Curtas e Curtinhas

por Luis Borges,  12 de setembro de 2022   Curtas e curtinhas

Setembro amarelo para prevenir o suicídio

Ocorreu em 10 de setembro o dia mundial da prevenção ao suicídio, tendo como referência à memória do jovem estadunidense Mike Emme, que tirou sua própria vida em 1994. Durante todo o mês, especialmente em torno do dia 10, diversos países estabelecem ações de conscientização e prevenção sobre o tema. No Brasil, desde 2015 são realizadas as campanhas do Setembro Amarelo.

O tema é tabu, incômodo e poderia ser muito mais divulgado, mas é um grande problema que ainda precisa de muitos esforços para ser resolvido plenamente. Não adianta simplesmente nega-lo ou escondê-lo.

A saúde mental exige atenção e cuidados permanentes em todos os meses subsequentes ao setembro amarelo. Fiquemos atentos aos sinais que são emitidos.

 

Abstenção nas eleições

Faltando 20 dias para as eleições de 2 de outubro, vale lembrar que o voto no Brasil é obrigatório, mas deveria ser um direito e não um dever. É importante lembrar que a abstenção cresceu nos últimos pleitos eleitorais e chegou a 23, 14% no primeiro turno de 2018 segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral – TSE.

As pesquisas de intenções de votos para as próximas eleições não têm dado destaque para quem quer se abster de votar – deveria ser a primeira pergunta. Outro aspecto da regra do jogo é que o voto é optativo para quem tem idade entre 16 e 18 anos ou acima de 70.

Vamos conferir o índice de abstenção e também o de votos nulos e brancos (não validos). A soma dessas três modalidades constitui a alienação eleitoral e retrata o nível de interesse do eleitor em relação à eleição. Ainda segundo o TSE, 156 milhões de eleitores estão aptos a votar esse ano.

 

Salários congelados

Os salários dos professores e funcionários técnico-administrativos das Universidades Federais e Institutos/Centros Federais de Ensino Tecnológico estão sem reajuste desde 2015. De lá para cá (agosto/2022), a defasagem chegou à 57,37% segundo os cálculos do IPCA do IBGE.

Já os servidores do Supremo Tribunal Federal (STF), a começar pelos ministros, tiveram reajuste de 16,38% aprovado no final de 2018 e agora, nesse final de ano, terão um novo reajuste de 18%, tudo para repor as perdas inflacionárias. Acontece que o dinheiro vem do mesmo caixa formado pela mesma e grande carga tributária, enquanto os três poderes são harmônicos e independentes.

 

Os Cem anos da história do rádio no Brasil

Oficialmente, o rádio nasceu no Brasil no dia 7 de setembro de 1922, quando se comemorava os cem anos da Independência do país. A inauguração da radiotelefonia brasileira aconteceu em transmissão à distância e sem fios, com a fala do presidente da república, Epitácio Pessoa.

O médico Roquette Pinto, que pesquisava a radioeletricidade para fins fisiológicos, acompanhava tudo e, entusiasmado com as transmissões, convenceu a Academia Brasileira de Ciências a patrocinar a criação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que viria a ser a PRA-2.

Entretanto, a rádio só começou a operar em 30 de abril de 1923, com um transmissor doado pela Casa Pekan, de Buenos Aires, instalado na Escola Politécnica, na então capital federal.

A história do rádio passou por muitos processos de mudanças e de reinvenção ao longo desses cem anos até chegar aos tempos digitais de hoje, com as suas marcantes características para atender bem aos seus ouvintes.

Vale lembrar que em Belo Horizonte a Rádio Inconfidência foi fundada em 1936, há 86 anos e a Rádio Itatiaia nasceu em 1952 , há 70 anos.

 

Crescem os saques nas contas de poupanças

O Banco Central do Brasil (BC) informou que, de janeiro a agosto de 2022, os saques nas contas de poupança superaram os depósitos em R$ 85 bilhões, dos quais R$ 22 bilhões ocorreram em agosto.

Também neste mês, o saldo total da poupança ficou abaixo de R$ 1 Trilhão chegando a R$ 991,8 bilhões,  fato que não ocorria desde agosto de 2020, no auge da pandemia sem as doses de vacinas.

