Turismo de lazer exige qualidade

por Luis Borges 23 de março de 2022   Pensata

Já há 2 anos estamos enfrentando a pandemia da Covid-19 com suas variantes e seus desdobramentos em todas as dimensões que impactam as nossas vidas. Finalmente parece que o processo de vacinação atinge índices que trazem segurança sanitária, mesmo sem o fim da pandemia, e nos mostram que mais uma vacina deverá fazer parte do nosso calendário anual. Isso não impede que cada indivíduo tenha seu autocuidado sem perder de vista a coletividade.

Nessa retomada crescente é interessante perceber as movimentações que mostram um florescimento, até rápido, do turismo de lazer. É claro que após esse tempo todo voltado para o “se possível, fique em casa” e ” mantenha o distanciamento social”, chegou a hora de um certo afrouxamento para aliviar tantas tensões. Ainda que não seja possível fazer grandes planos de lazer para mais longe, não podemos dizer o mesmo, por exemplo, para quem tem buscado opções de turismo de lazer num raio de até 200 km a partir da cidade de Belo Horizonte. Isso tem ocorrido principalmente em feriados prolongados e finais de semana. Às vezes essa “quebrada” para mudar de ambiente tem se dado em hotéis da própria cidade e, é claro, conforme as condições de cada um. Outras opções estão nos aluguéis de sítios e casas em condomínios fechados ou em distritos específicos da região citada.

O grande desafio nessa retomada crescente do movimento turístico fica para o cliente em busca de um fornecedor que justifique uma equilibrada relação entre o benefício e o custo do serviço a ser contratado. Ele sempre espera que a qualidade do que será fornecido atenda as especificações negociadas, que o preço seja justo e que o atendimento jamais deixe a desejar em relação ao que foi estabelecido.

Entretanto, nem tudo tem sido flores segundo relatos que ouvi de algumas pessoas que optaram recentemente por essa modalidade de lazer em busca de novas energias. Em alguns casos, ficou claro que o benefício do que foi entregue ficou bem aquém do custo das diárias cobradas ou mesmo dos serviços extras que não faziam parte delas. Em alguns casos, principalmente em hotéis, fica visível uma certa falta de treinamento das equipes nos procedimentos operacionais padrão, ainda que se compreenda a grande rotatividade das pessoas ao longo da pandemia, inclusive por causa das demissões no auge do sufoco enfrentado por esse tipo de negócio.

A falta de comunicação num determinado hotel fez com que um casal de clientes que solicitou uma refeição para ser servida na área da piscina descobrisse, ao reclamar da ausência da salada, que ela fazia sim parte do prato, mas que só poderia ser servida no restaurante, o que não foi falado quando o pedido foi feito.  Esse mesmo casal solicitou na saída que a conta fosse detalhada para melhor compreender o que estava sendo cobrado e isso assustou o atendente, que se mostrou irritado para prestar os esclarecimentos solicitados.

Quando se trata de casas, tem sido comuns os relatos de uma torneira na pia da cozinha bloqueada por um plástico, mas pingando água, gambiarras em instalações elétricas, falta de toalhas para uso na área da piscina, lixos em locais indevidos…

Enfim é bom lembrar que um cliente insatisfeito dificilmente retornará ao local outra vez e nem o indicará para pessoas de sua rede em busca desse tipo de lazer. Qualidade é o que o cliente espera de seu fornecedor, que deve estar preparado para isso.

  Comentários
 

De volta ao trabalho

por Luis Borges 15 de março de 2022   Pensata

No dia 19 de março completam-se dois anos e quatro meses que entrou em vigor a tão decantada Reforma da Previdência Social para o setor privado e que está sendo implementada pelo INSS. Como sempre, o instituto é rápido para arrecadar e lento para pagar os benefícios, que tiveram perdas consolidadas em função das premissas e critérios que passaram a vigorar com a reforma. Por sua vez, esta reforma foi vendida como a panaceia para todos os males e enfatizou muito a busca do equilíbrio do caixa em função do crescimento da expectativa de vida e do aumento da longevidade.

