O tempo e o vento

por Convidado 22 de março de 2020   Convidado

* por Sergio Marchetti

Acho este título simples e maravilhoso. Já tive a oportunidade de dissertar sobre o tempo. Mas o tema é inesgotável. Quantas coisas se escondem sob o tempo e o vento de nossas vidas. Quanta saudade, tantas lembranças, pessoas que se foram com o vento – que sopra, incessantemente, empurrando o tempo. E, assoviando, vai nos levando para outro caminho, para a transcendência talvez, assim como a fonte de Vicente Carvalho levava a flor para o mar:

“Deixa-me fonte”. Dizia. / a flor, tonta de terror. E a fonte, sonora e fria/ cantava, levando a flor. / “Deixa-me, deixa-me fonte”!/  Dizia a flor a chorar/ “Eu fui nascida no monte…/ não me leves para o mar”…

Ah! Que saudade do tempo que ouvi esta poesia. Era o início de tudo para mim, num mundo que andava mais devagar. Mas hoje, infelizmente, não vou falar de poesia, nem sobre a série literária de romances históricos do fantástico escritor brasileiro Érico Veríssimo, que tem exatamente o título acima. Seria proveitoso lembrar de Ana Terra e de Rodrigo Cambará. Também poderia mencionar músicas como a do Legião Urbana que demonstra a dificuldade de ver o tempo passar:

Todos os dias quando acordo/ não tenho mais o tempo que passou…”

O que me inspira neste momento é o tempo que passa como vento por nós. Sim, meus caros e passantes leitores. O tempo está voando e todos nós estamos sentindo uma angústia por não conseguirmos controlar os dias e os anos de nossas vidas. Estaria acontecendo uma mudança nos movimentos de rotação e translação da Terra? Talvez sim. Mas se assim for, não teremos como dominar o fenômeno. Ora, então, constato que seria uma enorme perda de tempo tentar governar os movimentos da terra.

Há, no entanto, outros caminhos, novas possibilidades e incontáveis alternativas para usufruirmos do tempo de maneira proveitosa e mais útil. Acredito que podemos repensar na forma como o gastamos. Todas as noites, ao findar o dia, são depositados em nosso banco da vida 86.400 segundos para que os utilizemos da melhor maneira que puder. Porém, tempo não acumula e nem recupera.

Vale refletir também sobre o tempo físico e o tempo psicológico. Momentos de prazer tendem a nos parecer que passam mais rápido. Já os minutos desagradáveis de espera, de tensão nos chegam como se fossem meses e não horas. Num jogo de futebol, quando nosso time sofre um gol aos 30 minutos do segundo tempo, os 15 restantes nos parecem bem menos, enquanto que para a torcida adversária o tempo não passa.

Falando em tempo físico, reforço a tese de que o excesso de opções seja um dificultador de nossa gestão. E, hoje, não faltam instrumentos que tanto ajudam quanto atrapalham nossa qualidade de vida. Há alguns anos a televisão tinha quatro canais. Hoje tem 500. Tínhamos uma ou duas marcas de lâminas de barbear. Pasta de dente (o dentifrício da Dilma) também se resumia a duas ou três marcas. O trânsito fluía e entre tantos etcs. não possuíamos  smarthphone  que, se mal utilizado, é fator determinante de improdutividade.

O que fazer para restaurar nossa organização e qualidade de vida? Bem, comece identificando os vilões. Quais são os ladrões de seu precioso tempo? Temos também algumas palavras que, se transformadas em atitudes, podem compor a fórmula mágica do sucesso e alcançar a tão almejada eficácia: planejamento, prioridade, disciplina, produtividade e foco.

Simples? É simples mesmo. Mas carece de força de vontade para começar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Viver “apertado”

por Convidado 11 de fevereiro de 2020   Convidado

* por Sergio Marchetti

Uma das coisas mais surpreendentes nestes novos tempos é a moda. Melhor dizendo, a indústria da moda.

Num mundo em que o consumismo supera qualquer pensamento mais equilibrado, a moda – a exemplo de automóveis e aparelhos de televisão, smartphones, vestuário e tantas coisas mais – parece não dar trégua à população. Antes dos computadores, um modelo de roupa durava anos a fio. Quando assistimos a cenas de filmes das décadas 1920, 1930, 1940, 1950, observamos que os ternos, os cortes de cabelo, os calçados eram muito parecidos e perduraram.

Mas, com a tecnologia, a massificação encontrou um corredor aberto para lançar modas a cada trimestre. E o apelo traz, em sua forma democrática, a liberdade de usar bermuda para homens e mulheres, shorts, saias, vestidos, macacões e etc. Cabe, entretanto, uma observação: o evento define o traje. Será? Deveria ser. Isso não fere o tão proclamado e já antipatizado e “hipocritatizado” estado democrático de direito. Mas vamos nos ater à moda?

