idosos- ILPI.

A tia, em seus tempos áureos, sempre esconjurava essa alternativa de moradia e, portanto, logo fica em silêncio diante da ameaça. Instantes depois a sobrinha dá um jeito de ir embora alegando que tem muitos outros afazeres.

Dessa história, gostaria de chamar atenção para o pré-conceito em relação às moradias para idosos e proponho uma reflexão.

É claro que existem instituições privadas de variados modelos, em função do poder aquisitivo de cada cliente, e também as filantrópicas, com as contribuições possíveis de cada morador, caso ele tenha condições. Melhor seria que as pessoas em geral tentassem conhecer melhor as moradias e centros de convivência para idosos, pois muitos de nós também poderemos precisar delas num futuro que se avizinha a cada dia. Até mesmo a sobrinha da tia idosa de hoje, que alias será a sua herdeira .

Nunca nos esqueçamos que o idoso quer carinho, atenção e tratamento digno, sem essa de ser infantilizado ou iludido com a lembrança de que está na “melhor idade”.

E você, caro leitor, o que acha de tudo isso? Será que isso só acontece com os outros que chegaram à fase idosa da vida?

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“Se muito vale o já feito, mas vale o que será. E o que foi feito é preciso conhecer, para melhor prosseguir”

É o que dizem Milton Nascimento e Fernando Brant na música O Que Foi Feito Devera, de 1978. Eles nos inspiram a pensar e agir neste momento em que o processo de vacinação contra a Covid-19 e suas mutações ganha velocidade.

As pessoas imunizadas com a primeira dose da vacina já passam de 152,32 milhões e as com a segunda dose ou dose única superam 106,87 milhões. Sem contar a dose de reforço, que chega a cada vez mais pessoas.

Diante disso passamos pela flexibilização das medidas de segurança sanitária que foram fundamentais para o combate ao vírus e a sua disseminação. São visíveis os resultados alcançados, apesar de todos os pesares e perdas. Mas a pandemia ainda não acabou e a Organização Mundial da Saúde nada disse em contrário até o momento. Inegavelmente existem diferentes situações na terra globalizada e também diferentes atitudes perante a pandemia, inclusive a de não se vacinar.

O avanço da vacinação mostra seus reflexos na redução das internações nas enfermarias e UTIs dos hospitais bem como na redução da velocidade de transmissão do vírus. Assim, estados e municípios começam a flexibilizar as regras de segurança. Apesar de alguns balões de ensaio pra suspender uso de máscaras e higienização das mãos, os infectologistas e demais especialistas recomendam que seu uso siga permanente, sobretudo em locais fechados e pouco ventilados.

Diante disso o que esperar do comportamento das pessoas que cumpriram disciplinadamente as medidas de segurança sanitária e ficaram em casa sempre que puderam? Será que quem passou pela incerteza, insegurança e medo diante de tantas perdas materiais e humanas, estaria agora com muita ansiedade para rapidamente tirar o atraso em relação ao que deixou de fazer anteriormente? Nesse sentido ainda continua válido pensar em como as nossas escolhas individuais terão consequências para a coletividade. Mas são perceptíveis muitos sinais de pessoas que estão indo com muita “sede ao pote” depois de terem feito tudo conforme os padrões sanitários.

Lembrei-me de um casamento ocorrido numa cidade do quadrilátero ferrífero de Minas Gerais no sábado em que começou o feriadão comemorativo da padroeira do Brasil. O casamento havia sido adiado duas vezes e a empresa contratada para fazer a festa deu um ultimato, dizendo que não negociaria um novo adiamento. A festa acabou sendo feita para 200 participantes, a metade do que era previsto inicialmente.

Em torno de 20% dos participantes entraram no local usando máscaras. Quatro deles relataram olhares atravessados dos que dispensavam o equipamento de segurança, como que a questionar o uso da máscara no local da festa com aglomeração livre. Muitos também foram os abraços calorosos trocados por algumas pessoas falando em saudades.

