O senhor Candinho Rabelo, solteiro, 76 anos, aposentado pelo INSS, voltou a residir em sua cidade natal no interior de Minas há cerca de 2 anos. Ele deixou sua “terrinha”, que hoje tem em torno de 9 mil habitantes, com apenas 20 anos de idade, em busca de melhores condições de vida. Periodicamente voltava lá para visitar toda a família e seus descendentes, no melhor estilo dos mineiros. Com o passar dos tempos quatro dos seus irmãos se casaram e sua irmã mais nova, Dete Rabelo, hoje com 74 anos e solteira, também aposentada pelo INSS, ficou morando com os pais na casa da família e cuidando sempre deles com seu modo intransigente de ser.

Quem primeiro veio a óbito foi a mãe e Dete prosseguiu cuidando do pai, que algum tempo depois também partiu para outro plano. O luto passou e ela continuou morando sozinha na casa da família, onde tudo acontecia conforme o seu querer. Suas manias se acentuaram ao longo de três décadas, nas quais perdeu dois irmãos e viu os sobrinhos crescerem.

Em Belo Horizonte, Candinho seguia no seu baile da vida. Até que perto de completar 74 anos se viu sem emprego e doente. Depois de doze dias de internação, participação efetiva de alguns sobrinhos em sua recuperação e prognóstico de que não poderia mais viver sozinho, só foi possível uma saída. A solução foi voltar para a cidade natal e tentar se reintegrar à família, contando com a irmã, as sobrinhas e um sobrinho.

Passados dois anos morando com a irmã na casa herdada dos pais, agora ele toma uma pequena dose diária de cachaça para bambear os nervos e aguentar o duro convívio marcado pelas manias da “mana”. Candinho Rabelo diz que tem passado por grandes provações, que nos momentos mais conflitantes tem vontade de “voar no pescoço” da irmã, que ele considera louca, e que só vai levando a vida por não ter coragem de se suicidar. Entretanto ele lamenta não ter se preparado para a aposentadoria e a cada dia sente falta dos projetos que não fez para essa fase da vida. Ele chega até a tentar compreender o sistemático e ditatorial jeito de ser da irmã, também idosa como ele, mas o que ele nunca imaginou é que um dia voltariam a morar cotidianamente na mesma casa. E após as raivas de todos os dias acaba por se conformar com o dito popular que diz que “o que não tem remédio, remediado está”.

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O IBGE divulga no final de cada mês o resultado da Pnad Contínua do trimestre formado pelos três meses anteriores. A que foi divulgada no dia 31 de maio mostrou que, de fevereiro a abril, a taxa de desocupação da população economicamente ativa chegou a 12,5%, o que equivale a 13,2 milhões de pessoas desempregadas, e que as pessoas desalentadas, que desistiram de procurar trabalho, chegaram a 4,9 milhões. Esses números tem se mantido em torno do mesmo patamar desde o último trimestre de 2017 e, até o momento, a economia não dá sinais de recuperação capaz de reverter esse quadro.

Um ponto aqui é verificar ou imaginar como tem sido a estratégia de sobrevivência para quem não está conseguindo trabalhar, ainda mais que, quanto pior a situação, pior mesmo. Será que alguma reserva financeira ou patrimonial já foi usada nesse período recente ou as dívidas aumentaram? Como será que está a capacidade de familiares e amigos para ajudar solidariamente na travessia tão difícil nesse tipo de situação, em todos os seus aspectos? O que esperar das organizações de ajuda humanitária, já que do poder público não há muito do que se obter?

