Comunicando um cadiquinho no mineirês
*por Sérgio Marchetti
Há pouco tempo, fiz uma viagem para a zona rural. Fui de ônibus para matar a saudade da infância. Queria me concentrar e reviver o passado em silêncio, embora tudo estivesse tão mudado.
Mesmo sem demonstrar alguma abertura, minha colega de poltrona queria puxar conversa de todo jeito.
— Batarde! Sou Maria de Jisuis. O senhor não é da nossa zona!
— Não sou daqui. Sou amigo dos Borges. Respondi. Vim visitá-los, eu disse, para cortar a conversa.
— Eis é lá de Raxá. — continuou a tagarela, — maise sofre qui nem nóis, prequê aqui ninguém qué trabaiá. É uma inrolação só. O povo de hoje parece que tem lumbriga.
— As pessoas criaram hábitos novos e a tecnologia tornou tudo mais ágil.
— O sinhore é dotor adevogado?
— Não, senhora.
— Maise fala qui nem um. É home istudado. Aqui nóis é simples. Tem os dia e a noite, as peleja, um cafezim, uma quitanda, uma broinha de fubá. Indeusdiqui nasci, os custume é os mesmo. Di primero, quando nóis ficava perrengue, era os chá que resorvia. As febre ia imbora e nóis sungava di novo. E tinha os baile, as sanfona e os casar mais paxonado que dançava di par junto a noite intera. Tempo bão, dotore, num tinha essas coisa de hoje, nem malidicença, nem as poca vergonha. O tempo passava na carmaria. O silenço, as chuva no lombo, as lubrina, a encerração que caía e adispois o sol. Nasci desse pó e nele vou ser interrada.
Mas, asturdia, tava me alembrando dum causo du cumpadre dum tio meu. Era lavradô, ficava na labuta de sol a sol, infezado e num gostava daqui.
— Dia cumpadre! Falava meu tio prêle.
— O home nem respundia. Fazia de égua.
— Dia! Ripitia meu tio.
— Dia, nada! Vida de cachorro. Ano qui vem eu vô imbora pra cidade.
— Gradeça a Deus por tê a tua terrinha e saúde. Diga, vô pra cidade, si Deus quisé.
— Larga mão de conversa fiada. Num querdito nessas bestage.
— Vai escutano, dotore: num belo dia, o bendito, atrivido que só ele, disse: que se Deus quisé ou numquisé ele vai pra cidade de quarqué jeito.
Meu tio falou: — toma tento, num brinca cum Deus. Ele te castiga.
— Já tá mi castigano — respondeu, adispois de guspi a água que gorgolejava com limão.
— Passado uns dia, a famia deu por farta do temoso. Foi um disispero danado. Meu finado tio — que Deus o tenha em sua glória — resorveu procurá no rio. Pensava que podia ter murrido e ficado amoitado num gaio. Aí, dotore, vem a surpresa. O home tinha virado sapo. Tava em riba duma pedra. Era um baita. Tava cuns zoião moiado de lágrima e incarando meu tio.
— É ocê meso, cumpadre. Si fô, pisca os zóio.
— E o sapo piscô.
— Eu ti falei, seu iscurmungado, qui cum Deus num brinca. Disse pra tu ficá veiaco, seu coió. Gora tá aí e estrovando a vida da famia. Num dianta ficá com esses zóio moiado. Prestensão! Vou trazê seu vigário pra benzê ocê. Vamos pedir para nossenhora concedê uma graça.
— Assim foi, dotore, mas iscuta, iscuta: adispois de meses de reza e cuntricão, Deus, in sua infinita bondade, perdôo o pecadô e ele vortô a ser gente.
— Sério? O sapo virou humano?
— Sim. Eu juro qui vi com esse zóio que a terra há de cumê um dia.
— O homem deve ter virado um santo.
— Nada! O mardito era tinhoso que só ele. E tem um ditado que diz qui pau que nasce torto morre torto. Assim assucedeu. Puruns tempo ele ficô cum receio, calado, meio amuado. Mais adispois vortô a falá bobage. Quando meu tio acariô com ele e lembrô pro infiliz do aconticido, sabe o que ele falô?
— O ano qui vem eu vô pra cidade. Meu tio gritou: — fala se Deus quisé, cumpadre! Oia o rio e o sapo…
— Se Deus quisé, eu vô, si Ele numquisé, ó!, o rio taí.
— Arguns dias dispois, o home sumiu.
— Sabe de uma coisa, dona Maria, por trás dessa história tem uma lição: todo ser tem seus limites. Quando alguém ou alguma coisa ultrapassa os limites do outro, ele se rebela. Foi o que aconteceu.
— Num falei qui o senhor era dotore. É isso meso, sem tirá nem pô.
A condução chegô no meu arraiá. Vamos apiá? Tomá um café cum nóis?
— Vou agradecer pelo convite. Mas o senhor Borges está esperando que eu entregue um trabalho a ele.
— Intão, Deus acompanha o sinhô.
— Amém, Dona Maria!
* Sérgio Marchetti é consultor organizacional, palestrante e Educador. International Certification ISOR em Holomentoring, Coaching & Advice (coaching pessoal, carreira, oratória e mentoria). Atuou como Professor de pós-graduação e MBA em instituições como Fundação Getúlio Vargas, Fundação Dom Cabral, Rehagro e Fatec Comércio, entre outras. É pós-graduado em Administração de Recursos Humanos e em Educação Tecnológica. Trinta anos de experiência em trabalhos realizados no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br