Pontualidade até que ponto?

por Luis Borges 27 de julho de 2017   Pensata

A cerimônia religiosa de um casamento católico foi marcada para as 20h de um sábado na Igreja Matriz de um município do oeste mineiro. O noivo chegou ao local 15 minutos antes da hora marcada. Pontualmente às 20h o sacerdote especialmente convidado para fazer a celebração chegou ao altar, enquanto os cerca de 250 convidados para tempos de crise continuavam se acomodando nos bancos do templo. À medida em que o tempo passava e crescia a expectativa pelo inicio da cerimônia também aumentava o alarido causado pela quantidade de pessoas conversando com quem estava ao lado. Eram muitos os que olhavam para o relógio conferindo o tempo, sendo que esses e muitos outros utilizavam freneticamente os seus telefones celulares de vários modos.

Lá pelas 20h25 o sacerdote retirou-se do altar e voltou para a sacristia enquanto o interior da igreja se assemelhava a uma feira livre.  Nessa altura dos acontecimentos a pergunta que mais se fazia e que não queria se calar era curta e já cheia de ansiedade: cadê a noiva? Houve quem levantasse a hipótese de desistência da noiva. Outros reclamavam que a demora estava “colocando o pé no seu vale empada”, cognome do convitinho garantidor do acesso à festa comemorativa das núpcias.

E assim se passaram mais longos 42 minutos até que às 21h07, portanto 67 minutos após a hora previamente marcada, foi aberta a porta onde se inicia o caminho que leva ao altar. Logo a seguir teve inicio o cortejo que durou 8 minutos. Enquanto a mãe levava o noivo ao altar em passos mais rápidos, quase logo a seguir entraram os 14 casais padrinhos dos noivos e o sacerdote retomou seu lugar no altar. Em seguida o pai conduziu a noiva que caminhou triunfal rumo ao altar antecedida pela dama de honra e seu pajem, ao som retumbante da marcha nupcial. Parecia também o triunfo do atraso e da paciência de todos que aguentaram esperar até aquele momento.

Mas as aparências enganam. O sacerdote amigo das famílias dos noivos iniciou rapidamente a parte que lhe cabia no ritual e fez tudo em 15 minutos. Exatamente às 21h30min o sacerdote falou que devido ao adiantado da hora, os noivos receberiam os cumprimentos no local da festa. Assim que a última pessoa do cortejo chegou ao adro da igreja as luzes começaram a ser apagadas e as portas laterais e principal foram fechadas.

Esse evento me faz lembrar diversos outros em que perdemos muito tempo entre a hora marcada e o seu efetivo início. Ser pontual deveria ser uma obrigação e não uma virtude. Aliás, os virtuosos e disciplinados acabam sendo punidos e desrespeitados pelos outros que sempre chegam atrasados. Você consegue se lembrar rapidamente de eventos aos quais você compareceu e que se iniciaram com atraso de 30 minutos ou mais? A causa estava também em você? Além da consulta médica e da decolagem do avião, que outros você citaria? Se pontualidade é obrigação que exemplos você citaria de eventos que começam na hora marcada além de missas, reuniões espíritas e cultos evangélicos?

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Desesperar jamais

por Luis Borges 25 de julho de 2017   Música na conjuntura

De vez em sempre fico pensando sobre como estamos vivendo e sobrevivendo na crise em que o Brasil mergulhou notadamente após a eleição presidencial de 2014 quando o perdedor não aceitou o resultado das urnas eletrônicas. Não tenho dúvidas de que crises sempre existiram ao longo de diferentes momentos da história brasileira, mas é importante verificar como reagimos a elas individualmente ou em grupos sociais.

Perante tanta determinação dos profissionais da política partidária para se manter no poder – inclusive com atos e atitudes que chegam a dar nojo – que esforço suplementar tem sido necessário para mantermos o equilíbrio, a estabilidade emocional, o discernimento e a capacidade de prosseguir ancorados por nossas crenças? É preciso uma grande resiliência para não cair na descrença, na paralisia ou mesmo no desespero diante de situações adversas. Sei que não é fácil segurar essa onda permanentemente enquanto o bicho pega. Também sei que quanto pior, pior mesmo e a sobrevivência exige respostas em todo momento ao longo do dia. O Estado de bem estar social vai se tornando cada vez mais uma miragem enquanto 14 milhões de pessoas estão desempregadas e a transferência de recursos para o mercado financeiro é gigantesca.

