A observação e análise do cotidiano de indivíduos e famílias deveria ser um exercício feito com mais frequência para ajudar na melhoria contínua das tarefas e atividades que fazem parte de seus processos de vida. Entretanto a realidade nos mostra que a maior parte das pessoas ainda está bem longe de fazer isso se tornar algo inerente ao avanço do curso de suas vidas.

Estou falando sobre isso a propósito de uma situação que vivi na tarde de quinta-feira da semana passada após sair de uma clínica dentária na Rua dos Goitacazes, no Centro da cidade de Belo Horizonte. Logo em frente ao edifício entrei num táxi, cumprimentando o motorista e solicitando a ele que me levasse até o bairro de Santa Tereza. Após retribuir o boa tarde o motorista disse que também era do bairro, onde mora desde que nasceu, há 43 anos, e que é taxista há 20.

Rapidamente o veículo chegou à Avenida Afonso Pena, onde o trânsito estava bem lento. O que começou a deixar o motorista irritadiço e ansioso para entender a causa daquela situação. Foi aí que resolvi perguntar a ele como é o seu cotidiano nesse tipo de trabalho ao longo da semana. Entre um pequeno avanço e outro pela pista ele começou dizendo que acorda por volta das 6h, toma um banho “esperto” e após o café da manhã deixa a esposa no trabalho e a filhinha numa escola municipal de educação infantil. Por volta das 7h30 começa a busca pelos clientes de seu negócio. Se não surgir ninguém pelo caminho ou pelo sistema central da cooperativa da qual faz parte ele segue diretamente para o ponto fixo da Praça Sete ou da Rua dos Goitacazes, onde passa a puxar fila até aparecer um cliente. Ele disse também que por longos anos trabalhou de segunda a sábado e que nos últimos tempos trabalha de segunda a sexta, até as 21h. Excepcionalmente atende alguns clientes fidelizados aos sábados, em situações bastante específicas. Seu almoço é sempre em casa, pois mora bem próximo do centro da cidade, e sempre que possível busca a esposa no trabalho para juntos buscarem a filhinha na escola.

O motorista também disse que enfrenta todos os tipos de problemas no trânsito e que se preocupa muito com sua própria segurança e de seus clientes. No futebol, é torcedor do Galo e disse que de vez em quando vai aos jogos no estádio Independência. Ele faz parte da turma que acredita.

Quando o táxi estava entrando no bairro rumo ao destino final o motorista disse que a cada três dias frequenta um bar próximo à sua casa para “bambear os nervos” após a extenuante jornada de trabalho e que faz isso há muitos anos. Lá já é enturmado e as conversas são acompanhadas por quatro guias – doses – de cachaça, seis garrafas de 600 ml de cerveja Brahma – ele é brahmeiro – e diversos tipos de tira gosto. Nessas ocasiões sai do bar quando ele fecha por volta das 23h30 e rapidamente chega em casa “bem arrumado”.

E assim terminou a corrida do táxi. Despedi-me do motorista pensando sobre o meu cotidiano e nas possibilidades de melhoria que sempre existem, mas que precisam ser enxergadas para facilitar os reposicionamentos necessários.

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Pausa

por Luis Borges 18 de julho de 2019   Sem categoria

O Observação & Análise entra em pausa a partir de hoje. Voltamos às atividades no dia 11 de agosto.

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Você se lembra de quantas vezes visitou ou foi visitado por pessoas amigas do início do ano para cá? Digamos que isso tenha acontecido três ou quatro vezes por iniciativa de um lado ou de outro. Além disso, essas pessoas podem ter diferentes espectros políticos e ideológicos, bem como viver em bolhas distintas, mas tem a capacidade de polir as amizades para renová-las sempre e com o devido cuidado inerente a quem sabe falar e ouvir. Aliás, para muitas pessoas isso pode até parecer uma utopia nesses tempos que estamos atravessando.
 
Estou dizendo tudo isso por causa de um caso que me contaram. Ocorreu com um professor de matemática, 48 anos, que leciona no Ensino Médio da rede privada de Belo Horizonte. Foi no início de julho, no apartamento dele. Fazia um ano que o professor tinha se encontrado pessoalmente com o amigo no inverno passado e estava recebendo uma visita de retribuição. Assim que o amigo – também de 48 anos – chegou, no início da noite, houve uma efusiva troca de abraços pontuada pela lembrança de que o tempo passou muito rápido após o último encontro. 
 
