As cobranças desnorteantes

por Luis Borges 11 de setembro de 2019   Pensata

“Cada dia com sua agonia” é uma frase bastante repetida em alguns estados do Nordeste brasileiro como Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Tudo fica mais difícil quando a mesma agonia surge repetidas vezes ao longo de um período de tempo. É o caso da agonia causada pela cobrança de uma dívida financeira, por exemplo. Como amola! Ela pode começar numa segunda-feira pela manhã, prosseguir à tarde e se estender pelos dias subsequentes sem dar trégua na ânsia de alguém que busca alcançar um resultado sob intensa pressão. Essa agonia que tanto incomoda pela forma, conteúdo e momento vivido tira o sossego de quem começa a receber por diversos meios de comunicação – WhatsApp, e-mail, mensagens de texto… – insistentes cobranças pelo atraso no pagamento da prestação de uma dívida que acabou de vencer.

Ilustra bem a situação o caso vivido desde a segunda-feira passada pela senhora Miroca Silva, viúva, 57 anos de idade, empregada doméstica que trabalha há oito anos numa casa de família situada na zona sul de Belo Horizonte, onde recebe um salário mínimo e meio por mês numa jornada de 44 horas semanais. Ela tem três filhos na faixa etária de 30 a 35 anos, todos casados e com um filho cada. Aconteceu que a persistente crise econômica de seis anos para cá, que não dá sinais de recuperação, pegou em cheio o seu filho do meio, que ficou desempregado no início de 2017. Após seis meses de uma procura insana por nova oportunidade de trabalho e queimando o mínimo possível do saldo recebido do fundo de garantia pela demissão sem justa causa, surgiu um novo alento quando foi enxergada a possibilidade de comprar um automóvel popular seminovo, tipo Ford Ka básico, para trabalhar no transporte de passageiros por aplicativos.

Devido ao desemprego coube à mãe “tirar”(ou seja, comprar) o automóvel, financiado em seu nome, mediante uma entrada de R$9.000,00 e o pagamento de 48 parcelas mensais fixas de R$930,00. Tudo caminhava a duras penas em longas jornadas diárias de trabalho e com os diversos riscos inerentes à atividade até o automóvel sofrer um “atropelamento” na traseira advindo de um caminhão baú, que causou sua perda total. Até conseguir receber o seguro feito pela empresa proprietária do caminhão por danos causados a terceiros, o tempo foi passando e o motorista entrou no lucro cessante devido à paralisação de sua atividade e ausência de seguro do seu veículo.

O atraso no pagamento das parcelas mensais foi inevitável e a cobrança insistente, agressiva e desrespeitosa por parte da financeira começou no dia seguinte ao vencimento. A mãe do rapaz foi acessada em seu próprio celular, em ligação direta, e pelo WhatsApp, além de diversos outros contatos pelo telefone fixo da casa onde trabalha. Por diversas vezes ela tentou explicar que apenas fez a dívida em seu nome para ajudar o filho desempregado e que ele estava com o pagamento atrasado devido a um violento acidente sofrido pelo automóvel. A situação prosseguiu na mesma toada ao longo da semana, com ameaças de recolhimento do automóvel independente de tudo o que já havia sido pago e também com lembranças de que a parcela atrasada deveria ser paga o quanto antes com juros e multa pelo período em atraso.

E assim os dias prosseguem na mesma agonia para a mãe e o filho, que agora evitam ser aproximar de qualquer meio de comunicação que lembre as cobranças e o mal estar que elas geram enquanto cresce a sensação expressa pelo dito popular “o que não tem remédio, remediado está”, mas as perspectivas são muito sombrias.