É desafiador continuar fleumático enquanto tanta novidade vai sendo noticiada em curto espaço de tempo e longas novelas se instalam sem perspectivas de soluções mais rápidas no horizonte. O que mais se percebe na correlação de forças é o que muitos segmentos da sociedade já não aceitam mais. Mas também é visível a falta que faz uma sociedade mais organizada embora haja tantos discursos enaltecendo a democracia representativa e o funcionamento das chamadas instituições. Se as mudanças não chegam, às vezes até caímos no conformismo pragmático e nos reforçamos com o acalanto de que “é o que temos para hoje”.

Como segurar a ansiedade, a tristeza ou a depressão que podem se tornar a antessala para tantos outros desdobramentos tão indesejáveis? Que tal ouvir e cantar a música Desesperar jamais, de Ivan Lins e Vitor Martins, que faz parte do disco “A noite”, que Ivan Lins gravou em 1979? A música não deixa de ser um alento nesses tempos que tanto exigem de nós uma boa dose de paciência histórica, inteligência estratégica, equilíbrio e tenacidade no curso da viabilização de transformações tão necessárias nessa sociedade tão desigual.

Desesperar jamais
Fonte: Letras.mus.br

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo

Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer

No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer Valer o dito popular
Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais
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Polindo as amizades

por Luis Borges 23 de julho de 2017   Pensata

O mundo girou rapidamente e já nos trouxe de volta o 20 de julho, Dia do Amigo e da Amizade no Brasil e na Argentina. Se “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração” como dizem Milton Nascimento e Fernando Brant na música Canção da América, quando nada o dia traz a reflexão sobre como estamos cuidando de nossos amigos e amizades.

Constato que às vezes os amigos estão tão guardados que ficam até distantes. Justificativas para isso não faltam devido à correria louca, ao cansaço constante e à falta de tempo. Tudo bem, mas falta gestão. A perda de tempo só cresce para quem não sabe priorizar, não sabe fazer escolhas, tomar decisões. Vale lembrar que onde tudo é prioritário, nada é prioritário e que não existe vento favorável para quem não sabe aonde ir.

O que significa para nós polir as amizades para mantê-las azeitadas, alinhadas e necessariamente presentes em nossas vidas? Alguns dias atrás ouvi uma pessoa dizendo que era dia do aniversário de nascimento de um grande amigo e que havia passado uma mensagem de WhatsApp para cumprimentá-lo. Diante da declaração tomei a liberdade de perguntar a pessoa se a mensagem foi de texto ou áudio. “É claro que foi de texto”, respondeu imediatamente a pessoa. Em seguida saí de cena e fiquei pensando na probabilidade de ouvir a qualquer momento um argumento falando da falta que se sente de um amigo e de uma amizade sincera e cuidadosa. Até entendo que nem sempre é possível estar fisicamente presente numa data importante para o amigo, mas até se chegar ao confortável envio de uma mensagem de WhatsApp como mero sinal de cumprimento de uma obrigação existem várias outras formas de demonstrar apreço.

Ainda que tudo comece com a gente é bom lembrar que as relações de amizade possuem mão dupla e que, para serem polidas com uma frequência saudável, dependem da iniciativa e da reciprocidade entre as partes envolvidas. Como esse processo de manutenção é difícil e exige muita constância de propósitos de ambas as partes! E você, tem conseguido polir as suas amizades ou apenas chora pelo afastamento da maioria delas sem analisar as causas que geraram esse desfecho?

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O mês de julho traz consigo a data limite para que as casas legislativas da União Federal, estados e municípios aprovem a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) contendo os parâmetros que regerão a elaboração dos orçamentos do próximo ano no âmbito de suas jurisdições. Só após essa aprovação é que pode se iniciar o recesso parlamentar, também previsto para o mês.

O desafio para os meses subsequentes é a elaboração de uma peça orçamentária a partir de premissas realistas que nortearão a previsão de arrecadação de tributos, receitas de capital e de gastos com a prestação de serviços públicos, realização de investimentos…

A gestão estratégica do Orçamento é essencial para o cumprimento das exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal, que determina a análise dos resultados alcançados na implementação a cada dois meses bem como as correções de rumo que se fizerem necessárias. Ainda assim, o orçamento não é plenamente cumprido em várias instâncias do poder público e, em muitos casos, é considerado uma peça de ficção para atender apenas à exigência legal.