Ainda que insuficiente ou ruim, e convivendo com a perda do poder aquisitivo diante da alta inflação, ela é o que se tem para hoje, mesmo que minimamente, perante as necessidades reais e da baixíssima mobilização política desses aposentados para reivindicar reposições de perdas.

Ouço com frequência relatos de casos em que aposentados pelo INSS voltaram a trabalhar para melhorar a renda em função da insuficiência dos proventos, isso quando encontram uma oportunidade para o seu perfil. Outra situação, embora mais rara no que ouço, é quando o aposentado não aguenta ficar em casa no ócio improdutivo e começa a tentar uma nova oportunidade no mercado para não pirar diante da falta de perspectivas nessa fase da vida.

Esse é o meu ponto aqui, para registrar o caso de um engenheiro que se aposentou há pouco mais de um ano e que acabou conseguindo uma nova oportunidade no mercado no início de 2022, quando chegou aos 63 de idade. Ele é casado, pai de 3 filhos na faixa dos 20 aos 26, e sempre residiu em Belo Horizonte com a família, mas na maior parte do tempo trabalhou fora da cidade em obras de médio e grande porte de diferentes segmentos da economia. Acabou fazendo uma razoável reserva financeira, cujas aplicações se somam aos proventos da aposentadoria e garantem uma boa condição de vida à família.

Entretanto, ao se ver aposentado, em casa, longe da alta energia que o dia-a-dia exigia em meio à crescente ansiedade para cumprir as metas estabelecidas, o vazio foi inevitável – mesmo podendo conviver diariamente com todos os seus familiares. Até então isso só era possível basicamente nas folgas e nas férias.

A volta para dentro de casa sem planejar como seria a nova etapa da vida e o que poderia advir do novo cenário acabou gerando muitos conflitos, alguns até assustadores, entre os membros da família. Vivendo diuturnamente em casa, o engenheiro passou um tempo questionando tudo da rotina diária, desde os gastos aumentados com a alta da inflação, passando pelo comportamento dos filhos nas redes sociais e até mesmo o jeito da esposa lidar com a diarista que presta serviços duas vezes por semana para lavar e passar roupas, bem como arrumar toda a casa.

Esgotada essa fase, o engenheiro voltou seu foco para estudar como fazer para obter ganhos reais nas aplicações financeiras, sendo seu perfil conservador para investimentos. Tudo foi ficando muito tenso, ansiedade só aumentando, o psiquiatra dobrando a dose das pílulas ansiolíticas e o clima na família cada vez mais pesado. De repente, o fim de semana foi estendido e passou a ser de quarta a domingo, regado por generosas doses de bebidas alcoólicas destiladas. Até o tabaco industrializado voltou à cena após 25 anos sem ser usado.

Num belo dia do final do ano passado o engenheiro foi sondado sobre o interesse em voltar a trabalhar na mesma empresa onde atuou nos últimos 20 anos até se aposentar. A família deu pulos de alegria e o engenheiro voltou a trabalhar, tentando romper com o marasmo declinante em que entrara. Além disso, a volta acabou se tornando uma oportunidade para reforçar a renda e também para melhor se preparar em todos os aspectos, inclusive mental, para o momento em que se aposentará definitivamente sem ter que ficar apenas recolhido aos aposentos.

De novo, o planejamento e a gestão gritam.

Quando nada, esse caso nos faz pensar – e muito. Que lições podemos aprender com isso?

  Comentários
 

Ouvir, falar, dialogar

por Luis Borges 9 de março de 2022   Pensata

As três palavras que dão título a esta pensata nos desafiam a fazer uma avaliação crítica e sincera sobre o quanto elas estão sendo praticadas conforme os seus significados. Isso vale individualmente e coletivamente, principalmente diante de tanta polarização, desrespeito e ódio.

Qualquer coisa serve de pretexto para que a civilização seja deixada de lado, a começar pelo meio digital. No plano global, por exemplo é só verificar as causas e consequências da invasão da Rússia à Ucrânia. No Brasil, estamos a menos de sete meses das eleições de 02 de outubro na expectativa de qual será o nível da comunicação na campanha eleitoral.

