Vale a leitura

por Luis Borges 19 de julho de 2015   Vale a leitura

Por onde anda Marina Silva?

Decorridos pouco mais de nove meses do primeiro turno das eleições presidenciais de 2014, muitos se perguntam sobre o que Marina Silva está fazendo ou pensando. Afinal de contas ela obteve mais de 22 milhões de votos, que a levaram ao terceiro lugar na disputa. Diante do aprofundamento da atual crise econômica, política e social, é bastante visível seu sumiço da grande mídia, o que acaba passando a sensação de que ela está invisível. Neste artigo publicado pela BBC Brasil a jornalista Mariana Schreiber mostra o que ela está fazendo diretamente com as comunidades e como tem buscado inspiração nas experiências de outros países, como por exemplo a Colômbia, local de sua última viagem internacional.

A BBC Brasil tentou ouvir Marina Silva, mas sua assessoria informou que a viagem à Colômbia impedia que fosse realizada uma entrevista. Nos últimos meses, ela tem falado pouco com a imprensa.

Em um desses raros momentos, no mês passado, concedeu entrevista ao jornalista Keneddy Alencar, do SBT, em que disse não saber se disputará a eleição presidencial novamente e afirmou querer “pensar com tranquilidade” sobre como contribuir para o país.

“Eu ainda não tenho essa resposta (sobre se seria candidata). Não acho que uma candidatura deva ser em função da fadiga de material desse ou daquele partido. Uma candidatura será sempre em função de um projeto de país, de uma visão de mundo, de um programa de governo”, disse, ao ser questionada sobre a possibilidade de ser uma alternativa ao governo e ao PSDB.

“Eu quero discutir, pensar com tranquilidade qual é a natureza da minha contribuição para a sociedade brasileira.”

Crises de Brasil e Grécia se parecem?

Os analistas mais apressados devem estar forçando o encontro de muitas semelhanças entre as situações da Grécia e do Brasil neste momento em que os dois países passam por crises. Acontece que as condições de contorno são diferentes, inclusive nas maneiras de medir e comparar as principais variáveis envolvidas. Indo direto ao ponto, cada caso é um caso. Nesta matéria do UOL estão as opiniões de três economistas de instituições renomadas. Leia as análises sobre as principais diferenças entre as duas nações – histórico do PIB desde a crise econômica de 2008, controle da moeda nacional, causas para a inflação, relação com o FMI, nível de desemprego. Eles também analisam as principais semelhanças – dependência de capital estrangeiro e dos bancos, crise de confiança. Como se vê, há mais diferenças que semelhanças.

Perder menos com a aposentadoria

As discussões e propostas envolvendo o fator previdenciário nas aposentadorias pelo INSS continuam em pauta. Discute-se, também, o índice de reajuste das aposentadorias superiores a um salário mínimo, com a proposta de que sejam corrigidas pelo mesmo percentual deste. É bom lembrar que, hoje, o teto máximo para a aposentadoria é de R$4.663,75 e que é praticamente inatingível na maioria esmagadora dos casos, em função das regras de atualização monetária e do próprio fator previdenciário. Também o UOL publicou o artigo Qual é a melhor aposentadoria? Veja vantagens de cada tipo. Vale a leitura para entender melhor o assunto e começar a se planejar para esse momento da vida.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 16 de julho de 2015   Curtas e curtinhas

Desaceleração do crescimento

O Programa de Aceleração do Crescimento também está dando uma grande contribuição para o ajuste fiscal em curso e está em plena desaceleração. Os números não mentem. No primeiro semestre de 2014, foram aplicados R$31,2 bilhões nos empreendimentos, enquanto no mesmo período de 2015 as cifras chegaram a R$19,9 bilhões. Foram R$11,3 bilhões a menos o que significa uma redução de 36% nos investimentos. As expectativas para o segundo semestre também não são das melhores, mesmo para o PAC que já foi um dos carros-chefes do Poder Executivo em tempos recentes.

Frei Betto e o PT

Nesta entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, Frei Betto, um dos criadores do PT a partir das comunidades eclesiais de base, ouviu a pergunta a seguir.

O que o senhor achou das recentes declarações do ex-presidente Lula com críticas ao governo Dilma e ao partido que ele mesmo fundou?