Um exemplo disso pode ser visto no orçamento da Prefeitura de Belo Horizonte para 2017, que previa arrecadar R$11,8 bilhões e que neste momento dá sinais de que dificilmente passará dos R$9,9 bilhões até o final do ano. A realidade começou a bater mais forte e fez com que a proposta de LDO para 2018 preveja uma arrecadação de R$10 bilhões. Na União Federal a frustração de receitas é visível e, como muitos gastos obrigatórios só crescem, o jeito tem sido contingenciar os orçamentos como os da saúde, da educação, da Polícia Federal tentando suspender a emissão de passaportes e da Polícia Rodoviária Federal reduzindo ainda mais a sua já reduzida prestação de serviços.

Mas efetivamente que premissas estão sendo consideradas para os orçamentos de 2018 diante das atuais condições da conjuntura do país? A crise política continua plena, o mês de junho teve deflação de 0,23% – que também preocupa perante a necessidade de retomada da economia enquanto a crise social prossegue extremamente aguda.

Com as informações realistas que temos nesse momento e fugindo da crença em milagres será que poderemos trabalhar com a premissa de crescimento econômico entre 2% e 2,5% no próximo ano? A taxa básica de juros do Banco Central poderá ficar em 8,5% ao ano enquanto o dólar poderia gravitar em torno de R$3,30?

Que níveis de aumentos salariais para os servidores públicos estarão nas premissas ou tudo ficará na base zero?

Na verdade esse é mais um momento para se discutir as prioridades para a alocação dos sempre insuficientes recursos públicos na cultura da gastança e do direito adquirido sem se preocupar com a sustentabilidade de todo o processo.

Agora, se no plano macro do Estado as coisas estão assim, o que pensar de premissas para os nossos orçamentos individuais ou familiares para o próximo ano? Será que manteremos os nossos atuais níveis de renda ou teremos que fazer mais adequações para continuar sobrevivendo num ano em que estão previstas eleições de Presidente a deputado estadual? Haja incertezas, mas elas precisam ser enfrentadas ainda que tragam tanta dor.

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Ainda que nada inesperado
Estivesse sendo esperado
Não é que de repente
Tudo aconteceu num instante
Fazendo tudo rodar
Para deixar o corpo
Marcado pelos limites físicos
A denunciar tantas restrições.

Oh! Quanta resiliência se faz necessária
Para manter tanta esperança
De um dia voltar a caminhar
Pelo espaço físico
Que apenas povoa a imaginação.

Se a condição funcional
Colide com a expectativa
Que logo a percepção anula
Um novo acalanto ressurge
Como que a dizer
Que depois que aconteceu o acontecido
O que mais importa
É não estar vencido
Nas bandas do mundo
Em que ainda se faz presente
A complexa arte da solidariedade
Ajudando a recompor
O que não se esperava
Ser decomposto um dia.
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Está fazendo um ano que postei aqui neste blog uma pensata com o título de Saúde: tecnologia x qualidade no atendimento. Como de vez em quando é bom dar uma olhada para trás visando verificar a melhoria ou a piora de um determinado aspecto ou indicador de desempenho, tomei a iniciativa de conversar com algumas pessoas que foram ouvidas naquela ocasião. Felizmente elas continuam bem vivas e gerenciando a própria saúde apesar dos preços cobrados pelos planos em suas diversas modalidades. Chamou muito a minha atenção o fato delas terem repetido recentemente os exames do ano passado no mesmo laboratório de serviços de apoio ao diagnóstico cujo atendimento deixou péssima impressão naquela ocasião. Aliás, juntaram-se a eles alguns exames que foram solicitados pela primeira vez agora. Tentei entender a razão para se manterem fiéis ao antigo fornecedor, sendo que existem outros laboratórios no mercado prestando o mesmo serviço. As pessoas me disseram que seguiram a orientação de seus médicos, que alegaram ser os profissionais daquele laboratório de sua plena confiança para realizar os exames solicitados.

Então perguntei se eles perceberam alguma melhora no atendimento ao comparar com os serviços prestados no ano passado. Foi praticamente consenso que o mau atendimento continua o mesmo e que até aumentou o tempo de espera, apesar da alta tecnologia utilizada na realização de tantos e variados exames, notadamente os de imagens. Houve um caso específico em que a pessoa tinha um exame agendado para as 9h40 que só se iniciou ao meio-dia de uma terça-feira. Após muitos questionamentos sobre as causas da demora uma atendente balbuciou que algumas pessoas do grupo faltaram ao trabalho e outras chegaram atrasadas.