Mas, trazendo a reflexão para o microcosmo do nosso cotidiano em casa, no trabalho, no bairro ou na cidade em que vivemos podemos ver como é grande a quantidade de pessoas que só sabem falar e tem muita dificuldade para ouvir. É assustador verificar como existem pessoas que não querem ouvir e nem tem a paciência e até mesmo a humildade para isso. Esse é um comportamento típico que ajuda a florescer a arrogância, a autossuficiência, numa postura que leva ao esquecimento de que um “sistema é um conjunto de partes interligadas” e que, portanto, se comunicam. Nesse sentido é importante lembrar do filósofo Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) dizendo que “Deus dotou o homem de uma boca e dois ouvidos para que ouça o dobro do que fala”.

Quantas vezes eu, você e todos nós presenciamos situações no local de trabalho, no sindicato e no partido político, por exemplo, em que de repente algum dirigente é surpreendido por um fato relevante desconhecido por ele. Numa empresa o presidente, diretores, ou gerentes de setores que não ouvem os assessores e membros da equipe, também não podem reclamar por que foram surpreendidos por fatos e dados que desconheciam por não terem paciência para ouvir os donos dos processos do dia-a-dia.

É fundamental saber ouvir e falar para que se possa criar condições propícias para o diálogo de maneira civilizada e respeitosa em busca das soluções para os problemas que precisam ser resolvidos. Dá para ver, sem ser ingênuo, como é desafiante e necessário procurar trilhar os caminhos que levam à prática do diálogo, das conversas – por mais difíceis que sejam – diante da complexa arte de viver.

É claro que o equilíbrio é instável, as mudanças são permanentes e que a água que passa pelo rio não volta mais, mas tudo depende também de nós. Por isso é preciso saber ouvir, falar e dialogar. Essa é uma crença sempre desafiante!

  Comentários
 

Quando eu era criança em Araxá, minha querida cidade natal e capital secreta do mundo, ouvia com frequência alguém me perguntando “o que você vai ser quando crescer?”.

Agora, pouco mais de meio século depois, vieram me perguntar algumas vezes sobre onde e com quem estarei morando na fase idosa mais avançada de minha vida. Sempre digo que tudo que penso sobre isso gravita em torno de uma função de várias variáveis, que se alterarão no tempo que passará um dia de cada vez. Se acontecer isso ou aquilo, assim ou assado… tudo vai depender da realidade daquele exato momento.

Enquanto isso é importante seguir aprendendo com a experiência de outras pessoas, em seus erros e acertos, para que tudo nos ajude a projetar cenários sobre o que o futuro poderia vir a ser para nós em função de uma realista expectativa de vida.

Nessa caminhada de observação e análise fiquei pensativo sobre um caso do qual tomei conhecimento recentemente.

Trata-se de uma senhora de 94 anos, viúva há 6, atualmente com uma deficiência motora que a obriga a usar uma cadeira de rodas para se locomover. Desde que ficou viúva ela mora em sua própria casa sob os cuidados da única filha. Esta filha é aposentada, 66 anos e viúva também há 6. Ela tem três irmãos, um mais velho que ela, aposentado, 68 anos de idade, e outros dois mais novos, sendo um aposentado de 63 anos e o caçula de 60 anos, médico endocrinologista em plena atividade profissional.

De uns tempos para cá a mãe tem tentado se locomover sozinha, sem usar a cadeira de rodas, e está levando tombos preocupantes cujas consequências são imprevisíveis em relação a danos.

Acontece que ela sempre foi muito ativa, bastante atuante e tomando a frente de tudo nas coisas da vida familiar. Ela ainda não se conformou com o seu atual nível de dependência.

Vale lembrar que essa filha que cuida dela é também muito atuante, bastante agitada e queixosa do cansaço decorrente de suas atividades. Aliás ela tem um filho que mora com ela na casa da mãe, em companhia da esposa e do filho do casal.

No final do ano passado a filha cuidadora declarou-se em profunda exaustão, sem condições de continuar fazendo o que tem feito nos últimos anos, mesmo contando com a ajuda de uma cuidadora de idosos profissional durante 40 horas semanais.

