Cuidar dos cuidadores de idosos

por Luis Borges 14 de outubro de 2019   Pensata

O Presidente da República vetou integralmente a lei que regulamentava a profissão de cuidador de idosos, que tramitou desde 2007 em Brasília. O veto foi mantido pelo Congresso Nacional na sessão de 2 de outubro, em plena Semana Nacional do Idoso. O argumento básico do Presidente para justificar o veto foi que os idosos não precisam de profissionais qualificados para cuidar deles. Outro Projeto de Lei sobre a regulamentação da profissão está tramitando na Câmara dos Deputados após já ter sido aprovado pelo Senado. Será que dessa vez a Lei passará pela sanção presidencial sem vetos?

Enquanto isso a função de cuidador de idoso continua sendo apenas uma ocupação prevista no Código Brasileiro de Ocupações, podendo ser exercida por quem estiver disposto ou necessitando de trabalho independente de qualquer formação. A diferença entre uma ocupação e uma profissão regulamentada é que a profissão exige o cumprimento de determinados requisitos para ser exercida. No caso dos cuidadores de idosos a regulamentação da profissão pode passar a exigir, entre outras coisas, ensino fundamental completo, aprovação em curso de qualificação para formação profissional específica com carga mínima de 180 horas e definição de atribuições profissionais inerentes. Também é importante lembrar que a ocupação de cuidador de idoso é uma função exercida em 90% dos casos por mulheres. Segundo dados do IBGE esta é a atividade que mais cresceu no Brasil nos últimos 10 anos ao dar um salto de 550% no número de vagas abertas.

É muito comum ouvir pessoas falando que para ser cuidador de idoso o pré-requisito é ter amor e paciência ao lidar com as pessoas, mas sabemos que não é só isso, pois a formação profissional devidamente qualificada é fundamental. Também é necessário fazer um contrato de trabalho entre o cuidador e seu cliente ou responsável legal por meio da carteira de trabalho, microempreendedor individual (MEI) ou pessoa jurídica que atua no segmento para a segurança de todos os envolvidos. A pior condição ainda predominante é o trabalho informal não documentado, que traz a precarização da relação de trabalho e insegurança jurídica, além da falta de cobertura previdenciária para o cuidador agora e no futuro.

Mas por que é estratégico cuidar da cuidadora e do cuidador de idosos? Basta verificar no nosso cotidiano quem está disposto, quer e pode cuidar de um familiar como pai, mãe, avô, avó, tio ou tia, por exemplo. É por isso mesmo que o cuidador torna-se essencial em seu trabalho profissional, porém precisa ter as condições necessárias e suficientes para conseguir vencer o desafio que é cuidar de pessoas com diferentes graus de restrições em suas condições funcionais. Em síntese, precisamos lembrar sempre que o cuidador precisa ser cuidado para que ele possa, profissional ou voluntariamente, cuidar dos outros.

E você, caro leitor, o que tem para contar sobre os cuidados que dedica às pessoas idosas que fazem parte do seu cotidiano na vida familiar e no universo de suas amizades? Vale também pensar no trabalho voluntário que algumas pessoas prestam a organizações da sociedade civil de natureza filantrópica que atuam em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Será que você se engajaria nessa modalidade de atuação social?

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Liderança até quando?

por Convidado 12 de outubro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Há mais tempo, uma colega tomou a decisão de não fazer palestras sobre liderança. O motivo alegado foi que a teoria estava muito distante da prática e que os estilos sugeridos pareciam ser contos de fadas no país das maravilhas.

Quando soube de sua decisão, confesso que fiquei preocupado e “balançado”. Afinal, o tema era o meu preferido e sobre o qual mais fazia palestras. Reconheci que aquela atitude estava respaldada na coerência, na nobreza e na honestidade, pois sua alegação era a de que não poderia enganar as pessoas Muitos empresários brasileiros têm um perfil que está muito mais próximo do senhor de escravos do que do líder sugerido pelos estudos dos últimos vinte anos”, afirmou.

Hoje, após mais de uma década de nossa conversa, reflito sobre tal decisão e continuo admirando a firmeza de caráter daquela senhora. Porém, como tudo tem duas faces, penso que se desistirmos de realizar, pregar, persuadir as pessoas para mudarem, teremos que fazer como os macaquinhos que tapam os ouvidos, a boca e os olhos – nos tornamos omissos e corremos o risco de extinção.

É fato que durante milênios a liderança foi exercida pela força. Os maiores reinos invadiam os menores e os conquistavam, escravizando ou exterminando sua população.