Entre as causas do aumento das retiradas estão a alta inflação, a começar pelos alimentos, o crescimento do endividamento das famílias/indivíduos e a menor remuneração das contas diante da elevada taxa de juros básicos (Selic a 13,75% ao ano). Alguns analistas também lembram que muitos usuários de contas de poupanças acabam por utilizá-las como conta corrente.

É o que temos para o momento!

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Curtas e Curtinhas

por Luis Borges,  5 de setembro de 2022   Curtas e curtinhas

Doações em queda livre

Um levantamento feito pela Central Única das Favelas – CUFA mostrou que as doações caíram 80% em cinco mil favelas em relação a 2020.

Já para a Ação da Cidadania, fica claro que as empresas não mantiveram o volume de contribuições do começo da pandemia. No ano passado, as doações de pessoas jurídicas representaram quase 80% dos recursos da organização.

Com a redução das contribuições, a Ação arrecadou até julho deste ano R$ 10 milhões. Em igual período do ano passado, o valor chegou a R$ 60 milhões.

Enquanto cai a efetividade da solidariedade, 33 milhões de pessoas passam fome diariamente no Brasil – estão em insegurança alimentar grave – conforme mostra o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19. Quanto pior, pior mesmo, pois a fome tem pressa e não pode esperar.

Despenca número de jovens no trabalho doméstico

De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios -Pnad Contínua do IBGE, em uma década, o número de brasileiros de 14 a 29 anos exercendo algum tipo de trabalho doméstico formal ou informal, caiu 35,1%.

Esse contingente de trabalhadores somava 1,308 milhão no primeiro trimestre de 2012, primeiro ano da pesquisa. Agora são 849 mil. Há dez anos, eles eram 4,7% do total da população ocupada nessa faixa etária e agora são 3,4%.

No mesmo intervalo de tempo, o trabalho doméstico praticamente se manteve estável entre os maiores de 30 anos, que eram 4,647 milhões há dez anos e passaram para 4,759 milhões no fim do primeiro trimestre de 2022 , alta de 2,4% no período.

Dá para imaginar como estará o mercado de trabalho doméstico em 2032?

O Horário eleitoral no rádio e na TV é gratuito?

O horário eleitoral gratuito no rádio e TV, começou no dia 26 de agosto e ficará no ar até 29 de setembro. O objetivo é que esse espaço seja mais um meio para que os candidatos mostrem aos eleitores as ideias, propostas e planos que nortearão seus mandatos.

Entretanto, o horário não pode ser chamado de gratuito, pois só nesse ano as emissoras de rádio e TV terão isenção de tributos estimada em R$ 737 milhões para compensar o uso do tempo. Trata-se de mais um tipo de renúncia fiscal que pode ser somada aos R$ 4,9 bilhões do fundo eleitoral nesse ano e aos R$ 942 milhões do fundo partidário distribuídos em 2021 (nesse ano já foram repassados R$ 550 milhões).

Enquanto isso, os recursos federais para a merenda escolar estão sem correção desde 2017 e a defasagem até julho desse ano chegou a 34,26%, medida pelo IPCA do IBGE.

Aniversário da nota de R$ 200

Quem fez aniversário no dia 2 de setembro foi a nota de R$ 200, que completou dois anos de lançamento. Contendo a estampa do lobo-guará, ela já perdeu nesse período de inflação alta cerca de 19,6% do seu valor, ou seja, ela hoje equivale a R$ 160,80.

Ela tem ares de raridade e apenas uma em cada quatro cédulas circula no mercado, segundo especialistas do setor. Eles explicam que o sumiço da nota de R$ 200 acontece porque cada vez mais pessoas armazenam grandes quantidades da cédula em casa. A prática, chamada de “entesouramento”, não é ilícita, mas pode facilitar crimes como evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Outra hipótese é que a popularidade do Pix tenha levado menos consumidores a usarem dinheiro em espécie.

Simples assim!

Telemarketing quer melhorar imagem

O Ministério da Justiça suspendeu 180 empresas, em julho, pela prática de telemarketing abusivo. Elas estão proibidas de fazer ligações para oferecer bens e serviços a clientes que não tenham consentido o contato.

