Vale a leitura

por Luis Borges 10 de abril de 2016   Vale a leitura

Sombras brasileiras

Para compreender o atual momento brasileiro precisamos de ter consciência e compreensão sobre algumas características que marcaram esses 516 anos do país. O Frei Leonardo Boff  fala da colonização, do genocídio indígena, da escravidão e da corrupção em seu artigo Quatro sombras que afligem a realidade brasileira atual.

“Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca se logrou civilizá-lo. Mas, depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins nasceram desse esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos”.

Como seria na Suécia?

A operação Lava Jato já completou 2 anos de ação conjunta da Polícia Federal e Ministério Público, tendo como foco a apuração de denúncias de corrupção na Petrobras. Entre elogios, críticas e questionamentos das diversas partes envolvidas, um dos nomes sempre em destaque é o do juiz federal Sérgio Moro. Também o direito ao foro privilegiado para determinados cargos políticos forçosamente leva à necessidade de posicionamento do Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição Brasileira. Se aqui funciona assim podemos também tentar conhecer um pouco mais como seriam tratados casos semelhantes em países da Europa ou da América do Norte, por exemplo. Nesse sentido é bastante interessante a entrevista feita pela jornalista Claudia Wallin com Göran Lambertz, um dos 16 juízes da Suprema Corte sueca. Ela foi publicada pelo Diário do Centro do Mundo sob o título de Moro e Gilmar são impensáveis na Suécia, diz juiz da suprema corte sueca.

“É extremamente importante que juízes de todas as instâncias, em respeito à democracia e à ordem jurídica e constitucional, atuem com total imparcialidade. Caso contrário, não haverá razão para a sociedade confiar nem em seus juízes, e nem em seus julgamentos”.

Chefes Desagradáveis

Lidar com chefes dos mais variados estilos é sempre um desafio para o subordinado que precisa atendê-los, mas também conhecê-los melhor para sofrer menos. Este artigo de Lucy Kellaway, editora e colunista do Financial Times, explica Por que preferimos que chefes desagradáveis sejam horríveis sempre.

“De longe, o chefe mais difícil que já tive era um homem inspirador, moralmente íntegro. Eu o respeitava e aprendi muito com ele. O problema era que eu nunca podia prever qual seria sua reação diante das coisas”.

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Missão sem transparência

por Luis Borges 6 de abril de 2016   Pensata

A corrupção no Brasil está em altíssima evidência e discussão em função de seguidas revelações nas últimas duas décadas, com maior expressividade e volume notadamente a partir de 2014. São frequentes as afirmações que dizem ser a corrupção mais velha que a serra, que ela está impregnada na cultura do país ou mesmo que faz parte da índole de políticos e seus partidos financiados por tenebrosas transações nada republicanas.

As relações entre o público e o privado se complementam em profícuas ações de seus agentes nos papéis de corruptos, corruptores e beneficiários dos resultados alcançados.  Se nos altos escalões estão as grandes corrupções, raramente percebidas por auditorias e tribunais de contas, o que pensar das pequenas corrupções, que começam a vir à tona no microcosmos do cotidiano das pessoas? Qual é o impacto que tudo isso acaba trazendo às relações sociais de muitos daqueles que não se sentem em condições de mostrar os desmandos que vêem em seus locais de trabalho em função da sobrevivência imediata?

Fiquei sabendo de um caso que pode ilustrar um pouco uma situação dessa natureza. Trata-se de um grupo de pessoas católicas que realizam missões de evangelização em distritos de pequenos municípios. O trabalho começou há mais de 15 anos, com a participação de 80 missionários. Eles saíam da capital em dois ônibus, gentilmente cedidos pelo proprietário de uma grande empresa do setor, rumo às cidades escolhidas. Havia duas viagens por ano – na Semana Santa e na semana que antecede o dia da Padroeira do Brasil.

A cessão dos ônibus só era conhecida, inicialmente, pelo coordenador da missão, por seu assistente imediato e pelo gerente comercial da empresa. Mesmo assim, nos últimos cinco anos cada missionário pagava R$180,00 pelo transporte e R$30,00 pelo lanche a bordo do ônibus. Cada missionário levava, também, uma cesta básica para a família que o hospedava.

Durante a preparação para a primeira viagem do ano passado, um dos participantes ficou sabendo do caráter gratuito do ônibus ao longo de todos os anos de existência da missão. A informação espalhou-se rapidamente pelo grupo, mas ninguém se dispôs a questionar o coordenador, nem individualmente e nem em grupo. Os mais revoltados decidiram abandonar a missão já naquele momento. Outros fizeram o mesmo no segundo semestre.