Agora após passar novamente pelos mesmos e cada vez mais demorados tipos de transtornos, finalmente algumas dessas pessoas não pretendem mais voltar ao laboratório indicado pelo médico e estão dispostas a encarar o profissional para lhe dizer que não voltarão mais àquela empresa de grande porte. Sugeri a elas que lembrem a seus médicos que todo cliente espera que seu fornecedor tenha alto nível de qualidade, preço justo e excelência no atendimento e que notadamente essa última dimensão está longe de acontecer. Vale lembrar, também, que não dá para o consumidor  abrir mão de seus direitos nas relações de consumo em pleno regime capitalista que se diz pautado pela competitividade entre os concorrentes na prestação de serviços a que se propõem no mercado que tem seu risco.

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O feeling merece atenção

por Convidado 11 de julho de 2017   Convidado

* por Sérgio Marchetti

Outro dia decidi caminhar pela rua para espairecer. De repente fui atraído pelo cheiro de café. Não era igual ao da torrefação de minha antiga rua no interior, mas foi o suficiente para me fazer tomar o rumo de uma dessas cafeterias agradáveis que temos em nossa cidade.

Ao me sentar, fui logo reconhecido por um amigo de infância que não via há tempos.  Senti que o universo conspirava para que eu revivesse um pouco do passado.

– Que coincidência! Estava justamente pensando na nossa rua.

– Foi minha energia que o atraiu – disse-me.

O “papo” rendeu. Voltamos ao passado. Recordações de nossos vizinhos e dos antigos amigos afloraram em nossos corações. Ele me confessou a paixão de criança que permaneceu até sua adolescência. Era perdidamente apaixonado por uma de nossas vizinhas. Não sem razão, pois a menina era lindíssima. Meiga, com um sorriso mágico, cujos olhos sorriam também.

Meu amigo, hoje, achando tudo muito engraçado, disse que, em seu feeling, sempre desconfiou que a menina gostava do meu primo, o Pedro, e era correspondidaE que, naquela época, o fato de pensar assim o consumia. Também me confidenciou que, justamente por essa razão, nunca teve coragem para dizer a ela sobre seu interesse.

– Sabe quando você acha que uma pessoa está muito acima de você? – perguntou.

Respondi que sim e comentei: não pense que é privilégio seu. Até Julio Iglesias já sentiu isso. “Essa covardia do meu amor por ela/ Faz com que a veja igual a uma estrela/ Tão longe, tão longe que ela está/ Que eu espero nunca podê-la alcançar…”

Ele assentiu com a cabeça e com um sorriso sem graça. O que sabia, e me contou, é que nunca o namoro de Camila com Pedro aconteceu oficialmente. E que talvez fosse tudo imaginação dele. Pensou que fora um idiota, um menino que perdeu a oportunidade de namorar sua paixão por não ter tido a coragem de dizer a ela. Eu concordei e ainda confirmei que conhecia vários casos em que as mulheres não tinham nenhum interesse mas que, ao saberem que alguém gostava delas, acabavam cedendo e até se apaixonando.

Mas não foi o que ocorreu com ele. O tempo passou e Camila casou-se com outro rapaz e teve dois filhos. O que para meu amigo de certa forma foi um alívio porque constatou que entre ela e Pedro nunca tinha havido nenhum sentimento.

Porém, conforme me revelou durante nossa conversa, anos depois os dois se encontraram numa sorveteria. Camila sorriu com o mesmo sorriso lindo que o fez se apaixonar por ela. Conversaram muito. Lembraram-se de todos os moradores da rua, deram notícias de alguns amigos comuns e confessaram a saudade que sentiam daqueles tempos quase dourados.

As recordações fizeram os olhos do meu amigo lacrimejarem e as lágrimas escorrerem pela sua face. Mas prosseguiu com a narrativa do encontro. E disse que na saída, ao se despedirem, ele perguntou um pouco sem graça sobre o casamento e os filhos de Camila. Ela respondeu que o marido era muito bom e que tinham dois meninos.

– Que ótimo! E como se chamam? – perguntou o amigo, com um sorriso cheio de dentes.

– O mais velho é o Pedro. O outro tem o mesmo nome do pai.- respondeu Camila, antes de dizer-lhe adeus.

* Sérgio Marchetti é educador, palestrante e professor. Possui licenciatura em Letras, é pós-graduado em Educação Tecnológica e em Administração de Recursos Humanos. Atua em cursos de MBA e Pós-Graduação na Fundação Dom Cabral, B.I. International e Rehagro. Realiza treinamentos para empresas de grande porte no Brasil e no exterior. www.sergiomarchetti.com.br.

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