Quem me contou esses fatos deu um jeito de sair logo do ambiente após cumprir um protocolo para não abalar uma antiga amizade. Fiquei sabendo de gente que está fazendo uma lista de pessoas a serem visitadas daqui para frente e que estão se perguntando se estarão na lista de alguém.

Será que já dá para ficar durante duas horas numa sala de cinema ou num teatro na configuração clássica das cadeiras, mesmo com uso de máscaras? E ir a um estádio com lotação permitida cada vez maior? A decisão é de cada um e o risco é para todos.  Estão vindo aí os feriados de Finados e Proclamação da República, o Natal, a virada do ano, as férias de verão, o Carnaval…

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A cansativa reforma de uma casa

por Luis Borges 14 de outubro de 2021   Pensata

Ter uma casa própria faz parte dos sonhos da vida de muita gente. A moradia é uma das necessidades do ser humano segundo a pirâmide de Abraham Maslow (1908-1970) como parte do quesito segurança.

Vou contar aqui o caso de um casal amigo – que também acontece com outras pessoas – que resolveu recentemente fazer uma pequena reforma em sua casa própria, com 150 m² de área construída, numa verdadeira demonstração de autoestima, de renovação e energização do ambiente do viver cotidiano. A meta estabelecida foi pintar a casa e os muros, bem como revisar o telhado (antes do período chuvoso), em seis semanas contínuas de trabalho, de segunda a sexta.

Todo o planejamento foi detalhado num plano de ação cuja primeira medida era a especificação dos serviços a serem feitos. Logo em seguida vinha a contratação de um prestador de serviços da modalidade Microempreendedor Individual (MEI), com dois ajudantes e com referências de qualidade na prestação de serviços a dois clientes. Essa fase foi bem difícil e demorou três semanas para ser concluída. Foram consultados 4 fornecedores, dos quais 1 estava com a agenda cheia e outro combinou uma reunião para conhecer o que seria feito, não compareceu, remarcou para a semana seguinte e, de novo, não apareceu e nem deu satisfação. Um terceiro que foi procurado ficou de apresentar uma proposta, foi cobrado algumas vezes para que a enviasse e até hoje nada, também não deu nenhuma satisfação. Acabou sendo contratado o único que apresentou proposta, por sinal compatível com a capacidade financeira do casal prevista no planejamento.

Assim os serviços se iniciaram na primeira semana de agosto para serem concluídos em meados de setembro. Dentro das condições gerais do contrato ficou estabelecido que caberia ao contratante – cliente – a compra de insumos e materiais necessários, mas que deveriam ser especificados e apresentados pelo contratado – fornecedor – com antecedência mínima de 24 horas. Na prática isso acabou gerando fadiga entre as partes, pois quase todos os dias se solicitava alguma quantidade de algum item que estava acabando, ou seja, a previsão inicial falhou.

Outros aspectos que incomodaram muito aos contratantes foram a limpeza do ambiente, bastante descuidada, a organização em geral (muita bagunça) e um certo desperdício de materiais, inclusive de tempo. Ainda bem que o casal se hospedou na casa de uma filha durante a prestação do serviço.

Outra percepção clara foi sobre o ritmo de trabalho no dia-a-dia, notadamente na segunda, “pegando no tranco”, e na sexta, com muita ansiedade pela chegada do fim de semana. Houve também pouca pontualidade em relação ao horário de início dos trabalhos pela manhã e na retomada após o almoço, mas a assiduidade foi plena. Diante de tudo que aconteceu, acabou sendo inevitável um atraso de duas semanas e os serviços foram concluídos no dia primeiro de outubro, data limite para o início do período chuvoso.

Qualquer semelhança com alguma experiência já vivida por você, caro leitor, pode nos permitir a repetição de um dito popular afirmando que isso “só muda de endereço”. É isso mesmo?

