20% do ano já foi embora

por Luis Borges 10 de março de 2019   Pensata

O tempo caminha, indelével como sempre em seu soberano escoar, deixando para muitos a sensação de perda por não terem feito o que deveriam fazer. Uma rápida olhada no calendário gregoriano nos mostra que 20% do ano de 2019 já ficou para trás e, como sabemos, águas passadas não movem moinhos.

Qual é o resultado efetivo desse período, se é que houve um planejamento estratégico que faça jus ao nome? Como todos deveríamos saber “quem não tem estratégia está condenado à morte”. Isso vale para governos, empresas, famílias e pessoas em seus diversos modos de interação social.

Se olharmos para o caso dos governantes e parlamentares eleitos em outubro passado veremos que a maior parte de suas propostas ficou no campo das generalidades e que muitos governantes eleitos ainda permanecem repetindo bordões das campanhas eleitorais. Nesse sentido e em função dos fatos e dados disponíveis, inclusive com tentativas de explicar declarações mal ajambradas ou simplesmente desviar a atenção sobre acontecimentos nada ilibados, fico com a nítida sensação de que muitos são aqueles que estão perdidos no espaço. E aí vale lembrar Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C – 65 d.C) ao dizer que “não existe vento favorável a quem não sabe onde deseja ir”. Também é importante saber que os atos impulsivos caminham na contramão da estratégia, caso ela exista.

Enquanto escrevo o tempo continua passando. Uma grande festa da cultura brasileira que é o Carnaval já acabou e estamos na quaresma, rumando para o Domingo de Ramos e à Semana Santa, que ensejará mais uma semana de folga para os brasileiros que tem esse direito adquirido. Também pudera, os Poderes da República são independentes e harmoniosos para sempre gerar o necessário equilíbrio previsto constitucionalmente.

Partindo do meu modo realista e esperançoso de ser e consciente de que nada é tão ruim que não possa ser piorado, ainda fico na expectativa de que ainda haja um espaço para trabalhar com um sistema estratégico de gestão, com absoluta transparência, sem espaço para as fake news. Ainda que a política e a economia tenham uma relação bi unívoca em seus fazeres, não dá para continuar crescendo a 1,1% ao ano e muito menos fazer da Reforma da Previdência Social um mantra para resolver todas as causas dos problemas advindos do desequilíbrio das contas públicas. Muito menos ainda estabelecer metas malucas para resolver estes mesmos problemas crônicos da União, estados e municípios.

Enquanto o tempo continua passando os novos governantes e parlamentares prosseguem queimando o capital político que amealharam há 5 meses e que se reduz rapidamente diante da falta de resultados. Que o digam os 12,7 milhões de desempregados, os 4,7 milhões de desalentados, todas as vítimas da tragédia do rompimento da barragem da mina da Vale em Brumadinho(MG) e as demais vítimas retiradas das proximidades de outras barragens com risco de ruptura.

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* por Sérgio Marchetti 

Apesar de toda a evolução tecnológica sobre a qual o homem mergulha de cabeça, deslumbrado com as maravilhas do novo mundo cibernético, ainda assim, será necessário falar em público. Mais do que isso, teremos que falar com propriedade, conhecimento e ótima argumentação.

Como preconizou Aristóteles, (384 a.C. – 322 a.C.) serão essenciais ao discurso o ethos, que apela para a ética, o pathos, que traz sentimento ou emoções, e o logos, que é a própria lógica. Com estes elementos as possibilidades de sucesso tendem a aumentar.

Não será excesso de rigor dizer que em muitas apresentações tem faltado a ética. Alguns profissionais mentem absurdamente e fazem comentários deselegantes. Também presenciamos apresentadores fazendo charme e carregando a voz de maneirismos. Em outros momentos, assistimos a técnicos que dispõem de uma boa pronúncia, de uma base sólida de conhecimento, mas dão a impressão de serem alimentados por algoritmos e de não terem alma – tamanha a distância mantida entre eles e a plateia.

Conheci instrutores de oratória cuja fala tem mais tempo de cacoetes e sons estranhos ao tema do que de palavras que compõe os seus discursos. Em meus tempos de coordenador acadêmico, diretor e professor de faculdade, tive a oportunidade de conhecer excelentes professores, porém, muitos daqueles traziam em suas apresentações vícios que os marcaram eternamente perante os alunos. Sons inadequados, palavras e expressões repetidas e quase cadenciadas os tornavam professores e oradores cansativos. Um caso que ilustra minha observação é do Pelé – atleta do século, melhor jogador do mundo, campeão mundial pela seleção brasileira e pelo Santos – , mas, quando chamado para realizar um comercial, o que exigem dele é que diga “entende?”, por ser o seu vício de linguagem. Ora, o cacoete linguístico parece ser mais forte do que todas as conquistas do rei do futebol.