O fato é que na Semana Santa deste ano, apenas 20 pessoas participaram da missão e, como que por encanto, não tiveram que pagar os R$180,00 da passagem. Entre os remanescentes do grupo circulou a informação de que o coordenador está à procura de doações vindas de outras empresas de boa vontade. Entretanto como nada foi perguntado, nada foi explicado sobre o destino dado ao dinheiro arrecadado ao longo de todo esse tempo, apesar da fértil imaginação de muitos. Aliás, o que mais se fala nesse momento é colocar uma pedra sobre o passado e tentar começar uma vida nova, com o grupo passando a ser dirigido por uma comissão de 4 pessoas, sem a presença do coordenador, mas contando com a participação do atual assistente.

Como se vê não é nada muito diferente do que acontece em outros escalões da República. A cultura é muito forte.

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Poesia, a voz da alma

por Convidado 4 de abril de 2016   Convidado

* por Sérgio Marchetti

“Quero falar de uma coisa. Advinha onde ela anda. Pode estar dentro peito ou caminha pelo ar.” (Milton Nascimento e Wagner Tiso).

Quero falar da poesia. Dizem que ela morreu. Que ninguém mais declama versos, nem se lembra dela. É que os tempos são outros – menos versados e mais proseados. Confesso que já tive uma paixão muito forte por ela. Andamos juntos na mesma estrada. Depois veio o tempo…

Lamento que não tenhamos mais a leitura de poemas, como faziam os alunos de antigamente. Sinto falta também de poetas. Eles eram um misto de homens e santos. Hoje, dizem que alguns desses homens eram chatos. Mas o mundo era melhor quando tínhamos mais poetas do que ladrões.

Quero chorar pela morte da poesia e prestar minha solidariedade aos poetas vitimados pelo vento devastador – efeito colateral da contemporaneidade. Sei que os mais jovens nem vão me entender, porém remeto minhas palavras àqueles que conheceram e que conviveram com a poesia. Ela foi cupido de muitos casais apaixonados. Era universal e serviu, tanto aos amores realizados como aos nunca correspondidos. Servia de catarse. Aliviava dores, sobretudo dores de amor. Possuía muitos trajes, várias formas e também deu voz aos insatisfeitos com governos e outras situações.

Confesso que não sei definir o que é poesia. Mas imagino que sua finalidade não era a de atacar e sim de conquistar, de exaltar. Seus alvos eram os corações das pessoas amadas. Os poetas eram os magos do amor.

“Poetas, seresteiros, namorados, correi/ É chegada a hora de escrever e cantar/ Talvez as derradeiras noites de luar …” (Gilberto Gil)

O que era poesia? A pureza das donzelas? O respeito ao próximo ou os versos inteligentes de outrora? Talvez tudo isso fosse poesia. No seu período de esplendor, a poesia tinha variadas linguagens que veneravam um amor ideal. Sei, caros leitores, que isso tudo é apenas fantasia. Então a poesia é uma ilusão? Penso que em parte sim. E este pensamento está representado nestes versos:

“o poeta é um fingidor/ e finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente…”  (Fernando Pessoa, psicografado).

Detalhe da casa de Fernando Pessoa, em Lisboa (Portugal). | Foto: Marina Borges, set. 2013.

Detalhe da casa de Fernando Pessoa, em Lisboa (Portugal). | Foto: Marina Borges, set. 2013.

Convenhamos, pense em você, seu traje de executivo não é uma fantasia? Sua maquiagem não é uma forma de se fantasiar? A vida é ilusão, “é o sopro do criador numa atitude repleta de amor” (Gonzaguinha).

A poesia, se estivesse em uso, provavelmente poderia atenuar os “sapos” que engolimos em nossa rotina do dia-a-dia. Antes se fazia poesia. Hoje se faz terapia.

“O imposto, a conta, o bazar barato/ O relógio aponta o momento exato/ da morte incerta, a gravata enforca/ o sapato aperta, o país exporta/ E na minha porta, ninguém quer ver/ Uma sombra morta, pois é, pra quê?”(Sidney Miller)

Dizem que ser poeta é ser “brega”. Mas antes era característica de destaque social e cultural. Havia o poeta do bem. Havia o poeta do mal. Também havia o poeta ruim. Oscar Wilde, o talentoso escritor irlandês, disse que “os verdadeiramente grandes poetas escrevem a poesia que não conseguem viver; já os poetas medíocres vivem a poesia que não conseguem escrever – por isso são tão encantadores”.

Com tudo isso eu afirmo que a poesia pode ser ressuscitada. “Mas há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. (M.N. e W.T.).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Quem vê o atual Ministro da Fazenda, ex-Planejamento, falando sobre a queda da arrecadação do Governo Federal, ligada aos tributos que incidem sobre a atividade econômica, pode imaginar que ele veio do reino das palavras. No lugar de ir direto ao ponto e mostrar as causas que levaram a esse efeito, ele faz um “lero lero” danado para afirmar que aconteceu uma “frustração de receitas”.

