O ano perdido

por Convidado 13 de maio de 2020   Convidado

*por Sérgio Marchetti

O que dizer sobre o momento que estamos passando? Acho que todos já disseram tudo e qualquer comentário será mera repetição. Já sabemos que morreram e morrerão muitas pessoas. Mas não só por COVID 19. Morre-se por muitas outras doenças. Também sabemos que teremos o maior desemprego de nossa história.

O que me impressiona é a descaracterização do papel de algumas mídias, somadas à falsidade de alas políticas. A informação perdeu sua veracidade nestes tempos conturbados. Ex-Ministros parecem ter pretensão de se candidatar a papéis de protagonistas quando as novelas voltarem a ser gravadas. E o Presidente da República, além de não contribuir com as recomendações dos órgãos de saúde, ainda fornece munição para seus inimigos fazerem pauta. Diria a ele: você tem o direito de permanecer calado, pois tudo que disser será usado contra você.  Mas nós, brasileiros, já estamos vacinados contra bobagens de presidentes. Haja vista que tivemos anos de falas desconexas, incoerentes e até ébrias.

A pandemia por si só já representa um incômodo suficiente para a população, sem precisar deste debate repetitivo, cansativo e desgastante. Até o tom de voz dos âncoras de alguns jornais está afetado. Há ódio no olhar e na entonação. Já não sabemos distinguir a verdade da inverdade. Alguns olham para o céu e veem estrelas entre nuvens, outros, porém, veem apenas as nuvens. E como escreveu Machado, em Quincas Borba: “O cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.”

Mas o que deve ser tratado é a estratégia. Os próximos passos têm que contemplar as consequências da doença. E o planejamento não deve se restringir às perdas financeiras e econômicas, mas também emocionais.

Talvez, depois de tudo isso, o mundo não seja mais o mesmo. Estão dizendo isso nas redes. E creio que tenham razão. Cabe, entretanto, lembrar que o mundo tem mudado numa velocidade exorbitante e que já não é o mesmo há 60 anos, aproximadamente. Óbvio que, agora, há um fator novo e que abalou o mundo. Mexeu com o orgulho e a falsa ideia de força e, mesmo, do poder que o dinheiro garante a quem o possui. Houve um nivelamento. O vírus é “democrático” – não é esta a palavra que bocas enganosas repetem todas as noites em seus jornais novelísticos. Sim. O nome pandemia já garante a igualdade e a extensão da doença.

Mas, cá entre nós, o isolamento ou distanciamento nos castigou com muito rigor. Gerou saudade, vontade de abraçar um filho, um neto, nossos pais, nossos amigos. Estão tão perto do coração e tão longe dos braços. E que estranho mal-estar nos envolve quando temos entre nós e nossos entes mais queridos um inimigo que nos separa e nos ataca sem que tenhamos como nos defender.

Até quando viveremos separados pela grande muralha invisível que se instalou entre nós? E a quantos já foi e ainda será negado o direito da resiliência? Não temos as respostas e, por pior que seja o regime de cárcere, ainda temos a esperança de voltar à normalidade ou a um recomeço.

Mas este ano está perdido para grande parte dos cidadãos do mundo. E, se 1968 foi o ano que não terminou (Zuenir Ventura), 2020 será lembrado como o ano que não começou.

Quem viver verá.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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*por Igor Costoli

Quase qualquer pessoa, de quase qualquer idade, entende o poder de enxergar o futuro. Pensaria logo naquelas mágicas seis dezenas e imediatamente seria capaz de descrever o impacto que isso teria em sua vida. Administradores e gestores adorariam dispor dessa habilidade. A segurança da escolha certa, a proteção do investimento seguro, a certeza da sábia decisão.

Mas existem exceções. Somos governados por uma delas. O Brasil teve uma oportunidade que raramente se oferece para um gestor público: saber o que acontecerá, em quanto tempo, a partir de quais decisões forem tomadas. Mas recusou a oferta.

Chance que se ofereceu também para a Argentina, para ficar em um exemplo próximo, que optou por respeitar o futuro que viu. Daqui a pouco voltamos a falar dela.

Do lado de cá da fronteira, as formas mais precisas de descrever o que acontece hoje exigem o uso de termos censuráveis. As formas não-ofensivas e mais polidas nos permitem dizer que há dois grandes erros de entendimento em relação à pandemia.

O primeiro é achar que existe uma oposição quarentena x economia. Esse confronto é falso, porque não há uma escolha, não é uma questão de trocar uma pela outra. A crise não decorre do isolamento, ela decorre da pandemia. Todos os países passarão por ela porque isso nos foi imposto pela simples existência do vírus.