Ao que respondeu:

Digo o que ele diz há muito tempo: O PT promoveu uma louvável inclusão econômica, mas não promoveu a inclusão política. O PT não criou cidadania, criou consumismo. E, agora, tiraram o sorvete da boca da criança e ela está se queixando. Da casa pra dentro, nota dez para os governos do PT. Tem tudo. Mas da casa pra fora o povo continua na favela, não tem saneamento, saúde, educação, segurança, transporte. O PT inverteu o processo. Investiu em bens e acesso ao consumo e não em bens sociais. Criou um apetite que agora se volta contra ele. As pessoas, é claro, não se conformam com a perda do que tinham.

Que clareza!

Repatriação de dinheiro

O Ministério da Fazenda estima que existam US$200 bilhões depositados em contas no exterior pertencentes a brasileiros e que foram enviados pra fora do país de maneira irregular, portanto sem pagar impostos. Entretanto alguns membros da equipe técnica discordam desse número e avaliam que o montante está em torno de US$100 bilhões. Sem se preocupar com a origem desse dinheiro e com foco em fechar as contas públicas ainda dentro das metas originais, o Ministério da Fazenda quer facilitar o retorno desses valores. A proposta que está sendo elaborada prevê uma taxação de 35% sobre o total a ser repatriado. Numa das hipóteses de adesão, os técnicos avaliam que poderiam entrar de R$20 bilhões a R$25 bilhões nos cofres da União, ou seja, pouco mais de 25% do montante caso houvesse interesse de todos que estão nas condições citadas. Sapo pula não é por boniteza, mas por necessidade.

Médicos de família

Segundo a Comissão Nacional de Residência Médica do MEC, 8% das vagas de Residência Médica são destinadas à Medicina de Família e Comunidade. Neste ano foram oferecidas 1520 vagas e só 400 foram preenchidas, pouco mais de 1/4 do total disponível. A atenção primária à saúde ainda tem muito o que caminhar, inclusive para despertar o interesse dos profissionais pela especialidade.

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Foi preciso redobrar a atenção durante a caminhada pela rua Mármore, no bairro de Santa Tereza / Belo Horizonte, no último dia 9 de julho. Um passeio interditado no quarteirão antes da Praça Duque de Caxias obrigou as pessoas a passarem quase no meio da rua, disputando espaço com os veículos que descem por ali em grande quantidade e velocidade ao longo do dia.

Foto: Sérgio Verteiro

Foto: Sérgio Verteiro

Ao lado do passeio interditado estava uma caçamba, ocupando a faixa de estacionamento de veículos, que seria o local mais seguro para os pedestres passarem. Note que, logo antes da caçamba, a faixa de estacionamento está bloqueada por sacos, o que ajuda a guardar espaço seguro pros caminhantes. O problema é que a caçamba força a caminhada do pedestre pela faixa de rolamento.

Uso o exemplo para responder a uma dúvida – como fazer uma obra, necessária, que bloqueia o passeio e, ao mesmo tempo, garantir a segurança dos pedestres? Entrei em contato com a Prefeitura, via 156. Até conseguir uma resposta, fiz 12 ligações para diversos órgãos. Por fim, na Regional Leste, fui informado que é possível fazer uma solicitação à BHtrans para que seja interditado um pedaço da pista de rolamento ao lado da caçamba. Assim, o passeio estaria interditado, a caçamba estaria no lugar certo e as pessoas teriam um local para passar com menos insegurança. Para fazer isso, é preciso preencher formulários etc. Ou seja, há solução, mas é preciso ter muita paciência.

Foto: Sérgio Verteiro

Foto: Sérgio Verteiro

Nesses tempos em que tanto se fala em mobilidade urbana, acessibilidade e atitudes compatíveis com a cidadania, o Observação e Análise tem abordado esses assuntos em diversas ocasiões – Acessibilidade difícil em Santa Tereza / Convívio difícilTombamento e abandono em Santa Tereza.

Ainda assim não posso deixar de ser um realista esperançoso. Por isso, revisito o poema No meio do caminho, do nosso poeta maior Carlos Drummond de Andrade.

No meio do caminho
Fonte: Estadão

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
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Vale a leitura

por Luis Borges 10 de julho de 2015   Vale a leitura

Planejamento de compras

Planejar é pensar antes e é o que todos deveriam fazer para evitar impulsos e desperdícios no ato de comprar. Pesquisa da Nielsen mostrou que 39% dos entrevistados assumiram ter feito compras sem planejar. Desse total, 22% só se lembraram que precisavam do bem quando chegaram à loja e 17% não precisavam de comprar, mas se convenceram que precisavam e acabaram “passando o cartão”. Neste texto, Samy Dana explica a importância de planejar as aquisições.