A filha escreveu um detalhado relatório, que foi enviado para os três irmãos, mostrando a situação atual da mãe e propondo que ela fosse morar numa Instituição de Longa Permanência para Idosos – ILPI – do setor privado.

Passados 2 meses ela só recebeu resposta do irmão mais novo, o médico, dizendo que não pode fazer mais nada além do que já faz, ou seja, continuar pagando o plano de saúde da mãe e o salário da sua cuidadora profissional. Como os outros dois filhos estão em silêncio permanente e está implícito na proposta feita que eles terão que contribuir financeiramente para viabilizá-la – logo eles, que atualmente se sentem isentos de qualquer responsabilidade – a irmã está percebendo que continuará cuidando da mãe, mesmo tendo chegado à exaustão. Ela já diz que “o que não tem remédio, remediado está” e que “seja o que Deus quiser”.

Caro leitor, o que isso tudo te faz pensar? Será que isso só acontece com os outros ou também pode nos alcançar?

  Comentários
 

Após dois anos de pandemia da Covid-19, que não acabou e prossegue firme com seus desdobramentos em variantes e sub-variantes, como estão as nossas percepções sobre a fidelidade dos clientes em relação a seus fornecedores? Como se sentem os usuários de serviços, concedidos ou não, como energia, telecomunicações, saneamento, transporte coletivo, cartórios… que são tratados na modalidade “É o que temos para hoje” ou “É pegar ou largar”?

A premissa geral é de que cabe ao cliente avaliar a qualidade de um bem ou serviço recebido de seu fornecedor, mesmo quando tratado como usuário (não tem opção) ou paciente (na área da saúde).

Acontece que, em vários setores da economia, a concorrência é bem mais aguçada, a sobrevivência está sempre em jogo (imagine na pandemia!) e o melhor dos mundos é fidelizar um cliente. E, para isso, o fornecedor também deve fazer a sua parte para encantá-lo. Entretanto, o fornecedor deve ter em mente que o cliente só será fiel enquanto for bom para ele, desde que seu poder aquisitivo lhe permita fazer escolhas.

Nesse sentido, um caso interessante do qual tomei conhecimento foi o de um cardiologista que atende por um plano de saúde bem conhecido. Ao tentar agendar uma consulta, o paciente foi informado que só existia vaga para dali a três meses. “Como assim?”, perguntou assustado o paciente que frequenta o consultório há 20 anos.

A secretária do profissional disse que marcaria a consulta para garantir a data e que poderia tentar um encaixe se houvesse alguma desistência. Lembrou, também, que a fila de espera estava grande. Ao argumentar que tinha uma urgência para a consulta o paciente foi informado da existência de espaço na agenda para atendimento particular. Nessa modalidade existia um horário no finalzinho da tarde e outro no início da manhã do dia seguinte com o preço de 700 reais com recibo e de 600 reais sem recibo, mas com eletrocardiograma incluído. É claro que os exames de apoio ao diagnóstico poderiam ser feitos através do plano de saúde.

Como foi a terceira vez que isso aconteceu com membros da família que fazem parte do plano de saúde, a decisão geral foi por trocar o excelente cardiologista, porém inacessível.

E não é que um outro profissional da cardiologia que atende pelo mesmo plano de saúde foi encontrado após a indicação de uma pessoa amiga? A primeira consulta foi ótima, atendeu bem as necessidades e expectativas, inclusive por não existir separação entre clientes privados e de planos de saúde ao se fazer um agendamento.

Ah! Ele aceita retorno da consulta ao longo dos 30 dias seguintes, o que já não acontecia com o profissional “demitido”.

E você, caro leitor, já viveu ou conhece alguém que passou por situação semelhante?

  Comentários
 

Passagem mais alta, mais dificuldades

por Luis Borges 7 de fevereiro de 2022   Pensata

A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra) do governo de Minas Gerais informou no sábado, 29 de janeiro, um aumento de 13% no preço das passagens dos ônibus que fazem o trajeto entre os municípios da região metropolitana de Belo Horizonte e a capital para vigorar a partir da zero hora da segunda-feira, 31 de janeiro. Menos de dois dias depois.