Logo de cara o professor percebeu que o amigo, médico cardiologista, portava na mão direita seu telefone celular. Logo que começaram a conversar o anfitrião ficou pensando quanto tempo levaria para que o amigo passasse da posse para o uso efetivo do aparelho. Para a sua “não surpresa” passaram-se exatos 15 minutos da euforia inicial pelo reencontro e o visitante começou a olhar com maior frequência para a tela do seu dispositivo tecnológico, inclusive ficando atento aos sinais sonoros emitidos. Logo logo o professor e o amigo estavam plenamente divididos entre a conversa e a novidade do último minuto trazida pelo celular. Ficou visível a alta conectividade do cardiologista com seu aparelho e a sua crescente dificuldade para se conectar na conversa com o amigo. O hiato causado pela dispersão era cada vez mais cansativo para o professor, que dedicou seu tempo ao encontro e simplesmente ficou longe de seu próprio telefone celular que foi desligado. O fato é que o encontro ficou prejudicado pela presença de uma inteligência artificial que estava roubando a cena. 
 
Diante da realidade ensejada pelo comportamento do amigo em sua relação com o celular o professor propôs uma pausa para que pudessem tomar um café e que o telefone ficasse desligado, simples assim. Passaram-se exatos 50 minutos de boa conversa quando o professor começou a perceber uma certa inquietação por parte do amigo, que só foi aumentando à medida em que a noite avançava. Não demorou muito e depois de 5 minutos o visitante solicitou ao anfitrião sua compreensão, pois precisava religar seu telefone celular em função principalmente de seus compromissos profissionais. Só restou ao professor acatar a solicitação e conversar mais um pouco com o amigo, sempre que possível, sem deixar de atender aos chamados prioritários do celular. A conversa durou mais uma meia hora e tudo caminhou para o fim do encontro em função de tanta coisa envolvida em pouco espaço de tempo. Nova tentativa de visita ficou marcada para daqui a algum tempo, mas pelo que vai se vendo haverá pouco ou nada para se insistir em ficar com esse tipo de preocupação diante de tanta impaciência e necessidade.
 
Você acha que ainda é possível tentar ficar sem ouvir o celular ou é melhor render-se e adaptar-se diante da atual realidade cada vez mais dominada pela conectividade obrigatória? Pelo visto, é o que é possível nessa mudança de era…
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A Constituição Brasileira assegura a todos nós o direito de ir e vir. Mas como ir e vir à pé, no patinete ou no veículo automotor diante da cada vez maior quantidade de pedras distribuídas de todas as maneiras pelos caminhos que trilhamos?

Moramos na cidade, num bairro, numa determinada rua e, mais especificamente, num lote em que foi construído um barracão, uma casa ou um edifício de apartamentos, por exemplo. Sair de lá e retornar para lá faz parte do processo cotidiano em busca das melhores condições de vida, trabalho e lazer. Acontece que esse ir e vir está ficando cada vez mais complicado, principalmente nos horários de maior demanda para o trânsito.

É o caso do bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, e também de diversos outros, onde é alto o índice de reclamações por parte dos moradores bem como daqueles que frequentam o bairro a lazer ou a trabalho. Quais seriam as principais causas desse problema cada vez mais crônico? Tomando como exemplo o bairro de Santa Tereza e as três ruas que dão acesso à entrada e à saída do bairro a partir da Avenida do Contorno, no bairro Floresta, para quem está num veículo, veremos que o caminho quase obrigatório – e mais usado – é a Rua Hermílio Alves, com mão direcional nos dois sentidos. Ela dá acesso ao interior do bairro pela Rua Mármore, a mais importante do ponto de vista comercial, enquanto a principal saída se dá pela Rua Salinas, que tem mão única até se encontrar com o final da Rua Hermílio Alves para daí prosseguir até o início dessa rua na esquina com a Avenida do Contorno.

