Os anjos existem?

por Convidado 12 de maio de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti 

Eu nunca acreditei em anjos, tampouco que me protegem por todo o tempo. Mas cresci vendo e ouvindo tantas pessoas falarem do anjo da guarda que resolvi questionar o papel daquele benfeitor. Mas ressalto que em minha busca nunca desrespeitei a crença das pessoas.

Um dia, li o livro do Paulo Coelho, “O Diário de um Mago”, cujas páginas traduzem sua odisseia pelo caminho que leva a Santiago de Compostela. Gostei do livro e puder ver que o escritor fala de anjos e do seu anjo, especificamente. Porém, o que mais me chamou a atenção foi o fato do Paulo ser o escritor de mais sucesso no Brasil e de tantas pessoas dizerem que não gostam de seus livros. Ora, só mesmo tendo um anjo protetor para vender tanto livro para quem diz que não gosta. Confesso que comecei a acreditar em alguma coisa que nos proteja. O problema é que, no meu modelo mental, anjo é um menininho de asas, com cabelos louros e encaracolados que toma conta de marmanjos. Não! É inconcebível para minhas crenças.

O tempo passou… veio a poesia em minha existência e com ela, em Casimiro de Abreu, aprendi que “primavera e mocidade/ irmãs gêmeas, elas são/ vem o inverno/ vem a idade/ uma volta/a outra não”. E, então, no meu entardecer, num dos invernos da minha vida, comecei a compreender o que antes parecia indecifrável, e apurei minha visão para ver o que antes era invisível; tendo compreendido que “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry). E aí, meus caros, pacientes e fieis leitores, falem a verdade: quanto mais nossos olhos vivem, mais nos levam a acreditar em coisas inacreditáveis.

Entendi, depois de um bom tempo, que a vida é circular e que, quando estamos completando a nossa trajetória, ficamos mais perto da criança que fomos e da qual nos distanciamos por um período. E criança vê coisas que só idosos veem. Olha aí a intercessão.

O escritor português José Saramago disse em um discurso, pouco antes de sua morte, que quando estamos próximos de fazer a nossa última viagem, nossa chama – igual à da vela que está para apagar -, cresce, fica forte e depois se finda. Creio que a luz a que Saramago se referiu venha dos anjos que guiam nosso caminho final.

Ainda não atingi esse estágio. Penso, em minha ilusão, que estou vivendo o crepúsculo e não a noite. Mas vá saber. O que percebi em meu entardecer é que enquanto pensar que anjos voam, eu nunca os verei. Eles não se personificam somente como crianças. E não são exclusivos de uma pessoa. Mas eles existem e nos aparecem em momentos difíceis, quando nos sentimos sós e abandonados. Descobri essa verdade assistindo um filme baseado em fato, na qual uma família lutava para salvar a vida de uma filha, uma menina que sofria de uma doença rara. Ela teve tantas pessoas para ajudá-la que a mãe concluiu que anjos estão mais perto do que imaginamos. Não saberia dizer o nome do filme, me esqueci. Mas entendi que cada pessoa que me estende a mão e me possibilita resolver um problema grande ou pequeno – esse é um anjo. Eles são discretos, compreensivos e aparecem quando você está perdido e sem saber o que fazer para solucionar um problema.

Sei que todos que me leem irão entender que anjos existem e que, em algum momento, todos nós, mesmo sendo imperfeitos, podemos ser o anjo que alguém tanto precisa.

Que assim seja!

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Historinha pra boi dormir

por Convidado 5 de abril de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti 

Era uma vez um país de sapos, onde todos viviam tranquilos em seus espaços. Era um enorme brejo, mas com muitas árvores e muito verde. Nos finais de tarde, quando a noite chegava, era aquela cantoria; canções de ninar para sapinho-boi dormir (boi, boi, boi… Boi da cara preta pega este sapinho que tem medo de careta). Em dias chuvosos, as cigarras cantavam sua última canção, e se “ouvia o canto triste da Araponga anunciando que na terra”… iria chover. Havia muitos pássaros cantadores, vagalumes que brincavam de engolir fogo e grilos malabaristas. O talento artístico se sobrepunha ao talento para tarefas e trabalhos mais rotineiros.

No início, os sapos viviam de acordo com suas leis selvagens e chamavam seu torrão natal de Sapolândia. Era um povo-sapo muito “brejeiro”, literalmente falando, e adorava seu espaço, úmido, com muito verde e muita água.

Mas, numa linda manhã de sol, aconteceu uma grande novidade que iria mudar para sempre a vida daqueles habitantes. Sapos de fora chegaram naquele lugar. Foi um verdadeiro pandemônio. Eram diferentes, vestiam roupas estranhas, coaxavam numa linguagem incompreensível para aqueles sapos nativos que falavam tupi-guarani.