Vale lembrar que segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e o SPC Brasil cerca de 63% das famílias possuem dívidas em atraso e cada vez mais crescentes nos últimos anos. Entre as diversas causas desse fenômeno estão os altíssimos níveis de desemprego, a perda de poder aquisitivo de diversas categorias e também a falta de educação financeira das pessoas em geral.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 9 de setembro de 2019   Curtas e curtinhas

Tentativa de volta da CPMF

A proposta de reforma tributária que o Ministério da Economia enviará ao Congresso Nacional tentará trazer de volta a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira – CPMF – que tinha alíquota de 0,38% cobrada dos dois lados de qualquer transação. Ela vigorou de 1997, no governo de FHC, até 2007, no governo de Lula. Agora ela está recebendo nova embalagem no Governo Bolsonaro com a denominação de Contribuição Social sobre Transações e Pagamentos – CSTP- cuja alíquota permanente iniciará entre 0,20% e 0,22% e após sua aprovação subirá gradualmente até chegar a 0,50% para quem paga e quem recebe. Um pagamento de R$4.000,00 geraria R$40,00 para a Receita Federal, por exemplo. O Presidente da Câmara dos Deputados já afirmou que esse tipo de proposta não passará enquanto o Ministro da Economia afirma que esse tributo permitirá desonerar as contribuições previdenciárias relativas à folha de pagamentos salariais de seus empregados das empresas.

Como existem outras propostas para se fazer a reforma tributária o jeito para quem tem paciência é acompanhar os próximos passos das discussões e negociações em meio aos balões de ensaio e às idas e vindas do Governo Federal.

A fusão do PSDB, DEM e PSD

Faltando 37 meses para as eleições previstas para outubro de 2022, quando serão eleitos o Presidente da República, governadores de estados e parlamentares federais e estaduais, os partidos políticos estão traçando suas estratégias rumo ao poder. A fusão entre o PSDB (32 Deputados Federais e 8 Senadores), DEM (36 Deputados Federais e 7 Senadores) e PSD (28 Deputados Federais e 5 Senadores) está em evolutiva negociação diante da necessidade que todos têm para continuar sobrevivendo. Se a fusão fosse hoje o novo partido teria 96 Deputados Federais – 18,7% do plenário – e 20 Senadores – 24,6% do plenário. O maior desafio será definir um programa partidário que consiga unificar seus participantes, hoje abrigados em 3 programas diferentes. Mas se prevalecer o pragmatismo muitos saberão ceder os anéis para não perder os dedos.

FUNDEB 

O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) é temporário e se encerrará em dezembro de 2020. O que virá depois é objeto de diversos projetos de lei que tramitam na Câmara Federal e no Senado. O que é comum a todas as propostas é que o Fundeb será permanente como uma política de estado. Quanto ao percentual de recursos financeiros da União Federal destinados aos estados e municípios as propostas variam dos atuais 10% até 41% num horizonte de 11 anos. Ainda haverá muita discussão até o fim do ano que vem em meio ao liberalismo econômico.

Processos na Justiça do trabalho em queda

O relatório “Justiça em Números” divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça mostra que o número de novos processos na Justiça do Trabalho caiu 20% em 2018, movimento que pode estar associado à reforma trabalhista. No ano passado foram abertos 3,5 milhões de processos na Justiça do Trabalho enquanto no ano de 2016 e 2017 foram abertos 4,3 milhões de processos em cada um. Também pudera. Quem reclamar na Justiça do Trabalho e perder a causa será obrigado a pagar todos os gastos da ação conforme determinou a Reforma Trabalhista em 2017.

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Partindo da premissa de que a gestão pela liderança, e não pelo comando, é o que todos precisam, mas nem todos sabem que precisam, reitero a minha crença na necessidade da educação continuada nessa área do conhecimento. Esse tema precisa ser aprendido, praticado e melhorado continuamente. É importante lembrar e relembrar sempre que é dos fundamentos científicos da gestão que vem os conceitos que sustentam e suportam os sistemas presentes em nossas vidas.