A vogal do desespero

Quem tem limites físicos de qualquer natureza geralmente é vítima da pouco amigável acessibilidade dos espaços públicos e privados. Tudo é feito para quem está na plenitude das condições “normais” previsíveis para um ser humano. Podemos imaginar como tudo se complica quando é necessário enfrentar a burocracia brasileira, que joga as pessoas de um lugar para outro, independente da sua condição física. Leia o caso narrado pelo jornalista Jairo Marques, cadeirante desde a infância, no artigo A vogal do desespero. Tudo começou quando a Receita Federal suspendeu seu CPF devido a uma divergência em seu nome, pois lá constava como “de Costa” quando o correto seria “da Costa”. Jairo narra as dificuldades para resolver um erro de 20 anos.

Para ir a qualquer lugar fora da rotina, o pessoal prejudicado das partes como eu precisa de um plano de ação detalhado para evitar bater a cara, a cadeira, as muletas ou a bengala na porta.

Tudo precisa ser examinado com antecedência: se há rampas nas ruas (oi?), se as calçadas são assassinas de primeiro ou de segundo graus, se há onde parar a charanga, se o elevador funciona ou é daqueles da Pensilvânia, se o transporte público é amigável.

Promessas dolorosas e estelionato eleitoral

Tornou-se inevitável a comparação entre as promessas eleitorais feitas nas últimas eleições no Brasil e na Grécia. Lá o partido vencedor está cumprindo o que prometeu em sua campanha eleitoral enquanto, por aqui tudo, ficou na retórica e soou como estelionato eleitoral. É o que mostra Leonardo Sakamoto no artigo Grécia e Brasil: promessas dolorosas e estelionato eleitoral.

O Syriza (Synaspismós Rizospastikís Aristerás, ou Coligação da Esquerda Radical) não mentiu ou omitiu. Disse em sua campanha que iria contra os acordos leoninos que haviam sido assinados pelo governo anterior. E foi eleito com essa plataforma. Ou seja, não pode ser acusado de estelionato eleitoral.

Só falta alguém dizer que a democracia grega é diferente da nossa.

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Em meados de maio publiquei no Observação e Análise a pensata Atendimento que desencanta, na qual abordei o calvário pelo qual passei para mudar um plano de telefonia celular. Ao final da narrativa, contei que o atendente da loja física da operadora admitiu que houve problemas na migração do plano.

Tudo aparentava alegria e tranquilidade até o recebimento da conta contendo a medição dos serviços de 21 de maio a 20 de junho. Era relativa ao plano que foi cancelado, com uma cobrança de R$192,00 pela utilização de 12 linhas do plano virtual. Ficou visível que a cobrança era indevida.

Preparei-me para perder um tempo inimaginável e entrei em contato com a operadora visando a resolver a situação.

A ligação estava só começando...

A ligação estava só começando…

Durante o atendimento fiquei tentando descobrir as causas do problema. Ao final do processo, que durou 55 minutos, ficou claro que a perda desse tempo foi causada pela falta de treinamento do operador no procedimento padrão e também pela sua desatenção ao praticá-lo. O operador admitiu que, no mês anterior, o atendente se esqueceu de cancelar as linhas virtuais e que, por isso, o sistema continuou gerando a conta em relação àquele quesito. Aproveitei para perguntar se esse tipo de falha acontece muito. O operador disse que não é raro ocorrer e que o problema só é sanado quando as pessoas reclamam.

Em um segundo procedimento padrão foi feita a contestação da fatura e a solicitação do cancelamento das tais linhas virtuais. Entretanto fui alertado que um novo período de medição se iniciara dia 21 de junho e que ele só seria encerrado naquele dia em que efetivamente estava sendo feito o cancelamento. Mais ainda: nova fatura será enviada com a cobrança desse período, ocasião em que deverei entrar em contato novamente com a Central de Atendimento e fazer nova contestação da fatura. Inocentemente solicitei ao atendente que me poupasse desse novo desgaste, já cancelando também esse resíduo de fatura no sistema. Ele foi curto e grosso para dizer que “o sistema  não aceita esse tipo de procedimento”. Ah! Sempre o sistema para explicar o inexplicável e encobrir as, digamos, bem intencionadas irracionalidades do processo.