Como esperar algo diferente? Entendo que, mesmo se o acirramento político não estivesse tão elevado, os resultados decorrentes do projeto de poder focado em vencer as eleições presidenciais a qualquer custo não seriam muito diferentes dos que estão sendo colhidos.

Se você ler no site significados.com.br algumas definições de frustração verás que pode ser um sentimento, uma emoção que ocorre quando algo que era esperado não ocorreu ou que surge quando identificamos um erro entre aquilo que planejamos alcançar e o que realmente aconteceu.

A arrogância impede que se admita os erros nas premissas que foram utilizadas, mas o uso de belas palavras não é suficiente para justificar ou mascarar a recessão econômica que também paralisa o país.

Também sobrou para as pessoas a “frustração de receitas”, com a perda do poder aquisitivo diante da alta inflacionária, o desemprego direto de quase 10 milhões de pessoas de acordo com o IBGE e até mesmo as dificuldades que aqueles que permanecem trabalhando têm encontrado para repor suas perdas inflacionárias.

A frustração é mais que real e sobrou mesmo foi para a população pagar a conta. Há um ano, que palavras o ministro tinha para negar o crescimento do desemprego? Agora as pessoas não podem contribuir com mais dinheiro para evitar a frustração do Governo Federal, pois elas estão precisando é de trabalho e renda para sobreviver. Será que as cores de abril nos sinalizarão a chegada ao fundo do poço?

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Há calçadas em Santa Tereza que não são amigáveis para os pedestres. Ali estão buracos, desníveis, capim alto. Em algumas situações os dois coabitam – mato que esconde buracos. As fotografias deste post foram feitas no fim da semana passada.

calçadas com mato na rua ângelo rabelo

Calçadas com mato na rua Ângelo Rabelo. | Foto: Sérgio Verteiro

Esses obstáculos são mais problemáticos para pessoas idosas ou para pessoas com deficiência visual ou motora por exemplo. Ainda que acompanhados, terão dificuldades em suas trajetórias. Guardadas as devidas proporções podemos até pensar numa corrida de obstáculos do atletismo, apesar do decantado direito constitucional de ir e vir.

calçadas com buracos

Calçadas esburacadas na Rua Mármore. | Foto: Sérgio Verteiro

Vale frisar que essa situação não é exclusiva das calçadas mostradas aqui e nem apenas do bairro de Santa Tereza. Basta dar uma volta pelas ruas do bairro e da cidade e olhar com um pouco mais de atenção.

A reflexão que faço nessa hora é sobre as causas dessas situações e de quem é a responsabilidade para resolver os problemas ocasionados. Qual é a parte que cabe aos proprietários dos imóveis ou à Superintendência de Administração Regional da Prefeitura Municipal?

Como sou um esperançoso ativo, continuarei lutando pela melhoria das condições de vida no bairro com as crenças de que nada é tão bom que não possa ser melhorado e que tudo começa com a gente.

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Vale a leitura

por Luis Borges 28 de março de 2016   Vale a leitura

Ódio, crianças e jovens

Uma coisa é alguém estar insatisfeito com uma determinada situação. Outra é partir para atitudes carregadas de intolerância e ódio. O confronto pouco civilizado acentua o conflito, que se prolonga à medida que o tempo passa e soluções não aparecem.

A psicóloga e educadora Rosely Sayão aborda a forma como as posturas dos adultos podem impactar crianças e jovens no artigo Situação de ódio que tomou conta de nós tem afetado as crianças.

“A situação de ódio que tomou conta de quase todos nós neste cenário político nacional tem afetado muito os mais novos. Diversos professores e pais, sensibilizados com o que veem acontecer com seus alunos e filhos, têm me solicitado ajuda. Crianças sendo agredidas por seus pares sem sequer entender o motivo da agressão, e jovens sendo hostilizados e excluídos de seu grupo, simplesmente porque arriscam ter uma opinião diferente da maioria são fatos que têm ocorrido com bastante frequência”.

Queimando reservas

Fazer uma poupança para funcionar como um colchão financeiro em momentos de sufoco deveria ser um objetivo para todos aqueles que se preocupam com o que vem pela frente. Se a necessidade de usar parte da poupança torna-se real, como fazer para repor aquela parte da reserva que foi gasta? Eduardo Amuri fala de um comportamento que atinge muita gente: saber o que deve ser feito mas “empacar” logo antes de começar. É o que ele chama de “apatia financeira”. As consequência desse comportamento na vida financeira – e o caminho pra se desvencilhar dele – estão neste texto.

Entre uma das causas para a apatia financeira, Amuri destaca a seguinte:

“Aversão à tensão que surge quando nos percebemos privados das nossas vontades.