Mapa de parte do bairro de Santa Tereza. | Fonte: Google Maps

É claro que uma coisa é chegar de automóvel com uma ou duas pessoas, motocicleta, bicicleta, ônibus, táxi, cada um com as suas especificidades e atitudes perante as regras do trânsito. Outra coisa é andar em qualquer das calçadas pouco amigáveis e muitas vezes ocupadas em desacordo com o código de posturas municipais. Como acredito que tudo começa com a gente vou citar inicialmente algumas causas do problema que são devidas às atitudes das pessoas.

A observação e análise dos acontecimentos mostra que o não cumprimento dos padrões definidos pela legislação de trânsito por parte de uma parcela dos condutores de veículos atrapalha muita gente de diversas maneiras. Isso vai desde a velocidade acima do limite, passa pela falta de sinalização de intenção dos condutores de veículos através de seta, farol e vai até estacionar um carro sem observar se é preciso ficar afastado pelo menos 5 metros da esquina. Também são notórios dispositivos colocados ao longo das calçadas, notadamente nas esquinas, que tiram a visão de quem vai fazer conversões à esquerda ou à direita, como acontece na Rua Mármore nas esquinas com as ruas Gabro e Ângelo Rabelo. Existem também aqueles que param seus veículos em fila dupla, com ou sem pisca-alerta ligado, os que estacionam de qualquer jeito, longe do meio-fio e abrem a porta no sentido da pista de rolamento sem olhar o fluxo do trânsito bem como aqueles que buzinam para quem está à frente ou fazem uma irritante pressão silenciosa tentando abrir passagem. Tem também os motoqueiros ultrapassando os automóveis de qualquer maneira, pela esquerda ou direita, em atos imprudentes que geram insegurança, quase acidentes e também acidentes.

Olhando pelo lado do poder público, que também é exercido por pessoas em suas diversas instâncias, é importante observar como são feitos o planejamento e a gestão do trânsito no bairro de Santa Tereza e em outros bairros da cidade. Percebo que a empresa municipal BHTRANS, gerenciadora do sistema viário, prioriza a região centro-sul da cidade e os grandes corredores, mas dá pouca atenção ao interior dos bairros. No caso do bairro de Santa Tereza várias perguntas poderiam ser feitas e melhor estudadas a partir dos fatos e dados do trânsito. Será que a atual configuração das vias do bairro, com mão única, mão dupla, estacionamento de veículos nos dois lados das pistas… ainda é a mais adequada diante da quantidade de veículos em circulação? Como estão as sinalizações nas pistas por meio de placas ou de semáforos orientadores para a circulação de pessoas que andam a pé ou nos veículos? É possível uma fiscalização presencial aleatória, ainda que por amostragem, que vá além da blitz da Lei Seca ou por meio eletrônico?

Enquanto cada um cuida de si só nos resta considerar que isso é o que temos para hoje.

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Discutir a relação

por Convidado 10 de julho de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Numa feia manhã de um domingo chuvoso, a Alma e o Corpo resolveram discutir a relação, e a primeira divergência estava na disputa para ver quem era mais importante.

O Corpo disse que não tinha dúvidas, pois sem ele a Alma não existiria. E disse mais:

– Eu tenho nome, endereço, profissão. E você? Ninguém nem sabe se existe!

– Existo sim – retrucou a Alma. – Sou eu quem lhe dá vida, seu ingrato. Sou sua essência, seu guia e toda sua existência está em mim.

– Ora, não me amoles com essas baboseiras. Você acaba de ter uma descarga de arrogância. A essência está no cérebro, no DNA, em meus aprendizados, minha inteligência e meu psicológico. Sabia que psique, em grego, é alma? – questionou o Corpo.

– Então você acabou de comprovar que existo.

– Sim, existe como papai Noel. Alma é uma invenção das religiões. Criaram-na para que as pessoas temam o castigo no juízo final. Foi uma ideia dos religiosos para gerar limites nas atitudes dos seres humanos e ter domínio da sociedade.