Agora enquanto aguardo a chegada da nova conta, reflito e compreendo por qual(is) razão(ões) as operadoras de telefonia fixa e móvel ocupam o primeiro lugar no ranking de reclamações dos usuários nos Procons, sob o desatento olhar da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Aliás, se a Anatel não existisse, quem sentiria falta? Bom, pelo menos a sua diretoria.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 7 de julho de 2015   Curtas e curtinhas

Aumento salarial no Poder Judiciário

Em meio à repercussão do aumento de 53% a 78,56% em quatro parcelas anuais dado pelo Senado aos servidores do Poder Judiciário da União é bom lembrar o nome de seus principais componentes. Fazem parte desse poder STF – Supremo Tribunal Federal, STJ – Superior Tribunal de Justiça, CNJ – Conselho Nacional de Justiça, Justiça Militar, Justiça Federal, Justiça Eleitoral, Justiça do Trabalho, Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Em 2013, os gastos com pessoal e encargos sociais foram de R$29,8 bilhões que, divididos por 365 dias, significam um gasto diário de R$84,6 milhões.

O aumento aprovado gerará mais R$25,7 bilhões de gastos permanentes e contrasta com as proposições de cortes definidos para o ajuste fiscal das contas públicas. Vamos aguardar o posicionamento da Presidência da República quanto ao veto da matéria em função do que exigem os Ministérios da Fazenda e do Planejamento.

Imposto de Renda

O Senado aprovou a Medida Provisória que corrige a tabela do imposto de renda de 4,5% a 6,5%, num aumento claro de carga tributária. Acontece que, neste momento, a inflação já chegou a 9% ao ano, ou seja, o dobro do índice pelo qual foi corrigida a tabela para quem ganha acima de R$ 4.800,00, por exemplo. Dá para imaginar o discurso do Ministério da Fazenda por ocasião do reajuste da tabela em 2016? No mínimo vão dizer que a meta de inflação é de 4,5% ao ano e que todos os esforços estão sendo feitos nessa direção. Na prática, mais aumentos de carga tributária serão consolidados e mais se acentuará a perda de poder aquisitivo.

Pedalando

O abono salarial do PIS/PASEP é pago aos trabalhadores com carteira assinada que receberam até dois salários mínimos, caso tenham trabalhado pelo menos 30 dias no ano anterior. Eles têm direito ao valor de 1 salário mínimo. Esses pagamentos sempre foram feitos escalonados ao longo de julho a outubro, em função da data de nascimento do beneficiário. Neste ano de ajuste fiscal, contingenciamento de recursos na boca do caixa do Tesouro Nacional e denúncias de continuidade de saques a descoberto nos bancos oficiais, chamados de “pedaladas fiscais”, o pagamento foi escalonado ao longo de 12 meses. O início será em julho e o término em junho de 2016. Assim R$10,1 bilhões serão desembolsados neste ano e os outros R$ 9 bilhões ficarão para o ano que vem, contribuindo ,assim, para as tentativas de se atingir as metas estabelecidas para as contas públicas. Será que vai ajudar ou mexeram na conta errada, já que o PIS/PASEP do período em referência já está no caixa do Governo Federal?

Novo carpete do Senado

Visita guiada ao Senado. No chão, é possível ver o carpete azul royal. / Foto: Edilson Rodrigues | Agência Senado

Visita guiada ao Senado. No chão, é possível ver o carpete azul royal. / Foto: Edilson Rodrigues | Agência Senado

O Senado vai gastar R$549,7 mil para trocar o carpete de 3.600 m² em suas dependências. É o que mostra esta publicação da ONG Contas Abertas.

Segundo o edital de licitação, a empresa contratada deverá fornecer e instalar o carpete aveludado na cor azul royal, bem como retirar o carpete existente, regularizar o contrapiso e dar destinação correta ao material que será substituído. A justificativa para a realização desse gasto é o desgaste natural do atual carpete , devido ao longo tempo de uso, pelo mau estado de conservação e a necessidade de uma apresentação compatível com a importância da instituição.

Na visita da Contas Abertas ao Senado no dia 29/06/15, a constatação foi de que “apesar de algumas partes conterem imperfeições, como rasgos ou tecidos de cores diferentes, a maior parcela do tapete parece não ter manutenção ou os cuidados corretos. O que é recorrente no carpete é sujeira e manchas”.