O sindicato que representa o setor de telemarketing em São Paulo – Sintelmark, lançou a campanha “Comunicação + Assertiva” para tentar melhorar a imagem do seguimento. A ação visa estimular as empresas a adotar práticas de autorregulação, para melhorar a comunicação com o consumidor final.

A entidade sugere que as empresas de contact center adotem o código de ética definido pelo Probare (Programa Brasileiro de Autorregulamentação do Setor de Relacionamento), que certifica as empresas com boas práticas.

O sindicato argumenta que a suspensão fragiliza os sistemas de atendimento aos consumidores e coloca empregos em risco. O setor de relacionamentos emprega cerca de 1,5 milhão de pessoas no Brasil, dos quais cerca de 400 mil estão no estado de São Paulo.

Será que podemos acreditar em mudanças só com essa campanha?

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O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE – divulgou o resultado das negociações salariais das categorias de trabalhadores sob seu acompanhamento, com data-base em julho de 2022. O resumo das negociações mostrou que 47,3% das categorias envolvidas teve reajuste abaixo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor – INPC dos últimos 12 meses, que ficou em 10,12%.  Por outro lado, em 31,8% dos acordos o reajuste ficou acima do INPC e outros 20,8% fecharam o acordo com a reposição integral do índice.

A Inflação, por si só, causa perdas ao poder aquisitivo e elas se consolidam quando não há reposição integral dos índices nas negociações salariais. Mas, independentemente do tamanho do reajuste, o que fica é a certeza do aumento da carga tributária devido à não correção da tabela do Imposto de Renda – IR, congelada desde 2015. Na prática, uma parte do que seria o novo poder aquisitivo acaba sendo engolida sem a correção do IR.

De 2015 para cá, até julho, a defasagem medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA do IBGE ficou em 57,94%.

Se olharmos de 2019 até julho de 2022, veremos que a defasagem é de 25,71%. Quem quiser conferir a defasagem de 1996 até julho de 2022 encontrará um valor em torno de 142% segundo o Sindifisco Nacional – Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil.

Na campanha eleitoral para presidente da república, em 2018, o candidato eleito prometeu isentar do IR os ganhos mensais de quem recebe até cinco salários mínimos, atualmente equivalentes a R$ 6.160,00. Entretanto, tudo continua limitado aos mesmos R$ 1.903,99 que estão em vigor desde 2015.

No ano passado, o Congresso Nacional constituído pelos 513 deputados federais e 81 senadores jogaram para a plateia um balão de ensaio tentando uma pequena correção da tabela como parte da reforma tributária, mas está tudo parado no Senado, a casa revisora de leis, até hoje. Será que algo acontecerá até o fim do ano eleitoral?

Aliás, hoje, a 31 dias das eleições para a presidência da república, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, muitos candidatos estão falando em correção da tabela do IR com a isenção do imposto para os ganhos até 5 salários mínimos mensais. Será? Afinal de contas, queiramos ou não, o fato é que lá se vão quase 8 anos de congelamento da tabela do IR e tudo ficou por isso mesmo apesar das perdas do poder aquisitivo e do aumento da carga tributária. Até quando será possível suportar isso?

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Lázara Borges partiu sob aplausos

por Luis Borges,  15 de agosto de 2022   Pensata

Aconteceu que às 11:02 do dia 5 de agosto, uma sexta-feira, o espírito deixou o corpo de Lázara Barreto Borges, minha mãe, e partiu para outro plano espiritual, onde já está bem acolhido.

Mesmo para quem tem clareza sobre a finitude da vida e a opção pelos cuidados paliativos em contraposição a obsessão terapêutica pela cura diante do sabidamente incurável, a chegada do momento final e dos primeiros dias após o desenlace mexe bem com o nosso eixo. Aí é só o tempo que passará para dissipar a dor, que será transformada em saudades e lembranças, boas ou não, de tudo o que foi vivido.

O ritual do velório do corpo teve expressiva presença das pessoas de seu convívio cotidiano ao longo dos 79 anos em que morou em Araxá. Marcante também foram a duração do velório no modelo reduzido – 4 horas-, herança dos tempos do auge da pandemia da Covid-19, a cerimônia de encomendação da alma feita pelo diácono Valtinho e os aplausos à Lazinha no momento do fechamento da urna mortuária.

Mas o que quero relembrar e registrar aqui são alguns fatos que marcaram muito a passagem da Lazinha pela terra.