Aqui no ponto que estou abordando sobre a solução de problemas crônicos ou não é importante relembrar alguns conceitos da forma mais simples possível. Nesse sentido sistema é um conjunto de partes interligadas oriundas de diversos processos que são definidos como um conjunto de causas que provocam um ou mais efeitos. Quando esses processos não levam a um resultado esperado nos deparamos com um problema, ou seja, com um resultado indesejável de um processo. Mas como resolver um problema? A primeira condição é admitir que o problema existe e isso já é metade da solução. Esse é o maior desafio para os seres humanos, inclusive para muitos deles que até conhecem ou conheceram um modelo de gestão, mas não o colocam em prática. Imagine o que resulta da ação de quem não conhece um modelo de gestão e age tal qual um déspota não esclarecido. Num caso ou no outro é comum perceber pessoas que ignoram o problema, depois o negam ou simplesmente dão desculpas e buscam culpados pela sua existência. Tudo isso também é permeado pelo achismo na base do eu acho isso, eu acho aquilo, na contramão do método científico. O caminho mais curto é questionar os fatos e dados e errar continuamente na tomada de decisões no impulso encorajado pelo achismo. Tudo se complica ainda mais quando se busca sustentar uma afirmação nascida do achismo com atitudes abrasivas, provocativas e desprovidas de inteligência estratégica. Isso vale para os setores público e privado e também em nossa vida pessoal ou familiar, cada qual com suas respectivas dimensões e especificidades.

Dois exemplos simples e recentes nos mostram e ilustram o que estou dizendo. As reivindicações dos caminhoneiros em maio de 2018 foram inicialmente ignoradas pelo Governo Federal da época, que só acordou quando o país estava paralisado. Agora o desmatamento e as queimadas subsequentes na floresta Amazônica, cujas ocorrências estão registradas em séries históricas de dados, foram alvo de negações e contestações de membros do Governo Federal na atual estação do inverno. Negar as evidências advindas dos fatos e dados e posteriormente buscar culpados pelos acontecimentos fizeram parte do processo até a admissão da existência do problema diante da repercussão internacional que o desmatamento e as chamas geraram. Como se vê não podemos abrir mão de métodos para a análise e solução de problemas e nem revogar a lei da gravidade num achismo monocrático. Não podemos nos esquecer de que não existe substituto para o conhecimento.

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Vale a leitura

por Luis Borges 28 de agosto de 2019   Vale a leitura

Quando o esquecimento começa aumentar

Até que ponto as pessoas são ou estão suficientemente atentas para captar e analisar os sinais emitidos pelo corpo humano? O aumento da longevidade traz consigo também o declínio das condições funcionais do corpo embora as pessoas sempre digam que tem a expectativa de viver muito, mas com qualidade de vida. Porém chega um momento em que você começa a se lembrar que se esqueceu de alguma coisa que acabou ficando para trás e prossegue até que mais à frente já nem se lembra que se esqueceu de algo. É bem oportuna a abordagem de Mychael V. Lourenço no artigo Quando o cérebro começa a falhar”publicado pelo portal Ciência hoje.

Uma pergunta frequente que muitos se fazem ao envelhecer é se estariam desenvolvendo DA e ainda não sabem. Por isso, vários grupos de pesquisa têm buscado sinais capazes de prever o Alzheimer muito antes que a doença se estabeleça. Mas não há motivo de preocupação se você é jovem ainda: o aparecimento da DA só é comum a partir dos 65 anos, e o esquecimento ocasional de algo pode ser apenas circunstancial. Porém, se os problemas de memória afetam a sua qualidade de vida, aí sim é o momento de se consultar com um neurologista.

Falar sem causar sono em que escuta

A capacidade de falar em público sobre diferentes temas a segmentos sociais diversos exige mais preparação para alcançar os resultados desejados nesse processo de comunicação. Mas o que fazer para entender as causas do fracasso diante de um público que rapidamente se desinteressou de sua mensagem? É o que aborda Reinaldo Polito em seu artigo “Quando você fala, dá sono nas pessoas? Veja quais os principais defeitos” publicado pelo portal UOL.

