Vez por outra fico sabendo que alguma família de pequeno, médio ou grande porte marcou um encontro para comemorar algo bastante relevante para os seus membros. Dessa vez foi o caso da família de Dona Cotinha, professora primária aposentada, que completará 80 anos de idade no próximo dia 4 de junho.
Dona Cotinha nasceu em Montes Claros mas reside em Belo Horizonte desde mocinha no bairro dos Funcionários. É viúva do senhor Tunico da contabilidade, que foi funcionário do alto escalão da Receita Estadual. O casal teve 5 filhos, sendo homens os 3 primeiros e mulheres as duas últimas que, aliás, são gêmeas univitelinas. Enquanto o primogênito se aproxima dos 60 anos as gêmeas acabaram de completar 54. Todos se casaram e continuam firmes nos respectivos casamentos dos quais já vieram 12 netos e 5 bisnetos.
A ideia de comemorar a data de maneira bastante marcante foi do filho primogênito, ao final da ceia de Natal do ano passado, e foi prontamente aprovada por todos os presentes. Logo em seguida e diante do contagiante entusiasmo ficou acertado que o coordenador do encontro seria o filho do meio que, aliás, tem a síndrome do filho do meio, razão quase natural para a sua escolha. Imediatamente ele comunicou que criaria um grupo de WhatsApp para apresentar, receber e discutir ideias com todos após o Ano Novo.
E assim, já no dia de Santos Reis o grupo entrou em atividade, com a participação dos filhos, filhas, genros, noras, netos, netas, mas sem Dona Cotinha. Como acontece em muitos grupos dessa natureza não foi definida nenhuma regra de participação. Essencialmente a ausência de critério tornou válido qualquer critério que viesse a ser usado pelos membros do grupo. As sugestões sobre que tipo de evento comemorativo deveria ser feito começaram a surgir rapidamente. Dois filhos queriam fazer um lauto café da manhã e um almoço típico da cozinha mineira precedido de alguns aperitivos. As filhas gêmeas queriam um jantar à luz de velas com início às 21:00 horas. Já um dos genros defendeu ardorosamente a realização de um churrasco com carnes de boi, porco, frango e javali. Duas noras sugeriram que todos deveriam se hospedar num hotel fazenda na grande Belo Horizonte onde chegariam no sábado pela manhã e sairiam no finalzinho da tarde do domingo 4 de junho.
O clima no grupo de WhatsApp começou a esquentar na medida em que cada proponente defendia sua proposta com unhas e dentes, ao mesmo tempo em que criticavam as outras propostas. No final de fevereiro os ânimos estavam tão acirrados pela disputa que a neta mais velha sugeriu que todas as propostas fossem retiradas da discussão para que sua avó opinasse sobre o que ela gostaria que fosse feito. Surpreendidos pela proposta e não sem resistência, acabaram decidindo por consultar Dona Cotinha, que pediu um tempo para pensar.
O tempo foi passando e nada de uma resposta. Até que no dia 20 de março, chegada do outono, ela falou sobre o que gostaria de fazer. E foi direto ao ponto dizendo que, diante da incapacidade da família para chegar a um consenso, ela preferia receber o dinheiro que seria gasto no encontro que parecia impossível. Disse também que esse dinheiro seria juntado a uma pequena parte da sua caderneta de poupança para financiar sua ida a Montes Claros, onde quer passar o dia 4 de junho em companhia de sua única irmã, por sinal mais velha que ela, da maneira mais simples possível.
Até o momento a decisão de dona Cotinha está mantida, enquanto os membros da família tentam entender quem são os culpados pela situação a que chegaram. Pena que eles querem discutir apenas os efeitos e não as causas que os geraram.