Tudo pode? É óbvio que não. Quando vamos a um casamento devemos ter em mente que os noivos investiram tempo, dinheiro e, de certa forma, estão realizando um sonho e querem uma cerimônia para ser eternizada como um momento de esplendor. Então não vá de chinelo (no vocabulário de alguns, de chinela) e bermuda. Sendo homem, vista o seu terno ou um blazer e deixe sua bermuda descansar. Permita que os olhos de terceiros sejam poupados de ver suas pernas desprovidas dos requisitos de beleza.

Falando em terno, há uma incoerência quanto à liberdade e também conforto. Em tempos de liberdade, incoerentemente, a indústria da moda masculina definiu de forma ditatorial que os paletós tem que ser de dois botões, apertadíssimos, curtos, mal permitindo que o pobre usuário estique os braços. E, para completar o conjunto, acompanham calças de cós baixo, desconfortavelmente justas, e que deixam as meias à mostra. Conforto zero, estética zero. Que péssima ideia, a de acabar com os paletós de três botões. E quem cometeu esse crime? Certamente alguma pessoa que não usa ternos, não sabe o que é elegância, desconhece o que é se vestir com conforto e não tem senso de ridículo.

Ora, meus caros e persistentes leitores, vocês já notaram que abotoa-se sempre um botão a menos? No terno de dois botões, quem tem uma barriguinha, por mínima que seja, não tem como não exibi-la. E a ponta da gravata aparece embaixo, completando a deselegância. Nem os desbarrigados, sarados e de corpos esbeltos conseguem ter elegância vestindo roupas tão apertadas e curtas.

Quando olho para vários desses senhores vestindo terno me parece que estão envoltos em embalagem para festa. Tenho a impressão de que seus troncos são muito largos para as pernas. Aparentam estar vestidos com um barril. Alguns me remetem à imagem de um barril com pés palitos.

É… você pode estar se perguntando se eu entendo de moda. Não entendendo nada. Mas tenho uma enorme noção de conforto. Também tenho discernimento suficiente para distinguir o feio do belo, e o mau gosto do que é elegante.

Diante das discrepâncias que tenho assistido e das gafes que são comuns nas festas, aconselho aos homens e mulheres que estiverem na dúvida sobre qual traje devam usar que pesquisem num site de moda ou consultem um ou uma especialista.

Um conhecido me contou que um incauto, amigo dele, se inspirou num programa de moda da televisão e apareceu na festa com blazer verde, calça vinho – que deixava a “canela” de fora – uma gravata que tinha mais flores do que os canteiros da Praça da Liberdade e, ainda, um sapato social sem meia. Era uma cerimônia ou um circo de horrores?

Como última recomendação aos homens, indico um terno cinza escuro e uma camisa branca que servem para todas as ocasiões. Lembre-se de que, em termos de moda, há uma máxima que diz que “o menos é mais”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Ano novo, vida nova

por Convidado 13 de janeiro de 2020   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Cá estamos nós, meu querido leitor, começando uma nova jornada pela vida. Talvez esteja faltando alguém que, em 2019, lia meus escritos e compartilhava minhas ideias. Mas a roda viva não para. Somos nós que paramos, e, um por um, pouco a pouco, vão tendo seus nomes chamados para sair da roda.

Independentemente das perdas e dos ganhos, ouço, há tantos anos, a frase “ano novo, vida nova”, que acredito que tenha se tornado um mantra. A euforia da passagem de ano e a possibilidade de começar tudo outra vez, de fato, contribuem para a renovação da esperança de dias melhores. Mas, infelizmente, as flores para Iemanjá, o jantar de lentilhas e as sementes de romã não são suficientes para alterar o rumo de nossas vidas.

Ainda assim, não critico e nem rejeito as crenças de cada pessoa (“há muito mais entre o céu e a terra do que possa prever nossa vã filosofia”), pois a força da fé tem removido montanhas. Acontecem todos os dias fatos inéditos, surreais e não explicáveis pela ciência. Porém, não estamos livres de problemas e de tragédias. Pandora já abriu a sua caixa e, sem saber o que continha nela, liberou todos os males. Somente a esperança restou. Diante disso, deixemos viva a esperança, que é o que nos segura quando tudo parece perdido.

Faço uma ressalva de que não devemos deixar toda a responsabilidade com os santos e nem mesmo com Deus. Já tem muita gente para Ele olhar. Também não vale delegar ações pessoais a terceiros. Eles não sentem o que você sente. Deixe a preguiça de lado. Mande essa tristeza embora. Tenho certeza de que você tem mais para agradecer do que para reclamar. Então o que está esperando? Pratique a gratidão. Ressignifique seus acontecimentos negativos, perdoe alguém que invade seus pensamentos e se perdoe.

Aí entra a nossa parte. Permita-me, caríssimo leitor, fazer o seguinte questionamento: Quem poderá ajudá-lo? Sabe o que deseja? Você já fez o planejamento individual? Já sabe o que vai mudar? Identificou as consequências? Traçou metas? Definiu quando devem ser alcançadas? Escolheu o método que irá utilizar?