Há algum tempo ministrei alguns cursos para turmas formadas por procuradores. Entre suas atribuições, está a necessidade de fazer sustentações orais diante de desembargadores. Antes do início do treinamento, ocorreu episódio bastante curioso. Um dos participantes me revelou a seguinte preocupação: “Professor Polito, ando meio desestimulado e até desanimado com o resultado de minhas apresentações. As causas que defendo são vencedoras, e a minha linha de argumentação é consistente, mas os desembargadores não estão nem aí para o que eu falo. Ficam entretidos com a caneta, girando-a entre os dedos, pegam no telefone. E, pior, à medida que falo vão ficando sonolentos, sonolentos”. Só que, enquanto esse aluno me explicava, eu também fui ficando sonolento, sonolento.

Só setembro ou o ano todo amarelo?

Já estamos nos aproximando de mais um setembro amarelo, mês em que se busca chamar a atenção das pessoas para o suicídio e as ações para a sua prevenção. Entretanto ao longo de todo o ano continua crescendo a ocorrência de suicídios, sendo que poucos casos chegam a ser divulgados pela imprensa e a maioria fica restritos ao micromundo de quem cometeu suicídio. Agora como se vê esse problema social continua a desafiar a sociedade, que fica assustada e perplexa diante de sua ocorrência, mas não vai muito, além disso, na perspectiva de combater as causas que o geram. Um pouco de luz sobre o tema está no artigo “Por que não podemos simplificar o suicídio? Fatores importantes sobre isso” de autoria de Luiz Sperry e publicado em seu blog.

Em geral o suicídio é creditado como uma consequência mais grave de alguém com depressão. Isso não é exatamente incorreto, mas é apenas uma das possibilidades de apresentação do fenômeno. Apesar da forte correlação entre suicídio e doença mental, (principalmente transtornos de personalidade, transtornos do humor e abuso de substâncias), cerca de 10% dos suicidas não apresentam nenhum antecedente psiquiátrico.

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Todo dia tem novos idosos

por Luis Borges 25 de agosto de 2019   Pensata

Em fevereiro de 1962 comecei minha trajetória de estudante no curso primário do grupo escolar Pio XII na capital secreta do mundo, a cidade eterna de Araxá (Minas Gerais). Eu tinha sete anos de idade e a minha mãe 28. Na parede da memória, como diz o cantor e compositor Belchior em sua música “Como nossos pais”, está registrada uma fala de minha mãe sobre uma visita feita por ela a seu tio, que era considerado um velho de 56 anos de idade. Naquela época, dados do IBGE registraram que a expectativa de vida das pessoas era 52,5 anos e o censo de 1960 mostrava uma população de 76,57 milhões de habitantes no país.

Agora em 2019, 57 anos depois, tenho encontrado ou conversado com pessoas que estão completando 60 anos de idade ao longo dos meses deste ano. As manifestações de alegria e agradecimentos por tudo que já foi vivido e também preocupações com o ciclo idoso da vida, que é finita, sempre tem permeado as conversas. Vale lembrar que a lei brasileira nº10.741 de 01/10/2003 criou o Estatuto do Idoso, definindo que esta condição passa a existir quando a pessoa completa 60 anos de idade. Também segundo o IBGE a expectativa média de vida hoje está em 76,5 anos, sendo que as mulheres chegam aos 80 anos e os homens aos 73. Já a população brasileira está estimada em 210,3 milhões de habitantes dos quais em torno de 30 milhões tem acima de 60 anos de idade, número que deverá dobrar ao final das próximas três décadas.

Existem estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) do Ministério da Economia sugerindo que a idade limite para que a pessoa seja considerada idosa passe para 65 anos devido aos níveis de longevidade alcançados atualmente. Podemos considerar que mais dias, menos dias essa mudança ocorrerá fundamentada em argumentos semelhantes aos utilizados para justificar a necessidade da Reforma da Previdência Social.