Veio então a mudança. E, mesmo, que os sapos mais rebeldes dissessem em suas reuniões secretas – sob o céu risonho e límpido – que sapo de fora não ronca, não foi o que ocorreu. A Sapolândia foi invadida por sapos mais civilizados, e, apesar disso, não demonstraram, em seus costumes, que civilização era sinônimo de educação. Os invasores trouxeram sapos bandidos, oportunistas e golpistas que chafurdaram na lama.

Naquele tempo, vieram reis e rainhas-sapas, rãs e pererecas estrangeiras que fizeram de um lugar brejeiro uma enorme colônia de anfíbios. A Sapolândia, a partir de então, foi governada por príncipes e princesas, mas nunca foi bela como nas historinhas para boi dormir. Os sapos de fora deram um novo nome para o lugar. Nascia então o Brejil. Muitos anos depois, proclamaram a república e elegeram um presidente.

“Mas um dia tudo mudou, a vida se transformou e a nossa canção também ”. Houve revolução militar, comandada por sapos de fora que roncaram forte – americanos -, e anos sombrios dominaram o brejo.

O tempo passou e os cidadãos-sapos do Brejil pregaram a democracia. Porém, por não conhecerem a fundo os preceitos democráticos e, sem conseguirem abandonar a cultura da lama, instituíram a anarquia e meteram as mãos… digo, meteram os pés pelas mãos. Mantiveram o Brejil no lamaçal. Constatou-se que os sapos governantes não haviam evoluído, mas aprenderam a usar terno e gravata para consolidar a postura de poder. As princesas-pererecas, primeiras-damas que se passavam por sapas, também não foram nem um pouco parecidas com as dos contos de fadas e não foram felizes para sempre. E, os sapos oprimidos e sofridos, cantando seu lema de “não desistirem nunca”, continuavam esperando por um salvador da pátria – talvez um Messias que viesse do fundo do poço da Sapolândia.

Apareceram sapos cultos, arrogantes, simples, mal-humorados. Mas numa linda manhã de sol, eis que surge um anfíbio vindo do povo. Era bem tosco, “zuiúdo”, coaxando algo muito parecido com o tupi-guarani. Compunha as características que muitos habitantes do Brejil queriam. O perfil era adequado aos sonhos dos sapinhos da pátria amada, mãe gentil. Teve a adesão dos grilos falantes, muitos com talento artístico, que passaram a pregar liberdade, direitos humanos e falar de diversidade com tanta incoerência que seus discursos de bicho-grilo, ainda agora, não têm nenhuma fidelidade com suas atitudes burguesas.

O sapão da esperança ainda nos apresentou uma sapa-falante, cujo dialeto nunca foi compreendido, pois não tinha nexo.  Chafurdaram na lama. Mas deixaram seguidores que adotaram os três macaquinhos como símbolo – não quero ver, não quero ouvir e não quero falar.

Em algum cantinho do Brejil, alguns sapinhos cantam o hino (Brejo adorado, Entre outros mil, És tu Brejil, Ó Pátria amada!…) e continuam a alimentar a esperança de que um dia serão felizes para sempre.

Mas acho que tudo isso é conversa para boi dormir.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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* por Sérgio Marchetti 

Apesar de toda a evolução tecnológica sobre a qual o homem mergulha de cabeça, deslumbrado com as maravilhas do novo mundo cibernético, ainda assim, será necessário falar em público. Mais do que isso, teremos que falar com propriedade, conhecimento e ótima argumentação.

Como preconizou Aristóteles, (384 a.C. – 322 a.C.) serão essenciais ao discurso o ethos, que apela para a ética, o pathos, que traz sentimento ou emoções, e o logos, que é a própria lógica. Com estes elementos as possibilidades de sucesso tendem a aumentar.

Não será excesso de rigor dizer que em muitas apresentações tem faltado a ética. Alguns profissionais mentem absurdamente e fazem comentários deselegantes. Também presenciamos apresentadores fazendo charme e carregando a voz de maneirismos. Em outros momentos, assistimos a técnicos que dispõem de uma boa pronúncia, de uma base sólida de conhecimento, mas dão a impressão de serem alimentados por algoritmos e de não terem alma – tamanha a distância mantida entre eles e a plateia.