O primeiro deles é que ela era quase uma unanimidade nos ambientes em que circulava, ou seja, tinha grande aceitação. Era marcante o seu jeito doce de ser, o rosto sorridente, o batom vermelho nos lábios e a grande capacidade de ouvir a todos. Sentia-se confortável e elegante com os tipos de roupas e complementos que gostava de usar. Ela dizia que ficava chiquérrima.

Interessante lembrar a sua religiosidade, sua devoção à Nossa senhora da abadia e a Santa Luzia além da necessidade de rezar para as almas antes de dormir. Ela dizia que se não fizesse isso não teria um sono tranquilo.

Gostava de ler o jornal Correio de Araxá, do qual foi a primeira assinante, e de revistas que abordavam temas ligados à televisão, principalmente das novelas das 6, das 7 e das 9 da noite.

Lazinha também gostava muito da mídia rádio e foi com ela que comecei a ouvir, ainda bem criança. Em Araxá, ela sempre ouvia a rádio Imbiara e, quando se mudou para Belo Horizonte, onde viveu seus últimos 10 anos, ouvia alguns programas da rádio Itatiaia.

Também gostava muito de conversar, de se informar sobre os parentes e amigos. Seu time de futebol era o Galo.

Já na arte culinária, estão marcados para sempre o pé de moleque da Lazinha, feito com o amendoim moído, o arroz doce, a queijadinha, o doce de mamão e de moranga madura, o pão de queijo, a língua de boi, o frango ao molho e o cafezinho especial de todas as tardes.

Meu espaço está chegando ao fim, mas infindáveis são as lembranças e recordações que eternizam a marcante presença da sempre querida Lazinha Borges, uma grande mãe.

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Partindo da premissa de que “a política é a arte do possível” nas relações político partidárias, onde são intensas as negociações entre suas tendências e grupos, bem como as alianças com outros partidos federados ou não, fiz uma transposição para a política no convívio familiar. Pensei no grande e complexo desafio na arte de viver nesse meio que é uma organização de base na sociedade ampla em que vivemos. Foi aí que se inseriu um caso acontecido no último dia de julho no reencontro de parte de uma família de Belo Horizonte.

O fato é que essa família composta por 9 irmãos entrou no período inicial da pandemia da covid-19 rachada pela polarização política. De lá para cá, dois irmãos se finaram devido a causas não-relacionadas diretamente com o vírus, cuja disseminação ainda se combate até o momento com diversas medidas de saúde pública. A medida propondo o distanciamento social veio em boa hora para ajudar a manter cada um em seu canto. Entretanto, ao longo da pandemia a guerra da comunicação familiar prosseguiu com alguns momentos tensos pelo grupo de WhatsApp da família que, aliás, já perdeu a maior parte de seus participantes.

Como ninguém é de ferro e os seres humanos são gregários, uma sobrinha propôs um almoço de domingo, para um reencontro presencial de parte da família que se entende um pouco melhor. Dos 4 convidados, um não pôde comparecer porque tinha um compromisso inadiável na mesma data. A vontade de se encontrar após um distanciamento de dois anos e meio era tamanha que o encontro foi mantido assim mesmo.

O encontro na casa da sobrinha começou com a chegada simultânea de dois irmãos que são gêmeos acompanhados das suas respectivas esposas. Um pouco depois chegou sozinho o irmão mais novo.

Tudo transcorreu muito bem nas conversas amenas e animadas pelas narrativas que todos fizeram para contar como chegaram vivos até aquele encontro, inclusive com saúde mental. Apesar das perdas anteriores no convívio familiar, era visível o esforço de todos para tentar ouvir e falar respeitosamente uns aos outros e sem retrocessos civilizatórios.

Caminhando para o final do encontro chegou em casa um adolescente de 17 anos, filho mais velho da sobrinha anfitriã e, portanto, sobrinho-neto dos três irmãos presentes no evento. Ele falou um “oi” rapidamente para todos, sentou-se à mesa e começou rapidamente a operar a tela do telefone celular totalmente desligado do ambiente.