A prática é a mesma de sempre, entra governo sai governo. Nenhuma transparência, nem para anunciar o aumento com mais antecedência e nem para mostrar a planilha real dos custos dos transportes coletivos. A justificativa básica para o aumento de 13% foi a inflação anual, com destaque para o preço do óleo diesel. Além disso, veio a renovação da promessa feita há seis meses, ainda não cumprida, da volta do quadro de horários para os níveis vigentes antes da pandemia, a partir de 1º de fevereiro. A passagem mais usada passou a custar R$6,60 enquanto a mais cara está em R$8,60 e a mais barata em R$5,80. O sindicato das empresas queria um aumento de 53,36% no preço das passagens.

De vez em quando surgem denúncias na mídia mostrando alguém usando sombrinha dentro do ônibus em dia de chuva, pneus “carecas” e superlotação. Em um desses casos recentes, quando houve um acidente no trajeto entre Ribeirão das Neves e Belo Horizonte, havia 93 pessoas dentro do ônibus no momento da ocorrência.

Como se sabe muitos são os moradores dos municípios metropolitanos que trabalham em Belo Horizonte no modo formal e informal. Também sabemos do tamanho do desemprego, do desalento e do crescimento da informalidade por uma questão de sobrevivência. Por outro lado, a inflação alta, a não correção da tabela do imposto de renda, o congelamento dos salários de servidores públicos federais e estaduais e os reajustes abaixo da inflação para a maior parte das demais categorias desenham um quadro de grande perda do poder aquisitivo. A classe média, por exemplo, está cada vez mais achatada. Nesse quadro, o aumento pode dificultar ou até inviabilizar a contratação de serviços domésticos, como diaristas, jardineiros, encanadores e outros.

Se observarmos o caso de um prestador de serviços por diária que mora no vetor Norte de Belo Horizonte e precisa tomar um ônibus e o metrô de superfície para trabalhar no bairro do Prado, por exemplo, o custo diário de transporte fica em torno de R$22,20. Se o valor ficar por conta do contratante, ele deve ser somado à diária da prestação de serviços, que varia de R$140,00 a R$160,00 reais. Dá para ver o peso no orçamento debilitado de quem pensa em contratar um prestador de serviço nesse momento tão difícil em que o calo dói com intensidades diferentes para a imensa maioria das pessoas. No caso de um empregado doméstico mensal o transporte durante 22 dias fica em R$488,40 enquanto um diarista trabalhando 4 dias por mês custa R$88,80. E se a pessoa prestar serviços sem cobrar à parte o transporte, seus ganhos ficam ainda mais prejudicados.

A rádio Itatiaia ouviu, na semana passada, alguns trabalhadores de municípios do vetor Norte falando de dificuldades para prestar serviços devido ao custo do transporte. Os contratantes estão procurando pessoas que moram mais próximas do local de trabalho e que gastem apenas uma passagem de ônibus ou metrô em cada trajeto.

As coisas só estão piorando enquanto prevalece a insensibilidade dos governantes perante o nosso grave quadro social neste ano eleitoral.

  Comentários
 

O telefone fixo ficou mudo

por Luis Borges 24 de janeiro de 2022   Pensata

Depois do grande volume de chuvas no início deste ano em Belo Horizonte, região metropolitana e diversas partes do estado de Minas Gerais, a contabilização dos enormes prejuízos e a expectativa de mitigação do nível de estragos sobrou para todos, porém de forma bastante desigual. Fica o lamento pelas inúmeras perdas humanas, que são irrecuperáveis.

Se no plano coletivo foi o que vimos, individualmente também podemos registrar problemas que enfrentamos em nossas moradias, por exemplo. No meu caso específico posso citar o portão eletrônico da garagem parando na metade do percurso, umidade excessiva, infiltração de água no canto da parede da sala e o telefone fixo totalmente mudo durante 4 dias.