Conheci instrutores de oratória cuja fala tem mais tempo de cacoetes e sons estranhos ao tema do que de palavras que compõe os seus discursos. Em meus tempos de coordenador acadêmico, diretor e professor de faculdade, tive a oportunidade de conhecer excelentes professores, porém, muitos daqueles traziam em suas apresentações vícios que os marcaram eternamente perante os alunos. Sons inadequados, palavras e expressões repetidas e quase cadenciadas os tornavam professores e oradores cansativos. Um caso que ilustra minha observação é do Pelé – atleta do século, melhor jogador do mundo, campeão mundial pela seleção brasileira e pelo Santos – , mas, quando chamado para realizar um comercial, o que exigem dele é que diga “entende?”, por ser o seu vício de linguagem. Ora, o cacoete linguístico parece ser mais forte do que todas as conquistas do rei do futebol.

Os “campeões” do repertório de sons indesejáveis são: né, é, tá, e aquele chiado arrastado de UUU. Mas as dificuldades não param por aí. A lógica apregoada pelo referido filósofo também parece faltar em algumas apresentações. É um tal de começar do fim ou do meio. E o apresentador vai… volta, repete, ratifica, acaba transformando o conteúdo numa mistura de ideias que algumas vezes perdem até o nexo. São os “Odoricos Paraguassus” (que ainda se dizem falsamente que não merecedores de tamanha homenagem). Há algumas pessoas, porém, que se justificam, se dizendo “modernas” e apresentadores e apresentadoras vanguardistas. E, com essa autorrotulação, transformam uma palestra em picadeiro, e devem fazer Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade, os modernistas genuínos, se arrepiarem em seus túmulos.

Ressalto, para que não pairem dúvidas, que sou totalmente favorável aos movimentos de mudança e, obviamente, sei que a arte de se expressar acompanha e até antecipa as transformações. Não é diferente com a evolução linguística. Tudo se transforma o tempo todo, mas tudo deve ter início, meio e fim. Também já tive a oportunidade de informar que me incomoda a forma como alguns palestrantes abordam a plateia. Muitas vezes a prática de interação agride e menospreza algum espectador, quando é solicitado que participe e que suba ao palco e, não raro, para fazer algo que o ridicularize. Estou reiterando meu incômodo para que outras pessoas possam evitar tamanha falha, o que ainda pode lhes custar uma ação na justiça. Lembro aos palestrantes que não temos o direito de “convidar” (intimar) um membro da plateia para fazer qualquer coisa caso aquele não se sinta à vontade. Em alguns episódios, “as vítimas” são submetidas a dancinhas infantis e protagonizam um teatro, cuja comédia gira em torno de um cidadão ou cidadã que não recebeu cachê para fazer papel de palhaço.

Talvez você não esteja preocupado com meus comentários, pelo fato de não realizar palestras ou não ter contato direto com o público. Porém, me compete informar-lhe que processos de seleção, entrevistas, apresentações de projetos e até aquele evento em família irão surgir na sua vida. Não dá para fugir eternamente da sua dificuldade. O domínio das técnicas é o primeiro passo para vencer o medo, a timidez e a insegurança. E saiba que falar em público e comunicar… é só começar.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Sem memória

por Convidado 13 de fevereiro de 2019   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Estamos novamente diante de uma cena de horror. Assistimos ao “repeteco” da tragédia que destacou negativamente a cidade de Mariana para o mundo. Um verdadeiro filme de terror e um atestado de irresponsabilidade e de descaso pela vida humana. Trata-se da famosa tragédia anunciada. Mas, desta vez, a lambança foi maior. Progrediram, inovaram, desgraçaram famílias e transformaram Brumadinho num cemitério de lama. E, como nada é por acaso, a lama talvez passe a ser nosso símbolo nacional, e represente, literalmente, o Brasil – este campeão de corrupção, assassinatos, assaltos, injustiças e tantas outras coisas ruins que infelizmente completam a pintura do quadro brasileiro.

Não vou repetir o que todos já ouviram e viram na mídia. Mas não dá para guardar no peito tanta insensatez e não desabafar sobre o absurdo que estamos testemunhando. Eu não sei como é a dor das famílias que perderam seus entes queridos. Também não saberia nunca avaliar os sentimentos daqueles que perderam e, definitivamente, não encontraram nem os restos mortais dos parentes que jazem sob a lama mal cheirosa, cheia de lixo e restos do que foram um dia a área administrativa e uma pousada.

A lei da causa e do efeito foi violada. O estudo de tendências deve ter sido engavetado. Mas, se por um lado tivemos que experimentar as consequências de uma série de erros, cometidos por quem jamais poderia cometê-los, pudemos, por outro ângulo, ver o trabalho incansável, insalubre e perigoso dos bombeiros que se arrastaram e chafurdaram na lama que sujou novamente o nome do Brasil.

Jornais de todo o mundo noticiaram o feito da Vale e estamparam manchetes dizendo que o Brasil não aprendeu a lição. E, de fato, não aprendeu. É um país sem memória, e essa é a constatação de todos os cidadãos desta terra descoberta por Cabral (não aquele… mas o Pedro Álvarez).

