* por Sérgio Marchetti
Há dias tão tristes que mais parecem um tornado que passa por nós e carrega a confiança e a esperança de vivermos num país decente.
Desculpem-me, leitores, mas não consigo conviver com mentiras, injustiças e parcialidade de quem deveria defender a imparcialidade e exigir a verdade nas investigações de tantos crimes de corrupção.
Sinceramente, eu nunca imaginei ver nossa Justiça tão desmoralizada.
Acabou o pudor. Tornou-se uma peça teatral melancólica, agressiva e com ares quixotescos. Confesso que esse teatro do absurdo me remeteu, sendo atleticano, a dois jogos entre Flamengo e Atlético Mineiro, em 1980 no Maracanã e 1981, no Serra Dourada, quando as equipes de arbitragem de forma escandalosa, sem esconder sua deplorável missão, definiram os resultados. Não disseram: “perdeu, Mané”. Não chegaram a tanto. Tampouco declararam: “vencemos os atleticanos”. Mas foi deprimente.
Hoje, coisas muito sérias estão acontecendo, e me assusto quando vejo que pessoas honestas procuram fechar os olhos para o quadro imoral que está sendo pintado e optam em negar a verdade.
Sinto um cansaço, um desânimo, não por trabalho. O cansaço mais profundo é o de quem já não sabe se vale a pena acreditar em dias melhores.
Infelizmente a estrela que prometeu luz gerou escuridão. Está opaca, escondida sob uma nuvem obscura.
Reina uma interrogação coletiva. Pessoas, decepcionadas, sabem do perigo de quando a honestidade é interpretada como ingenuidade.
Rui Barbosa, há mais de um século, escreveu uma frase que atravessou o tempo: de tanto ver triunfar a desonra e prosperar a injustiça, chegava a sentir “vergonha de ser honesto”. A frase continua doendo porque toca num ponto essencial: quando os valores se invertem, não é apenas a política ou a economia que adoecem. A esperança coletiva também adoece.
E talvez seja isso que estejamos vendo.
Um país que deseja dias melhores, felizes, mas já não sabe se eles virão.
Porque felicidade também exige esperança. E a esperança está se esvaindo.
Gonzaguinha dizia que a vida deveria ser melhor — “e será”.
Talvez seja justamente esse “será” que não podemos perder.
Porque, quando uma sociedade deixa de acreditar no amanhã, começa a viver apenas para sobreviver ao hoje.
” (…) Amanhã será outro dia (…) ”
A canção nasceu em outro tempo, diante de outras circunstâncias. Mas certas palavras não envelhecem.
Talvez porque todos os tempos tenham alguma forma de escuridão.
Um país não se destrói apenas quando faltam recursos.
Pode se destruir quando a palavra deixa de valer e a verdade passa a depender de quem a pronuncia. Quando o cidadão honesto começa a se sentir um “idiota”, como escreveu Dostoiévski, em livro com mesmo nome.
É nessa hora que precisamos reagir com exemplos e não com discursos mentirosos e hipócritas.
Porque a reconstrução de um país não começa nas grandes instituições. Começa na educação de uma criança. Na honestidade de um profissional ético.
Provavelmente a esperança seja isso:
Persistir no que é certo e não desistir de fazer o bem. Porque ainda podemos caminhar e cantar uma nova canção de braços dados ou não.
Ainda podemos ensinar e aprender uma nova lição.
E, sobretudo, ainda podemos escolher não nos acostumar com aquilo que nos envergonha.
Gonzaguinha nos lembra que a vida é bonita.
Vandré nos alertou que não devemos simplesmente esperar.
E Rui Barbosa nos deixa uma lição em forma de desabafo que atravessou mais de um século.
Entre a vergonha de ser honesto e a coragem de continuar sendo correto, existe uma escolha, repetida milhões de vezes por pessoas comuns, que é a de devolver ao País aquilo que ele mais precisa recuperar: a decência.
* Sérgio Marchetti é consultor organizacional, palestrante e Educador. International Certification ISOR em Holomentoring, Coaching & Advice (coaching pessoal, carreira, oratória e mentoria). Atuou como Professor de pós-graduação e MBA em instituições como Fundação Getúlio Vargas, Fundação Dom Cabral, Rehagro e Fatec Comércio, entre outras. É pós-graduado em Administração de Recursos Humanos e em Educação Tecnológica. Trinta anos de experiência em trabalhos realizados no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br