Os “campeões” do repertório de sons indesejáveis são: né, é, tá, e aquele chiado arrastado de UUU. Mas as dificuldades não param por aí. A lógica apregoada pelo referido filósofo também parece faltar em algumas apresentações. É um tal de começar do fim ou do meio. E o apresentador vai… volta, repete, ratifica, acaba transformando o conteúdo numa mistura de ideias que algumas vezes perdem até o nexo. São os “Odoricos Paraguassus” (que ainda se dizem falsamente que não merecedores de tamanha homenagem). Há algumas pessoas, porém, que se justificam, se dizendo “modernas” e apresentadores e apresentadoras vanguardistas. E, com essa autorrotulação, transformam uma palestra em picadeiro, e devem fazer Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade, os modernistas genuínos, se arrepiarem em seus túmulos.

Ressalto, para que não pairem dúvidas, que sou totalmente favorável aos movimentos de mudança e, obviamente, sei que a arte de se expressar acompanha e até antecipa as transformações. Não é diferente com a evolução linguística. Tudo se transforma o tempo todo, mas tudo deve ter início, meio e fim. Também já tive a oportunidade de informar que me incomoda a forma como alguns palestrantes abordam a plateia. Muitas vezes a prática de interação agride e menospreza algum espectador, quando é solicitado que participe e que suba ao palco e, não raro, para fazer algo que o ridicularize. Estou reiterando meu incômodo para que outras pessoas possam evitar tamanha falha, o que ainda pode lhes custar uma ação na justiça. Lembro aos palestrantes que não temos o direito de “convidar” (intimar) um membro da plateia para fazer qualquer coisa caso aquele não se sinta à vontade. Em alguns episódios, “as vítimas” são submetidas a dancinhas infantis e protagonizam um teatro, cuja comédia gira em torno de um cidadão ou cidadã que não recebeu cachê para fazer papel de palhaço.

Talvez você não esteja preocupado com meus comentários, pelo fato de não realizar palestras ou não ter contato direto com o público. Porém, me compete informar-lhe que processos de seleção, entrevistas, apresentações de projetos e até aquele evento em família irão surgir na sua vida. Não dá para fugir eternamente da sua dificuldade. O domínio das técnicas é o primeiro passo para vencer o medo, a timidez e a insegurança. E saiba que falar em público e comunicar… é só começar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Curtas e curtinhas

por Luis Borges 3 de março de 2019   Curtas e curtinhas

A vez do Imposto de Renda

O programa da Receita Federal para a declaração de ajuste do Imposto de Renda de 2019 já está à disposição dos contribuintes. Serão dois meses de muita falação na expectativa de que 30,5 milhões de declarações sejam entregues. Mais uma vez não existiu correção na tabela do IR. Não será obrigatório informar os números dos registros de imóveis e de veículos automotores, exigência que acabou ficando pra 2020. Mais um tema para se juntar à pauta nacional das tragédias da mineração, dos candidatos laranja do PSL, do Carnaval, da crise na Venezuela, dos salários parcelados dos servidores dos estados quebrados, da obrigatoriedade de cantar o Hino Nacional nas escolas, da Reforma da Previdência, das movimentações financeiras atípicas segundo o COAF…

Vai ter volta pro horário de verão?

O horário de verão terminou no dia 16 de fevereiro e deixou muita gente torcendo para que ele não volte mais a vigorar. Um levantamento realizado com os dados de 2017/18 feito pelo Ministério das Minas e Energia e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico mostrou que a economia do período não é mais significativa do ponto de vista energético. A causa foi a mudança no padrão de consumo da população, que passou a gastar mais energia entre 14h e 15h deslocando, assim, o pico de consumo anteriormente registrado das 17h às 20h. Se os resultados de 2018/19 confirmarem a mesma tendência o horário de verão se tornará desnecessário. Nesse caso só mesmo uma decisão política para mantê-lo em detrimento das evidências técnicas.

Queda livre da contribuição sindical

Segundo dados do Governo Federal existem no Brasil 16,6 mil sindicados dos quais 11, 2 mil são de trabalhadores e 5,4 mil patronais. Em 2017 a arrecadação do imposto sindical foi de R$3,6 bilhões e de apenas R$720 milhões – queda de 80% – em 2018 com a vigência da reforma trabalhista que tornou facultativo o seu pagamento. Esse estrangulamento forçado está obrigando os sindicatos, principalmente os dos trabalhadores, a buscar estratégias de sobrevivência, pois só demitir empregados e reduzir gastos de custeio não têm sido suficiente. Alguns sindicatos de trabalhadores já estudam a possibilidade de fusão com outros similares, mas pelo visto muitos outros acabarão fechando as portas.