No fim do século XIX, Taylor com sua “Administração Científica”, fez nascer as primeiras luzes de uma gestão que primava pela Organização Racional do Trabalho. De lá para os dias atuais, as pessoas e os sistemas foram se aprimorando. O ranço da escravidão foi, aos poucos e muito gradativamente, ficando para trás, e surgiram novas concepções sobre gerenciar e liderar. Assim, nasceu o líder coach – que contemplava em seu perfil o treinamento e o desenvolvimento da equipe que liderava. Surge, nesse cenário, a Liderança Servidora (quase espiritual) que trouxe em sua essência a ideia de servir à equipe, com autenticidade, empatia e ter a habilidade de compartilhar e criar um ambiente colaborativo que estimula o aprimoramento e o desempenho.

James Hunter, autor do livro “O Monge e o Executivo”, um best seller, chegou a mencionar que essa modalidade de liderança fora adotada por Jesus – um Servidor que dava a outra face.

Devemos entender que se trata de uma metáfora, contudo, meus insistentes leitores, vocês hão de convir que a gestão evoluiu e tornou crível o que antes parecia ficção. E não tem volta. Os modelos são outros, a diversidade se acentua e pede passagem. As gerações Y e Z não aceitam gritos, não sabem o que é apanhar dos pais e, portanto, não reconhecem a figura de um chefe com o chicote nas mãos. Os mais cultos vão pensar que se trata de um Dom Quixote alucinado,lutando contra os moinhos de vento.

Pois é isso. Eu consigo persuadir meus alunos. E, interessados, me perguntam: como, então, será a relação das pessoas nas organizações do novo mundo?

Eu respondo que essa pergunta não faz parte do novo mundo. E sabem por quê?

Porque no novo mundo não temos como prever o que virá…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O tempo não para e prossegue passando de maneira indelével. Por isso mesmo completou-se mais um ciclo que trouxe à tona o Dia Internacional da Pessoa Idosa, comemorado em primeiro de outubro.

Embora eu continue pensando e tentando agir como se todo dia devesse também ser da pessoa idosa na pauta da sociedade, o fato é que existem vários tipos de posturas em relação ao tema, tanto no que tange à preocupação e ao planejamento para se chegar lá quanto à postura oposta, bastante descompromissada.

Cada postura tem as suas justificativas para as escolhas feitas seguindo uma visão do curso de vida de cada pessoa que poderá se tornar idosa sob determinadas condições de contorno. Mas “a gente vai contra a corrente até não poder resistir/ Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir”, inclusive por não perceber todas as variáveis do jogo de xadrez que se joga. Digo isso em função da cena vista e percebida em detalhes por quem estava na padaria Samarone por volta das 7 horas do domingo, 29 de setembro, num bairro da ainda existente classe média na zona leste de Belo Horizonte.

No balcão da padaria dois idosos tomavam café enquanto outros três faziam seus pedidos em diferentes níveis de detalhes e tons de ansiedade. Todos estavam sozinhos, moram nas redondezas, vão à padaria diariamente e estão na faixa etária de 65 a 75 anos. Ao especificar os pedidos quase simultaneamente um deles pediu um pão francês sem o miolo, mas com manteiga de leite, outro quis do mesmo pão, mas com queijo, enquanto o terceiro realçou que seu pão seria com muita manteiga de leite. O café variou da xícara de cafezinho puro ou pingado de leite até a média de café com leite.

Mas qual é o preço que idosos e não idosos pagam pelo café da manhã na padaria Samarone? A xícara de café puro ou pingado custa R$1,40, o pão com ou sem miolo e manteiga de leite R$1,80, a média de café com leite R$ 2,50, o pão com queijo tipo mozarela R$ 5,45 e o misto-quente também R$ 5,45. Como se vê a modalidade mais simples composta por uma xícara de café e pão com manteiga fica em R$ 3,20 e ao final de 30 dias chega a 96 reais. Por outro lado a modalidade composta por uma xícara de café e pão com queijo tipo mozarela fica em R$6,85 e em 30 dias chega a R$205,50. Se imaginarmos outros gastos que os idosos têm com alimentação, saúde, moradia, lazer… fica evidente que a fase idosa da vida traz para todos um desafio que deveria ser pensado o mais cedo possível, apesar de todas as dificuldades e pedras que existem pelo caminho. Segundo o IBGE a população de idosos do Brasil, aqueles com idade superior a 60 anos, já está em torno dos 30 milhões pessoas.

Caro leitor você já faz parte desse contingente de idosos ou está caminhando firme para ingressar nele? Você já se sente preparado para enfrentar o café da manhã na padaria de seu bairro todos os dias, inclusive com a devida sustentabilidade financeira? É o que temos para hoje com o devido realismo esperançoso.