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Amizades sobreviventes

por Luis Borges 5 de outubro de 2021   Pensata

Passados quase dois anos de enfrentamento do vírus da Covid-19 e de suas mutações, bem como das consequências da pandemia – que ainda não acabou, é bom lembrar – fico pensando nos rumos que as amizades entre as pessoas tomaram e continuaram tomando. As mudanças não param. Penso em duas músicas de Milton Nascimento. Nada Será Como Antes é a primeira. A segunda é Canção da América, na qual Milton canta que

“amigo é coisa para se guardar debaixo de 7 chaves, dentro do coração”.

Como estou cheio de perguntas, penso: será que é isso mesmo? Ou cada caso é um caso, em seu devido tempo?

Constato que muitas pessoas amigas de vários quinquênios e outras de alguns anuênios estão bem mais sumidas. De algumas até penso se não estão escondidas por questão de segurança, de cabeça cheia de preocupações generalizadas que se acumulam e consomem mais tempo em sua já intrínseca escassez. Com certeza, falta gestão. Mas, e se nos lembrarmos das principais características de nossas amizades antes da pandemia? Será que elas estavam sendo bem cultivadas e polidas? Havia tempo dedicado a elas apesar de toda a correria estressante de cada dia, semana ou mês? Antes da pandemia, qual era o real valor da amizade pra nós, mesmo que várias tenham se acabado após o prazo de validade?

Trazendo isso para hoje, tomando todas as precauções para conter a disseminação do vírus, é importante avaliar o nosso querer, os motivos que temos para continuar mantendo – e bem – as nossas amizades, com todos os conteúdos que podem ser abordados nessas relações. Depois que aconteceu o acontecido, que veio trazendo tantas consequências ameaçadoras para todos, do eu ao nós, será mais fácil gastar a energia que ainda temos na solidão? Quem sabe será possível caminhar para a solitude, sozinhos, mas nos sentindo bem, com energia suficiente para gastar um pouquinho do tempo para ser dedicado às amizades, mesmo que mais no modo remoto e ainda quase nada presencial? Será que é tudo isso mesmo ou dá para flexibilizar mais ? Qual o nível de medo de uma contaminação pelo vírus após a imunização que nunca será absoluta?

Diante de tudo que vai rolando e respeitando o momento que minhas amizades estão atravessando, tenho tentado encontrar as pessoas para conversar em viva voz, pelo telefone celular e rarissimamente no fixo, que quase ninguém tem mais.

Mesmo tendo a iniciativa de procurar as pessoas amigas sem cobrar reciprocidade, muitas são as dificuldades encontradas e que se acentuaram nessa pandemia. Uma delas é o fuso horário. Qual seria a hora adequada para fazer um contato usando o dispositivo tecnológico? Será que as pessoas estão dispostas a conversar e com qual profundidade, duração, capacidade de ouvir e falar? Pode ser que a fase esteja levando as pessoas a uma revisão de muitos valores, questionamentos de crenças jamais imaginadas.

O desafio permanece, mas espero que as amizades sobreviventes continuem ajudando mutuamente a quem nelas acredita e cultiva.

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E se vier a estagflação?

por Luis Borges 21 de setembro de 2021   Pensata

Faz tempo que estamos vivendo na expectativa de uma recuperação econômica – já são 7 anos (2015-2021). A prevalência tem sido de recessão ou crescimento pífio do PIB. O ideal seria um crescimento anual de 4% diante de uma população estimada em pouco mais de 213 milhões, dos quais 14,4 milhões estão desempregados e 6 milhões estão desalentados (desistiram de procurar trabalho).

É importante lembrar que, se a expectativa é maior do que a realidade, só nos resta o sofrimento diante da percepção de que tudo tem ficado bem abaixo do esperado. Os indicadores mostram os resultados entregues, apesar de algumas narrativas tentarem justificar os efeitos sem analisar as causas. Fica evidente que não dá para revogar a lei da gravidade.

O que pensar e o que esperar nesse momento em que a primavera chega para fechar o ano pelo calendário gregoriano diante de tantos problemas críticos, cujas soluções são vitais para a retomada consistente do crescimento econômico?