Nesse caso, vale a pena relatar as emoções vividas no paciente processo de tentar dialogar com a operadora de telefonia, que é sempre rigorosa quanto ao pagamento da conta da assinatura até a data do vencimento.

Inicialmente imaginei que a linha telefônica ficaria pouco tempo fora do ar, que seria uma intermitência pequena e que tudo voltaria rapidamente ao normal.

No segundo dia pensei em reclamar na operadora, mas desisti quando imaginei que perderia uma ou duas horas ao longo do processo, como já ocorreu outras vezes.

No terceiro dia, telefone ainda mudo, fiz contato pelo atendimento ao cliente – pessoa física – e lá pelas tantas a ligação caiu, o que provocou minha desistência de outra tentativa.

Finalmente no quarto dia de telefone inoperante resolvi que enfrentaria a operadora pelo tempo que fosse necessário, inclusive para refazer ligações caso a linha caísse. Fiquei de 9 às 10 horas da manhã na linha com a operadora, que fez todos os testes previstos em seu procedimento operacional padrão.

Como o telefone continuou mudo, a atendente reafirmou que não havia problemas na rede e que enviaria um técnico para avaliar as instalações internas da casa. Nesse caso, seria gerada uma taxa de 90 reais pela visita caso se constatasse que a causa da mudez fosse interna. Tudo ficou agendado para a manhã do dia seguinte, entre 8 e 11 horas.

Surpreendentemente por volta das 13 horas do mesmo dia o telefone tocou e, quando atendi, a funcionária da operadora perguntou se o aparelho estava funcionando. Disse que sim, pois estávamos falando por meio dele. Ela aproveitou para dizer que a área técnica da empresa fez alguns testes e sanou uma falha detectada.

Diante do ocorrido, a visita técnica marcada para o dia seguinte foi cancelada. Perguntei pelo desconto dos dias mudos na próxima fatura e fui orientado para fazer uma nova ligação para solicitar o crédito.

Com tudo isso, fiquei pensando em alguns aspectos ligados à telefonia fixa, a começar pela crescente queda na quantidade de usuários. Segundo o site Teleco em novembro de 2021 o número de acessos em serviço era de 28,9 milhões. No auge do sistema, em 2014, esse número chegou a 45 milhões. Por outro lado, estima-se no setor que esse número poderá cair para 20 milhões nos próximos 5 anos.

A onipresença do celular e da internet podem ser causas da migração de usuários. O atendimento prestado ao cliente, porém, pode ter grande peso nessa desistência pelas linhas fixas. Fica a reflexão.

  Comentários
 

Um pequeno balanço na virada do ano

por Luis Borges 10 de janeiro de 2022   Pensata

Faz parte da nossa cultura, em diferentes intensidades e modos, que as pessoas separem um pouco de tempo perto da virada de cada ano – e não deveria ser só nessa época – para observar e analisar como foi a sua vida no período.

Os pensamentos e reflexões pululam e realimentam os sonhos, propósitos, objetivos e metas para o próximo ano que já estará começando. Esse também é um momento de olhar para trás, ainda que muitos não gostem de fazer isso, para aprender com os erros e acertos para melhor prosseguirmos em nossos projetos de vida. Aliás, esses projetos precisam ser colocados em movimento para que não fiquemos apenas numa autodeclaração de boas intenções, sem avaliação dos resultados nunca alcançados e sem verificar as suas causas.

Comigo não foi diferente e por isso mesmo pensei, refleti e avaliei muito nos últimos dias do ano passado o que foi bom e o que “deu ruim” em minha travessia no período que estava se acabando.

Vou citar aqui quatro pontos dos muitos que me ocorreram. Um primeiro ponto se refere à conjuntura brasileira na virada de 2020 para 2021, quando era grande a expectativa em relação ao início do processo de vacinação contra o vírus da Covid-19, que acabou se iniciando na segunda quinzena do mês de janeiro.

Eram grandes a incerteza, a insegurança, a ansiedade e o medo da maioria das pessoas diante do risco da contaminação e suas consequências. Agora que o ano passou e já tomei três doses da vacina – mas sabedor de que a pandemia não acabou – persisto preocupado com as novas variantes do vírus que vão se sucedendo e a demora para começar a vacinação de crianças de 5 a 11 anos.