Durante a visita, ouviram a opinião de uma pessoa sobre o assunto. O recado foi claro: “Poderia fazer manutenção. Em época de crise, eles estão preferindo cortar direitos e não gastos. Não seguem a economia que todos estão fazendo em casa: comprar o básico e não pagar pelo supérfluo”.

E você? Determinaria a troca ou abraçaria o ajuste fiscal?

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No tempo em que eu era imortal

por Convidado 6 de julho de 2015   Convidado

por Sérgio Marchetti *

Um amigo me confidenciou que estava com depressão por ter lutado a vida inteira e não ter conseguido realizar seus sonhos. Alguns, disse ele, estiveram muito próximos de acontecer. Mas a lâmina do destino, de maneira incompreensível e muitas vezes injusta, cortou a trajetória de suas realizações. Ele acentuou que, entre uma frustração e outra, uma crise e outra, veio o tempo que, ininterruptamente, roubou-lhe o vigor, o brilho e a esperança. Inspirado em Jorge Luis Borges, disse que, se pudesse começar de novo, faria tudo diferente, mas sabe que agora não tem mais tempo.

Esse relato, infelizmente, não é raro. Muitas pessoas, independentemente da idade, estão fragilizadas, desiludidas e cansadas de ser coadjuvantes, quando possuem bagagem suficiente para ser protagonistas. Pessoas há que acreditam na sorte. Outras apostam no destino: maktub, tudo já está escrito. Eu não possuo opinião formada a respeito do assunto. Sinceramente, estou mais para a constatação de Sócrates: “sei que nada sei”.

Na realidade, caminhamos a passos largos para o mundo da exclusão social, palco da mais cruel e injusta distribuição de renda da história e de poucas oportunidades para os menos favorecidos. Como estamos no Brasil, os cenários são ainda piores.

Meu amigo atravessa uma fase difícil. Está velho e sofre de preconceito, independentemente dos eufemismos utilizados para mascarar a idade avançada. Para o idoso (melhor idade), apesar dos privilégios da lei, não é fácil lutar contra tantas limitações. Mas nem tudo está perdido. A passagem do tempo traz novos papeis – personagens que devemos encarnar no teatro da vida. Experiência é uma joia rara que só é dada a quem vive mais tempo.

Fiquei imaginando como poderia ajudar o amigo. Pensei em dizer-lhe que a mudança é inevitável, traz ameaças, sim. Contudo, proporciona oportunidades, emoções e momentos raros. Quem tem netos diz que é agraciado com um presente de Deus – privilégio dos que não morrem cedo. Há entendimentos que só virão com o tempo. Somente quando ficamos maduros é que descobrimos o porquê do verde ser a cor da esperança. Sonhamos com tantas coisas e, cá entre nós, já sabíamos que certos sonhos declarados eram mais da boca para fora do que verdadeiro desejo. Não iriam se realizar mesmo. Porém, os sonhos se renovam como células.

Aprendi, lendo Shakespeare, “que depois de algum tempo a gente aprende”… que nossos pais tinham mais razão naquilo que nos diziam do que poderíamos supor. E que, com o passar dos anos, a convivência com a morte de parentes e amigos torna-se frequente. E nos momentos tristes, nos encontros com velhos amigos, prometemos com uma mentira sincera que vamos nos reunir em outras situações para comemorar a vida e não para chorar as mortes de pessoas queridas. Passada a comoção, tudo volta ao normal. Não haverá encontro algum, tampouco o resgate das antigas amizades. A peça teatral que um dia, em algum lugar do passado, representamos juntos, não permite reprise, apenas recordação e saudade. Então nos resta a nostalgia. Eu adoro minhas lembranças e as guardo com saudades da minha infância, da rua calma do interior, numa casa com quintal, onde ser menino era ser imortal. Imaginava que nunca ficaria velho…

Lembranças, quantas lembranças…\ Das goiabeiras gentis, \ Dos abacates tão verdes quanto nossas esperanças,\ Dos limoeiros e laranjeiras, dos animais hostis,\ Lembrança de mim, de ti, dos demais.\ No tempo em que éramos imortais.

Quantos tios, tantos primos – muitos encontros.\ O futuro que nunca chegaria, a infância eterna.\ Nunca a desesperança, nunca o desencontro.\ Sempre o carinho de avó, de mãe terna. \ Os sonhos… tantos sonhos irreais… No tempo em que éramos imortais.

Amigo, recordar também é viver!

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui Licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br .

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