Podemos ilustrar isso com a crise hídrica, que ameaça pela falta d’água para o  consumo humano e demais seres vivos bem como a geração de energia elétrica. A saída mais fácil tem sido recorrer às caríssimas usinas termoelétricas que precisam ser bancadas pela cobrança de tarifas extras sobre as quais incidem também os tributos estaduais (ICMS) e federais (PIS- COFINS).

Outro problema crônico está na política de preços dos combustíveis praticada pela Petrobras desde 2017. Hoje o barril de petróleo gira em torno dos US$72 e a cotação do dólar tem ficado ao redor de R$ 5,25 . Segundo alguns economistas mais realistas o melhor seria que ficasse lá pelos R$4,00. É claro que quem está ganhando mais com o dólar alto não vai concordar com essa afirmação.

Vale também lembrar dos preços lá nas alturas das carnes, milho, soja, arroz, café… Ainda falta a chuva e sobram as queimadas, os desmatamentos e a mudança no clima, que resulta em aquecimento global.

Para completar esse quadro macro ainda temos a crise política permanente entre os poderes que constitucionalmente devem ser independentes e harmoniosos. No horizonte, as eleições de 2022.

Em meio a tudo isso haja inflação diante do desequilíbrio entre oferta e demanda, além da brutal perda de poder aquisitivo, principalmente para as camadas da base da pirâmide social, formada pela maioria da população, que reflete a brutal concentração de renda.

Agora está no Congresso Nacional a lei orçamentária para o ano eleitoral de 2022. Ela foi feita partindo da premissa de que o INPC terminará o ano em 6,3%, mas o Ministério da Economia já revisou o índice para 8,4%. Esse indicador é usado para reajustar o salário mínimo, aposentadorias e pensões do INSS. Pelo visto, é uma peça de ficção para cumprir a lei. Enquanto isso a inflação dos últimos meses medida pelo IPCA do IBGE ficou em 9,68%(a meta para o ano é 3,75%) e o PIB está projetado para um crescimento em torno de 4,9% no final do ano, após ter recuado 4,1% no ano passado. O mercado já projeta um crescimento do PIB inferior a 1% para o ano que vem.

E ainda temos a pandemia da Covid-19 e suas variantes, que ainda não acabou. Pelo que se vê diante de tantos sinais, não podemos descartar a possibilidade da economia continuar estagnada e com inflação alta, crescente, ou seja, a estagflação está no horizonte próximo. Quanto pior, pior mesmo!

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As preocupações com aquecimento global, mudança do clima nas quatro estações clássicas do ano, seca, geada, crise hídrica e de energia elétrica estão em evidência nas diversas mídias em variadas abordagens. Entretanto, não aparecem com a mesma frequência os problemas trazidos pela poluição sonora e seus impactos para os seres humanos e os animais, que fazem parte do ecossistema. Mas por que trazer à tona mais uma preocupação diante de tantas outras que já estão a nos incomodar? Acontece que o nosso sistema auditivo tem perdas significativas, mas silenciosas, ao longo do tempo de exposição aos barulhos, ruídos e sons acima de determinados limites.

Meu ponto aqui é relatar a percepção que tenho do aumento vertiginoso do nível de barulhos no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, onde resido há 33 anos. Se for feito ou atualizado o mapa acústico do bairro, veremos que o trem de ferro, que circula ininterruptamente 24 horas diariamente nos sete dias da semana, é a garantia de barulho permanente.

Tudo decorre da passagem de até 50 composições diárias do trem de ferro com dezenas de vagões de carga. Ao passar pelo bairro de Santa Tereza indo da ponte sobre a Avenida do Contorno até a Avenida Silviano Brandão, a composição se arrasta durante pelo menos 5 minutos em cada trecho, que é cercado e faz divisa com as residências a partir da beirada da cerca. Além do barulho naturalmente incômodo da composição, ainda vem os sucessivos e longos buzinaços, independente da hora em que passa, seja dia, seja noite, inclusive na alta madrugada.