Sem querer fazer nenhum alarme, mas sendo bastante realista e pragmático, reitero que quem já chegou à condição de idoso legal precisa repensar e se reposicionar estrategicamente em função de várias variáveis que poderão impactar desfavoravelmente o seu curso de vida até o dia em que o espírito deixar o corpo. Às vezes nessa idade já se pode sentir arrepios e calafrios ao se pensar sobre onde, como e com quem morar, com que nível de saúde (condições funcionais), com quais condições financeiras, com que grau de dependência de filhos – se existirem- e do Estado liberal, com que níveis de autonomia e independência… O futuro chega a todo instante e nos desafia permanentemente com suas ameaças e oportunidades que desafiam nossas fraquezas e forças. Só chorar e se vitimizar enquanto os governantes se sucedem no poder acaba sendo muito pouco e quanto pior para os idosos, pior mesmo.

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O que nos resta é ir levando

por Luis Borges 19 de agosto de 2019   Pensata

As manifestações políticas que sacudiram as ruas do país em 2013 já completaram 6 anos. Naquele ano a inflação anual ficou em 5,91%, a economia cresceu 1,7% ante 3% no ano anterior e o índice de desemprego ficou em 5,3% segundo o IBGE.

De lá para cá a economia passou por uma forte recessão econômica, que durou 2 anos e meio e está chegando agora ao final de 2019 no terceiro ano de estagnação. Neste momento as projeções indicam que a inflação anual ficará em torno de 3,7%, o crescimento da economia deve ser de pífios 0,8% e o índice de desempregados deverá ficar em torno de 12% – 12,8 milhões de pessoas.

Podemos observar no plano macro da economia, retratado pela amostra desses três indicadores, que as coisas pioraram. Sugiro que olhemos também o nível micro da economia ao longo desse mesmo período para que possamos perceber qual foi o impacto de tudo isso no cotidiano das pessoas, nas organizações em que trabalham ou trabalharam. Para facilitar esta avaliação podemos também observar uma amostra de 3 indicadores. Em primeiro lugar é importante saber se a organização para a qual você trabalhava em 2013 se manteve no mercado até o momento ou se encolheu e depois quebrou. O segundo indicador é verificar as condições em que o trabalho foi e está sendo feito, qual o seu nível de resiliência para enfrentar as pressões diárias vindas de chefes comandantes (e não líderes) e como ficou a sua remuneração anual perante todas as alegadas dificuldades enfrentadas pelo seu empregador no mercado. Uma terceira variável pode ser contar nos dedos da mão quantas vezes você teve vontade de ter seu próprio negócio após ouvir “pataquaras” ou falações autoritárias de chefes comandantes no melhor estilo de “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

Mas se é nas dificuldades que a gente se prova o que nos resta é não nos sentirmos vencidos para melhor prosseguir em busca de melhores condições vida e trabalho numa conjuntura que exige estratégias de sobrevivência, mesmo diante de tantas incertezas.

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Doces recordações

por Convidado 15 de agosto de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

“Eu me lembro com saudade o tempo que passou/ o tempo passa tão depressa/, mas em mim deixou/ jovens tardes de domingo/ tantas alegrias, velhos tempos/ belos dias.”