Isso fica mais claro quando pensamos no segundo erro. Quem defende manter a economia rodando acha que pânico é isso que estamos vivendo agora, mas quem defende a quarentena está vendo o pânico ali na frente – já virando a esquina, infelizmente.

No famigerado grupo de WhatsApp, essa entidade que nos assombra a todos, um amigo perguntou, semanas atrás, porque o vírus seria problema tão grande num país com tantos assassinatos e mortes no trânsito como o nosso. A única resposta possível foi fazer contas:

Em 2016 (ano mais recente com dados disponíveis), tivemos 37.345 mortes no trânsito. Isso nos dá uma média de 102 mortes diárias. Também em 2016, tivemos nosso recorde de mortes violentas, com 62.517 homicídios, média de 171 mortes por dia.

A Itália, da primeira morte no dia 21/02 até o momento em que este texto é encerrado (segunda, 20/04), sofreu com 24.114 óbitos por coronavírus, média de 402 falecimentos diários. O país passou dos 181 mil casos confirmados.

Detalhe importante: a Itália não escolheu parar, ela escolheu seguir com a economia. O país da bota só foi parado à força, no dia 09 de março, já sob efeitos de incapacitação e mortes. Como os índices crescem em ritmo exponencial, o achatamento da curva italiana pela quarentena se deu já sob um número altíssimo de óbitos. E qual foi o preço desse atraso? Com o país já em “lockdown”, no último mês a média foi de 640 mortes todos os dias.

Agora, percebam como o tempo e as decisões podem tornar as coisas diferentes. Enquanto os italianos só entraram em quarentena 18 dias após a primeira morte, os portugueses iniciaram o isolamento no dia 13 de março, 3 dias ANTES do primeiro óbito por Covid-19.

O breve vislumbre da situação italiana e a decisão rápida pelo isolamento colocaram o país no controle da crise. Com 21 mil casos e 762 óbitos, Portugal tem um número total de mortes inferior ao que a Itália teve por dia no auge da crise (entre 766 e 919 óbitos, diariamente, de 27/03 a 03/04). Os dois países enfrentarão desafios econômicos nos próximos meses, mas só um deles o fará sob o peso de uma tragédia social.

Portugal se encontra em melhor situação que muitos países mais ricos, como os EUA. Os americanos também tiveram a oportunidade de ver o futuro, fecharam os olhos para a realidade, mas foram obrigados a abri-los quando esta veio lhes dar na cara.

Hoje, são mais de 793 mil casos e 42.518 óbitos em solo norte-americano. Lembra das nossas 37.345 mortes no trânsito? O que os acidentes automobilísticos mataram no Brasil em um ano, o Covid-19 ultrapassou no último sábado, em apenas 49 dias, nos EUA.

Tudo isso para ressaltar o que não deveria ser necessário dizer: que o isolamento social funciona, que a demora ou ineficiência na sua adoção custam vidas.  Como diz o doutor em virologia Átila Iamarino, quem faz a economia são as pessoas, não o contrário. Cada dia de isolamento não respeitado integralmente são mais dias antes de voltarmos a sair, viver e produzir.

E apesar das iniciativas corretas, mas fragmentadas, de governadores e prefeitos, sem a adesão do governo federal à quarentena o Brasil fica entregue à própria sorte. As iniciativas isoladas diminuíram a evolução da nossa curva de casos, mas cada dia que o presidente e seus apoiadores saem as ruas para defender a normalidade são mais semanas que comprometerão nosso sistema de saúde.

O governo federal poderia ter simplesmente aprendido com o futuro que lhe foi mostrado e tomado as rédeas do seu caminho. O Planalto a opção por nega-lo. Não farei o esforço de especular o tamanho de nossa subnotificação, que tudo indica ser gigantesca. Direi apenas que hoje, 20 de abril, temos 40.814 casos e 2.588 óbitos por Coronavírus. Chegamos ao patamar de mortes na casa das centenas por dia.

Ah, e a Argentina, que mencionei no início? Graças a medidas como o controle na entrada do país, fechamento da fronteira para China, Itália e Brasil, isolamento social e fechamento do comércio, os argentinos vivem uma situação mais de 10 a 20 vezes melhor que a brasileira. Em período semelhante ao nosso desde o primeiro caso, são apenas 3.031 infectados pelo Covid-19 para 145 óbitos.