Sei que muitas pessoas não acreditam que a definição de metas poderá ajudá-las. Outras até creem, mas não tomam a iniciativa por mera indolência. E, apesar disso, eu os compreendo, mas também lhes asseguro de que, nos novos tempos, o fracasso de quem não se preparar será iminente. O ser humano tem dificuldade de se planejar para o futuro e precisa de alguém que lhe dê forças. E não é por acaso que a mentoria e o coaching se fortaleceram tanto e passaram a exercer um papel importante na vida das pessoas e das empresas.

Então comece agora, nada de procrastinar. Janeiro é o mês ideal para traçar seus planos de mudança. Pense no que não deu certo, nas conquistas, nas empreitadas em que obteve sucesso. Anote o nome das pessoas que podem lhe ajudar a realizar seus objetivos. Formule planos de ação com prazo determinado. Negocie, renegocie, mas não deixe o desânimo lhe derrubar; ele é apenas um indicador de que você andou muito tempo na direção errada. Retome seus caminhos e se fortaleça com as experiências, pois mesmo tendo colecionado erros, sempre será um aprendizado. Basta não repeti-los. Ocorrerá também a dúvida – ausência de ação e medo de errar. Nesse caso, busque orientação e conselhos com embasamento técnico.

O quadro atual é mais otimista. O Brasil ainda está no CTI, mas já respira sem aparelhos e começa a dar sinais importantes de recuperação. Estamos saindo da escuridão, e acena para nós a possibilidade de dias melhores. Indicadores nos demonstram que haverá mais trabalho e mais oportunidades de vermos brasileiros voltando a ser cidadãos dignos, que possam obter seus recursos com o próprio trabalho e não pela esmola.

Passe a borracha no passado e vamos começar de novo. E, se precisar de um ombro amigo ou de algumas orientações sobre algo que eu saiba um pouquinho, pode contar comigo.

“Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido…”(Ivan Lins)

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Os sons do silêncio

por Convidado 13 de dezembro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Eu sempre gostei de ficar em silêncio. Desde criança, na fazenda de meu avô, na serra da Ibitipoca, eu me sentava diante de um morro bem verde e ficava pelo menos por duas horas olhando para ele. Fechava os olhos por minutos e assim me sentia em paz. Procurava, aquele menino, o encontro com ele mesmo.

Passaram-se muitos anos desde aquele dia. E, hoje, vejo poucas pessoas buscando um cantinho para ficarem em silêncio consigo mesmas. Aliás, a meditação é prática comum nas religiões que acreditam que o silêncio seja um caminho de cura para muitos males. Sabe-se que a mente precisa de um tempo silencioso, já que não para nunca, nem mesmo quando dormimos.

É na pausa entre os sonos que a mente é ativada e se dá o pico da atividade cerebral. Porém, na contramão de todas as recomendações de órgãos de saúde, temos um sono agitado e embalado por um bombardeio de todo tipo de sons, ruídos e claridade que a vida nas grandes cidades nos impõe.

Neste momento em que escrevo, quando ressalto a necessidade de silêncio, ouço buzinas, pessoas falando alto, barulho de um motor de ônibus e um ensurdecedor e inaceitável ronco de uma motocicleta cujo piloto parece não ter ouvidos e que, lamentavelmente, as leis de trânsito não descobriram que aqueles veículos, assim como os automóveis, também têm a obrigatoriedade de portar a bendita peça chamada de “silencioso”. Ora, toda essa poluição sonora é geradora de estresse para o nosso psiquismo e também para a nossa espiritualidade. Não devemos nos esquecer de que o silêncio é uma face da nossa existência (“porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é o silêncio” O.M.). 

O filósofo suíço Max Picard, em 1989, quando publicou o livro The World of Silence, advertiu que nada mudou tanto a natureza do homem quanto a perda do silêncio. Mas os jovens, principalmente os que jogam futebol profissional, alheios ao que se passa à sua volta, dificilmente terão seus ouvidos livres de iPods, o que demonstra uma dificuldade enorme de ficarem relaxados e em paz.

Em minhas orientações aos meus clientes, ressalto a importância do silêncio e que talvez paire sobre a humanidade alguma espécie de medo da quietude, receio do recolhimento, do autoconhecimento e da descoberta do sentido profundo da própria existência. Fogem de si para não terem que encarar a realidade e ouvirem a própria consciência. Mergulham de cabeça no indeterminismo, no superficial e no fortuito. Quanta ilusão na caminhada para o abismo. Constroem suas vidas sobre bases mais efêmeras e impermanentes do que a vida.

Não se permitir usufruir do silêncio nos leva à perda de excelentes oportunidades de criar, de ter ideias brilhantes, arrependimentos. Santo Agostinho preconizou que o silêncio é necessário a todos para ter um estado de espírito saudável.

