Inteligência x Consciência

por Convidado ,  5 de novembro de 2026   Convidado

* por Ana Cristina Curi

Nos últimos dias, uma declaração inquietante percorreu o mundo da tecnologia: Evan Hubinger, pesquisador que lidera uma equipe de segurança e alinhamento de Inteligência Artificial na Anthropic, afirmou acreditar que existe mais de 10% de chance de a IA levar à extinção da humanidade na próxima década.

Dez por cento. Não é uma previsão científica de que isso acontecerá. É uma estimativa de risco feita por alguém que trabalha diretamente com sistemas avançados de IA.

Ainda assim, a declaração merece atenção.

Mas, como psicóloga, outra pergunta me inquieta:

E se o maior risco não for a IA acabar com a humanidade, mas o ser humano começar, pouco a pouco, a abrir mão daquilo que o torna humano?

Estamos entregando às máquinas tarefas, decisões, textos, análises, memórias e, cada vez mais, parte do nosso pensamento.

A IA responde, organiza, sugere, aconselha (pasmem – muita gente toma decisões ou faz terapia na IA; é de explodir o cabeção pensar nisso).

O problema começa quando eficiência passa a ser confundida com consciência.

Uma máquina pode reconhecer padrões de sofrimento sem sofrer. Pode escrever sobre o amor sem amar. Pode falar sobre a morte sem perder ninguém. Sabe tudo sobre Burnout, mas não passa pelo estresse, ou se relaciona…

Nós precisamos.

Talvez seja justamente aí que esteja algo profundamente humano.

Isso exige mais do que regulamentação tecnológica… Exige CONSCIÊNCIA.

imagem ilustrativa / Freepik

Há riscos concretos sendo discutidos por especialistas: a terceirização de nós mesmos.

Quando deixamos de refletir porque alguém — ou alguma coisa — pode pensar por nós.

Quando substituímos vínculo por interação.

Quando confundimos informação com sabedoria.

Quando procuramos respostas tão rapidamente que perdemos a capacidade de permanecer diante das perguntas.

A Inteligência Artificial talvez seja uma das maiores criações da humanidade.

A questão é outra: quanto mais inteligente se tornar a máquina, mais conscientes precisaremos nos tornar nós mesmos.

Talvez o desafio deste século não seja competir com a Inteligência Artificial.

Talvez seja desenvolver aquilo que nenhuma tecnologia deveria decidir em nosso lugar: nossos valores, nossa responsabilidade, nossa capacidade de amar, de criar vínculos, de atribuir significado à experiência e de escolher que humanidade queremos construir.

A pergunta, portanto, não é apenas:

“A Inteligência Artificial poderá acabar com a humanidade?”

Existe uma pergunta anterior — e talvez mais urgente:

O que não podemos permitir que desapareça de nós para continuarmos humanos?

 

Ana Cristina Curi é Psicóloga, formada pela PUC-MG/1987. Especialista em Terapia Sistêmica e Transpessoal. Membro do Colégio Internacional dos Terapeutas.

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