O tio mais novo não concorda com o manuseio das telas quando as pessoas estão reunidas à mesa para o café, almoço ou jantar. Ele é famoso na família pela rigorosa posição da qual nunca se arredou. Ele tentou chamar a atenção do sobrinho-neto no intuito de trazê-lo para as conversas com todos que estavam à mesa. O adolescente não se fez de rogado e continuou firme em seu foco na tela. Então o tio-avô, que sempre fez palestrinhas para fazer valer as suas posições, acabou de tomar um café, agradeceu a todos pela convivência respeitosa após tanto tempo e deixou rapidamente o local antes dos demais, temendo ter uma recaída nas posturas de outrora. Enquanto isso o sobrinho-neto prosseguiu firme na tela do celular.

Parafraseando os compositores Vinícius de Moraes e Baden Powell na música Samba Da Benção, feita em 1967, “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

Como se vê ainda é grande o desafio para que se prevaleça o respeito, a tolerância e a capacidade de dialogar entre as pessoas na plenitude dos conflitos geracionais e dos embalos da transformação digital.

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Faz tempo que estamos convivendo com o fantasma da inflação, após praticamente duas décadas e meia de estabilização econômica advinda do plano real de 1994, no governo federal do engenheiro Itamar Franco. Temos toda uma geração de brasileiros que ainda não tinha convivido com essa tamanha perda do poder de compra de bens e serviços.

Precisamos olhar bem e prestar atenção redobrada nas inúmeras sutilezas que acompanham os processos inflacionários.

O fato é que a inflação é uma garantia da perda de poder aquisitivo a começar pela incapacidade de muitas categorias de trabalhadores para conseguir repor em suas negociações salariais, pelo menos, a metade dos índices inflacionários do período negociado. Ainda assim, a carga tributária também aumenta devido a não correção da tabela do imposto de renda na fonte desde 2015.

Como existe uma forte tributação sobre o consumo dos alimentos, combustíveis, serviços de saneamento, energia elétrica, telecomunicações e transportes, fica claro que quem mais paga o pato são as camadas de mais baixa renda, que fazem parte da cada vez mais larga base da pirâmide social. Diante de tudo que está sendo falado e não falado nesse ano eleitoral polarizado, é grande o desafio para os diversos setores da economia em tentativas para mascarar a inflação na busca da minimização de seus efeitos.

Esse fenômeno é abordado pelo neologismo denominado reduflação, que segundo a enciclopédia livre Wikipedia é “o processo em que os produtos diminuem de tamanho ou quantidade, enquanto que o seu preço se mantém inalterado ou aumenta. Este efeito é consequência do aumento do nível geral dos preços dos bens, manifestado por unidade de peso ou volume, causado por inúmeros fatores, principalmente a perda do poder aquisitivo da moeda e a queda do poder de compra dos consumidores e/ou do aumento do custo dos insumos, cuja resposta da oferta é a redução do peso ou tamanho dos bens transacionados”.

Um bom exemplo foi dado por um supermercado na zona leste de Belo Horizonte que vendia uma dúzia de ovos de galinha por R$ 11,90 e agora passou a vender uma caixa com espaço para 10 unidades (dúzia de 10) pelo mesmo preço da dúzia. Será que a pesquisa para compor o Índice de Preços ao Consumidor Amplo-IPCA do IBGE consegue captar essa diferença sutil? Vale lembrar que nos últimos 12 meses (julho 2021 à junho 2022) ele ficou em 11,89%.

Inúmeros outros exemplos podem ser citados para chamar a nossa atenção sobre esse fenômeno e o processo que o gera. Lembremos da comida congelada, que você comprava em quantidade suficiente para alimentar duas pessoas e que o preço ainda é o mesmo, mas a quantidade foi reduzida em 40% e até a embalagem passou por uma readequação.

Lembremos também daquele medicamento de uso diário e contínuo que a indústria farmacêutica embalava no blister contendo 30 comprimidos, que agora vem com 28 e pelo mesmo preço alto de sempre.

Que tal a lembrança das bolachas recheadas, que tiveram a quantidade reduzia de 10 para 8, bem como o próprio diâmetro, e o preço simplesmente aumentou. Assim, cada um de nós pode perceber a enorme criatividade de todos que tentam fazer algo se parecer com o que não é. Mas é no bolso que cada um, conforme seu tamanho, pode perceber o quanto já perdeu e o enorme desafio que é fazer a gestão do orçamento.