Outro ponto é pensar um pouco nos 92,4 milhões de pessoas que estão trabalhando, segundo a Pnad Continua, número que obviamente também tem se mantido estável após sucessivas quedas, ou seja, caiu para pior. Para esses também é bastante visível que o poder aquisitivo está caindo em função da inflação medida pelo IPCA, que é diferente conforme o perfil familiar, dificuldades nas negociações de reajustes salariais anuais, além de reajuste zero, em geral, para servidores públicos do Poder Executivo da União, estados e municípios, isso para citar apenas algumas causas. Para agravar a situação a energia elétrica aumenta em 6,93%, o plano de saúde suplementar aumenta 21%, a gasolina, o óleo diesel e o gás de cozinha aumentam seus preços em função da cotação internacional do petróleo e da variação do dólar enquanto os alimentos em geral, medicamentos e a prestação de serviços também dão seus pulos, apesar da sazonalidade da oferta e da procura específica de alguns deles. O que é possível fazer diante de tantas restrições e piora de condições, principalmente para quem não quer se endividar com juros tão altos ou mesmo queimar reservas ainda existentes? Provavelmente terá chegado a hora de rever o perfil de consumo elegendo novas prioridades que, no mínimo, abrem mão dos supérfluos e combatem fortemente os desperdícios de qualquer natureza. Ainda é preciso pensar em poupar um certo percentual da renda para que, num futuro não muito distante, essa mesma reserva venha se somar aos proventos recebidos de uma aposentadoria.

O fato é que estamos passando por uma conjuntura em que a estratégia continua sendo de sobrevivência que já vem de um bom tempo atrás e que ainda persistirá por mais um bom tempo, pois os cenários que se desenham não nos permitem enxergar de outra forma. É por isso mesmo que não dá para abrir mão da gestão orçamentária e tomar sempre as medidas necessárias em prol da sobrevivência, por mais difícil e desafiante que seja tudo isso. Haja resiliência!

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o resultado do PIB do primeiro trimestre de 2019 mostrando que houve uma queda de 0,2% na comparação com o trimestre anterior. Por outro lado, os dados preliminares do segundo trimestre também não são nada animadores. A economia prossegue estagnada, o desemprego segue altíssimo e sem perspectivas de queda, o consumo das famílias só cai, os investimentos estão longe do necessário e a piora das expectativas em relação ao futuro sinaliza que nova recessão econômica pode estar a caminho. Então dá pra imaginar o que pode estar passando pela cabeça das pessoas ao verificar a distância que existe entre a necessidade de crescimento do PIB e os resultados que estão sendo entregues no momento. Há sinais de que o ano poderá ser perdido e que não é suficiente jogar todas as causas nas costas da não aprovação da Reforma da Previdência Social.

Pensando no que e como fazer para prosseguir diante de tantas dificuldades, alertas e ameaças lembrei-me da obra do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) nos versos livres da poesia “José”, publicada em 1942, ano de muitas dificuldades na plenitude do Estado Novo, na ditadura de Getúlio Vargas e na Segunda Guerra Mundial. A seguir leia “José”, ou releia, para quem já leu, enquanto fico na expectativa de que surjam contribuições alentadoras para melhor compreender a nossa existência no momento que estamos passando.

José
Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
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Preocupações não faltam

por Luis Borges 28 de maio de 2019   Pensata

Sabe aquele dia em que você acorda bem cedo e enquanto espera a hora de tomar o café da manhã fica pensando na vida e nas coisas materiais e imateriais inerentes a ela? Pois é, chega ao pensamento uma espécie de clamor para que possamos viver numa sociedade civilizada, marcada pelo respeito mútuo na complexa arte de viver individualmente e coletivamente. O desafio é reconhecer que as coisas fáceis já foram feitas e que para nós só ficaram as difíceis, qualquer que seja a camada social. Mas, em quem acreditar e com quem caminhar se “infeliz a nação que precisa de heróis” (Bertolt Brecht – 1898-1956) e não há lugar para salvadores da pátria? Promessas de campanhas eleitorais, achismos, fake news, impulsos, polarizações e bolhas não são suficientes para negar o conhecimento e tentar revogar a lei da gravidade. Também não dá para dizer que se as coisas não acontecerem conforme foram imaginadas o jeito será fazer as malas e ir para Portugal.

Enquanto o café não é passado outra preocupação entra em cena versando sobre o trabalho para quem o tem e para os milhões de brasileiros que estão na expectativa de encontrá-lo antes que caiam no desalento. Será que daqui a um ano continuarão existindo os postos de trabalho que estão ocupados hoje no setor privado da economia? E se imaginarmos um cargo ou função de confiança, preenchido por recrutamento amplo, em órgãos da União Federal, estados e municípios? Que funções repetitivas já terão sido substituídas pela inteligência artificial, tanto no setor público quanto no privado?