A Argentina agora se programa para a flexibilização da quarentena e para a volta organizada de algumas atividades econômicas. Enquanto isso, é como se o Brasil sequer tivesse começado seu isolamento para conter o vírus. Argentinos e brasileiros viram o mesmo futuro, mas tomaram decisões opostas. Agora eles colhem os frutos, em breve colheremos as consequências.

* Igor Costoli é jornalista e radialista de formação e atleticano de coração. É produtor e apresentador do Programa Invasões Bárbaras, na Rádio UFMG Educativa.

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O dia em que a Terra parou

por Convidado 7 de abril de 2020   Convidado

* por Sergio Marchetti

Estou sentado numa sala escura assistindo um filme de terror que mostra a população do mundo se escondendo em suas casas, com medo, melhor dizendo, pavor de que um vírus a infecte. O vírus se propaga pelo vento e pode matar a metade da população mundial.

Assim como em outros filmes americanos que adoram destruir cidades e exterminar populações, este já devastou países e causou muitas mortes. Os jornais televisivos do mundo só falam da doença e a cada dia o gráfico de contaminações aumenta de forma robusta o número de doentes. Países inteiros se preparam para a sua chegada. Muitas providências são tomadas pelas áreas de saúde e pela OMS, mas será inevitável a contaminação e os óbitos serão iminentes.

Meu Deus! Que agonia!

As autoridades pedem calma às populações de cada país e dizem, equivocadamente, que se trata de uma doença que mata somente quem tem a saúde fragilizada, como problemas respiratórios, diabetes e idade avançada. E, diante dos números e dos países afetados, conclui-se que se trata de uma pandemia.

A direção do filme parece ter escolhido a China, a Itália e os Estados Unidos para serem protagonistas da tragédia. Hospitais em todo o mundo são construídos às pressas e se preparam para a internação em massa. Especialistas procuram explicar a causa, e o que vemos são entrevistas médicas e orientações para que as pessoas se isolem e adotem a ideia de distanciamento social. O suspense toma conta de mim, já não consigo me mexer, na expectativa de que surja um herói, o famoso mocinho que viria salvar o mundo. Porém, como em todos os filmes de suspense e terror, a solução não chega e o número de óbitos aumenta.

Num laboratório americano aquela tela que mapeia o mundo, comum em seus filmes, está aberta e cientistas discutem o problema. Demonstram o processo da doença que começou, provavelmente, na China. Aí discutem a teoria da conspiração, que pode não ser teoria – e sim a pura realidade, de que homens malucos pelo poder poderiam ter causado essa pandemia para destruir concorrentes e gerar mudanças radicais no mercado mundial e nas bolsas de valores do mundo. Enfim, um enredo conhecido nas películas do gênero.

Na tela da minha televisão vejo o mapa do Brasil e, sem saber se vivo realidade ou ficção, tive medo de que fôssemos infectados. E fomos. Não podia acreditar. No Brasil não. O país está fraco, está doente e, depois de anos internado na UTI, começávamos a respirar sem aparelhos.

Busquei me tranquilizar. Era um filme. Mas prossegui assistindo, enfim, o mundo foi afetado. E a recomendação foi para que se parasse tudo. Aí o filme mostra que o nosso presidente não foi tomado pelo pânico. Parecia não ter a legítima noção da letalidade do vírus. A reação de empresários do planeta também demonstrava duas preocupações: doença e falência. Todos estavam despreparados para tamanho prejuízo. Companhias aéreas parando de funcionar. Navios ancorados, mantendo os turistas presos. Emissoras de televisão e rádios mudando toda a programação. E o jornalismo menos honesto se aproveitando para criar manchetes sensacionalistas e descarregar suas insatisfações e antipatias contra os governantes, enquanto políticos oportunistas desenvolviam um discurso de seriedade para salvar o povo da pandemia, mas em seus hospitais faltavam máscaras e outros equipamentos de proteção mais básicos para os profissionais da saúde. Observei que a hipocrisia não fora afetada.

O panorama do mundo, de norte a sul, era o mesmo: o mundo havia parado.

Fiquei pensando que, se isso fosse verdade, se não fosse um filme, certamente que espalharia o pânico pelo planeta. Quatro meses de retrocesso. E a nossa Terra de Santa Cruz, que havia recuperado 1 milhão de empregos e começava a dar sinais de vida? Mas ainda bem que era um filme – pensei. Caso contrário, o que seria de nós? Na telinha, vejo com orgulho o comprometimento e a austeridade do presidente da Câmara dos Deputados, do Presidente do Senado e de outras autoridades eleitas que me enchem de orgulho, mas logo minha memória me diz que é um filme e que o elenco era muito talentoso. E, para completar o sucesso, a trilha sonora, O dia em que a terra parou, dizia muito do que estava acontecendo.