Houve uma grande comoção, inclusive observada em alguns repórteres que cobriram a tragédia. Mas aos poucos virão novos fatos, outros eventos bem mais agradáveis de serem noticiados. E aí, como nossa memória é fraca, vamos esquecendo aos poucos do que houve naquela pequena cidade. Porém, para quem dependia do emprego do marido, da mulher, do filho e de outro parente qualquer, o ocorrido jamais será esquecido. Brumadinho, assim como Mariana, sofreu um duro golpe e entra nos registros da história pela porta dos fundos. Foi vítima de uma invasão assassina que, sem pedir licença ou dar a chance de fuga, destruiu histórias individuais e matou a possibilidade de muitos sonhos se realizarem.

A queda da barragem me lembrou de Pompéia e, tal qual o vulcão daquela cidade, a lama de rejeitos cobriu a todos que estavam no caminho, sem piedade. E, embora tenha ouvido a palavra azar entre tantas vozes, não aceito a tese. Havia possibilidades, havia risco e o acidente era iminente. E, quando acontecesse, todos os trabalhadores seriam engolidos pela lama. E, como vimos e ouvimos, tudo falhou. Erros primários e inconcebíveis para uma empresa daquele porte.

Para quem está vivo, resta a esperança de um novo começo, com um novo governo que possa ser justo e honesto, e que inspire os brasileiros a seguirem caminhos retos, sem jeitinho e sem vantagens. Chega de lama, chega de mortes violentas, chega de lucro a qualquer custo e basta de favorecimentos…

“Já choramos muito/ Muitos se perderam no caminho/ Mesmo assim não custa inventar/ Uma nova canção/ Que venha nos trazer/ Sol de primavera…”( Beto Guedes).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Amigo virtual

por Convidado 7 de dezembro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

As novas maneiras de vida nos trouxeram conforto e uma rápida comunicação que salva vidas e nos permite saber de todas as notícias importantes em tempo real. A tecnologia, os humanoides, cuja alma se chama algoritmo, vieram para ficar e dominar.

Tenho amigos virtuais que me enviam de cinco a dez mensagens por dia. Algumas são informações importantes, mas a maioria é bobagem mesmo.

Há 25 anos conheci um desses mensageiros. Fomos colegas na diretoria de uma entidade de classe e ficamos muito amigos. Depois trabalhamos como professores e consultores numa mesma empresa. Nos últimos cinco anos nos tornamos mais virtuais e menos presenciais. Porém não havia passado um dia sequer sem uma mensagem que me fizesse rir. Confesso que algumas eram impróprias para menores de 60 anos.

Mas houve um dia em que as mensagens não chegaram. Uma semana depois, liguei para meu amigo. Ele havia se submetido a uma cirurgia meio às pressas. Felizmente recuperou-se rapidamente e depois de uma semana as mensagens voltaram.

Em todos os anos de convivência observei que não havia quem ficasse perto dele sem rir.  Sua espirituosidade sempre foi uma característica marcante. Os alunos o adoravam por seu jeito expansivo, inteligente e irreverente. Nas palestras não era diferente. A alegria era contagiante. Mas suas pernas, que um dia fizeram dele um craque no futebol, se desgastaram e geraram cirurgias, licenças e culminaram com a aposentadoria. Porém, nada conseguiu tirar sua alegria e humor.

A cada encontro que mantínhamos, eu saia revigorado de tanto rir. Seus exemplos de força e de humor me fizeram ser uma pessoa mais forte. “Não posso reclamar de nada” – pensava.

Um tempo depois de nossa última prosa as mensagens pararam novamente. Fiquei preocupado. Esperei uma semana. Liguei para ele. Atendeu o telefone rindo e dizendo que estava dando um passeio e que precisava sair de casa. E, quando indaguei sobre o lugar, disse-me que estava num hospital só para mudar a rotina.

Três dias após a nossa conversa as mensagens voltaram com toda força. E assim, em tempos tecnológicos, continuamos nossos contatos. E, como temos dito, a evolução da tecnologia nos põe em contato com pessoas distantes (mesmo nos afastando dos que estão próximos) e nos mantém conectados e informados sobre tudo simultaneamente.

O tempo passou e houve mais interrupções de mensagens e, quando eu ligava, ele me informava, com incrível senso de humor, sobre suas doenças novas como um “trombozinho” que veio para não alterar seu hábito de visitar hospitais.

Recentemente marcamos um encontro para um chopp e minha esposa quis me acompanhar para revê-lo. Rimos muito. Foi uma terapia muito proveitosa e ficamos muito felizes por  saber que o nosso amigo estava com planos de voltar a trabalhar.