Enquanto o pensamento voa pensando na gente mesmo dá para imaginar a altura que ele alcança quando o foco se volta para os filhos. Surge a preocupação com o filho que está no ensino médio ou num curso de graduação na universidade ou mesmo num mestrado sem bolsa de estudos à espera de alguma luz depois do fim do túnel do mercado de trabalho. Também faz pensar a filha graduada em economia desempregada há 2 anos ou os filhos com mais de 30 anos sem perspectivas de ter seu próprio lugar para morar. Estes ainda querem impor aos pais outros modos de vida, que geram muitos enfrentamentos e exigem muita paciência histórica na gestão dos conflitos gerados. Diante de tudo isso ainda reverbera a frase dizendo ou lembrando que “pai é pai”, “mãe é mãe” e tudo fica anestesiado, deixando as coisas do jeito que estão para depois verificar que soluções poderão ser encontradas. Pode ser inclusive o conformismo trazido por outra frase dizendo que “o que não tem remédio, remediado está”.

Como preocupações não faltam e agora o café já acabou de passar o jeito é dar um tempo para a mente e degustar o saboroso café, cujo dia foi comemorado em 24 de maio. Enquanto o dia for crescendo outros cafezinhos poderão ser degustados, permeados pelas preocupações que nos acompanham.

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Era gripe

por Luis Borges 14 de maio de 2019   Pensata

Estamos fazendo a travessia de mais um outono e já passamos da metade da estação. Mais uma vez a grande sensação da temporada é a epidemia de dengue trazida pelo mosquito aedes aegypti para deixar muita gente fora de combate. Ainda que nem tudo acabe em dengue, ela acaba causando muitas preocupações. E, de repente, lá num dia nem tão belo assim e como se não tivesse vindo, do nada sua garganta começa a dar sinais de desconforto, principalmente com a sensação de que tudo está arranhando ao passar por lá. A auto-observação geralmente induz à conclusão de que se trata de um resfriado de pequena magnitude.

Enquanto os dias passam parece que vários sintomas aumentam, como a tosse, dor no corpo em geral, dor de cabeça e sobra apenas ficar amuado. De repente surge uma febrícula, que logo é combatida com o uso de um antitérmico em típica automedicação. A tosse fica ainda mais seca, o sono mais difícil, cheio de variações e o tempo que não pára logo registra que o processo todo já dura 7 dias. Acontece que você convive com diversas pessoas em casa, no trabalho, na igreja, na padaria ou no clube de lazer e aqueles que se interessam por você e se preocupam com a melhoria das suas condições funcionais. Invariavelmente essas pessoas querem saber se você já fez uma consulta médica, se seus sintomas são de dengue, pneumonia, faringite, sinusite ou gripe muito forte e uma pergunta que nunca falta é se você se vacinou contra a gripe.

Uma resposta muito citada tem sido que você tomou a decisão de se vacinar pela primeira vez, mas foi pego pela gripe na fase que ficou entre a decisão e ação de tomar a vacina. Muito comum também é surgir alguém afirmando que sua resistência está baixa e, por isso, você está sofrendo com tantos sintomas sem saber do que realmente se trata. Isso acaba sendo mais um tipo de achismo que, aliás, é bastante comum entre muitos de nós.

Lá pelo nono dia de desconforto e sofrimento você acaba conseguindo ir a um consultório médico tentando encontrar alguma resposta para as suas próprias preocupações e também para as de todos que lhe querem bem e fazem parte do seu cotidiano. Depois de feitos todos os procedimentos determinados pelo protocolo médico você ainda fica na expectativa do diagnóstico. “Sabe o que era?”, pergunta você às pessoas de seu convívio. E você responde logo – e aliviado – que era gripe mesmo e que ela vai prosseguir por mais alguns dias e será combatida com o uso de xarope, muito líquido, soro no nariz…

Ainda bem! Pior seria se fosse a dengue ou a pneumonia. Melhor seria mesmo era ter se vacinado, o que teria poupado o sofrimento e a preocupação de tanta gente, a começar por você mesmo. Vivendo e aprendendo permanentemente no curso de vida.