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Caminhando para o fim do ano

por Luis Borges 30 de setembro de 2019   Pensata

Você já deve ter ouvido diversas vezes em tom de exclamação que “o tempo não para” ou “o ano está voando, passando rápido demais”. O mínimo que se pode esperar é que as pessoas consigam fazer uma melhor gestão de seu próprio tempo, que conheçam o básico de um método de gestão e o coloquem em prática no dia-a-dia. De repente quem planejou o próprio ano em curso pode e deve encontrar um tempo na agenda para avaliar o que foi planejado, o que foi executado, quais os resultados alcançados, as pendências existentes e os próximos passos com os devidos reposicionamentos. Afinal de contas já estamos na primavera, cujas características se manifestaram bem antes do fim do inverno que bateu recorde de altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar e queimadas de diversas dimensões.

O que ainda resta ou é possível fazer nesses últimos três meses do ano em que  teremos pela frente a festa da padroeira nacional, o dia dos nossos finados, a lembrança da Proclamação da República – nem tão republicana assim, a festa de Natal e a virada do ano. Nesse sentido vale a pena focar no planejamento e execução de ações relativas ao indivíduo, à família, ao trabalho profissional e à inserção na sociedade. É obvio que são muitas as variáveis e as dimensões envolvidas em função das especificidades e contextos vividos, de modo que cada caso é um caso.

Entretanto, de qualquer maneira, se muitas são as necessidades diante de recursos nem tão abundantes assim, inclusive financeiros, torna-se essencial estabelecer as prioridades a serem atendidas em função das restrições existentes. Pelo visto surgirão muitas coisas que serão transferidas para o planejamento de 2020, que também precisa começar a ser pensado. Partindo pelo lado individual e familiar, a título de exemplo, seria importante relembrar o que é preciso fazer ainda esse ano no que tange às condições de saúde em relação a indicadores acompanhados por médicos, dentistas, nutrólogos, fisioterapeutas…

Outro exemplo a ser usado para ilustrar o que estou propondo é verificar o que ainda pode ser feito nesse ano em relação à meta hipotética, digamos, de visitar 10 amigos ou famílias amigas até a virada do ano, mas sem deixar tudo para o último dia. De repente fico imaginando que uma provável avaliação do resultado dessa meta pode ter mostrado que até agora só três foram visitados. É claro que não valem o bom dia, boa tarde e boa noite do WhatsaApp.

Caminhando para o último exemplo ilustrativo sugiro uma análise do orçamento familiar anual para verificar a distância que existe até o momento entre o que foi orçado e o que foi gasto, para enxergar o que realmente está acontecendo. Será possível terminar o ano sem aumentar o endividamento ou simplesmente quebrado?

Essa é uma possibilidade que temos para testar a nossa capacidade de intervir nos processos do dia-a-dia de nossas vidas, nos implicando neles como parte essencial de seu desenrolar. Tudo começa com a gente e depende também de nós. Tomemos os cuidados necessários para agir, pois o tempo não vai parar.

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O filho só pensa na França

por Luis Borges 23 de setembro de 2019   Pensata

A senhora Nirmatele Barros trabalha como vendedora numa loja especializada em roupas e calçados para crianças no bairro Funcionáriosm em Belo Horizonte. Ela é separada do marido há 13 anos, mas dessa relação resultaram três filhos que hoje estão com 19,17 e 15 anos de idade, sendo um rapaz e duas mocinhas respectivamente. A configuração gerada pela separação do casal resultou na permanência dos filhos com a mãe, no pagamento mensal de pensão básica por parte do pai para ajudar no sustento dos filhos e na cessão, pela avó paterna, de um apartamento para moradia dos netos com a mãe por tempo indeterminado. A descrição básica do imóvel mostra que ele possui três quartos, uma vaga de garagem – o que nem todos os apartamentos do local possuem – e fica no terceiro andar de um edifício de 12 apartamentos, sendo quatro por andar.

A vida prosseguiu o seu curso marcada pelos desafios cotidianos para a mãe, que optou por viver e lutar obsessivamente em prol dos filhos e contando com a ajuda sempre decisiva da avó naqueles momentos em que tudo parece sem saída para os problemas mais difíceis. Por sua vez, o ex-marido encontrou outro relacionamento do qual vieram mais três filhos, mas cumpre religiosamente o acordo feito na época da separação.

Agora os filhos de Nirmatele prosseguem suas trajetórias cheias de sonhos de melhorar continuamente a qualidade de vida com todas as pressões trazidas pelos diversos tipos de consumo numa conjuntura pouco favorável aos jovens, que vão se colocando à disposição do mercado na busca de oportunidades.

