Setembro Amarelo: quem cuida de quem fica?

por Convidado 16 de setembro de 2026   Convidado

*por Ana Cristina Curi

Setembro Amarelo nos convida falar sobre prevenção ao suicídio. Mas existe uma dimensão sobre a qual ainda falamos pouco: o sofrimento de quem fica.
Depois de uma morte por auto-extermunio não fica apenas a ausência. Ficam perguntas.

“Como eu não percebi?”
“Por que não me contou?”
“Eu poderia ter feito alguma coisa?”

E a mente começa a voltar às últimas conversas, aos silêncios, às mudanças de comportamento, procurando o momento em que tudo poderia ter sido diferente. Há algo especialmente doloroso nesse movimento: olhamos para o passado sabendo o que aconteceu depois. Aquilo que hoje parece um sinal talvez não tivesse o mesmo significado naquele momento.

É assim que, muitas vezes, o “por quê?” se transforma em “e se?”. E junto dele pode surgir a culpa.

Uma parte importante desse luto é conseguir, aos poucos, separar amor de responsabilidade. Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, não alcançar toda a dimensão da dor que essa pessoa vivia.

Amor não nos torna onipotentes.

Também é importante lembrar que uma pessoa é infinitamente maior do que a maneira como morreu. Houve uma vida antes daquele último momento. Houve histórias, vínculos, alegrias, conflitos, sonhos e amor.

Elaborar esse luto não significa esquecer. Talvez signifique conseguir, com o tempo, lembrar novamente da pessoa — e não apenas de sua morte.
Neste Setembro Amarelo, precisamos continuar falando sobre prevenção. Mas precisamos também perguntar:

Quem está cuidando de quem ficou?

Porque continuar vivendo não significa abandonar quem morreu. Significa permitir que aquele vínculo encontre uma nova forma de existir dentro de nós.

Ana Cristina Curi

* Psicóloga, formada pela PUC-MG/1984. Especialista em Terapia Sistêmica e Transpessoal. Membro do Colégio Internacional dos Terapeutas. Conheça seu site.

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