Como se vê a relação capital e trabalho prosseguirá cada vez mais desfavorável aos trabalhadores e o caixa fraco só agrava a situação.

O lucro dos bancos

Começou a temporada de divulgação dos balanços das empresas em 2018, e para variar, o destaque é o lucro dos 4 maiores bancos com ações na bolsa de valores. O Itaú lucrou R$24,97 bilhões, o Bradesco R$19,08 bilhões, o Banco do Brasil R$12,86 bilhões e o Santander R$12,16 bilhões. Somados chegam a R$69,07 bilhões, um recorde histórico. Vale lembrar que as receitas com a prestação de serviços, como tarifas de contas corrente e anuidades de cartões de crédito, chegaram R$108,30 bilhões e que nem sempre são questionadas pelos clientes desses 4 bancos.

Ainda falta a divulgação do lucro da Caixa, que não possui ações na Bolsa, mas ela juntamente com os quatro bancos citados detém 80% do mercado brasileiro no segmento bancário. Dá para imaginar quando é que eles baixarão suas taxas de juros nas transações com seus clientes?

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No anonimato de tragédias caseiras

por Luis Borges 26 de fevereiro de 2019   Pensata

Passados 30 dias da tragédia causada pela ruptura da barragem de rejeitos da mina de Córrego do Feijão, pertencente à Vale no município de Brumadinho-MG, vão ficando claras as causas que geraram o acontecimento e as trágicas consequências para as pessoas que agora lutam para sobreviver numa correlação de forças muito desfavorável. Tudo nos choca, assusta e revolta quando nos colocamos no lugar das vítimas diretas no estrago enorme deixado para a comunidade e a natureza.

Partindo dessa percepção meu ponto aqui é propor uma observação e análise sobre as condições em que nós e nossas famílias estamos vivendo cotidianamente em nossos lares, nos aspectos ligados à tecnologia, segurança e manutenção das instalações e bens que utilizamos. Frequentemente ficamos sabendo de alguma tragédia anônima que aconteceu com alguém de nossa rede ou bolha, vizinhos, isso sem esquecer do que acontece também  em nossos próprios lares cujo porte varia em média na faixa de 40m² a 120m². Já as consequências sobram para cada indivíduo ou grupo familiar, por exemplo, e são cada vez mais difíceis de serem terceirizadas para o Estado e seus governantes ou a uma entidade filantrópica do terceiro setor.

De repente alguém pisou em falso na escada sem corrimão, o corpo se estatelou no chão e a sequela gerou mais um paraplégico. Se pensarmos nas pessoas idosas dá para lembrar que existem levantamentos mostrando que cerca de 70% de suas quedas acontecem dentro de casa. E quais são as causas? Pode ser um escorregão no tapete colocado na entrada da sala sobre o piso bem encerado e brilhante. Pode ser também um tropeção oriundo de uma gambiarra que gerou um emaranhado de fios e cabos espalhados em meio a uma quantidade de móveis entupindo os espaços. Vale lembrar também a queda de uma senhora de 65 anos que subiu numa cadeira para abrir um armário instalado próximo ao teto de sua cozinha. Ela se desequilibrou e caiu batendo a cabeça no piso. Após um semana na no hospital veio a óbito. Também tem o caso de um pequeno edifício de três andares com dois apartamentos por andar, inaugurado há um ano, que teve seu telhado arrancado numa dessas fortes chuvas com ventos de até 50km/h e que levou junto as placas do sistema de aquecimento solar. Faltou qualidade no projeto, na especificação dos materiais, na construção do edifício ou um pouco de tudo? O que dizer de outro edifício de pequeno porte em que a falta de manutenção do telhado impediu que fossem vistas as folhas entupindo as calhas e o resultado foi a água descendo pelas lajes e paredes dos apartamentos de cima abaixo? Para completar um raio caiu numa casa sem pára-raios e por onde passou deixou uma série de equipamentos danificados. Ainda bem que ninguém estava lá dentro naquele momento.

É claro que cada leitor pode se lembrar de inúmeros exemplos ilustrativos do quanto que ainda é frágil a nossa cultura no que tange a dar prioridade máxima aos aspectos de segurança, que a manutenção preventiva e preditiva tem que ser gerenciada continuamente e que tecnologias baratas não resistem a uma análise mínima de benefício e custo.