Sem conseguir trabalhar a frustração por não ter obtido a pontuação necessária para ingressar no curso de Engenharia Mecânica de uma Universidade Federal no último Enem, o filho primogênito decidiu passar um tempo com a namorada na França para conhecer outra cultura e aprender um pouco da língua francesa. Esse projeto virou uma grande obsessão e gerou expectativas bem maiores que a realidade. A mãe não conseguiu mostrar ao filho os limites para a realização de sua vontade e, ao mesmo tempo, ele se manteve irredutível em seu intento, alegando que se não fosse assim melhor seria encurtar o tempo de sua passagem pela Terra nessa encarnação.

A mãe entrou em pânico e começou a buscar uma solução para o novo problema. Procurou o ex-marido, que após muito discurso sobre a sua atual condição financeira concordou em pagar a semestralidade de um curso intensivo de francês só para o filho. Também procurada, como sempre acontece nas horas mais problemáticas, a avó deu a passagem aérea de ida e volta e o dinheiro para a emissão do passaporte do neto. Sobrou para a mãe a tarefa de conseguir dinheiro para bancar as despesas do filho com moradia, alimentação, transporte… lá em Paris contando com o fato de que a parte da nora será toda custeada pela família dela. Diante da necessidade urgente de fazer dinheiro, Nirmatele, que já é isenta da taxa condomínio de R$300,00 por ser síndica do prédio onde reside, tentou alugar sua vaga de garagem para um casal vizinho por R$2.400,oo por um ano, pagos na data de assinatura do contrato. A proposta “deu ruim” na negociação e o casal acabou alugando outra vaga por R$150,00 pagos mensalmente no último dia do mês. Ao mesmo tempo a mãe do rapaz tentou vender seu automóvel usado, mas sem sucesso. Chegada a hora da partida o jeito foi fazer um empréstimo numa cooperativa financeira enquanto prosseguem as tentativas de vender o velho automóvel.

Finalmente o filho partiu antes da chegada da primavera no Brasil dizendo que só no próximo ano voltará a pensar no Enem e no curso de Engenharia Mecânica enquanto a mãe ficou em prantos amparada pelas duas filhas e a sogra.

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Seu município também pode quebrar

por Luis Borges 16 de setembro de 2019   Pensata

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou no dia 28 de agosto os dados contendo as suas mais importantes estimativas sobre os números que fotografam a população brasileira na data base de 1 de julho de 2019. Foi mostrado que o país tem uma população de 210,1 milhões de habitantes vivendo em 5.570 municípios que formam os 27 estados constituintes da União Federal. O município mais populoso é São Paulo, capital que conta com 12,2 milhões de habitantes distribuídos numa área de 1.521 km². O de menor população é Serra da Saudade, com 781 habitantes distribuídos em 335,7 km² na região do Alto Paranaíba em Minas Gerais.

Uma preocupação permanente dos municípios de todos os portes está na capacidade de se sustentarem diante de tantas atribuições que cada um tem, muitas das quais transferidas pela União ou estados sem necessariamente estarem acompanhadas dos recursos financeiros. Em suma, existe uma grande centralização da arrecadação de tributos nos planos federal e estaduais, que destinam aos municípios percentuais sempre questionados por eles devido à sua pequena magnitude. Também é bem lembrado que as pessoas moram nos municípios e muito mais na área urbana do que na rural.

Na atual conjuntura, o país prossegue em sua polarização político-partidária sem conseguir soluções para a crise econômica marcada pela aguda recessão de julho/2014 a dezembro/2016, pela pífia recuperação de 2017 a 2019 e pelas perspectivas nada animadoras até o final de 2022. Enquanto isso, o social grita.

A reforma trabalhista não combateu o desemprego, mas precarizou o trabalho. A reforma da previdência social se arrasta no processo de ser quase que carimbada pelo Senado. A reforma tributária pula que nem sapo para trazer de volta a CPMF enquanto o desmatamento das florestas e as queimadas agravam as condições vividas pelos municípios. A arrecadação de tributos em queda e os gastos sempre crescentes só acentuam o desequilíbrio das contas públicas dos municípios, dos estados e da União Federal. Tudo piora ainda mais diante do pouco apreço que se tem pelos modelos de gestão que podem ser utilizados na solução de problemas. Se a quebradeira de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Paraná, por exemplo, tem sido bastante divulgada, agora também está chegando a vez de muitos municípios começarem a mostrar seus níveis de quebradeira no exato momento em que todos preparam seus orçamentos para o ano de 2020. Será que o município em que residimos está bem das pernas e isso está demonstrado no Portal da Transparência das contas públicas? Ou será que seremos surpreendidos, como aconteceu com os 5.497 habitantes da cidade de Bento Fernandes, no Rio Grande do Norte, que dista 97 Km de Natal, onde o prefeito decretou calamidade financeira e suspendeu maioria dos pagamentos devidos pela prefeitura?