E, como seria natural, as mensagens diminuíram. Imaginei que o trabalho estivesse intenso. Comentei com minha esposa que o homem deveria estar ocupado e que eu havia sentido falta das baboseiras dele.

Um mês depois cobrei: “pode trabalhar, mas dê noticias”. Mas não houve manifestação. Liguei em seu telefone e não obtive contato. Pesquisei em seu facebook e vi fotos recentes que me tranquilizaram, mas decidi pesquisar em outros amigos e conclui que, apesar de toda tecnologia, é preciso que as pessoas trabalhem a informação para que ela chegue ao destinatário.

Descobri que não receberia mais mensagens. Essa foi a pior piada, a mais sem graça que meu amigo me contou. Ele estava trabalhando, mas em outro plano, fazendo certamente muitas pessoas rirem. Partiu como uma estrela cadente e poucas pessoas viram.

Estamos sentindo sua falta, amigo, agora espiritual. Descanse em paz, Wilson.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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De olhos abertos

por Convidado 16 de novembro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Uma senhora fazia, calmamente, seu croché, sentada em sua poltrona numa sala simples quando, com muita naturalidade, pegou seu telefone e chamou a polícia.

Minutos depois, seu filho foi preso por assalto à mão armada.

Muitos vizinhos ficaram revoltados. Vieram críticas e rótulos de mulher fria, desumana, malvada. Mas a atitude daquela mulher deveria ser mais bem analisada antes de acusarem-na de perversa. Que pensamentos e sentimentos passavam por sua cabeça? Que razão teria para mandar prender seu próprio filho (a palavra “próprio” não precisava, mas serve para dar mais emoção ao texto).

Vamos tentar entendê-la. Ao ligar para a polícia estava no auge de seu desespero. O que ninguém sabia – nem queria saber – é que por trás de qualquer atitude há sempre um contexto. Não estou justificando erros, pelo contrário, estou reforçando a necessidade de avaliar contextos, de lançar um olhar sistêmico sobre acontecimentos e, assim, percebendo os detalhes e o enredo, compreender o desenlace dos fatos.

Aquela mãe já havia tentado de tudo. Por causa do filho perdeu saúde, terreno, carro e outros bens. O rapaz foi sempre um bandido. Teve emprego bom, todo o incentivo para estudar e ser uma pessoa de bem. Nada valeu. Era um ladrão, estelionatário e com suspeitas de homicídio.

Ouvi a história daquela mulher e, depois de conhecer toda a trama, lhe dei toda razão, embora outros tantos a crucificassem.

Bem, meus pacientes leitores, há neste episódio duas correntes de interpretação. Resumindo: temos os que são contra e os que são a favor da decisão da sofrida mãe. Mas o que desejo gerar são reflexões sobre nossas atitudes perante o mundo. Isso implica em usar o cérebro e ativar a função cognitiva que anda com ferrugem desde a descoberta do smartphone.

Há um bom tempo não decido nada sem antes entender o todo. Sugiro que façam o mesmo. Não julguem, não demitam, não passem a “fofoca” para frente antes de analisarem o contexto. Cuidado com as justificativas – muitas delas passam pela filosofia, falsamente atribuída a Maquiavel, de que os “fins justificam os meios”.  Nem sempre!

Em minhas aulas sobre relação humana e comunicação demonstro que tudo é circunstancial. A natureza se incumbiu de fazer tudo conectado. Uma folha não cai de uma árvore por acaso. Por essa razão é que é preciso ter visão global. Aconselho, se aceitarem, que não sejam imediatistas. A pressa tem gerado prejuízos incalculáveis. Também não devem agir por impulso. Reflitam, entendam e esclareçam os fatos. Em princípio, eu também atiraria pedras sobre a mãe desalmada. Mas tem um momento em que nos cansamos de aceitar o erro. Além da preocupação com a sociedade, ela quis proteger o filho de um confronto fatal. Estou com ela. Quando uma parte não tem limites, a outra deve tomar atitudes drásticas. Chega de tentar\ Dissimular\E disfarçar\E esconder\ O que não dá mais pra ocultar\E eu não quero mais calar…” (Gonzaguinha)

É imperativo agir.

“Uma visão sem ação não passa de um sonho. Ação sem visão é só um passatempo. Mas uma visão com ação pode mudar o mundo”. (Joel Barker).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Contador de histórias

por Convidado 12 de outubro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Quando era criança, enquanto meus amigos e irmãos vislumbravam um futuro como médicos, engenheiros, advogados, eu dizia que seria contador de histórias. Tal aptidão deixava meu pai desesperançoso, pois o pragmatismo era, como ainda é, sua doutrina.