Importante frisar – e isso parece uma diferença sutil, mas não é – que o que incomoda por aqui não é o medo de ficar sem um mimo do qual gostamos, mas sim o medo de se perceber incapaz de lidar com o desconforto que surge mediante a privação do mimo.

Ficar sem uma viagem de férias não é, realmente, o que incomoda. O que incomoda é se perceber tão falível, tão pequenininho, ao ponto de não saber lidar com o desconforto que surge quando percebemos que a viagem não acontecerá.”

Aprender a empreender

Aprender com erros, fracassos e também sucessos de outros empreendedores deve fazer parte do caminho de quem pensa em ter seu próprio negócio. Nesse sentido é interessante ler o artigo Sete lições que aprendi empreendendo fora dos grandes centrosde Rômulo Justa. Ao entender que, não importa onde estivermos, sempre seremos a periferia em relação a um centro, bem como as relações entre esses dois espaços, Rômulo aprimorou sua forma de fazer negócios. Abaixo um trecho da reflexão de número #, sobre a confiança.

“Gastei muito tempo e dinheiro supondo que um mega material de venda, eventos corporativos e toda aquela cantilena marqueteira renderia resultados. Super decepcionado e frustrado com os resultados, várias vezes me questionei se, afinal, eu não seria a pessoa certa no lugar errado. O episódio do contrato assinado num guardanapo no jantar abriu meus olhos para o papel indispensável da confiança e dos inúmeros “selos” que ela traz dentro de um ecossistema menos dinâmico e profissional. Tão ou mais importante do que cumprir protocolos em congressos e galas ou entulhar a caixa de alguém com brindes, era tomar um café e falar sobre a vida, os filhos, o clima e gerar uma ponte emocional que permitisse ao capo me escanear subjetivamente e sentir que, se eu podia guardar um segredo, poderia fazer a entrega certa no tempo e no valor acordado”.

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Barrado na despedida

por Luis Borges 24 de março de 2016   Pensata

Parentes, amigos e familiares de um senhor, morto aos 69 anos, encontraram-se no adro da igreja após a celebração da missa de sétimo dia de sua passagem para outro plano espiritual. A troca de cumprimentos, condolências e informações sobre o ocorrido foi permeada pela distribuição dos santinhos, que se tornarão mais um meio de lembrança do morto enquanto o luto vai se dissipando para dar lugar à saudade. Esse clima não impediu que numa das rodas de conversas alguém perguntasse por qual razão um dos irmãos do falecido não estava presente. Esse mesmo alguém, aliás, não percebeu que outros irmãos também estavam ausentes. Mas o fato é que um primo, de ouvidos atentos e que estava próximo à roda, entrou na conversa se dispondo a explicar as causas.

Segundo o primo, tudo começou quando foi diagnosticada a doença que causou o óbito. O irmão se colocou à disposição da família do morto para colaborar na gestão da empresa do irmão enfermo caso eles sentissem necessidade de um suporte solidário. A oferta foi interpretada pela esposa e filhos como oportunismo, típico de quem tinha interesse de “mamar na teta da vaca”. Chateado por ter sido mal interpretado e sem chance de clarear mais a sua boa intenção, o irmão se manteve à distância enquanto a doença avançava célere.

Foram poucas as possibilidades de visitas, mas o dito irmão ausente comparecia dentro do possível. Quando soube que o fim se aproximava, ele tentou fazer uma visita ao irmão enfermo. Foi à sua residência um dia antes da partida. Seria um gesto de despedida, ainda que o irmão estivesse sedado. Após insistentes chamadas pelo interfone, seu acesso à residência foi autorizado e lá dentro um dos sobrinhos lhe disse que não seria possível sua entrada no quarto do pai, conforme orientação médica fixada na porta, com restrição à visitação (o enfermo já estava em coma), para que ele não ficasse agitado. Ao tentar engatar uma fala reforçando a decisão da família, o sobrinho foi interrompido peremptoriamente pelo tio que disse a ele: “não gostei, e vou te poupar de continuar falando, tentando de forma incoerente justificar a atitude de vocês, pois estou aqui como irmão de seu pai, não sou visita, e tentei exercer o direito de me despedir dele ainda em vida”. Logo em seguida deixou o local.

Assim só lhe restou se despedir do irmão no espaço onde se realizou o velório, no qual permaneceu tempo suficiente para consumar o seu ato. Não havia espaço para mais nada em função das circunstâncias.

Aos poucos as pessoas foram se dispersando na porta da igreja e foi cada um para o seu lado, no prosseguimento do curso da vida de quem ficou por aqui. Quando nada, fica o benefício da dúvida sobre o que poderá acontecer durante o processo do inventário dos bens do irmão morto.

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