E, já que estamos falando de um santo, vem aí uma oportunidade de fazer uma pausa, de meditar, rever objetivos, corrigir a rota e sonhar coisas novas – em síntese – ficar um pouco com você em silêncio para ouvir sua voz interior e o som inaudível dos corações alheios. Vem aí o Natal, momento sublime, de mensagens de amor, de fé e de esperança. Festejamos no mês de dezembro o nascimento de Jesus. E, mais do que dar presentes, é uma oportunidade de estarmos presentes e ao lado das pessoas que amamos.

Desejo a todos os leitores que, pacientemente me dedicam seu tempo precioso e que me honram com seus comentários, um Feliz Natal e que, no ano de 2020, assim como nos pares 20 e 20, haja mais igualdade e persistência em fazer o melhor e ser melhor a cada dia, com saúde, harmonia, amor e sabedoria.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Praticando a empatia

por Convidado 15 de novembro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Outro dia, num dos trabalhos de orientação individual que realizo há 20 anos, um participante (ou coachee), num determinado momento em que falávamos de carreira e trabalho, me perguntou por qual razão as pessoas são tão falsas. Observei que a pergunta vinha carregada de uma tristeza significativa. Talvez uma decepção com as atitudes dos seres humanos. E continuou, se dizendo magoado com os ex-colegas que o abandonaram quando foi demitido do alto cargo que ocupava.

Eu lhe disse que estava sendo muito inocente. Que é a reação mais frequente de nossos colegas. Por essa razão é que se chamam colegas e não amigos. Também lhe confidenciei que enquanto fui diretor de uma instituição, pessoas me bajulavam, traziam presentes, pediam-me favores e que desapareceram junto ao meu pedido de demissão. Incomum seria o contrário. Mas a vida, gradativamente, nos mostra novas verdades e, pior, a descoberta da existência de muitas pessoas interesseiras, oportunistas, traiçoeiras e ingratas. E que, assim sendo, se torna inevitável a desilusão.

Meu “orientado” – já meio desorientado – me diz que a culpa é das escolas porque incentivam as crianças a competirem. Acrescenta que a falta de sensibilidade e de conhecimento, sem maldade, faz com que alguns professores e professoras gerem antagonismos, rivalidades e complexos, quando dizem que uma criança é mais bonita ou mais inteligente do que as outras.

Não só na escola, mas também em casa – lembrei a ele – pais e mães utilizam da comparação ou do elogio a um filho como um exemplo a ser seguido pelos demais irmãos. Aí começam a nascer a raiva, o desprezo, a inveja e o ódio. Crescemos mais um pouco e, com a evolução da estatura, crescem também as divergências cujas raízes foram plantadas na infância.

Meu cliente pediu-me licença para naquela sessão apenas desabafar. Aceitei e acatei seu pedido, pois era a melhor forma de ajudá-lo naquele momento.

Ele reclamou do abandono, inclusive da família. Era nítida sua dor e tristeza. Poderia cantar “Meu Mundo caiu” da Maysa. Sim, seu corpo expressava a queda. Estava sem chão. Fora acostumado a uma rotina de tantos anos e, agora, num minuto, tudo havia acabado. Aí, neste momento, encarei minha missão e me lembrei da frase apregoada por santa Tereza de Calcutá que diz para que não deixemos alguém que venha à nossa presença sair sem estar melhor do que quando chegou. E prossegui, ouvindo seu desabafo e o tranquilizando, quando o seu pranto insistia em ser protagonista daquele drama.

Depois de algum tempo, perguntei-lhe se poderia pôr uma música. E com o seu consentimento escolhi “Vou-me embora” de Paulo Diniz.

Por que aquela música? Pelo fato de não ser tão conhecida, o que desperta maior atenção e pela mensagem, obviamente. Ei-la:

“Vou me embora, vou me embora, vou buscar a sorte/. Caminhos que me levam, não têm sul nem norte. / Mas meu andar é firme e meu anseio é forte. /Ou eu encanto a vida ou desencanto a morte. / Vou me embora, vou me embora. Nada aqui me resta, /senão a dor contida, um adeus sem festa…”

Ouvimos a canção até o final. Então concluí: é preciso saber perder, saber deixar no passado o que é do passado, porque não podemos mudar a velha história, mas escrever uma nova com final feliz. Deixe que os maus cuidem dos maus. Não vamos mudar o mundo. O mau e o bom, o mal e o bem sempre existirão, infelizmente. Fazem parte da mesma moeda, embora estejam em lados opostos.

Você tem seu valor, tem algo de bom para oferecer ao mundo. Comece a buscar o que deseja. Ponha no papel, defina datas, metas, objetivos. Saiba que, embora a vida seja a arte do encontro, a procura é muito mais importante do que o verdadeiro encontro, pois é na busca que aprendemos a melhores e mais importantes lições.

Como escreveu Fernando Sabino:

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Liderança até quando?

por Convidado 12 de outubro de 2019   Convidado

*por Sérgio Marchetti

Há mais tempo, uma colega tomou a decisão de não fazer palestras sobre liderança. O motivo alegado foi que a teoria estava muito distante da prática e que os estilos sugeridos pareciam ser contos de fadas no país das maravilhas.