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Os fatos e dados colhidos de maneira adequada não deixam de existir mesmo quando são ignorados, negados ou justificados por uma desculpa esfarrapada. Mas se o que mais temos são problemas que exigem soluções, o Dia do Trabalhador nos permite reconhecer que a coisa está feia, sem contudo apontar  como despiorar, estancar ou melhorar.

A economia não deslancha após dois anos de recessão econômica e outros três de crescimento do PIB em torno de pífios 1%. Pensando bem, quem, em sã consciência, pode se considerar seguro no trabalho em que atua? Talvez possamos nos lembrar de quem escolheu ser um servidor público concursado, amparado pela estabilidade, mas preocupado em manter direitos adquiridos. É bom lembrar que boa parte de estados e municípios simplesmente quebrou e agora só lhes resta tentar renegociar dívidas, fazer reformas administrativas “enxugantes” na estrutura, parcelar o pagamento dos salários mensais dos servidores do poder executivo e do décimo-terceiro salário que, aliás, há muito tempo não são reajustados. Uma boa e excepcional lembrança, que até causa inveja a quem está de fora, vem dos servidores concursados e estáveis dos Poderes Judiciário e Legislativo. O Poder Judiciário teve aumento de 16,4% para os Ministros do Supremo Tribunal Federal, o que gerou um efeito cascata aplicado em toda a carreira da magistratura. Vem também a lembrança de outras possibilidades não estáveis para quem consegue ser contratado pelo recrutamento amplo do serviço público e também através de contratos de prestação de serviços terceirizados.

Outra lembrança importante – e preocupante – foi trazida pelo IBGE ao divulgar na véspera do feriado de primeiro de maio os resultados da Pnad Contínua do primeiro trimestre de 2019. Foi registrado um aumento na quantidade de pessoas desempregadas cujo índice chegou a 12,7% da população economicamente ativa, o que equivale a 13,4 milhões de pessoas. Os desalentados, aqueles que desistiram de procurar trabalho, chegaram a 4,8 milhões, o que resultou num crescimento de 3,9% em relação ao trimestre anterior. Nesses tempos de muito “achismo” é importante lembrar que a  metodologia da pesquisa da Pnad Contínua prevê uma visita a 211.344 casas em cerca de 3.500 municípios. O IBGE considera desempregado quem não tem trabalho e procurou uma ocupação nos 30 dias anteriores à semana em que os dados foram coletados.

Também fica difícil não se lembrar dos resultados trazidos pela reforma trabalhista após 18 meses de vigência. A premissa que justificou sua aprovação era de que traria um significativo aumento do número de vagas para combater o desemprego, já altíssimo em 2017.

Agora, uma nova proposta de reforma, a da Previdência Social, também sinaliza grandes efeitos como panaceia para a maioria dos males que afligem o país.

Entre as reflexões e pensamentos que o Dia do Trabalhador nos enseja é bom que nos coloquemos no lugar das pessoas que fazem parte das estatísticas do desemprego crescente nesse início de ano. Quanto pior, pior mesmo e os números não mentem. Só para ilustrar, basta conferir a quantidade de jovens na faixa de 16 a 24 anos procurando uma primeira oportunidade de trabalho que, quando surge no meio de tanta escassez, ainda traz exigências absurdas, como experiência mínima de um ano na função. O que pensar de alguém com 50 anos de idade, que acabou de ser demitido de uma prestadora de serviços terceirizados, que fica imaginando onde encontrar nova oportunidade de trabalho após o fim do seguro desemprego?

De toda maneira a gente vai tentando, levando, combatendo a depressão e se reposicionando sem negar a realidade, apesar de todos os pesares que nos cercam. É o que temos para hoje, infelizmente.