Podem dizer que sou um saudosista e que a vida acontece no presente. Eu bem sei disso e até incentivo as pessoas a pensarem assim. Mas uma grande paixão do passado é difícil de esquecer. A vida, meus caros e persistentes leitores, é feita de momentos que se tornam lembranças e que nos indicam que vivemos dias felizes. Os dias ruins que fiquem enterrados definitivamente no passado. Deixemo-los por lá. Porém, desconsiderar as alegrias ou desluzir momentos iluminados e rejeitar os retratos da juventude e tudo que ela representou é sintoma iminente de depressão, trauma ou amor mal resolvido. Não! Não estou falando de uma namorada. Tampouco irei narrar paixões que só têm importância para quem as vive. Nada disso! Simplesmente estou recordando minha infância poética e, por coincidência, vivida na rua Alvarenga Peixoto (poeta e inconfidente), conhecida carinhosamente como rua do Anjo – em minha judiada e inesquecível Barbacena. Foi lá, numa rua calma de paralelepípedos que aprendi a jogar futebol, a brincar de pique e a gostar de poesia.

“…Ai que saudade dessas terras/ entre as serras/doce terra onde eu nasci…”

Eu morava próximo à estação ferroviária e, embora o barulho do minério de ferro deslizando sobre trilhos trouxesse desconforto auditivo, aquela poluição sonora se tornou parte de nossas vidas. Eu adorava acordar de madrugada e olhar pela janela o imponente Vera Cruz  – trem de luxo – todo prateado, estacionado logo abaixo de minha casa. Eu o denominava de príncipe dos trens.  Digam se não merece nosso sentimento de saudade? Não temos mais um transporte como aquele. Andamos para trás e com rapidez. Agora, esquecendo do trem, a estação se tornou um símbolo da minha infância e também das lembranças de Barbacena. Ainda hoje, sempre que estou lá, não me furto ao prazer de ficar apreciando a vista da cidade e a imponente estação ferroviária. E, caso pudesse, iria fazer dela um espaço de cultura, museu, artesanato e de outros eventos que pudessem aproveitar toda sua extensão. Contudo, antes daria a ela uma pintura à altura de sua beleza. Algo como a igreja de São José em Belo Horizonte. Ali, naquela praça, poderia ser o encontro de carros antigos, festival de vinhos e tantos etcs.

Convido meus conterrâneos a observarem o quanto de beleza se esconde naquele maltratado prédio.  Em Belo Horizonte, a estação ferroviária é símbolo da cidade. E, cá entre nós, sem querer puxar a sardinha para nossa lata, a de Barbacena é mais bonita e imponente.

Como disse, sou saudosista, talvez ufanista e, com o passar do tempo, adoro ainda mais minha terra, e fico muito sentido quando vejo que as belas e antigas casas são derrubadas para se levantarem sobre seus escombros, caixotes de concreto que sepultam, sob seus alicerces, histórias como a de Guimarães Rosa e Honório Armond.

Barbacena tem grandeza, faz parte da história dos primeiros governantes do Brasil. Nela, nasceram famílias tradicionais da política brasileira: Andradas e Bias. Também registra Emeric Marcier, o pintor romeno que escolheu nossa terra por causa da beleza do céu. “O crepúsculo mais belo que já vi”, dizia. E, além de Rosa, um outro escritor, o francês Georges Bernanos, que também viveu por lá. Mas há registros na arquitetura, como o Viaduto Pontilhão Dom Pedro II, com seus três lindos arcos – outro símbolo que merece cuidados.

Enfim, muito mais do que ser lembrada como “holocausto brasileiro e “terra de doidos”, pode ser conhecida como a cidade das rosas, das serras, da fazenda da Borda do Campo, e destacar sua contribuição para a educação com a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, a antiga Escola Agrotécnica, que hoje, se não me falha a memória, é Instituto Federal de Ensino Tecnológico. E ainda, obviamente, as faculdades e colégios tradicionais e renomados.

E o clima? Aquele frio maravilhoso que me fazia fugir do banho da manhã e esperar o sol sair para não congelar? Era aconchegante ficar abraçado com alguém para minimizar os efeitos do frio. Atualmente, não faz mais aquele frio. O mundo aqueceu e as pessoas esfriaram.

De fato, são muitas lembranças de um tempo que não volta mais. Por isso, entendo com tamanha empatia o poeta Casimiro de Abreu:

“Oh! Que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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