O segundo ponto está no olhar para a economia brasileira ao longo do ano. Ficou visível a consolidação da perda do poder aquisitivo e a obrigatória necessidade de adequar o orçamento a partir do questionamento de gastos. Foi preciso revisar e reduzir as contas de telefones, fixo e celular, TV a cabo, internet, plano de saúde, consumo de água, energia elétrica… A estratégia foi e continua sendo de sobrevivência, pois sabemos como será difícil o ano eleitoral de 2022 e ainda mais com o crescimento econômico tendendo a zero.

O terceiro ponto está ligado às atitudes perante as medidas sanitárias para combater a transmissão do coronavírus a partir do distanciamento/isolamento social, uso de máscaras bem como a necessidade de evitar as aglomerações de diversos portes. É claro que o avanço da vacinação, aliado aos cuidados preventivos, contribuiu para a flexibilização das medidas de saúde pública. Mas ficou para cada um de nós a decisão sobre como retomar os encontros com outras pessoas e em qual quantidade, frequência e tipo de local. Concluí que vou continuar priorizando as ações a favor da segurança sanitária.

O quarto ponto a destacar é como ficou o meu e o seu nível de compaixão e solidariedade com as pessoas mais atingidas pelo aumento da fome, da insegurança alimentar e pelo incremento da linha da pobreza. O que foi e como continuará sendo encarar de frente os pedidos de ajuda feitos pelas pessoas nas portas das padarias, sacolões, açougues, farmácias e supermercados, por exemplo?

Será que ajudei conforme a minha capacidade ou poderia ajudar mais e sem questionar imaginariamente a destinação que seria dada à aquela ajuda? De qualquer maneira tudo toca o coração quando ainda tenho a capacidade de me indignar e de ficar atento para não cair na indiferença.

E você caro leitor, como ficou seu balanço de virada do ano?

  Comentários
 

Se você fosse ouvido por um instituto de pesquisa durante um levantamento para retratar um determinado instante do tempo, o que diria se a pergunta fosse “quais são as suas preocupações nesta virada do ano”? Por acaso estariam entre elas o aumento da pobreza, do desemprego e da fome? Apareceria na sua resposta a economia que nunca deslancha e é cada vez mais marcada pela estagnação com inflação alta? Em que sequência apareceriam as preocupações com a educação, saúde, segurança, combate à corrupção e reforma política, por exemplo?

Pelo que tenho visto em algumas pesquisas confiáveis divulgadas por agora fica disparada em primeiro lugar a preocupação com o aumento da pobreza e da fome. Em segundo lugar, mais abaixo, aparece a economia que não cresce.

Observando e analisando os fatos e dados vai ficando clara a consolidação das perdas do poder aquisitivo causadas pela alta inflação. Retrato disso é que, em média, 70% das categorias trabalhistas não conseguiram negociar ajustes salariais para repor a inflação. Junte-se a isso a não correção da tabela do Imposto de Renda das pessoas físicas, o que já acontece há 7 anos. Na prática, um aumento de carga tributária. No cálculo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal a defasagem na correção da tabela nos últimos 25 anos (1996- 2021) chegou a 130% e gerou uma arrecadação extra para os cofres públicos de R$149 bilhões. Ainda segundo a Unafisco, se a correção tivesse sido plena, estariam isentos de pagar imposto de renda os ganhos até R$4.469,02 ao invés dos atuais R$ 1.903,98. Na faixa superior da tabela estariam sujeitos à alíquota de 27,5% os ganhos acima de R$10.948,96 e não os atuais R$4.664,69.