Quando soube de sua decisão, confesso que fiquei preocupado e “balançado”. Afinal, o tema era o meu preferido e sobre o qual mais fazia palestras. Reconheci que aquela atitude estava respaldada na coerência, na nobreza e na honestidade, pois sua alegação era a de que não poderia enganar as pessoas Muitos empresários brasileiros têm um perfil que está muito mais próximo do senhor de escravos do que do líder sugerido pelos estudos dos últimos vinte anos”, afirmou.

Hoje, após mais de uma década de nossa conversa, reflito sobre tal decisão e continuo admirando a firmeza de caráter daquela senhora. Porém, como tudo tem duas faces, penso que se desistirmos de realizar, pregar, persuadir as pessoas para mudarem, teremos que fazer como os macaquinhos que tapam os ouvidos, a boca e os olhos – nos tornamos omissos e corremos o risco de extinção.

É fato que durante milênios a liderança foi exercida pela força. Os maiores reinos invadiam os menores e os conquistavam, escravizando ou exterminando sua população.

No fim do século XIX, Taylor com sua “Administração Científica”, fez nascer as primeiras luzes de uma gestão que primava pela Organização Racional do Trabalho. De lá para os dias atuais, as pessoas e os sistemas foram se aprimorando. O ranço da escravidão foi, aos poucos e muito gradativamente, ficando para trás, e surgiram novas concepções sobre gerenciar e liderar. Assim, nasceu o líder coach – que contemplava em seu perfil o treinamento e o desenvolvimento da equipe que liderava. Surge, nesse cenário, a Liderança Servidora (quase espiritual) que trouxe em sua essência a ideia de servir à equipe, com autenticidade, empatia e ter a habilidade de compartilhar e criar um ambiente colaborativo que estimula o aprimoramento e o desempenho.

James Hunter, autor do livro “O Monge e o Executivo”, um best seller, chegou a mencionar que essa modalidade de liderança fora adotada por Jesus – um Servidor que dava a outra face.

Devemos entender que se trata de uma metáfora, contudo, meus insistentes leitores, vocês hão de convir que a gestão evoluiu e tornou crível o que antes parecia ficção. E não tem volta. Os modelos são outros, a diversidade se acentua e pede passagem. As gerações Y e Z não aceitam gritos, não sabem o que é apanhar dos pais e, portanto, não reconhecem a figura de um chefe com o chicote nas mãos. Os mais cultos vão pensar que se trata de um Dom Quixote alucinado,lutando contra os moinhos de vento.

Pois é isso. Eu consigo persuadir meus alunos. E, interessados, me perguntam: como, então, será a relação das pessoas nas organizações do novo mundo?

Eu respondo que essa pergunta não faz parte do novo mundo. E sabem por quê?

Porque no novo mundo não temos como prever o que virá…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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*por Sérgio Marchetti

Não é nenhuma novidade ouvir que a doença dos próximos anos é a depressão. É o mal deste século, como revelam os estudos da Organização Mundial de Saúde. Artistas famosos, de quem você nunca esperava ter notícias de terem sido vitimados pelo transtorno do pânico, são os mais afetados. E nos bate aquela interrogação: fama, dinheiro, conforto, beleza, e ainda são tristes? Mas a doença não é um privilégio das celebridades. O transtorno tem atingido uma parte significativa da sociedade. No caso de pessoas famosas ocorre por estarem na mídia e terem um grau de visibilidade expressiva, privacidade invadida, além de serem alvo de toda espécie de notícias.

Outro fator é que as pessoas ainda não se deram conta de que não vivem para elas. A sociedade contemporânea representa papéis no teatro da vida, no qual todos querem ser protagonistas e, por ser impossível que todos sejam atores principais, vem a decepção, a autocobrança, a frustração e, sem perceberem, acabam por ser meros figurantes de suas próprias vidas.

Sabe-se que as causas geradoras da doença que será a vilã do campo da saúde estão relacionadas a um conjunto de fatores hereditários e psicossociais. Porém, ninguém me convence de que a doença psicológica não seja causada justamente pela forma como as pessoas tiveram suas vidas escancaradas na mídia. A tudo isso, ainda se soma a evolução tecnológica, que talvez seja a causa maior de propagação desse mal que aflige a sociedade mundial. Pois, hoje, sabemos de tudo que acontece no mundo. E vale a máxima popular: o que os olhos não veem, o coração não sente.

Ser bem sucedido, magro, bonito, estudar idiomas, ter um automóvel do ano, fazer parte de vários grupos — sejam eles virtuais ou presenciais, frequentar academia, fazer terapia, viajar, ser “escravo” de filhos, fazer yoga, postar textos e vídeos, e ter um coach são “apenas” alguns elementos do repertório que compõe o “Kit da pessoa classe A”.

Bem, vocês notaram que não mencionei “trabalho” no repertório de atividades, mas num mundo com tanta exigência, fica evidente de que um dia de apenas 24 horas é pouco para realizar tudo isso, e ainda trabalhar.