Confesso a vocês, meus caros eleitores, digo: leitores (perdoem meu erro, mas é que fui influenciado por tantas excelências…) que ainda me dão a honra de distrai-los, que estava aliviado com o fim da película quando, de repente, minha mulher entra na sala, tosse e me informa que está sem ar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

 

O DIA EM QUE A TERRA PAROU
Autoria: Claudio Roberto / Raul Seixas.
Fonte: Letras.mus.br 

Essa noite eu tive um sonho
De sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou

Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
O planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém ninguém

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

No dia em que a Terra parou (êê)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou

E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou

O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

No dia em que a Terra parou (oh yeah)
No dia em que a Terra parou (foi tudo)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou

Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei

No dia em que a Terra parou (oh yeah)
No dia em que a Terra parou (ôô)
No dia em que a Terra parou (eu acordei)
No dia em que a Terra parou (acordei)
No dia em que a Terra parou (justamente)
No dia em que a Terra parou (eu não sonhei acordado)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou (no dia em que a terra
Parou)
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Furando a fila no empório Parati

por Luis Borges 25 de março de 2020   Pensata

Você deve se lembrar daqueles tradicionais empórios que ainda existem em muitos bairros de Belo Horizonte. Um deles é o Empório Parati, que está no mercado há quase 45 anos comercializando produtos derivados do leite de vaca, majoritariamente, e variadas modalidades de presuntos, biscoitos, castanhas, amêndoas, gordura animal, congelados…

A loja ainda funciona com a presença em tempo parcial do senhor Nassim, seu fundador, e em tempo integral com Karin, filho único, herdeiro do negócio. Os clientes vem se mantendo fiéis ao longo dos anos, período em que muitos deles se aposentaram após cumprirem suas jornadas no serviço público ou privado. É claro que também sempre surgem clientes mais jovens e outros na faixa dos 40, mas que são mais voláteis.

Atualmente o sábado continua sendo o dia mais procurado pela clientela, seguido pela quarta-feira. Segundo o senhor Nassim os clientes voltam pelos pés porque todos são muito bem atendidos com produtos de qualidade, preço justo, formas de pagamento adequadas em dinheiro, cartão de crédito/débito e até anotação em caderneta.

De uns tempos para cá tem causado desconforto o comportamento de duas senhorinhas na faixa dos 70 anos de idade que fazem compras nas manhãs de sábado, mas não andam juntas, nem comparecem à loja no mesmo horário. O que elas têm em comum é a alta aversão à fila que se forma para o atendimento, justamente no dia preferido delas que é o mais volumoso em quantidade de pessoas e vendas.

No segundo sábado de março a senhorinha conhecida como dona Laurinha chegou ao estabelecimento por volta das 11h e se deparou com oito clientes na fila, enquanto outros três eram atendidos no balcão. Imediatamente, e demonstrando pressa, ela falou com a voz bem alta para uma atendente da loja, Celeste:  “estou te esperando para me atender e, enquanto isso, irei separando os produtos que quero para adiantar o expediente”. Como o corpo fala, o incômodo ficou visível pelas expressões da maioria daqueles que estavam na fila. Dona Laurinha tocou o maior movimento, indo e vindo de um lado para o outro, buscando selecionar os produtos que desejava. Quando terminou e vendo que ainda não havia chegada a hora para o atendimento de seu lugar demarcado verbalmente na fila fez um pedido à Celeste e aos demais colegas da fila: “como já separei o que quero e estou com muita pressa por causa de meu horário rígido para almoçar estabelecido em dieta preciso que a Celeste me atenda rapidamente porque seu trabalho será só para embalar os produtos e fechar a conta”. Sem se surpreender com a já frequente forma de agir de dona Laurinha, Celeste pediu licença ao próximo da fila para atendê-la, dizendo que tudo ocorreria rapidinho porque os produtos já estavam separados. Foi o que acabou acontecendo.

O leitor pode estar pensando que dona Laurinha é idosa e tem direito a atendimento preferencial. O detalhe é que vários outros clientes que estavam na fila eram idosos, que também tem direito a atendimento preferencial. E reclamaram dizendo que a fila tinha sido furada e que eles se sentiram desrespeitados diante do privilégio concedido à dona Laurinha. Após um burburinho nas conversas e um espirro de um dos que estavam na fila o herdeiro Karim disse que tentaria formular um novo procedimento para solucionar o problema.