Um tio emprestado, também não satisfeito com minha opção, disse-me que contador de histórias não era profissão. Era coisa de professora primária. Eu deveria pensar melhor e ser um doutor “adevogado”. De fato, lembro-me – e com saudade – que nos antigos grupos escolares, obrigatoriamente, as professoras (ainda não eram tias) nos contavam histórias. Eu adorava ouvi-las.

Mas as histórias não se resumiam às aulas. Meus avós contavam histórias melhores ainda. Nunca vou me esquecer de que minha bisavó italiana perdeu um filho durante sua viagem de navio para o Brasil. Segundo narrava meu avô, filho dela, em apenas 15 dias minha bisavó branqueou todos os fios de cabelo. A perda fora grande demais. De histórias tristes às mais amenas todas sempre me agradaram e ainda agradam. Os amigos de meu irmão atribuíam a ele uma história muita curiosa: quando ele era muito pequeno ganhou um relógio Lanco de nosso pai. Posteriormente, esse irmão foi passar férias na fazenda de nosso avô e, por lá, para sua tristeza, acabou perdendo o relógio. O tempo passou. Quinze anos depois meu irmão caminhava pela mata quando decidiu parar para descansar sobre o tronco de uma frondosa árvore. O silêncio era total. E foi justamente naquele momento que, de olhos fechados, ouvindo o som do silêncio, meu irmão captou um ruído que lembrava o batimento cardíaco. Pasmem, meus perseverantes leitores. Era o batido do relógio perdido. Sim, ele era automático e com o crescimento da árvore o milagroso relógio nunca deixou de funcionar. “É verdade Terta?”

Mudando de contexto e de ambiente, as empresas estão redescobrindo a importância de criar histórias para que seus stakeholders e clientes possam sentir a essência que vem sendo perdida num mundo tecnológico, frio, calculista e sem tempo para entender ou exercitar a visão sistêmica.  A empresa fabricante do relógio Lanco poderia explorar a história para proclamar sua qualidade e durabilidade.

Segundo a revista Exame, uma pesquisa recente feita pela Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD) com 159 executivos, indicou que 45% conhecem aplicações de storytelling no mundo corporativo; 27% afirmaram que sua empresa a utiliza em alguma área e 22%  afirmaram que a praticam na organização.

O crescimento do fator storytelling é iminente, a exemplo de empresas como Ritz-Carlton Hotel, Sodexo Health Care, Hospital Albert Einstein entre tantas outras que desenvolveram histórias e obtiveram resultados excelentes.

Não me tornei engenheiro, nem médico e muito menos advogado. Tampouco  consegui ser um bom contador de histórias. Mas continuo adorando ouvi-las e acreditando que são formas infalíveis de envolvimento e aprendizado, seja nas empresas ou nas escolas. E conforme Cícero, a história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida e anunciadora dos tempos antigos.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Nós, mineiros

por Convidado 9 de setembro de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Para quem viaja por este Brasil afora ser mineiro é quase uma marca. Basta chegar a algum lugar e já tem um engraçadinho falando “uai”, “sô”, “trem” e outras palavrinhas mais. Pior ainda é quando imitam nosso sotaque. Aí sim, chega a doer, pois quando nos imitam vejo e me sinto como a imagem de Mazzaropi em sua personagem “Jeca Tatu”, criado pelo grande Monteiro Lobato em sua obra “Urupês”. O que muita gente não sabe é que o escritor retratou o homem da zona rural paulista. Mas, ao que parece, o rótulo de capiau é de “nóis meso”. Será por quê? “Vê se tem base uma coisdessa”? “Fiquemo quetinho”, sentado no “noscanto”, “intirtido” com “noscoisinha”, “comeno” um queijinho sem “mexê” com ninguém. E os “escurmungado” debochando de “nóis”?. Ara! O minero come “queto”, “enconomiza” umas letra e “pãe” “n” e diminutivo adonde num tem precisão. Troca o “l” pelo “r” para ficar mais “carmo”. “Arreda” tudo, e ainda “garra” no trânsito e no trabalho. Além disso, quando nos cumprimentamos com um “- como vai?” o mineirinho da gema responde; “- tô correndo atrás”.

Por isso tem tanto poema de mineiro. “Povinho veiaco, mais é carinhoso e anda em riba do muro só pra num contrariá os outros.”

Como escreveu Batista Queiroz:

“Ser mineiro

É fingir que não sabe aquilo que sabe.

É falar pouco e escutar muito.

É passar por bobo e ser inteligente.

É vender queijos e possuir bancos…”

O danado é desconfiado, leva tempo para tomar uma decisão. Não compra lançamento pois espera para ver se vai dar certo. Acha os consultores empresariais enganadores e gosta de fazer curso em São Paulo.