Apesar de todos os discursos sobre direitos adquiridos, do liberalismo econômico dos liberais sinceros – se é que existem – e da pressa dos que sonham em encurtar os caminhos da democracia real em nome de soluções mais rápidas para os crônicos problemas não resolvidos, o fato é que as coisas estão bastante difíceis para os municípios que, volto a repetir, são o local em que as pessoas moram.

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*por Sérgio Marchetti

Não é nenhuma novidade ouvir que a doença dos próximos anos é a depressão. É o mal deste século, como revelam os estudos da Organização Mundial de Saúde. Artistas famosos, de quem você nunca esperava ter notícias de terem sido vitimados pelo transtorno do pânico, são os mais afetados. E nos bate aquela interrogação: fama, dinheiro, conforto, beleza, e ainda são tristes? Mas a doença não é um privilégio das celebridades. O transtorno tem atingido uma parte significativa da sociedade. No caso de pessoas famosas ocorre por estarem na mídia e terem um grau de visibilidade expressiva, privacidade invadida, além de serem alvo de toda espécie de notícias.

Outro fator é que as pessoas ainda não se deram conta de que não vivem para elas. A sociedade contemporânea representa papéis no teatro da vida, no qual todos querem ser protagonistas e, por ser impossível que todos sejam atores principais, vem a decepção, a autocobrança, a frustração e, sem perceberem, acabam por ser meros figurantes de suas próprias vidas.

Sabe-se que as causas geradoras da doença que será a vilã do campo da saúde estão relacionadas a um conjunto de fatores hereditários e psicossociais. Porém, ninguém me convence de que a doença psicológica não seja causada justamente pela forma como as pessoas tiveram suas vidas escancaradas na mídia. A tudo isso, ainda se soma a evolução tecnológica, que talvez seja a causa maior de propagação desse mal que aflige a sociedade mundial. Pois, hoje, sabemos de tudo que acontece no mundo. E vale a máxima popular: o que os olhos não veem, o coração não sente.

Ser bem sucedido, magro, bonito, estudar idiomas, ter um automóvel do ano, fazer parte de vários grupos — sejam eles virtuais ou presenciais, frequentar academia, fazer terapia, viajar, ser “escravo” de filhos, fazer yoga, postar textos e vídeos, e ter um coach são “apenas” alguns elementos do repertório que compõe o “Kit da pessoa classe A”.

Bem, vocês notaram que não mencionei “trabalho” no repertório de atividades, mas num mundo com tanta exigência, fica evidente de que um dia de apenas 24 horas é pouco para realizar tudo isso, e ainda trabalhar.

“Como beber dessa bebida amarga / Tragar a dor, engolir a labuta…”

Como vimos, ser chique não é fácil, principalmente num Brasil de mais de doze milhões de desempregados e de tanto trabalho informal. E aí, os jornais, principalmente os televisivos, apresentam sua altíssima dose de cooperação para que a esperança de dias melhores seja sepultada no seio de cada cidadão – que já perdeu o senso de cidadania há tempos. E isso, sem contar que a imparcialidade, lamentavelmente, não é mais uma prerrogativa de todas as emissoras.

A sociedade padece de um mal que é o de obter o poder a qualquer custo. E o objetivo, obrigatoriamente, deve ser alcançado. E, se não for por amor, que seja pela dor. Os fins justificam os meios.

Mas, imaginem, caros leitores, que diante de tanta exigência para se manter na ilusória corrida em busca de “status”, a realidade, assim como o barco de Creonte, nos conduz a um destino oposto ao vislumbrado por uma sociedade, que se afogou no desvario de uma onda que trouxe uma falsa conotação de felicidade.

A depressão não assombra apenas as pessoas que vivem a busca compulsiva de um lugar ao pódio. Neste cenário, um percentual expressivo da população não tem satisfeitas as necessidades básicas como: saúde, educação, segurança e emprego. Aliás, não preciso dizer mais do que já disse o menino Gonzaguinha: “o homem se humilha se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida e vida é o trabalho/ E sem o seu trabalho, o homem não tem honra / E sem a sua honra, se morre, se mata / Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”.

É! Não dá pra ser feliz…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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