E você, que sugestão daria para contribuir na solução dessa situação?

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O tempo e o vento

por Convidado 22 de março de 2020   Convidado

* por Sergio Marchetti

Acho este título simples e maravilhoso. Já tive a oportunidade de dissertar sobre o tempo. Mas o tema é inesgotável. Quantas coisas se escondem sob o tempo e o vento de nossas vidas. Quanta saudade, tantas lembranças, pessoas que se foram com o vento – que sopra, incessantemente, empurrando o tempo. E, assoviando, vai nos levando para outro caminho, para a transcendência talvez, assim como a fonte de Vicente Carvalho levava a flor para o mar:

“Deixa-me fonte”. Dizia. / a flor, tonta de terror. E a fonte, sonora e fria/ cantava, levando a flor. / “Deixa-me, deixa-me fonte”!/  Dizia a flor a chorar/ “Eu fui nascida no monte…/ não me leves para o mar”…

Ah! Que saudade do tempo que ouvi esta poesia. Era o início de tudo para mim, num mundo que andava mais devagar. Mas hoje, infelizmente, não vou falar de poesia, nem sobre a série literária de romances históricos do fantástico escritor brasileiro Érico Veríssimo, que tem exatamente o título acima. Seria proveitoso lembrar de Ana Terra e de Rodrigo Cambará. Também poderia mencionar músicas como a do Legião Urbana que demonstra a dificuldade de ver o tempo passar:

Todos os dias quando acordo/ não tenho mais o tempo que passou…”

O que me inspira neste momento é o tempo que passa como vento por nós. Sim, meus caros e passantes leitores. O tempo está voando e todos nós estamos sentindo uma angústia por não conseguirmos controlar os dias e os anos de nossas vidas. Estaria acontecendo uma mudança nos movimentos de rotação e translação da Terra? Talvez sim. Mas se assim for, não teremos como dominar o fenômeno. Ora, então, constato que seria uma enorme perda de tempo tentar governar os movimentos da terra.

Há, no entanto, outros caminhos, novas possibilidades e incontáveis alternativas para usufruirmos do tempo de maneira proveitosa e mais útil. Acredito que podemos repensar na forma como o gastamos. Todas as noites, ao findar o dia, são depositados em nosso banco da vida 86.400 segundos para que os utilizemos da melhor maneira que puder. Porém, tempo não acumula e nem recupera.

Vale refletir também sobre o tempo físico e o tempo psicológico. Momentos de prazer tendem a nos parecer que passam mais rápido. Já os minutos desagradáveis de espera, de tensão nos chegam como se fossem meses e não horas. Num jogo de futebol, quando nosso time sofre um gol aos 30 minutos do segundo tempo, os 15 restantes nos parecem bem menos, enquanto que para a torcida adversária o tempo não passa.

Falando em tempo físico, reforço a tese de que o excesso de opções seja um dificultador de nossa gestão. E, hoje, não faltam instrumentos que tanto ajudam quanto atrapalham nossa qualidade de vida. Há alguns anos a televisão tinha quatro canais. Hoje tem 500. Tínhamos uma ou duas marcas de lâminas de barbear. Pasta de dente (o dentifrício da Dilma) também se resumia a duas ou três marcas. O trânsito fluía e entre tantos etcs. não possuíamos  smarthphone  que, se mal utilizado, é fator determinante de improdutividade.

O que fazer para restaurar nossa organização e qualidade de vida? Bem, comece identificando os vilões. Quais são os ladrões de seu precioso tempo? Temos também algumas palavras que, se transformadas em atitudes, podem compor a fórmula mágica do sucesso e alcançar a tão almejada eficácia: planejamento, prioridade, disciplina, produtividade e foco.

Simples? É simples mesmo. Mas carece de força de vontade para começar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Crise é uma “fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos sentimentos, dos fatos; do colapso” como diz um dos verbetes do Dicionário Informal da Língua Portuguesa. O que significa para cada um de nós os dias que passamos nessa primeira quinzena de março – que fase! Somos impactados pelo novo coronavírus avançando pelos continentes sinalizando menor crescimento econômico mundial, preço do barril de petróleo em queda com o excesso de produção, bolsa de valores derretendo, dólar oficial na casa dos R$5,00 (imagine o dólar turismo), desemprego aberto e o crescimento econômico prometido marchando para repetir o pibinho do ano passado. Enquanto o mundo globalizado e seus dirigentes tentam formular saídas para o momento de alta turbulência vamos ouvindo tudo quanto é tipo de afirmações, a começar pelas que se baseiam no mero “achismo”.