Alega-se que isso é feito como um sinal de alerta para alguém que esteja parado na linha ou fazendo a travessia. Acontece que os trilhos que fazem a linha sobre os dormentes são cercados, o que dificulta bastante o acesso de pessoas, embora existam aquelas que conseguem furar o bloqueio da cerca. Dá para contar nos dedos das mãos qual é a frequência diária desse tipo de ocorrência.

Um buzinaço desse ecoa por todo o bairro e também nos bairros vizinhos, notadamente os que acontecem de madrugada.

Outro momento muito desagradável é quando o trem de ferro fica parado na região da estação Santa Efigênia do metrô de superfície da CBTU acionando o motor da locomotiva de 3 em 3 minutos durante 60 minutos na maior parte dos casos. Imagine o desconforto disso durante a madrugada, na alvorada do dia, na hora do almoço, no crepúsculo do dia ou à meia-noite. O descontentamento dos moradores é crescente e circula entre eles uma proposta reivindicando que haja um toque de recolher para os trens das 23 horas até as 6 da manhã. Outros moradores mais antigos se lembram do MOREL – Movimento para a Retirada das Linhas dos Trens do Centro de Belo Horizonte.

Não está nada fácil aguentar a barulheira, e vale lembrar que existem barulhos vindos também de casas de shows e eventos sem a devida proteção acústica além do trânsito das ruas e avenidas mais movimentadas nos horários de pico. E olha que Belo Horizonte possui a Lei do Silêncio 9.505/2008 que regulamenta os níveis de emissão de sons e ruídos nas diversas atividades em seus respectivos horários, mas a fiscalização do seu cumprimento ainda deixa muito a desejar. É o que temos para hoje, enquanto ouvimos, sem mobilização mais forte dos moradores, o barulho dos trens de ferro em Santa Tereza.

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Um inventário de preocupações

por Luis Borges 30 de agosto de 2021   Pensata

Vieram me perguntar se estou voltando a frequentar lugares que faziam parte de minha pauta antes da pandemia da Covid-19. Eu disse que, depois de tudo o que foi e tem sido enfrentado, não tenho pressa para voltar ao passado, já que estou aposentado do trabalho profissional, mas não da vida com todos os seus riscos. Acredito que essa parada quase que obrigatória em alguns segmentos foi desigual na medida em que para uma grande parte o obrigatório foi continuar trabalhando e circulando no ir e vir de cada dia.

Tenho reafirmado que minha estratégia tem sido a da sobrevivência e que a “cada dia se mede a água com o fubá”. Mas por que tanta precaução num momento em que os padrões sanitários e os protocolos estão sendo flexibilizados em suas inúmeras dimensões, me perguntou um colega que vive circulando de uma cidade para outra na região metropolitana de Belo Horizonte? Logo ele que já foi infectado duas vezes pelo vírus ao longo da pandemia.

Disse a ele que estou esperando o cumprimento da meta de aplicação da 1ª dose da vacina para as faixas etárias previstas até o final de setembro. Enquanto isso, a 2ª dose prosseguirá avançando e o reforço da 3ª dose para idosos também caminhará.

Tudo isso convivendo com as variantes Delta e Lambda da Covid-19, mantidos o uso de máscaras, higienização das mãos, distanciamento, ambientes ventilados livremente…

Só então terei mais confiança para ousar circular por ai afora, mas cumprindo os padrões sanitários que os novos momentos exigirem.

Contudo, se a saúde mental é sempre uma preocupação permanente, nesse momento novos entrantes só contribuem para aumentar mais ainda as preocupações mentais e consumir ainda mais as nossas energias que nem sempre são suficientes.

Uma nova preocupação além da pandemia, da saúde e da existência de trabalho, está nos balões de ensaio diários do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS( mostrando que o racionamento de energia elétrica “subiu no telhado”.