Outros aspectos da reduflação estão ligados à legislação existente sobre a obrigatoriedade de informar ao consumidor a redução da quantidade e peso dos bens durante seis meses após a alteração. Vale também lembrar que existe no país o código de defesa do consumidor há mais de três décadas.

Mas esses temas ficarão para outra pensata.

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Panela vazia na carestia

por Luis Borges,  18 de julho de 2022   Pensata

As pessoas nascidas em 1954 estão completando 68 anos ao longo desses 12 meses que vão se passando. Naquele ano, a música Panela Vazia, na voz de Leny Eversong, fez muito sucesso ao mostrar a carestia reinante no país. Aliás, segundo o dicionário eletrônico Houaiss, carestia é “escassez de víveres ou de determinado produto; encarecimento do custo de vida; preço elevado, acima do valor real”.
Passado todo esse tempo, a história se repete, apesar das transformações cada vez mais aceleradas nas várias dimensões da vida que também geram muitas desigualdades.
A sensação que tenho nesse momento é que estamos passando e sobrevivendo em meio à grandes pontos de inflexão, em busca de novos rumos dentro de uma sociedade polarizada em meio a alguns pequeninos satélites.
 É chocante a desigualdade na distribuição de renda no Brasil, que nos mantém muito distantes da equidade social enquanto a realidade grita diante da fome que tem pressa.
Conforme o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, no Brasil são 33 milhões de pessoas em situação de insegurança grave, ou seja , em situação de fome. A inflação alta e persistente só faz aumentar a perda do poder aquisitivo que atinge a todos de maneira desigual, bem menos aos poucos que estão no topo da pirâmide social e extremamente mais a quem está na sua ampla base.
A carestia convive com o alto número de pessoas desempregadas (10,3 milhões), com o crescimento da quantidade de moradores de rua e com o aumento da insegurança diante saques, furtos e roubos a começar por onde tem comida.
 Enquanto isso, o endividamento das pessoas e famílias vai crescendo e alguma reserva, por ventura existente, vai sendo queimada rapidamente. No primeiro semestre desse ano foram retirados mais de 50 bilhões de reais da caderneta de poupança.
A carestia prossegue tão grande e crescente que até as solidárias doações da fase mais aguda da pandemia da covid-19 caíram assustadoramente, o que só acentua o quanto as panelas estão vazias.
Como canta Leny Eversong, “Meu Deus do céu que carestia / Falta tudo na vida hoje em dia / Falta gás no fogão, falta luz no fulhão / Falta água na pia/ Fogo apagado panela vazia / A minha situação não tá boa, não / Já não sei o que fazer…” (Confira a letra completa)
O que e como fazer, pois o trem tá feio e quanto pior, pior mesmo.

 

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Um senhor de 65 anos de idade, recém aposentado, tem um plano de saúde co-participativo na expectativa de não ter dor de cabeça quando precisar ser atendido em suas necessidades de assistência médica. O pior foi descobrir que seu plano também lhe causa dor de cabeça. Nesse início de julho, entrou em contato com a secretária de seu cardiologista para marcar uma consulta. O meio disponível para acesso foi o telefone celular, pois o seu preferido, o telefone fixo, foi desativado há algum tempo.
Após tentar pela 4ª vez, finalmente foi atendido e antes de mais nada reclamou da demora. O fato foi justificado pela secretária devido à sua ida a portaria do edifício resolver um problema momentâneo para o seu chefe.
Logo em seguida, o cliente disse boa tarde rapidamente e pediu para marcar uma consulta com o doutor. Quase sem esperar que a fala terminasse, a secretária disse ao cliente que a as consultas passaram a ser marcadas apenas pelo WhatsApp, através de mensagem de texto, forneceu o número e desligou logo em seguida, pelo visto, para não dar chance de nenhum questionamento. Dá até para lembrar de um ditado popular dizendo que “Manda quem pode, obedece quem tem juízo “. A respeitosa relação entre cliente e fornecedor quase sofreu um abalo. O jeito foi o cliente passar uma mensagem de texto perguntando quando haveria um horário vago para consulta.
Quase meia hora depois ele recebeu mensagem dizendo que, pelo seu plano de saúde, naquele momento, só existia vaga para o final de setembro. Pensou em perguntar sobre a possibilidade de uma consulta particular, que possivelmente existiria para o dia seguinte, mas desistiu da ideia para não estourar seu orçamento mensal.
Na sequência, o cliente enviou nova mensagem perguntando se havia vaga disponível para a terça feira, 27 de setembro, às 14 horas. Esperou mais 15 minutos e recebeu nova mensagem da secretária dizendo que terça não daria, mas que poderia deixar a consulta marcada para a quinta-feira, 29 de setembro, no mesmo horário solicitado.
Na mensagem seguinte o cliente confirmou a aceitação da agenda proposta e perguntou pela possibilidade de receber antecipadamente uma lista contendo alguns exames laboratoriais que geralmente o médico solicita. A ideia era tentar ganhar algum tempo. A secretária respondeu que só daria uma informação segura assim que o médico estivesse disponível no intervalo entre consultas.
No início da noite, o cliente recebeu a mensagem com o pedido dos exames laboratoriais a serem feitos na semana anterior à da consulta. Enquanto isso, caberá ao cliente esperar e torcer para que na data marcada o médico possa cumprir a agenda.
Fiquei pensando como que a gestão estruturada e a tecnologia da informação precisam caminhar juntas, pois os processos de trabalho devem sempre ser racionalizados, simplificados, buscando a melhoria contínua e a inovação de maneira adequada. Independente do tamanho do negócio.