Para vocês terem ideia, caro leitores, certa vez lancei dois cursos de oratória quase que simultaneamente: um em Belo Horizonte e outro em São Paulo. O curso de Belo Horizonte teve em torno de 15 matriculados. Já o da capital paulista mais que o dobro. Mas não foi só isso que me chamou a atenção. No curso paulista havia oito belo-horizontinos. Não é curioso? Sabem o que me responderam quando indaguei o porquê de optarem por realizar o curso fora? Disseram que curso de São Paulo é melhor do que o de Minas Gerais. Êta povinho custoso!

Outra característica – essa reclamada por colegas de outros estados – está nos taxistas da nossa capital que, categoricamente, não ligam o ar-condicionado sem que se peça. Sobre o trânsito, dizem que nós mineiros somos competitivos e que não deixamos os automóveis de terceiros trocarem de pista. Nas rodovias o mineiro acelera seu carro para dificultar ou impedir que o outro o ultrapasse.

Mas há esperança para nós. Em meu trabalho como personal consultant (consultor, orientador individual e personalizado em oratória, comunicação e carreira), que realizo há vinte anos, vejo que os mineiros estão saindo da toca e procurando orientação, haja vista o crescimento desse trabalho. Concluo que, se deu certo em Minas, definitivamente o coach e o mentor vieram para ficar.

Lembro a todos que sou mineiro, mas tenho repetido em todas as oportunidades que, neste novo mundo em transformação, não há tempo para desconfiarmos ou para pensarmos muito. Tudo acontece com uma rapidez jamais testemunhada por nós. Não podemos mais ser reativos. Temos que antecipar, inovar e sair na frente.

Acreditam?

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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Um “ser” professor

por Convidado 10 de agosto de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Segundo pesquisa divulgada em julho pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) o Brasil está entre os países que tem as salas de aula mais cheias, ou seja, mais alunos por professores. A mesma pesquisa informa que somente 2,4% dos alunos envolvidos na pesquisa desejam ser professores em escolas de ensino básico e médio.

Triste realidade. Mas me espantaria se fosse diferente. Com escolas públicas sucateadas, alunos sem os princípios mais básicos de educação, advindos de famílias que não têm a menor noção da importância do conhecimento, o resultado não seria outro. O fato é que o “saber” não é valor na cultura brasileira. Um cientista de uma universidade federal ganha menos do que um jogador de futebol iniciante.

Diante de uma realidade como a nossa é bem melhor tentar ser cantor, jogador de futebol e, até, ser diarista em casa de família, pois, qualquer que seja o ganho, é maior do que o de um professor de ensino básico ou médio. É sim. O salário desses “ensinantes” gira em torno de R$2.200,00 por mês. E ainda, para completar, convivem com dificuldades conjunturais como falta de recursos, estrutura, material didático, equipamentos obsoletos e estragados, ausência de laboratórios etc. E as autoridades, para justificarem sua má-fé, dizem que são despreparados para exercerem suas funções. Mas a culpa é de quem? Como um profissional que ganha dois salários mínimos pode fazer cursos de pós-graduação, participar de congressos, comprar livros? Isso sem dizer que deveriam receber aulas de defesa pessoal. Sim. São alvos de violência de alunos insatisfeitos. Bem, meus caros e persistentes leitores, esse é um pedacinho do quadro caótico de nossa educação.

Mas, mudemos de cena. Convenhamos, estudar para quê? Para ser jogador de futebol precisa saber escrever? Para ser político precisa ter diploma? Parece que muita gente já chegou à conclusão de que vivemos num país onde ética, honestidade, cultura e educação não têm nenhum valor. Aqui, nesta terra descoberta por Cabral, os valores são outros. Um amigo, fazendo um trabalho com jovens carentes e incentivando-os a estudar e buscar profissões como advogados, engenheiros etc ouviu a seguinte pergunta: “mas isso dá dinheiro?”. O jovem não está errado. Vivemos, principalmente no Brasil, um capitalismo cafajeste, pois nosso principal objetivo é obter lucro. E, acrescente-se, “a qualquer custo”.

Lembremos de que o tempo dos mártires já passou. Ninguém admira heróis pobres. Os millennials e a geração Z são mais frios, pragmáticos, egocêntricos e buscam uma forma de hedonismo pós-moderno, com muita tecnologia, sexo e rocknroll. Nós, passageiros de um trem antigo que ouvimos Taiguara, temos um pé no passado e outro no presente. E podemos cantar: “Lá onde eu estive, o sonho acabou”. E, em outra canção: “Hoje/ Trago em meu corpo as marcas do meu tempo/… Ah, sorte/ Eu não queria a juventude assim perdida/ Eu não queria andar morrendo pela vida…”

Enfim, é doloroso para grande parcela da população amadurecida encarar os novos valores que, muitas vezes, desprezam a fidelidade, a linguagem respeitosa e culta e, até mesmo, a honestidade.