– Então não adiantou – replicou a Alma. –  As pessoas estão sem medo e sem fé. Ouça esta frase: “não sois seres humanos passando por uma experiência espiritual. Sois seres espirituais passando por uma experiência humana”. – Escreveu Teilhard de Chardin. – disse a Alma e continuou: leia o diálogo de Símias, Sócrates e Cebes, em Fedon (no livro de Platão). Lá, o genial Sócrates compara a lira com o corpo, e a alma com a harmonia. Ou seja, quando a lira apodrecer e estiver com as cordas estragadas não significa que a música tenha morrido também. Ela, por certo, será tocada em outro instrumento. Assim sou eu. Sairei de você e habitarei um outro ser. De forma que sou imortal e você não. Sinto muito!

– Tamanha pretensão a sua, minha cara Alma. Você por acaso está aderindo à onda de empoderamento feminino? Tome cuidado. Minha avó dizia que quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.

– Não devemos discutir, meu amado Corpo, apenas devo lembra-lhe de que é mortal e, assim sendo, sua morte será iminente. Lamento por isso, porém não há como mudar essa lei. Você retornará ao pó. Enquanto que eu irei prestar contas do que fizemos.

–  Deixe de ser idiota. – contestou o Corpo. – Você tem inveja da minha beleza. Ou vai dizer que é sua também? Um corpo humano é um milagre de Deus. Poder ser visto, tocado e amado, é uma graça. Não me leve a mal e desculpe-me dizer, mas se você existe, então sua vida é uma prisão; é um castigo cuja sentença foi a de nunca ser vista por ninguém. Nem mesmo por aquele corpo que carrega. Que trágico!

– Não existe nenhum invento perfeito – retrucou a Alma. –  Posso sofrer por não ser vista, no entanto sinto emoção, tristeza e alegria por suas vitórias. Tudo que lhe acontece reflete em mim. Por outro lado, veja a sua fragilidade. Está sempre com uma dor física, uma preocupação com o envelhecimento que o transforma vinte e quatro horas por dia. Minha missão é vir com você e, juntos, vivermos sem cometer grandes falhas para acertar os erros do passado.

– Você é uma enviada especial do Allan Kardec? Faz-me rir.

– Não. Eu vim muito antes dele. Mas não vamos discutir sobre assuntos em que não temos como estabelecer pontos comuns. Ao invés de discordâncias, por que não tratamos de nossas afinidades? Estamos unidos e só a sua morte poderá nos separar.

– A nossa morte. – corrigiu o Corpo, já impaciente, e acrescentou: – deixe de ser superior… sua… imortal.

– Meu querido Corpo, se estamos dizendo verdades, então, não sei se o que vou dizer lhe consola. Contudo, saiba que quando a matéria estiver morta, ou seja, no dia em que você, o Corpo, não responder aos estímulos da vida, eu estarei viva e em possível sofrimento. Pois, a separação é mais dolorida para mim do que para você. E naquele momento, esse “nós” será apenas o “eu” e, como escreveu João (8:32) “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

–  Então será assim? – perguntou o Corpo melancolicamente.

–  Sim, meu companheiro… Naquele momento a resposta veio de uma outra voz. Era a Consciência que após escutar toda a discussão resolveu intervir para chamá-los à razão: –  nada no mundo está aqui por acaso. Tudo tem um valor. O Corpo precisa da Alma e a Alma precisa do Corpo, assim como o homem precisa da mulher e a mulher precisa do homem –  em qualquer dos casos a união é imprescindível para que haja a vida. A guerra, o ataque, o desejo de querer ser maior e mais poderoso do que o outro, por si só já demonstra sua pequenez.  A Alma tem a função de sustentar a vida espiritual e você, Corpo, tem a missão de constituir uma vida física. Mas quanto mais valor lhe atribuírem sobre a Alma, menos essência terá.  A humanidade se perdeu na busca desvairada do poder, do hedonismo e se esqueceu de trabalhar a espiritualidade –  que é o que vai contar no final.

Desculpem-me por ter invadido a conversa de vocês, mas me competia ajudá-los nessa disputa de “cabo de guerra”. Lembrem-se de que a palavra mágica para ser feliz e manter a saúde do Corpo e da Alma é equilíbrio.

– Consciência, me permita dizer algo para o Corpo? –  pediu a Alma com a voz terna.

– Sim, diga.

– Meu amado Corpo, para que saibas do meu amor, deixo-lhe um poema de Ernesto Cardenal Martínez:

“Ao perder a ti, tu e eu perdemos/ Eu, porque tu eras o que mais amava/ E tu, porque eu era o que te amava mais/ Contudo, de nós dois, tu perdeste mais do que eu/ Porque eu poderei amar a outras como amava a ti/ Mas a ti não te amarão como te amei.”