E a gente vai levando e pagando o pato no anonimato da tragédia pessoal e familiar com dinheiro curto, pouco chão para dar firmeza, tristeza, angústia e a certeza de que sobrou para cada um dos envolvidos encontrar forças para dar a volta por cima. É cada um carregando a sua própria tragédia com a dimensão e o significado que ela traz.

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Chefe de gabinete e sucessora?

por Luis Borges 24 de fevereiro de 2019   Pensata

Passados quatro meses das últimas eleições e quase dois meses da posse dos governadores e Presidente eleitos, as articulações políticas já miram as eleições para prefeitos e vereadores no ano que vem. Faltam apenas 19 meses, que passarão rapidamente. Tudo será feito pela vitória, não importa como, pois “o feio é perder as eleições”. Propostas para resolver problemas podem ser abordadas genericamente, pois dependerão dos recursos que estarão disponíveis.

Um caso que ilustra bem essa movimentação está acontecendo num município de aproximadamente 45 mil habitantes na região central de Minas, que tem orçamento de R$198 milhões para 2019. Lá o atual prefeito está no segundo mandato, tendo sido eleito por uma coligação de sete partidos que o apoiam incondicionalmente, inclusive com uma bancada majoritária na Câmara de Vereadores.

Ao longo desses seis anos de poder municipal começaram a surgir nomes de possíveis sucessores do alcaide do município, a começar pelo seu vice-prefeito, que é de outro partido da base aliada. O que muita gente demorou a perceber foi a crescente desenvoltura da chefe de gabinete do prefeito, notadamente a partir do segundo mandato. No primeiro mandato ela era uma espécie de executiva, colocando a gestão em movimento onde o “sim” era dado pelo prefeito e o “não” ficava para ela.

Obtida a reeleição com folga tudo mudou e o foco da chefe de gabinete passou a ser a sua própria eleição no próximo pleito. Cercou o prefeito de tal forma que quase ninguém consegue falar com ele sem que ela esteja presente. Colocou a mão no orçamento anual da prefeitura onde o pouco que sobrou para investimentos passa pelo seu crivo na definição do que é prioritário para ser feito. É óbvio que ela está de olho nos dividendos eleitorais, tendo inclusive virado uma “seda” com os vereadores da base aliada e jamais fala não, no máximo um “bem, vejamos o que é possível fazer”. Para completar aumenta a cada dia suas amplas articulações ao mesmo tempo em que tenta minar de todas as maneiras o desejo do vice-prefeito, seu adversário mais direto na coligação partidária.

Por outro lado começam a crescer nos bastidores variadas críticas ao estilo da chefe de gabinete cada vez mais intempestiva e ansiosa para assegurar o atingimento de seu objetivo estratégico. Seus atos mais obsessivos têm sido classificados como burrice estratégica por alguns membros importantes dos partidos políticos aliados do prefeito. Este, por sua vez, parece altivo e soberano na observação da cena política, deixando que sua chefe de gabinete vá se desgastando naturalmente nesse início de processo enquanto ainda não é chegada a hora “da onça beber água”, conforme aprendeu ao longo de sua trajetória político-partidária.

Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos sabedores de que “nada existe em caráter permanente a não ser a mudança”, ainda mais na política partidária que só foca no poder.

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Aberto para balanço

por Luis Borges 17 de fevereiro de 2019   Pensata

Conversando com algumas pessoas mais presentes em meu cotidiano tenho falado que em muitos momentos fico também “nas nuvens” – mais naquelas mutantes lá do alto e menos nas da neblina que se forma perto do solo. Na prática, estou sempre aberto para a observação e análise de variados fenômenos e dos processos que os geram.

Mesmo que às vezes um ou outro tema possa se repetir e desafiar a paciência de algum interlocutor, os resultados alcançados incentivam a continuidade da troca de expectativas e percepções.

Neste início de ano, notadamente a partir de 25 de janeiro, têm sido praticamente obrigatórias as conversas em busca de uma melhor compreensão das causas de tantas mortes envolvendo quatro dos principais elementos presentes na natureza – terra, fogo, ar e água. A ruptura de mais uma barragem de rejeitos de minério de ferro da Vale, o incêndio no Ninho do Urubu – Centro de Treinamento do Flamengo, o fortíssimo temporal que caiu no Rio de Janeiro com ventos de até 110 km/h e a queda do helicóptero em que estava o jornalista Ricardo Boechat sacodem a pauta formada por sucessivas tragédias em curtíssimo espaço de tempo.