“Como beber dessa bebida amarga / Tragar a dor, engolir a labuta…”

Como vimos, ser chique não é fácil, principalmente num Brasil de mais de doze milhões de desempregados e de tanto trabalho informal. E aí, os jornais, principalmente os televisivos, apresentam sua altíssima dose de cooperação para que a esperança de dias melhores seja sepultada no seio de cada cidadão – que já perdeu o senso de cidadania há tempos. E isso, sem contar que a imparcialidade, lamentavelmente, não é mais uma prerrogativa de todas as emissoras.

A sociedade padece de um mal que é o de obter o poder a qualquer custo. E o objetivo, obrigatoriamente, deve ser alcançado. E, se não for por amor, que seja pela dor. Os fins justificam os meios.

Mas, imaginem, caros leitores, que diante de tanta exigência para se manter na ilusória corrida em busca de “status”, a realidade, assim como o barco de Creonte, nos conduz a um destino oposto ao vislumbrado por uma sociedade, que se afogou no desvario de uma onda que trouxe uma falsa conotação de felicidade.

A depressão não assombra apenas as pessoas que vivem a busca compulsiva de um lugar ao pódio. Neste cenário, um percentual expressivo da população não tem satisfeitas as necessidades básicas como: saúde, educação, segurança e emprego. Aliás, não preciso dizer mais do que já disse o menino Gonzaguinha: “o homem se humilha se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida e vida é o trabalho/ E sem o seu trabalho, o homem não tem honra / E sem a sua honra, se morre, se mata / Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”.

É! Não dá pra ser feliz…

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Doces recordações

por Convidado 15 de agosto de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

“Eu me lembro com saudade o tempo que passou/ o tempo passa tão depressa/, mas em mim deixou/ jovens tardes de domingo/ tantas alegrias, velhos tempos/ belos dias.”

Podem dizer que sou um saudosista e que a vida acontece no presente. Eu bem sei disso e até incentivo as pessoas a pensarem assim. Mas uma grande paixão do passado é difícil de esquecer. A vida, meus caros e persistentes leitores, é feita de momentos que se tornam lembranças e que nos indicam que vivemos dias felizes. Os dias ruins que fiquem enterrados definitivamente no passado. Deixemo-los por lá. Porém, desconsiderar as alegrias ou desluzir momentos iluminados e rejeitar os retratos da juventude e tudo que ela representou é sintoma iminente de depressão, trauma ou amor mal resolvido. Não! Não estou falando de uma namorada. Tampouco irei narrar paixões que só têm importância para quem as vive. Nada disso! Simplesmente estou recordando minha infância poética e, por coincidência, vivida na rua Alvarenga Peixoto (poeta e inconfidente), conhecida carinhosamente como rua do Anjo – em minha judiada e inesquecível Barbacena. Foi lá, numa rua calma de paralelepípedos que aprendi a jogar futebol, a brincar de pique e a gostar de poesia.

“…Ai que saudade dessas terras/ entre as serras/doce terra onde eu nasci…”

Eu morava próximo à estação ferroviária e, embora o barulho do minério de ferro deslizando sobre trilhos trouxesse desconforto auditivo, aquela poluição sonora se tornou parte de nossas vidas. Eu adorava acordar de madrugada e olhar pela janela o imponente Vera Cruz  – trem de luxo – todo prateado, estacionado logo abaixo de minha casa. Eu o denominava de príncipe dos trens.  Digam se não merece nosso sentimento de saudade? Não temos mais um transporte como aquele. Andamos para trás e com rapidez. Agora, esquecendo do trem, a estação se tornou um símbolo da minha infância e também das lembranças de Barbacena. Ainda hoje, sempre que estou lá, não me furto ao prazer de ficar apreciando a vista da cidade e a imponente estação ferroviária. E, caso pudesse, iria fazer dela um espaço de cultura, museu, artesanato e de outros eventos que pudessem aproveitar toda sua extensão. Contudo, antes daria a ela uma pintura à altura de sua beleza. Algo como a igreja de São José em Belo Horizonte. Ali, naquela praça, poderia ser o encontro de carros antigos, festival de vinhos e tantos etcs.

Convido meus conterrâneos a observarem o quanto de beleza se esconde naquele maltratado prédio.  Em Belo Horizonte, a estação ferroviária é símbolo da cidade. E, cá entre nós, sem querer puxar a sardinha para nossa lata, a de Barbacena é mais bonita e imponente.

Como disse, sou saudosista, talvez ufanista e, com o passar do tempo, adoro ainda mais minha terra, e fico muito sentido quando vejo que as belas e antigas casas são derrubadas para se levantarem sobre seus escombros, caixotes de concreto que sepultam, sob seus alicerces, histórias como a de Guimarães Rosa e Honório Armond.