E os três se abraçaram.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Essa pergunta pode ser respondida com um “depende”. O pode ser classificada como inoportuna ou de difícil resposta nesses tempos de muita polarização em torno da visão de mundo que cada um tem.  Quem quer conservar energia deve estar atento ao que se fala ou se posta, pois qualquer interpretação enviesada pode levar à intolerância, à raiva e ao ódio, deixando de lado o respeito às pessoas de uma sociedade que se quer civilizada em seu convívio. Se as coisas estão assim no plano macro da vida ao longo do país, fico tentando observar e analisar como estão as relações entre as pessoas no nível micro do cotidiano nas ruas em que moram cercadas por vizinhos.

Para ilustrar a situação sugiro que imaginemos uma rua de apenas um quarteirão, que tem comprimento de 100 metros e é perpendicular à duas outras ruas que lhe dão acesso numa cidade como Belo Horizonte. Suponhamos também que nela existam mais casas e barracões no fundo da horta do que edifícios de pequeno porte contendo de 4 a 8 apartamentos e apenas um lote vago. É possível também imaginar que nessa rua existem moradores bem antigos, outros mais recentes que são proprietários de seus próprios imóveis bem como pessoas que moram de aluguel e que geram uma maior rotatividade em função da transitoriedade da maior parte deles. Isso faz com que frequentemente apareçam caras novas pela rua enquanto algumas outras saem de cena.

Então podemos nos colocar na condição de moradores dessa rua imaginária para avaliar alguns aspectos que podem chamar a atenção sobre o convívio cotidiano das pessoas do local. Quantos se cumprimentam com um “bom dia” ou apenas trocam um olhar com o rabo do olho ou ainda até balbuciam algumas palavras? E quantos baixam a cabeça ou fingem que não estão vendo ninguém e se tornam invisíveis? Existem também aqueles que só andam em algum veículo automotor e já saem da garagem com os vidros fechados e bastante atentos ao pequeno trânsito, o que não lhes permite ficar olhando para alguém que esteja na calçada. Dá até para pensar se existem vizinhos que se frequentam ou se aqueles que conversam preferem fazer isso nas calçadas ou mesmo falar com voz um pouco mais alta com quem está na janela da casa do outro lado da rua.

Outro aspecto que mexe com muitos moradores é a coleta do lixo domiciliar. Nem todos observam o horário de coleta nem os dias. Acabam por colocá-lo na calçada a qualquer momento, inclusive nos finais de semana em que não há coleta e, algumas vezes, o lixo doméstico é acompanhado por bens que o caminhão de lixo não recolhe. Se alguém tentar educar o vizinho indisciplinado fica difícil prever a sua reação e até mesmo a animosidade que poderá ser gerada.

E qual é a sua reação quando o visitante do seu vizinho para o carro na porta de sua garagem? Como fica sua paciência quando o alarme do carro ou da casa/prédio de vizinhos começa a disparar? E quando o cachorro de alguém começa a latir insistentemente ou o gato de algum vizinho pula o muro de sua casa para miar no seu jardim? Tem também o galo de outro vizinho que canta a partir das 4h da madrugada ou os pombos batendo asas em busca do alimento colocado na calçada por um outro vizinho. Também é inesquecível o vizinho que começa a lavar o carro todo sábado às 7 horas ouvindo música com o som nas alturas.

A segurança de pessoas e bens é sempre uma preocupação, mas formar uma rede de vizinhos protegidos é muito desafiante e mantê-la funcionando é um desafio ainda maior. Não sei se você ou algum vizinho já pensou em fazer algo semelhante em sua rua. Ao mesmo tempo fico me perguntando que vizinhos tem o número do telefone, e-mail ou WhatsApp daqueles que estão mais próximos e quantos ficam sabendo em tempo quase real se algo mais preocupante aconteceu com algum morador.  Pode ser um ato de violência, um roubo, um problema grave de saúde ou até mesmo um caso de morte que vai se descobrindo aos poucos, por exemplo.