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Ao longo dos últimos dois meses e mais especificamente nos últimos 15 dias foram quase que massacrantes as referências feitas em diversas mídias sobre o fim do prazo para a entrega da declaração do Imposto de Renda da Pessoa Física em 30 de abril. Numa frequência um pouco menor também foram abordadas tecnicalidades como modelo de declaração, deduções, aplicações financeiras, fontes pagadoras de salários, rendimentos tributados exclusivamente na fonte, bens e direitos e, é claro, imposto a pagar ou a ser restituído. Os profissionais da contabilidade também foram bastante lembrados e acionados por muita gente querendo se posicionar melhor perante a Receita Federal e evitar cair na malha fina.

Todo ano tem sido a mesma coisa quanto ao alarido sobre a improrrogável data limite e as multas que penalizarão as pessoas físicas inadimplentes. Por que estou voltando ao assunto se acabo de falar em tom de reclamação sobre o incômodo cansaço gerado por tanta repetição da mesma coisa? Simplesmente porque as matérias quase não abordaram que a tabela do Imposto de Renda está congelada desde 2015, o que por si só já significa aumento de carga tributária para quem permaneceu no mercado de trabalho e ainda teve algum reajuste salarial repondo a inflação anual ou parte dela. Nesse sentido vale lembrar os dados divulgados pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) mostrando que nos últimos 23 anos – 1996 a 2018 – a inflação acumulada medida pelo IPCA do IBGE foi de 309,74% enquanto a  tabela do Imposto de Renda foi corrigida em 109,63%. Segundo o Sindifisco seria necessário um reajuste de 95,46% para corrigir a defasagem da tabela registrada nesse período. Isso faria com que o limite de isenção do Imposto de Renda passasse dos atuais R$1.903,98 para R$3.689,93. Já a faixa de renda que hoje fica acima de R$4.664,68 e é taxada em 27,5% passaria a ser de R$9.169,34. É claro que também seriam reajustados pelo mesmo índice as despesas por dependente e anuidade escolar.

Também quase nada se discute sobre o fato de que salário não é renda e que, por isso mesmo, devido à sua própria natureza, não deveria ser taxado como se fosse renda. Isso ficaria para os ganhos decorrentes das aplicações do capital, taxação das heranças e das grandes fortunas e de maneira progressiva.

A julgar pelas ofertas de financiamento pelos bancos para antecipar a devolução do Imposto de Renda para quem conseguiu alguma restituição, fica parecendo que ninguém vai cair na malha fina da Receita Federal, que dá para pagar as altas taxas de juros cobradas e que existe um grande conformismo com o congelamento da tabela do imposto. Para aqueles que ainda insistem na reposição das perdas inflacionárias contidas na tabela o máximo que o Ministério da Economia fala é que o tema poderá ser discutido por ocasião da proposta de Reforma Tributária, pois hoje o país convive com o déficit das contas públicas.

Muda isso, muda aquilo, mas na prática é tudo a mesma coisa. A diferença entre o velho e o novo jeito de fazer as coisas esta só na embalagem e a gente vai ficando para trás.

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Expectativas nem sempre atendidas

por Luis Borges 28 de abril de 2019   Pensata

De vez em quando é bom fazer uma análise crítica sobre nossas expectativas de consumo de bens e serviços bem como das percepções que tivemos após tudo ter acontecido. É importante observar desde o sonho e o planejamento do consumo, que nem sempre acontece, até a satisfação trazida pelo ato de consumir. Se a crise econômica persiste e se existem necessidades básicas inadiáveis, também existem consumos adiáveis já que, em geral, a estratégia das pessoas na atual conjuntura é a de sobrevivência. Para quem quer antecipar um consumo que não cabe no bolso no momento, mas é fustigado pela ansiedade, pode ser dado um jeito através de um financiamento a juros altíssimos e com risco de se tornar um futuro inadimplente do cadastro negativo, onde será chamado pela alcunha nada carinhosa de “negativado”.