Barbacena tem grandeza, faz parte da história dos primeiros governantes do Brasil. Nela, nasceram famílias tradicionais da política brasileira: Andradas e Bias. Também registra Emeric Marcier, o pintor romeno que escolheu nossa terra por causa da beleza do céu. “O crepúsculo mais belo que já vi”, dizia. E, além de Rosa, um outro escritor, o francês Georges Bernanos, que também viveu por lá. Mas há registros na arquitetura, como o Viaduto Pontilhão Dom Pedro II, com seus três lindos arcos – outro símbolo que merece cuidados.

Enfim, muito mais do que ser lembrada como “holocausto brasileiro e “terra de doidos”, pode ser conhecida como a cidade das rosas, das serras, da fazenda da Borda do Campo, e destacar sua contribuição para a educação com a Escola Preparatória de Cadetes do Ar, a antiga Escola Agrotécnica, que hoje, se não me falha a memória, é Instituto Federal de Ensino Tecnológico. E ainda, obviamente, as faculdades e colégios tradicionais e renomados.

E o clima? Aquele frio maravilhoso que me fazia fugir do banho da manhã e esperar o sol sair para não congelar? Era aconchegante ficar abraçado com alguém para minimizar os efeitos do frio. Atualmente, não faz mais aquele frio. O mundo aqueceu e as pessoas esfriaram.

De fato, são muitas lembranças de um tempo que não volta mais. Por isso, entendo com tamanha empatia o poeta Casimiro de Abreu:

“Oh! Que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais”.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Discutir a relação

por Convidado 10 de julho de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Numa feia manhã de um domingo chuvoso, a Alma e o Corpo resolveram discutir a relação, e a primeira divergência estava na disputa para ver quem era mais importante.

O Corpo disse que não tinha dúvidas, pois sem ele a Alma não existiria. E disse mais:

– Eu tenho nome, endereço, profissão. E você? Ninguém nem sabe se existe!

– Existo sim – retrucou a Alma. – Sou eu quem lhe dá vida, seu ingrato. Sou sua essência, seu guia e toda sua existência está em mim.

– Ora, não me amoles com essas baboseiras. Você acaba de ter uma descarga de arrogância. A essência está no cérebro, no DNA, em meus aprendizados, minha inteligência e meu psicológico. Sabia que psique, em grego, é alma? – questionou o Corpo.

– Então você acabou de comprovar que existo.

– Sim, existe como papai Noel. Alma é uma invenção das religiões. Criaram-na para que as pessoas temam o castigo no juízo final. Foi uma ideia dos religiosos para gerar limites nas atitudes dos seres humanos e ter domínio da sociedade.

– Então não adiantou – replicou a Alma. –  As pessoas estão sem medo e sem fé. Ouça esta frase: “não sois seres humanos passando por uma experiência espiritual. Sois seres espirituais passando por uma experiência humana”. – Escreveu Teilhard de Chardin. – disse a Alma e continuou: leia o diálogo de Símias, Sócrates e Cebes, em Fedon (no livro de Platão). Lá, o genial Sócrates compara a lira com o corpo, e a alma com a harmonia. Ou seja, quando a lira apodrecer e estiver com as cordas estragadas não significa que a música tenha morrido também. Ela, por certo, será tocada em outro instrumento. Assim sou eu. Sairei de você e habitarei um outro ser. De forma que sou imortal e você não. Sinto muito!

– Tamanha pretensão a sua, minha cara Alma. Você por acaso está aderindo à onda de empoderamento feminino? Tome cuidado. Minha avó dizia que quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.

– Não devemos discutir, meu amado Corpo, apenas devo lembra-lhe de que é mortal e, assim sendo, sua morte será iminente. Lamento por isso, porém não há como mudar essa lei. Você retornará ao pó. Enquanto que eu irei prestar contas do que fizemos.

–  Deixe de ser idiota. – contestou o Corpo. – Você tem inveja da minha beleza. Ou vai dizer que é sua também? Um corpo humano é um milagre de Deus. Poder ser visto, tocado e amado, é uma graça. Não me leve a mal e desculpe-me dizer, mas se você existe, então sua vida é uma prisão; é um castigo cuja sentença foi a de nunca ser vista por ninguém. Nem mesmo por aquele corpo que carrega. Que trágico!

– Não existe nenhum invento perfeito – retrucou a Alma. –  Posso sofrer por não ser vista, no entanto sinto emoção, tristeza e alegria por suas vitórias. Tudo que lhe acontece reflete em mim. Por outro lado, veja a sua fragilidade. Está sempre com uma dor física, uma preocupação com o envelhecimento que o transforma vinte e quatro horas por dia. Minha missão é vir com você e, juntos, vivermos sem cometer grandes falhas para acertar os erros do passado.

– Você é uma enviada especial do Allan Kardec? Faz-me rir.

– Não. Eu vim muito antes dele. Mas não vamos discutir sobre assuntos em que não temos como estabelecer pontos comuns. Ao invés de discordâncias, por que não tratamos de nossas afinidades? Estamos unidos e só a sua morte poderá nos separar.