Você já enfrentou alguma situação semelhante a essa que foi contada aqui? Apenas uma vez ou mais de uma?

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No início da noite de 27 de junho, uma segunda-feira, aconteceu um incêndio no quarto 61 do décimo andar do hospital da Santa Casa em Belo Horizonte. Segundo o portal G1, o fogo foi causado por um vazamento de oxigênio atrelado à pane de um equipamento. No andar existem 50 leitos do Centro de Tratamento Intensivo-CTI e naquele momento 931 pessoas estavam internadas no hospital, que teve de ser evacuado. Foram confirmadas as mortes de duas pessoas no translado.
Incêndio causou estragos no 10º andar da Santa Casa — Foto: Santa Casa/Divulgação

Santa Casa/Divulgação

Quando surgem problemas desse e de outros tipos que tem grande repercussão na mídia a pergunta imediata é sempre a mesma, ou seja, quais as causas do incêndio. Em menor escala surgem os caçadores de culpados de qualquer natureza e também alguns propondo soluções para que o fato não se repita.
 Mas que lições podemos tirar e pontuar para que todos possam conhecer, compreender e se conscientizar da importância da gestão da manutenção para colocá-la em prática. Isso vale para as pessoas físicas e jurídicas nos setores públicos e privados.
É importante lembrar que Sistema é um conjunto de partes interligadas que por sua vez possuem inúmeros processos, conjunto de causas que provoca um ou mais efeitos. Quando o resultado de um processo é ruim, indesejável nos deparamos com um problema, mas que precisa ser resolvido, jamais ignorado, negado ou justificado com desculpas. Gerenciar é resolver problemas com uma visão sistêmica.
A nossa reflexão aqui deve partir da premissa de que tudo começa com a gente e com o nosso querer nos ambientes em que atuamos devidamente comprometidos. Mas quais tem sido as nossas atitudes perante a necessária e prioritária gestão da manutenção? Podemos começar, por exemplo com a gestão da saúde individual nos diversos níveis de cuidados e descuidos que cada um tem, o que mostram os indicadores e os sintomas (sinais) disponíveis.
Essencialmente a gestão da manutenção poderá ser corretiva – a mais cara – para remover as falhas, preventiva para evitar que as falhas ocorram e preditiva para predizer que algo deve ser feito a partir da probabilidade de ocorrer uma falha em determinado componente após certo tempo de uso (num avião, por exemplo). Não dá para esperar a exaustão para depois agir.
Raciocínio semelhante pode ser feito para a manutenção de nossas residências ao longo do seu tempo de uso. Daqui a 3 meses terá início o período chuvoso. Será que os nossos telhados com as suas calhas serão revisados e limpos para evitar futuros entupimentos? Caso contrário a água das chuvas procurará caminhos alternativos para seu escoamento e poderá pingar dentro da casa.
Na mesma direção e sentido podemos pensar sobre a quantas anda a gestão da manutenção em tudo aquilo que está sob a responsabilidade dos municípios, dos estados e da União. A sensação que dá é de muita manutenção corretiva, mas isso precisava ser confirmado pelos dados constantes nos respectivos portais da transparência, pois afinal de contas, quem não mede, não gerencia e quem não controla também não gerencia.
E se houver um incêndio no local de trabalho público ou privado de cada um de nós, se o elevador emperrar com sua lotação máxima no vigésimo andar de um prédio, se o motor do veículo fundir no meio do viaduto ou se uma carreta perder o freio na decida de uma avenida, por exemplo, o que fazer? Ou apenas sentiremos falta da gestão da manutenção?
Como se vê gestão é o que todos precisam, inclusive a da manutenção, mas nem todos ainda sabem que precisam.
Para ler a matéria do G1, clique aqui.
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Pensemos na situação de uma pessoa que está procurando uma vaga para consulta médica, eletiva ou de urgência, preocupada para encontrar um profissional que aceita atender pelo plano de saúde já na primeira prestação de serviço. E como ela ficará se a espera for pelo resultado de determinado exame de apoio a um diagnóstico médico? Pensemos também em quem está esperando a reconstrução da casa destruída numa das enchentes do início do ano. Ou em outra pessoa que continua aguardando a liberação de sua parte na herança deixada por uma tia solteira que se finou no início do ano passado. Meu ponto aqui está ligado às expectativas geradas pelas respostas que temos de esperar e também pelas que nunca chegam. É muita expectativa, que segundo o dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa é “situação de quem espera a ocorrência de algo, ou sua probabilidade de ocorrência, em determinado momento”.