Ainda assim e embalado pelo “consumo, logo existo” não dá para negar que são muitas e às vezes altas as expectativas do consumidor. O mínimo que ele espera é consumir um bem ou serviço com as características de qualidade especificadas verbalmente por ele ou padronizadas num determinado código oriundo do fornecedor. Espera também que o preço seja justo, adequado e que o atendimento dado pelo fornecedor leve em conta a sua condição de cliente. Aí é que entra a reflexão sobre a percepção que se tem comparada com a expectativa que se tinha. Assim fica mais fácil perceber as lacunas que ficaram em relação à expectativa inicial ou a lembrança das brigas travadas durante o processo de atendimento para conseguir receber o que realmente foi solicitado. Nesse caso ficam visíveis muitos pontos de conflito no contato do fornecedor com o consumidor, que deveria ser tratado como cliente. Pior ainda é pensar nos serviços públicos prestados diretamente pelos próprios órgãos ou por aqueles a quem foram concedidos, mas isso será tema de outra pensata…

Vale pensar no atendimento no caixa de um supermercado ou da padaria, na compra pela internet, na consulta médica ou na internação hospitalar, na pizza que família degustou numa pizzaria, no contato com a operadora de telefonia ou cartão de crédito e no meio de transporte escolhido para uma melhor mobilidade urbana e interurbana, por exemplo. Dá para lembrar que o pagamento à vista não tem nenhum desconto e é o mesmo que o valor a prazo, que o número do CPF, telefone e o endereço eletrônico são solicitados insistentemente ou que muitas vezes a entrega de um bem é marcada para ser feita entre 8h e 18h ou que simplesmente o prazo de entrega não é cumprido e o fornecedor sequer faz um contato para apresentar alguma justificativa ou renegociar o prazo.

A partir desses casos citados e de outros que você, caro leitor, deve estar se lembrando é possível avaliar qual é o tamanho da distância entre as nossas expectativas e as percepções que temos sobre o que realmente nos é entregue. Afinal de contas temos até um código de proteção e defesa do consumidor e, mesmo sendo cada vez mais conscientes desses direitos, continuará sendo preciso lutar para que eles sejam cumpridos.

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Cobradores de mão única

por Luis Borges 21 de abril de 2019   Pensata

Tenho ouvido com frequência cada vez maior, em conversas com indivíduos ou pequenos grupos deles, referências sobre “pessoas cobradoras”. Elas têm como principais características uma enorme capacidade de questionar, às vezes em tom bastante agressivo, opiniões e pensamentos de seus interlocutores e uma enorme incapacidade de ouvir de maneira respeitosa a opinião do outro lado, discordante ou não. O jeitão é o de um imperial proprietário da verdade, cheio de achismos, nada preocupado com as evidências deixadas por seus atos falhos e lançando mão inclusive de fake news na tentativa obsessiva de fazer prevalecer o que pensa. A convicção é a de que os meios justificam os fins. É possível identificar esse tipo de comportamento em todos os segmentos da sociedade, tanto nos organizados quanto desorganizados, e também entre colegas, amigos, familiares, conhecidos…

Como o tema sempre desperta o interesse de muitos participantes dessas conversas geralmente sugiro que cada um que quiser narre fatos presenciados ou vividos e também as principais características dos “cobradores” que tem enfrentado. É bastante claro para a maior parte dos participantes que os “cobradores” só sabem falar, o que fazem de forma muito excitada. São também ansiosos, arrogantes e intolerantes e tem pouca disposição para ouvir qualquer réplica e muito menos tréplica. A percepção que fica é a da grande vontade que eles têm de estar sempre na ofensiva para sequer dar tempo aos outros de cobrar alguma coisa, mesmo porque não é da natureza deles se comprometer com respostas e questionamentos.

Para ilustrar o convívio com “cobradores” vou narrar rapidamente 2 situações em que a mão única predominou no ambiente familiar. Recentemente foi dia do aniversário de nascimento de um eminente “cobrador” que ficou na expectativa de ser cumprimentado pela maior parte dos familiares. No início da noite ele abriu o bico dizendo à esposa que as pessoas não estavam se lembrando de seu aniversário e ela lhe respondeu perguntando se, por acaso, ele tinha se lembrado dos outros em ocasiões semelhantes. É claro que ele ficou mudo em sua arrogância e falta de memória.