– A nossa morte. – corrigiu o Corpo, já impaciente, e acrescentou: – deixe de ser superior… sua… imortal.

– Meu querido Corpo, se estamos dizendo verdades, então, não sei se o que vou dizer lhe consola. Contudo, saiba que quando a matéria estiver morta, ou seja, no dia em que você, o Corpo, não responder aos estímulos da vida, eu estarei viva e em possível sofrimento. Pois, a separação é mais dolorida para mim do que para você. E naquele momento, esse “nós” será apenas o “eu” e, como escreveu João (8:32) “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

–  Então será assim? – perguntou o Corpo melancolicamente.

–  Sim, meu companheiro… Naquele momento a resposta veio de uma outra voz. Era a Consciência que após escutar toda a discussão resolveu intervir para chamá-los à razão: –  nada no mundo está aqui por acaso. Tudo tem um valor. O Corpo precisa da Alma e a Alma precisa do Corpo, assim como o homem precisa da mulher e a mulher precisa do homem –  em qualquer dos casos a união é imprescindível para que haja a vida. A guerra, o ataque, o desejo de querer ser maior e mais poderoso do que o outro, por si só já demonstra sua pequenez.  A Alma tem a função de sustentar a vida espiritual e você, Corpo, tem a missão de constituir uma vida física. Mas quanto mais valor lhe atribuírem sobre a Alma, menos essência terá.  A humanidade se perdeu na busca desvairada do poder, do hedonismo e se esqueceu de trabalhar a espiritualidade –  que é o que vai contar no final.

Desculpem-me por ter invadido a conversa de vocês, mas me competia ajudá-los nessa disputa de “cabo de guerra”. Lembrem-se de que a palavra mágica para ser feliz e manter a saúde do Corpo e da Alma é equilíbrio.

– Consciência, me permita dizer algo para o Corpo? –  pediu a Alma com a voz terna.

– Sim, diga.

– Meu amado Corpo, para que saibas do meu amor, deixo-lhe um poema de Ernesto Cardenal Martínez:

“Ao perder a ti, tu e eu perdemos/ Eu, porque tu eras o que mais amava/ E tu, porque eu era o que te amava mais/ Contudo, de nós dois, tu perdeste mais do que eu/ Porque eu poderei amar a outras como amava a ti/ Mas a ti não te amarão como te amei.”

E os três se abraçaram.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Caos iminente

por Convidado 11 de junho de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

É voz corrente, quase unanimidade, dizendo que está faltando gentileza no mundo. Talvez a explicação mereça estudo mais profundo para entendermos o porquê de testemunhar atitudes de tantas pessoas grosseiras, mal-educadas, arrogantes que apostam todas as suas fichas no poder que, muitas vezes, foi adquirido por apadrinhamento ou por vias nada convencionais. Lamentavelmente falta mais do que conduta gentil – faltam respeito, educação e honestidade.

Também nas organizações o relacionamento é ruim e a confiança anda em baixa. Porém, em minha humilde visão, o que presumo é que grande parte do nosso passado tenha sido assim. Antes, o que definia o poder era a força física e a hierarquia dos grandes reinos – que também se valiam da força para roubar os mais fracos. Depois, a humanidade se educou e alcançou melhoria expressiva. Mas não durou muito.

Vocês devem estar pensando: mas tanta coisa mudou. Sim, os valores mudaram muito, mas as pessoas continuam se valendo da posição que alcançaram e sentindo o “gosto” de dar ordem – eu mando e você obedece – independentemente de saberem menos do que o outro sobre determinado assunto. O que prevalece é o poder e não a autoridade. Mas felizmente todos sabemos que jabuti não sobe em árvore.

Dessa forma, os feitores pós-modernos defendem, na teoria, o trabalho em equipe e proferem palavras falsas de sentimento de time. Isso mesmo. O que se esquecem é de que as atitudes devem ser fieis ao discurso, pelo simples fato de que as pessoas percebem mais a força das ações do que das palavras.

O filósofo iluminista, Denis Diderot, afirmou que “a prosperidade descobre os vícios, e a adversidade, as virtudes”. Entretanto, em meio a tantos problemas, não estamos conseguindo ver nada muito virtuoso. E “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Ora, meus persistentes leitores, sabemos por diversas pesquisas e variadas fontes que a doença do século já é a depressão e que será ainda mais intensa nos próximos anos. Pudera! O que assistimos é o enfrentamento de pessoas, de mulheres contra homens e vice-versa, onde predomina o jogo de interesses que os tornam demasiadamente incoerentes e agindo contra si.

O que pode salvar o mundo é a união e não a ruptura. O que faz um casal feliz é a soma das diferenças, a intercessão e não a competição. O que faz uma nação ser forte é um trabalho com foco e um povo convergente. Mas há forças veladas e oportunistas que desejam o caos, pois agem na surdina, na confusão e na escuridão.

É tão triste constatar que a insensatez humana chega ao ponto de as pessoas se sentirem mais felizes com a derrota dos rivais do que com a sua própria vitória.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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