Entretanto esse momento nem sempre chega para muitas pessoas que participam de processos seletivos que visam preencher vagas de trabalho em determinados tipos de organizações humanas, a começar por empresas dos mais diferentes portes. E isso não é de agora. É que nelas predomina a incapacidade de informar aos candidatos não selecionados a sua real situação, ou seja, que não foram aprovados. Se essa informação não vem, podemos até imaginar quanto tempo vai se passar para que a pessoa conclua que aquele determinado processo não resultará em nada positivo. Essa ausência de retorno acaba sendo uma postura muito desrespeitosa com quem está procurando uma oportunidade de trabalho para bancar a própria sobrevivência.

Outra modalidade que tem sido usada sem se preocupar com o retorno para quem entra no processo é o anúncio de vaga para trabalho com inscrição a ser feita no portal de algumas empresas com o pedido de preenchimento da ficha e anexação do currículo. De repente, o anúncio é retirado do ar durante o período de inscrição, sem nenhuma explicação, e tudo fica por isso mesmo.

Alguns que se inscreveram ficam matutando sobre o destino da vaga. Será que foi cancelada, adiada ou redirecionada para outra necessidade mais prioritária de determinado setor da empresa em tempo de orçamento apertado? Dá até para pensar se a empresa só queria medir o mercado para verificar as principais características do momento, inclusive a disponibilidade de pessoas capacitadas, por exemplo. Obviamente que organizações humanas desse tipo sempre terão variados argumentos para justificar o ato desinformativo.

Muitos dirão que a organização não tem estrutura e tempo para dar esse tipo de retorno diante da quantidade de candidatos. Também justificam o ato sob a alegação de que existia muita pressa para admitir quem foi selecionado para preencher logo uma lacuna existente e combater a sobrecarga da equipe. Outros alegaram dificuldades para dar uma notícia ruim a alguém. Mas, cá para nós, é melhor saber logo o resultado do processo, inclusive se ele foi cancelado. Isso é mais respeitoso com as pessoas participantes e deixará o caminho livre, sem ilusões para ajudar no reposicionamento de cada um na vida que prossegue.
Uma oportunidade para trabalhar com dignidade nessa conjuntura em que a estratégia é de sobrevivência é o que muitas pessoas querem e precisam. Isso torna-se cada vez mais agudo diante dos 11,3 milhões de desempregados e 4,6 milhões de desalentados – os que desistiram de procurar trabalho -, além da fome e da insegurança alimentar.

Como se vê não dá para simplesmente deixar de levar em consideração as expectativas das pessoas enquanto o tempo vai passando. Alguma resposta é muito mais respeitosa com as pessoas do que nenhuma resposta.

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