Não tenho a pretensão de citar aqui tudo o que pode acontecer num quarteirão de uma rua e nem seria possível. Mas você teria outras situações para narrar que podem impactar o convívio entre vizinhos?

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A moradia é uma das necessidades básicas do ser humano segundo Abraham Maslow (1908-1970) e não é para menos. Se é grande a luta de quem busca conseguir ter a sua própria moradia e ficar livre do imóvel alugado dá para imaginar o que é a dor e a delícia de residir num espaço próprio, mesmo financiado, num edifício com 6, 12, 24, 50 ou 100 apartamentos de tamanho médio, variando na faixa de 40 a 80 m².

Ainda que exista toda uma legislação e um regimento próprio de cada condomínio é muito comum ouvirmos narrativas de acontecimentos de todos os tipos envolvendo pessoas que moram ou circulam nesses espaços. Na maior parte das vezes as causas dos problemas gerados, inclusive os mais bizarros, estão no desconhecimento e descumprimento dos padrões que regem os edifícios e na falta de disciplina de boa parte dos moradores para respeitar as regras do jogo. Tudo pode começar na Assembleia geral do condomínio, com baixo comparecimento dos interessados na maioria das vezes, ocasião em que são tratados os assuntos de interesse dos moradores, entre eles a eleição do síndico e subsíndico. É comum quase ninguém querer assumir o papel de síndico e é também comum que muitos moradores se posicionem contra a contratação de um síndico profissional para não aumentar ainda mais a taxa de condomínio.

Recentemente tomei conhecimento do caso de uma assembleia geral de um edifício à qual compareceram representantes de 7 dos 12 apartamentos existentes, fato que foi considerado uma grande vitória e um alento para os que acreditam na possibilidade de uma vida civilizada e respeitosa no espaço comum. Como também já passei pela experiência de ser síndico de um edifício residencial em outros tempos percebo hoje que as dificuldades ainda são muitas principalmente nesses tempos de intensa polarização da sociedade. Nesse sentido não é raro constatar que existem moradores dos edifícios, seja em apartamentos próprios, alugados de acordo com a lei do inquilinato ou mesmo para curtas temporadas, que se comportam de maneira desrespeitosa e deixando a sensação que podem fazer o que quiserem no espaço em que estão morando e nas áreas comuns. Cabe aos vizinhos se acostumarem com a balbúrdia gerada.

Podemos até fazer uma lista contendo diversos outros acontecimentos que surpreendem e incomodam ao longo do dia, da semana ou do mês. A lista poderia começar pelos moradores de um apartamento que ouvem música de qualquer gênero num alto volume. Continua no desrespeito aos limites demarcatórios das vagas para veículos nas garagens, nos animais soltos que deixam suas “marcas” nas áreas comuns desacompanhados dos donos, nos visitantes barulhentos, nas festas igualmente barulhentas até altas horas, nos prolongados churrascos espalhando cheiro e fumaça para os vizinhos, no portão da garagem e da entrada social destrancados ou simplesmente abertos demonstrando desatenção e despreocupação com a segurança… Você pode se lembrar de outras coisas que incomodam e surpreendem.

Alguns destaques especiais merecem ser citados com mais ênfase. Podemos começar pelos moradores reclamões, que se queixam de tudo, a começar pelo mau cheiro da garagem causado pelo lixo que eles mesmos deixaram lá por não observarem os dias em que a coleta é feita no local. Também não dá para esquecer os condôminos que não pagam a taxa de condomínio no dia marcado e aqueles que prolongam esse atraso por meses e ainda fazem cara feia quando são cobrados, mas provavelmente reclamarão com o síndico se faltar água, se o portão eletrônico estragado não for consertado, se houver lâmpada queimada, se o prédio estiver sujo… O último destaque pode ser dado ao grupo de WhatsApp que existe em muitos condomínios onde são feitos os comunicados do síndico sobre os assuntos de interesse comum a todos os moradores que, aliás, também postam perguntas, reclamações e temas diversos que nem sempre interessam a todos.

Diante de tudo que foi falado pode até surgir a clássica dúvida sobre se é melhor morar num apartamento ou numa casa e até mesmo se existem condições que nos permitem fazer tal escolha. Mas de qualquer maneira cada caso é um caso.

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