Fico imaginando como estão as pessoas que perderam familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos… de maneira tão abrupta e inesperada. Prossigo imaginando como estariam as coisas se eu ou alguém próximo de mim estivéssemos na mesma situação de quem ficou chorando a perda daqueles que partiram. Seria hora de questionar o sentido da vida, mesmo sabendo que a vida termina com a morte, instante em que o espírito deixa o corpo? Ou seria a hora de, cada um a seu modo e segundo suas convicções, se esforçar para elaborar a perda num processo que passa pelo choro, dor, luto, saudades e recordações, por exemplo?

Quando nada esta também pode ser uma oportunidade para fazer uma autoavaliação do curso da vida que estamos vivendo, com as escolhas que sempre temos que fazer gerando acertos, erros e consequências. Tudo isso com a consciência de que a vida tem sua finitude, que o tempo escoa indelevelmente e que podemos chegar ao final da reta ou da curva a qualquer momento. Simples assim.

Enquanto isso acredito que só nos resta caminhar, seguir em frente, apesar das tristezas de determinados momentos, mas sempre com os motivos para a ação que vem de dentro de cada um de nós, ainda que falar sobre a morte seja um tabu para muita gente.

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Sem memória

por Convidado 13 de fevereiro de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Estamos novamente diante de uma cena de horror. Assistimos ao “repeteco” da tragédia que destacou negativamente a cidade de Mariana para o mundo. Um verdadeiro filme de terror e um atestado de irresponsabilidade e de descaso pela vida humana. Trata-se da famosa tragédia anunciada. Mas, desta vez, a lambança foi maior. Progrediram, inovaram, desgraçaram famílias e transformaram Brumadinho num cemitério de lama. E, como nada é por acaso, a lama talvez passe a ser nosso símbolo nacional, e represente, literalmente, o Brasil – este campeão de corrupção, assassinatos, assaltos, injustiças e tantas outras coisas ruins que infelizmente completam a pintura do quadro brasileiro.

Não vou repetir o que todos já ouviram e viram na mídia. Mas não dá para guardar no peito tanta insensatez e não desabafar sobre o absurdo que estamos testemunhando. Eu não sei como é a dor das famílias que perderam seus entes queridos. Também não saberia nunca avaliar os sentimentos daqueles que perderam e, definitivamente, não encontraram nem os restos mortais dos parentes que jazem sob a lama mal cheirosa, cheia de lixo e restos do que foram um dia a área administrativa e uma pousada.

A lei da causa e do efeito foi violada. O estudo de tendências deve ter sido engavetado. Mas, se por um lado tivemos que experimentar as consequências de uma série de erros, cometidos por quem jamais poderia cometê-los, pudemos, por outro ângulo, ver o trabalho incansável, insalubre e perigoso dos bombeiros que se arrastaram e chafurdaram na lama que sujou novamente o nome do Brasil.

Jornais de todo o mundo noticiaram o feito da Vale e estamparam manchetes dizendo que o Brasil não aprendeu a lição. E, de fato, não aprendeu. É um país sem memória, e essa é a constatação de todos os cidadãos desta terra descoberta por Cabral (não aquele… mas o Pedro Álvarez).

Houve uma grande comoção, inclusive observada em alguns repórteres que cobriram a tragédia. Mas aos poucos virão novos fatos, outros eventos bem mais agradáveis de serem noticiados. E aí, como nossa memória é fraca, vamos esquecendo aos poucos do que houve naquela pequena cidade. Porém, para quem dependia do emprego do marido, da mulher, do filho e de outro parente qualquer, o ocorrido jamais será esquecido. Brumadinho, assim como Mariana, sofreu um duro golpe e entra nos registros da história pela porta dos fundos. Foi vítima de uma invasão assassina que, sem pedir licença ou dar a chance de fuga, destruiu histórias individuais e matou a possibilidade de muitos sonhos se realizarem.

A queda da barragem me lembrou de Pompéia e, tal qual o vulcão daquela cidade, a lama de rejeitos cobriu a todos que estavam no caminho, sem piedade. E, embora tenha ouvido a palavra azar entre tantas vozes, não aceito a tese. Havia possibilidades, havia risco e o acidente era iminente. E, quando acontecesse, todos os trabalhadores seriam engolidos pela lama. E, como vimos e ouvimos, tudo falhou. Erros primários e inconcebíveis para uma empresa daquele porte.

Para quem está vivo, resta a esperança de um novo começo, com um novo governo que possa ser justo e honesto, e que inspire os brasileiros a seguirem caminhos retos, sem jeitinho e sem vantagens. Chega de lama, chega de mortes violentas, chega de lucro a qualquer custo e basta de favorecimentos…

“Já choramos muito/ Muitos se perderam no caminho/ Mesmo assim não custa inventar/ Uma nova canção/ Que venha nos trazer/ Sol de primavera…”( Beto Guedes).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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