É interessante verificar como as falas vão se modificando rapidamente para quem tenta minimizar os problemas ou mesmo ignorá-los. Basta lembrar que inicialmente o Ministro da Economia dizia que o dólar só chegaria aos R$5,00 se ele fizesse uma besteira muito grande. De repente o dólar bateu lá e o Ministro disse que isso seria algo passageiro. Será que é isso mesmo? O que significa para nós algo passageiro nesses tempos de crise política, econômica e social vividos pelo país a partir de 2014? Quanto tempo mais vai durar essa inequação?

A propósito de tantas coisas que passam e podem passar pelas nossas cabeças em momentos de crise tão agudos, que tal ouvir a música Nuvem passageira cantada por seu autor, Hermes Aquino, que a lançou em abril de 1976? Vale lembrar também que ela foi a música tema da novela “Casarão” exibida pela Rede Globo de televisão naquela época.

Será que a crise é mesmo uma nuvem passageira ou vai demorar um pouco mais do que podemos estar imaginando?

Nuvem Passageira
Fonte: Letras.mus.br

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
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A manutenção de nossas moradias, sejam elas casas ou apartamentos condominiais, exige uma gestão que garanta a disponibilidade para o uso permanente das instalações, equipamentos e utensílios pertencentes ao ambiente. Ainda que tudo tenha sido projetado e construído por profissionais habilitados conforme a lei, a operação dos ativos é feita pelos moradores usuários das casas e nos casos de condomínios existem aspectos que transcendem cada unidade e seu gerenciamento interfuncional deve ser feito pelo síndico, mas com a cooperação e participação de todos os condôminos em busca do bem comum.

Na nossa cultura ainda predomina a negligência em relação à gestão da manutenção e pouco se faz em ações preventivas. Por isso mesmo, em nossas moradias, a cena mais comum é a manutenção corretiva, quando um bem estraga ou se quebra, uma instalação está com uma infiltração merejando água ou um equipamento eletroeletrônico se queima devido à queda de um raio onde não existe um sistema protetor.

Digo isso para contar a saga do morador de uma casa após perceber um vazamento em sua caixa d’água com capacidade para reservar 500 litros. O fenômeno foi percebido na manhã da quarta-feira antes do Carnaval, quando o morador fechou imediatamente o registro da instalação da entrada de água e conseguiu agendar uma visita técnica de um bombeiro hidráulico autônomo para as 17h do mesmo dia. Entretanto o profissional não apareceu na hora marcada e nem deu satisfação alguma para justificar o seu descompromisso. Mesmo assim, o morador fez um contato com o bombeiro para conversar sobre o acontecido e ele disse que as coisas ficaram “agarradas” e que não deu para comparecer na hora combinada. Novo acordo foi feito para a realização do serviço às 9h do dia seguinte, mas o horário acabou sendo desmarcado pelo bombeiro em cima da hora sob a alegação que precisava resolver uma emergência no serviço feito na tarde do dia anterior. Pacientemente o morador disse ao profissional que ficaria fora de casa durante o Carnaval e agendou uma nova tentativa para que o trabalho fosse feito a partir das 9h da quinta feira após as cinzas do Carnaval. E não é que que o bombeiro hidráulico não apareceu na hora combinada e, ao receber um telefonema do morador, disse que havia se esquecido do combinado e que logo a seguir se deslocaria rumo à casa do cliente? Lá chegou por volta das 11h e identificou que a causa do vazamento da caixa d’água era devido à boia quebrada. Por volta do meio-dia o serviço foi concluído e custou ao morador R$170,00 relativos à mão de obra e aquisição de uma nova boia.

Perguntado sobre a garantia para os serviços realizados, o bombeiro disse que a validade era só até ele passar pelo portão que dá acesso à rua. Em seguida, disse que estava brincando e que em caso de problema era só chamá-lo.

Lembre-se, caro leitor, de que um cliente ao contratar um serviço espera que ele tenha qualidade intrínseca, preço adequado e bom atendimento. Imagine se num curto período de tempo a pia de sua casa aparece entupida enquanto a geladeira pára de refrigerar, o fogão a gás não acende a chama e a máquina de lavar roupas quebra um componente fundamental e você vai procurar um profissional para resolver cada desses problemas. Haja paciência e dinheiro!

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