Pelo visto, o apagão da energia elétrica se faz presente, as usinas térmicas mais caras serão largamente usadas nos secos meses de setembro e outubro e o jeito será economizar energia na faixa dos 20% para não se assumir explicitamente o racionamento.

Vale a lembrança do apagão da energia elétrica em 2001 e os 20 anos que se passaram na janela sem que o problema da matriz energética fosse resolvido por quem deveria resolvê-lo.

Outra preocupação dentro da crise hídrica é com a água para o abastecimento humano, que precisa de energia elétrica para sua purificação e distribuição, bem como para o consumo de animais e plantas.

Para completar esse inventário de preocupações tem a inflação impulsionada pelos combustíveis, cujos preços são atrelados à cotação internacional do petróleo e à variação do dólar, como também aos preços da energia elétrica com bandeira tarifária vermelha no nível mais alto e dos alimentos de origem animal e vegetal com variações anuais subindo no mínimo 50%. Haja resiliência para constatar a enorme perda de poder aquisitivo para a inflação que nenhuma reposição salarial ou de proventos de aposentadoria trarão de volta. Essas perdas serão definitivas e o que nos resta é refazer o orçamento. O jeito é parar por aqui.

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Observando um quarteirão da rua

por Luis Borges 23 de agosto de 2021   Pensata

É interessante avaliar periodicamente a nossa capacidade de perceber com atenção os detalhes das coisas que estão ao nosso redor. O que dá pra perceber, por exemplo, sobre as atitudes que tomamos automaticamente ou mecanicamente todos os dias, na cidade, no bairro, na rua ou, mais precisamente, no quarteirão em que moramos?

Imaginemos algumas coisas que acabam sendo observadas e analisadas por um atento morador do quarteirão de sua rua. Esse morador percebe, do ponto de vista macro, algumas casas – com ou sem barracos no fundo, pequenos edifícios, nenhum lote vago e poucas unidades adaptadas para algum tipo de negócio.

Uma descrição básica mostra que esse quarteirão da rua tem passeios estreitos, algumas lixeiras instaladas a meia altura nas calçadas, pequenas árvores, galeria para águas pluviais, pista de rolamento asfaltada, trânsito de veículos em mão dupla e estacionamento permitido nos dois lados. As pessoas caminham nos passeios e na rua propriamente dita, onde há trânsito local. Isso não impede que alguns veículos passem por ela em velocidade acima do limite permitido ou que muitos moradores saiam de suas casas automaticamente, sem se atentar para o que está em movimento. Às vezes acontece algo indesejável e uma das causas é a desatenção que poucos admitem existir.

Nessa rua a maioria dos vizinhos são antigos moradores, alguns são herdeiros de pais e mães que já partiram para outro plano espiritual.Os vizinhos mais antigos se conhecem e trocam informações sobre as transformações do espaço. Existem também alguns imóveis para aluguel, como apartamentos e barracões, que trazem caras novas se mostrando aos poucos. Aí também dá para perceber que outras caras já deixaram suas moradias, pois simplesmente não são vistas mais. Fazem parte da rotatividade natural de inquilinos.

Apesar das muitas regras para o bem estar de todos no convívio, ainda falta disciplina para cumprir alguns procedimentos padrão. Um dos mais visíveis se refere ao lixo domiciliar, que é coletado às segundas, quartas e sextas a partir das 20 horas. Alguns moradores colocam o lixo na calçada com muita antecedência, às vezes até no sábado ou domingo, e outros poucos colocam a embalagem depois que o caminhão já passou.

Vários moradores tem cachorros, gatos e pássaros, que recebem os devidos cuidados. O mais difícil fica por conta dos moradores de outras ruas, que aproveitam uma certa tranquilidade do trânsito local para passear com seus cachorros e alguns não recolhem os dejetos que eles deixam na calçada ou na parte da pista próxima ao meio-fio.