A proposta de reforma ampla do Imposto de Renda enviada pelo Ministério da Economia à Câmara dos Deputados em junho de 2021 tentava fazer uma tênue correção da tabela, mas empacou no Senado e foi colocada na “geladeira” pelo senador Ângelo Coronel (PSD-BA), relator da proposta. Para evitar o vácuo deixado, o relator apresentou em 15 de dezembro de 2021 um novo texto tratando apenas da tabela do Imposto de Renda, que deve começar a ser discutido pelos senadores a partir de fevereiro de 2022 após o fim das férias dos parlamentares. Essencialmente entre as proposições estão o limite de isenção para quem ganha até R$3.300 mensais, a extinção da alíquota de 7,5%, a manutenção das demais alíquotas, sendo corrigidas em 13,6%, o que elevará a alíquota máxima de 27,5% para R$5.300,00 ao invés dos atuais R$4.664,68. Faz parte também a correção automática da tabela toda vez que a inflação acumulada chegar a 10%. A ideia é que tudo entre em vigor em 2022.

Se tudo der certo, será que isso estará aprovado antes das eleições ou é apenas mais um canto de sereia no tempo que não deixa de passar? Enquanto isso a cada mês consolidam-se as perdas do poder aquisitivo praticamente sem perspectivas de serem recuperadas numa conjuntura em que prevalecem as estratégias de sobrevivência num verdadeiro “salve-se quem puder” pois “o trem tá feio mesmo”. Basta olhar para a drástica redução da classe média e o grande aumento da base da pirâmide social.

E você, caro leitor, como avalia o seu caso diante dos fatos e dados aqui citados?

  Comentários
 

Natal, carestia e famélicos

por Luis Borges 6 de dezembro de 2021   Pensata

O ano caminha para o fim, sinalizado pela chegada do Natal precedido pela preparação que o advento propõe. Nesse tempo miramos o renascimento e o fortalecimento da esperança em tempos melhores que precisam chegar. Nada é tão bom que não possa ser melhorado e nem tão ruim que não possa ser piorado.

Parto da premissa de que tudo começa com a gente e depende de nós a partir do indivíduo, da família e do coletivo social com o devido respeito às pessoas e às regras do regime democrático numa sociedade civilizada. Pensando e refletindo sobre isso acabei olhando um pouco para trás no tempo, mais precisamente para o Natal do ano passado, que já foi tão difícil. Lembrei-me das condições de contorno em relação ao enfrentamento da pandemia da Covid-19, ainda sem vacina, mas com as agora já clássicas medidas de saúde pública para conter o vírus – uso de máscara, de álcool em gel, adoção do distanciamento social, o “não” às aglomerações, o trabalho remoto, o “se possível, fique em casa”…

Agora, um ano depois, o Natal acontece sem que a pandemia tenha acabado e uma espada paira sobre nossas cabeças com a presença de mais uma variante da Covid-19, a ômicron, que continua a nos exigir cautela e manter as precauções e cuidados diante de tantas possibilidades de aglomerações nos eventos dessa época do ano. Lembremo-nos desses mesmos eventos em igual período do ano passado.

Por outro lado, por tudo que o Natal possa significar para as pessoas em diferentes aspectos, não dá para ignorar as condições políticas, econômicas e sociais que nos afetam direta e indiretamente neste Natal. Os fatos e dados escancaram o desemprego, o trabalho informal crescente, o aumento da carestia diante da alta inflação e a consequente perda de poder aquisitivo. A fome e o aumento dos famélicos mostram como se acentuam a desigualdade e a péssima distribuição de renda, que só aumentam a quantidade de pessoas na base da pirâmide social e sua distância para os poucos que estão em seu nível mais alto.

Por mais realistas e esperançosos que sejamos, fica claro que precisamos unir forças e lutar pela retomada do crescimento da economia estagnada há sete anos, por uma política energética que não se baseie no preço internacional do petróleo, no combate permanente ao desmatamento e à degradação ambiental…

Enfim, é tempo de Natal, mas não dá para ser feliz assim com tantos incômodos, preocupações, incertezas e medos, até de sair às ruas, e ainda tendo de se lembrar dos cuidados obrigatórios para manter a saúde mental. Haja resiliência, mas desistir jamais.

Quem sabe, que tal começar a imaginar os cenários para o próximo Natal no ano eleitoral de 2022? Como canta Gilberto Gil em sua música Viramundo (1967)

“Ainda viro este mundo em festa, trabalho e pão”.

  Comentários