Ser professor nestes novos tempos não é fácil. Mesmo em cursos de pós-graduação e em palestras nos deparamos com um público composto por boa parte de pessoas mal-educadas e desrespeitosas que, a despeito do trabalho do outro, insistem em utilizar seus smartphones, chegando a falar em voz alta, como se estivessem em suas casas.

Já enfatizei, em oportunidades anteriores, que a profissão de professor já foi motivo de orgulho. Não é mais. Hoje é motivo de deboche, sinônimo de pobreza e, por ironia, de alguém que sabe pouco. Duvidam? Basta olhar para dentro de suas próprias casas e ver quem deseja que o filho seja professor.

Por isso, ressalto que um “ser” professor é um ser especial. É um missionário. E para cumprir sua missão é necessário ter conhecimento, empatia, humildade, amor ao próximo, resiliência, saber doar, e ter consciência de que “Mestre não é aquele que sempre ensina, mas aquele que de repente aprende”. (G.R).

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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O filme da minha vida

por Convidado 9 de julho de 2018   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Outro dia assisti ao filme mais recente de Selton Melo, “O Filme da Minha Vida”, baseado no romance “Um Pai de Cinema”, do chileno Antonio Skármeta. O enredo me atraiu muito e, mesmo não entendendo nada de cinema, gostei das interpretações desde os protagonistas Johnny Massaro (Tony), Ondina Clais (Sofia) do francês Vincent Cassel (Nicolas), Selton Mello (Paco), Bia Arantes (Petra) e Bruna Linzmeyer (Luna), além dos meninos e, principalmente, de Rolando Boldrin, que infelizmente aparece pouco na tela, mas com carisma e essência que valorizam o filme. É um condutor de trem e de sonhos.

Tony adorava o filme “Rio Vermelho”, com John Wayne e Montgomery Clift nos papéis principais. Chega a ser emocionante seu olhar para a tela. Não. Não se preocupem. Fiquem tranquilos. Não vou narrar o filme para não tirar a graça de quem deseja assisti-lo. Mas como diz Rolando Boldrin: uma conversa leva a outra. Então, o filme e esta conversa me levaram a pensar também no filme da minha vida.

Antes, devo dizer que nada era mais belo do que os filmes de Tarzan nas matinês de domingo, em minha Barbacena, quando o Concerto Nº 1 de Tchaikovsky enriquecia nossos ouvidos e nos preparava para a sessão e o apagar das luzes. Para mim, a descoberta do cinema foi um dos eventos mais fascinantes que já vivi. Também me apaixonei por “Sansão e Dalila” e me revoltei com a morte dele. E, embora fosse uma criança, convenhamos, as duas atrizes, Angela Lansbury e Hedy Lamarr eram maravilhosas. Talvez, na minha visão, Hedy Lamarr tenha sido a mais bela atriz da história.

Não vou citar todos os filmes que preencheram minha vida, pois adoro uma película e muitas delas estão passando em minhas lembranças neste momento. Destaco o grandioso (e longo) “E o vento levou”. Um filme de Victor Fleming e George Cukor com Vivien Leigh, Clark Gable, Leslie Howard, Olivia de Havilland. Construído em 1939 e lançado em 1940, com duração de 3horas e 58 minutos; literalmente um filmão. Um só filme com três gêneros: guerra, romance e drama. Foi peculiar, pois revolucionou a essência dos filmes da época. O herói era um aventureiro, a heroína uma moça que flertava com vários rapazes, mas que desejava mesmo era Ashley (Leslie Howard), um homem comprometido. Bem, no final não há o happy end, o casal de protagonistas não fica junto, conforme era de praxe na maioria das produções daquele tempo.

Mas o filme da minha vida foi “Romeu e Julieta”. Um filme dirigido por Franco Zeffirrelli e estrelado por Leonard Whiting (Romeu Montecchio) e Olivia Hussey (Julieta Capuleto). Os diálogos rimados, o vocabulário rico, a elegância da produção e a maravilhosa música “A Time for us” que penetrava o fundo de minha alma e fazia meus olhos verterem lágrimas, enquanto seguia o cortejo fúnebre de Romeu e Julieta. Eu, menino sonhador que era, me identifiquei com o casal e com a intensidade daquele amor, sem saber que, até no filme, tanta pureza e tanto amor seriam impossíveis de uma realização.

“Romeu e Julieta”, de Franco Zeffirelli.

Que saudades do Cine Acaiaca, de Romeu, de Julieta, da minha infância, dos amigos, dos meus sonhos de menino…

De repente, me dou conta de que acaba de passar um filme em minha memória – talvez o verdadeiro filme da minha vida.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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