É perceptível que alguns poucos vizinhos gostam de música num volume mais alto e pouquíssimos tem feito festas ou encontros em plena pandemia.

Nessa rua os vizinhos demonstram estar atentos em termos de proteção e segurança, principalmente os mais antigos, que também são mais solidários e atentos à movimentação na ruas. Entretanto poucos são os que se visitam.

E você, caro leitor, tem conseguido observar, analisar e perceber detalhes das coisas que acontecem no quarteirão da rua em que mora?

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Se eu demorar uns meses convém, às vezes, você sofrer/ Mas depois de um ano eu não vindo / Ponha a roupa de domingo e pode me esquecer”, diz Chico Buarque em sua música “Acorda Amor”, composta em 1974, quando a ditadura militar tinha 10 anos. 

Lembrei-me dessa música a propósito de tanta falação e de pouca discussão mais consistente sobre o trabalho presencial e o remoto, notadamente feito em homeoffice. Inicialmente é importante lembrar que o trabalho profissional feito em casa já existia antes da pandemia da Covid-19, ainda que em pequena quantidade, mas com condições tecnológicas razoavelmente adequadas. Ele ganhou muita aceleração dentro das condições possíveis, buscando a melhoria contínua, para contribuir com efetividade no combate à disseminação do vírus e também para manter as possibilidades das pessoas continuarem trabalhando em meio a tantas incertezas. Ainda mais sem a vacina para a imunização das pessoas. Vale lembrar também que uma grande parte das atividades e tarefas dos processos de trabalho só podem ser feitos presencialmente. É só lembrar do motorista dirigindo um ônibus lotado, o padeiro fazendo pão já na madrugada da padaria, o repórter da televisão fazendo uma entrada ao vivo, o serviço de atendimento no pronto-socorro de um hospital funcionando, a conservação e a limpeza de um edifício, os entregadores de encomendas pela da cidade… tudo com as devidas e indispensáveis medidas sanitárias de segurança.

Agora que a vacinação avança e a variante Delta também está na cena, chegou o momento da flexibilização das medidas sanitárias, de maneira gerenciada para avançar ou recuar, mas contando sempre com a responsabilidade e a cooperação de cada indivíduo a favor de todos.

Muitos foram os que pensaram no trabalho remoto como solução definitiva para aqueles cujos processos tiveram que ser feitos em casa todos os dias da semana e meses. Por outro lado, para muitas pessoas só coube compreender que só lhes restava cumprir a decisão monocrática de seus diretores, que ganham para dar a direção, para trabalhar em casa como questão de sobrevivência.

Agora que o momento da pandemia está em outro patamar, menos desfavorável mas inspirando cuidados, vai ficando visível um modelo híbrido – trabalhar alguns dias presencialmente na sede física do local de trabalho e uma maior parte no modo remoto, em casa. Talvez 3 dias em casa e 2 na sede física a cada semana, por exemplo. A tendência é a prevalência desse modelo. Isso tudo em função das estratégias de sobrevivência principalmente para quem trabalha no setor privado construindo suas entregas – resultados – cotidianamente. No setor público as condições de contorno são outras, financiadas pela alta carga tributária paga pela população sem o devido retorno compatível com o valor arrecadado, e precisam ser abordadas em outra pensata com mais especificidades.

Enquanto isso, são comuns os relatos sobre os casos de trabalhadores na faixa até 29 anos preferindo se demitir do trabalho para não voltar ao modo presencial, mesmo sendo uma determinação superior. Também existem os casos de pessoas da faixa etária de 50 anos ansiosos para voltar ao modo presencial por estarem cansados do trabalho doméstico, a começar pela obrigação de colocar o lixo na calçada, e outras atividades que exigem mais comprometimento. Aliás, sei de casos de empresas que adotaram o modelo híbrido há mais tempo e de outras que farão o mesmo até o final do ano, sempre com decisões monocráticas da direção superior. Como se vê, nem tanto à terra, nem tanto ao mar. É o que temos para hoje.

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