Numa outra situação o “cobrador” enviou uma mensagem de WhatsApp no grupo da família e ficou observando quem leu. Percebeu após algum tempo que muitos sequer olharam e os que assim o fizeram nada comentaram. Então o “cobrador” começou a cutucar daqui e dali, até chegou a telefonar para alguns membros cobrando porque não abriram a mensagem e aos que o fizeram por que nada comentaram. É claro que ele ainda não percebeu que seu índice de rejeição é muito alto, pois ele persiste em ser um “cobrador” de mão única, que também não dá retorno a ninguém.

Imagino que você, caro leitor, já tenha passado ou passe por diversas situações em que precisa conviver com os “cobradores de mão única”. Como você tem se posicionado em relação a eles? Em tempo: caso você se reconheça como um “cobrador de mão única”, é possível ou desejável fazer alguma coisa para modificar o seu modo de ser caso ele não esteja cristalizado?

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Nesses tempos em que a reforma da Previdência Social virou um mantra cansativo corremos o risco de chegar à exaustão sem conhecer o assunto mais profundamente. A excessiva – e também ameaçadora –  badalação nas mídias vai, de maneira geral, nos levando a uma situação em que muitos dirão ou pedirão que se vote logo essa coisa.

Enquanto passa o tempo as preocupações só aumentam com o futuro incerto que se aproxima a cada dia. No trabalho do setor público ou privado o assunto aposentadoria surge a qualquer momento a partir daqueles que estão em condições de se aposentar ou só estão esperando o momento da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que começou a ser discutida pelo Congresso Nacional. Existem também quem precise de alguns anos pra ficar “livre” do trabalho, mas que falam o tempo todo sobre simulações do tempo de transição até a chegada da hora derradeira. Obviamente que existe uma grande parte de pessoas na faixa dos 30 aos 39 anos que entram nas conversas dizendo que só sabem que terão de trabalhar até o fim da vida.

As conversas ficam mais animadas e acaloradas quando vaza ou circula oficialmente a informação sobre a aposentadoria do chefe de um setor de trabalho, um departamento ou divisão da estrutura organizacional. O clima fica muito alterado diante das especulações sobre a sucessão do colega e até mesmo se aquela “caixinha” continuará existindo ou se será anexada a uma outra para reduzir custos. Entra também no clima a fala de  muitas pessoas sobre o chefe e suas principais características que marcaram o tempo trabalhando juntos. Nessa hora ouve-se de tudo e algumas falas surpreendem pela hipocrisia. Elas vem daqueles que sempre “torraram” o chefe falando mal dele, do seu medo de ousar, de tomar decisões ou de enfrentar o diretor com seus caprichos pouco focados no negócio da organização. Esse é o típico caso em que alguém que era muito criticado em vida no trabalho que vira santo após a morte ou a aposentadoria.

Realista é a reação da maior parte dos colegas registrando que cada um deve cumprir o seu papel no processo de trabalho em busca dos resultados positivos e que alguns níveis hierárquicos são necessários para a gestão do negócio. Para esses, o que fica do colega são as lembranças do convívio profissional respeitoso e civilizado nos momentos fáceis e difíceis do dia-a-dia de trabalho e das conversas mais descontraídas nas festas de aniversariantes do mês ou do final do ano. Inegavelmente os que mais sentirão a falta do chefe aposentado serão aqueles dois ou três favoritos que sempre davam um jeito de aparecer em sua sala para falar de seus próprios feitos no trabalho em busca de reconhecimento permanente e também para comentar alguma coisa sobre os demais colegas.

Como se vê a produtividade saudável e necessária vai ficando para trás embalada pelos vários “se acontecer isso, se acontecer aquilo” que a discussão da reforma da Previdência Social suscita.

E você, caro leitor que ainda não se aposentou, como tem sido seu convívio com essas questões no trabalho? Seu chefe receberá uma mensagem de aniversário pelo WhatsApp?

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